No dia de hoje, em Lisboa, apetece-me muito homenagear esta cidade brasileira, cujo nome me está a escapar.
sexta-feira, abril 29, 2016
Um historiador improvável
Já não me recordo da primeira vez que falei com Fernando Rosas. Mas não foi há muitos anos. O seu nome era-me bastante familiar na vida política portuguesa mas, embora caminhássemos do mesmo lado da estrada, acabámos por não coincidir na maioria das opções cívicas que fizemos.
Um dia, convidei-o a ir a Paris com outros historiadores, numa evocação que organizei na embaixada sobre a "Liga de Paris", a estrutura de coordenação política que juntou os exilados na luta contra a Ditadura Militar, implantada em 1926. Desde então, através de amigos comuns, temo-nos visto mais. E, algumas vezes, "contracenámos" nas televisões a comentar a política.
Fernando Rosas deu ontem a sua última lição na Universidade Nova. Foi uma carreira curta de alguém que, à partida, não estava academicamente vocacionado para a História. Mas o país ganhou imenso com essa sua opção, ainda que tardia. A História contemporânea portuguesa encontrou nele uma figura que se constituiu como uma referência muito importante, em especial nos seus trabalhos de análise e desconstrução do salazarismo, bem como na interpretação dos grandes movimentos da sociedade portuguesa no século XX. Com uma excelente capacidade expositiva, Rosas é, nos dias de hoje, e além do mais que é muito, um magnífico divulgador histórico na televisão, que, ao contrário de outros no passado, tem o mérito de aliar um rigor sem concessões a um discurso muito apelativo.
Não conheço bem as regras do mundo académico. Mas, a avaliar por tantos outras pessoas a quem já vi dar a "última lição", acho que o dia de ontem abriu apenas um novo capítulo para aquilo que Portugal pode vir ainda a aproveitar do grande historiador que é Fernando Rosas.
Um abraço para si, Fernando!
A agenda do presidente
O discurso presidencial de 25 de abril trouxe este ano um estilo novo, mais pedagógico, acessível e descrispado. Terá mesmo contribuído para atenuar o “vício” parlamentar para converter um evento que deveria ser de festa num terreno de polémica confrontacional, marcado pela conjuntura.
O novo presidente sabe que vive um estado de graça que tem muito a ver com o contraste pouco subliminar que projeta sobre a imagem do seu antecessor. Com o tempo, veremos se algum frenesim que marca estes primeiros dias é, em absoluto, compatível com o seu estatuto e, em especial, com alguma distância mais formal que o futuro pode vir a requerer face a alguns temas. Porém, e por ora, os portugueses parece apreciarem o novo estilo.
Daquilo que o chefe do Estado tem dito, fica a certeza de que é sua intenção dar uma oportunidade ao atual governo para levar à prática o seu projeto, evitando que este encontre razões para poder vir a acusá-lo de contribuir para os eventuais azares que lhe possam vir a suceder. Acho mesmo que o presidente corre alguns riscos nessa sua atípica solidariedade interinstitucional.
A “acalmação” que o presidente se esforça por levar a cabo não tem a ver com qualquer sintonia ideológica de fundo com a agenda de um PS apoiado pela extrema-esquerda. Porém, conhecendo muito bem o país, Rebelo de Sousa já entendeu que o “mood” público maioritário é, por ora, simpático a um executivo que está a tentar uma “quadratura do círculo” em matéria financeira.
Ao proceder desta forma, o presidente sabe que está a causar engulhos numa antiga maioria que, muito simplesmente, gostaria de ter em Belém uma pessoa que, de uma qualquer forma, ajudasse ao seu rápido regresso ao poder. O discurso de Paula Teixeira da Cruz não engana e, de forma evidente, revela a hipocrisia da falsa resignação de Passos Coelho, na sua reentronização em congresso. A raiva e a amargura estão por ali ainda muito evidentes e, cada vez mais fica claro que o voto esforçado do PSD em Rebelo de Sousa foi apenas a opção por um mal menor, que agora lhes parece estar a sair “pior do que a encomenda”.
Deste 25 de abril ficou também a insistência nos consensos, visível no discurso do presidente. Ela revela muito bem o país político “ideal” de Marcelo Rebelo de Sousa: dois partidos alternantes no poder, muito “à europeia”, com diferenças entre si menores do que as similitudes do modelo de sociedade que partilham. Uma coisa me parece clara: este projeto não é compatível com Passos Coelho, com o PCP e com o Bloco. A grande questão é saber se, a prazo, o será com António Costa.
(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")
quinta-feira, abril 28, 2016
A contracosta de Angola
“Tudo, menos Angola!”. Foi o conselho que recebi quando, por graça, perguntei a algumas pessoas, ligadas a atividades bem diferentes das minhas, sugestões sobre o tema a abordar hoje aqui.
Irrita-me esta obsessiva atitude de tratar com pinças o tema angolano. Enquanto a não ultrapassarmos, a possibilidade das coisas mudarem para melhor mantem-se afastada. Acharia saudável que mais pessoas surgissem nos media portuguesa a falar e escrever sobre Angola. Não para passar “recados” de qualquer um dos muitos lados do tema ou para incendiar irresponsavelmente o ambiente. Mas para escalpelizar friamente cada uma das questões que se abrem, sem suscitar de imediato a suspeição da conspiração ou do frete.
Fui diplomata em Angola nos anos 80, no auge da guerra civil, numa Luanda tensa, com recolher obrigatório nas ruas e estantes vazias nas lojas. Nunca as relações bilaterais estiveram num ponto tão baixo como então. Mais tarde, em Lisboa, vivi de bastante perto a intermediação portuguesa para a paz precária obtida em Bicesse, muito apreciada por Angola. Depois, já no governo, vi esforços sinceros, de ambos os lados, para contrariar a malapata que persiste entre Lisboa e Luanda. Já testemunhei um pouco de tudo neste relacionamento bilateral.
Assisti à quase permanente inabilidade socialista para conseguir estabelecer uma relação estável com Luanda, que sempre deu mostras de apreciar o maior pragmatismo (alguns chamam-lhe outra coisa) da direita lusa. Assisti a “diplomatas paralelos” voarem de Lisboa para Luanda, tentando bons ofícios, apoiados na cumplicidade política ou militar gizada noutros tempos- Depois, foram sucedidos por lobistas com o IBAN no cartão. Não deve haver dimensão da nossa relação externa mais “poluída” do que a que vivemos, nas últimas quatro décadas, com Angola.
Esse mundo, que balança entre a boa vontade e a intriga, convive, lado a lado, com gente séria e disponível para trabalhar lealmente com Angola, profissionais e empresas, de vária dimensão, que procuram estabelecer relações de confiança com os parceiros locais. Tenho observado, do lado português, não obstante as dificuldades que a atual crise angolana suscita, uma extraordinária compreensão para tentar acomodar os efeitos de problemas de que não foram culpados nem ajudaram a potenciar.
É manifesto que Angola se habituou – e não é apenas com Portugal que tal sucede – a confundir algumas águas, entre o oficial e o privado, tirando disso consequências desproporcionadas. Luanda tem de entender que isso não pode ser aceite por nós, sob nenhum pretexto.
Espero que a próxima visita de António Costa a Angola possa contribuir para desfazer alguns equívocos, embora aqui a experiência me recomende a não criar expetativas elevadas a prazo.
O PM português, com certeza, deixará claro o porquê de decisões relevantes no plano bilateral no passado recente, mas igualmente os limites daquilo que está ao seu alcance vir a poder fazer no futuro. A prisão de um seu antecessor é a melhor prova de que a separação de poderes é, por cá, um facto. Angola sabe bem que dependemos, em setores decisivos da soberania, de instâncias que não controlamos, cujas decisões sofremos, e que hoje, mais do que nunca, sobredeterminam as nossas relações com terceiros – por exemplo, no setor financeiro.
Termino com um desejo: que, neste particular, o PCP possa, por uma vez, mostrar-se útil à política externa do seu país.
(Artigo que hoje publico no "Jornal de Negócios")
quarta-feira, abril 27, 2016
Guerra dos Tronos
Anda por aí uma coisa cinzenta ou esverdeada escura, com o que me parece ser uma ceguinha, tudo de longos e tristes balandraus e gente desgrenhada ou de ar espantado e sem sorrisos, com uns cavalos à mistura, num clima que me lembra tardes invernosas de Vila Real, com o vento a puxar do Marão. Só vi fotografias, mas parece que são filmes de televisão. E, claro, "imperdíveis".
Às vezes, tenho pena de não poder acompanhar algumas conversas sociais sobre isto, mas ando assim há décadas. Havia, em tempos, uma coisa chamada "Twin Peeks", em que aparecia nos anúncios uma cabeça de mulher num saco de plástico e que, também, me fez surgir como ignorante em dezenas de conversas.
Tenho sempre uma curiosidade residual face a estas coisas, mas ela acaba por não ser suficiente para lhes dedicar o meu tempo. E o tempo, nestes dias que me correm rápido, é a "commodity" mais preciosa.
terça-feira, abril 26, 2016
Dito
Nunca percebi muito bem a irritação daqueles que, face à liberdade dos outros, dizem: "Ele faz o que quer e sobra-lhe tempo". Não será esse o ideal da vida? Pelo que me toca, a frase nunca se me aplicou. Passei grande parte do tempo a fazer, não o que queria, mas aquilo que necessitava de fazer para viver (como queria). Mas nunca me sobrou (muito) tempo. No dias de hoje, é verdade: faço o que quero, mas continua a não me sobrar tempo algum. Será que a frase completa se me aplicará algum dia?
segunda-feira, abril 25, 2016
"Há qualquer coisa no ar..."
"Há qualquer coisa no ar, qualquer coisa que está a renascer, um certo espírito de abril" - disse há pouco Manuel Alegre, ao receber um prémio das mãos do presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Alegre tem razão. Podemos estar todos equivocados, isto pode não passar de uma ilusão passageira, mas que a nova magistratura presidencial está a induzir algo de novo no país, essa é uma realidade iniludível. São escassas as vezes em que se vê gente rotinada na desesperança a olhar para um chefe de Estado com uma expetativa tão positiva. Marcelo Rebelo de Sousa tem uma imensa responsabilidade, porque lhe está a ser dado um crédito de confiança muito pouco comum.
Há semanas, perguntei a um amigo, professor universitário em Chicago, ligado ao mercado americano de capitais, como é que esses meios estavam a avaliar a situação económica portuguesa, agora que um governo de esquerda estava a seguir uma orientação bem diferente daquela que eles tinham "acarinhado". Esse amigo, que detesta a solução governativa portuguesa, disse-me uma frase que me surpreendeu: "Agora, a avaliação está a ser bem melhor". Fiquei intrigado. Ele esclareceu-me: "Desde que foi eleito um presidente de da República de direita, houve uma evidente acalmia na perceção negativa sobre a situação global portuguesa".
O curioso é que eu, e creio que muitos portugueses, não identificamos necessariamente Marcelo Rebelo de Sousa com a imagem de "um presidente de direita". Hoje, ao ouvir Paula Teixeira da Cruz na sua ressabiada intervenção no parlamento, fiquei com a sensação de que, também ela, concorda comigo. E só espero que, nos próximos cinco anos, ela esteja certa.
domingo, abril 24, 2016
"Name-dropping"
Nunca a expressão anglo-saxónica "name-dropping" me pareceu tão adequada, aplicada ao que está a acontecer à "alambicagem" semanal dos nomes portugueses nos Panama Papers.
Em cada número semanal do "Expresso" aparece meia dúzia de nomes e, depois, ficamos à espera, como nas revistas de banda desenhada, com o clássico "à suivre".
Posso estar enganado, mas, a menos que surja por aí uma bernarda em torno de uma figura totalmente insuspeita mas muito sonante social ou politicamente, isto ameaça converter-se numa grande "seca". Falo por mim que, sendo interessado razoavelmente pelo tema, começo a perder a paciência com toda aquela enxurrada informativa, prenhe de nomes de advogados, firmas e adjetivos escandalizados.
Com a banalização destes "leaks", com cada vez mais gente metida "ao barulho", pergunto-me se não veremos um dia certos figurões a "meter cunhas" para também surgirem referenciados. Porque isto de ter um "offshore", por muita diabolização que mobilize na nossa casta imprensa, continua a dar algum prestígio em certos meios...
União bancária
Passou por todos os testes de stress e, confirma-se, contribui para retirar o dito. Quando afetado por produtos tóxicos, limpa-se com um pano. Só tem problemas de liquidez quando chove. De uma solidez à prova de toda a supervisão, oferece créditos de sol (aprendi isto já nas renováveis) a taxas imbatíveis, embora exija um recurso ao Panamá (ao chapéu, claro). Assumo que é um "offshore", mas face ao meu quarto. As imparidades até facilitam o espaço, embora dê bem para pares. É feminista nos juros: só dá para juras...
É o meu banco preferido.
A data
- Ó Francisco! Você transmite sempre a toda a gente a ideia de que eu sou um fascista, só porque fiz parte, em tempos, de um partido que se opunha ao MFA, por onde você andava.
A conversa tem mais de uma década.
O meu interlocutor sabia que estava a fazer um "número". Talvez não fosse um "facho" no sentido puro do termo, mas era um reacionário de grande calibre. Aliás ainda hoje o é e deixa transparecer isso, nas atitudes da vida. Ora eu conhecia-o "de ginjeira", sabia-lhe o currículo, as histórias e os episódios, um deles que pretendeu afetar-me negativamente, que definitivamente o qualificaram e definiram, perante mim e muito mais gente, ao longo dos anos.
Nada tenho contra quem pensa de forma diferente de mim, mas quando não está estabelecido um registo natural de empatia, e era o caso, prefiro a frieza cristalina das coisas, sem equívocos. Naquele particular, por várias razões que não vêm apara aqui chamadas, não me apetecia deixar que a menor ambiguidade se instalasse entre nós.
- Meu caro, você não precisa de disfarçar. Eu sei muito bem onde é que você está, você não tem a menor dúvida sobre aquilo que eu sou e ainda bem que, de há muito, as coisas são muito claras entre nós. Ninguém se engana de campo. Você, aliás, é como é e isso ficou definido desde o seu nascimento...
- Desde o meu nascimento? Não estou a perceber...
- Ai não?! Então em que dia do ano é que você nasceu?
- 24 de abril. Porquê?
- Já percebeu agora?
Ele, que é tudo menos parvo, percebeu e sorriu...
Deve estar hoje a soprar velas.
sábado, abril 23, 2016
O otoviciado
Havia várias mesas livres na esplanada daquele restaurante. Mas, depois de lançar olhares em volta, curioso com algumas das nossas caras, que teria visto em algum lado, veio plantar-se junto daquela em que eu e três amigos almoçávamos, charlando despreocupadamente, com o ruído dos treinos do autódromo lá em fundo.
Falávamos alto, porque dois dos convivas são já duros de ouvido. E, também, porque, nos dias que correm, não temos o menor receio de que oiçam as nossas opiniões, por mais apimentadas que elas sejam.
Começámos por notar que esse esforçado vizinho tinha um reflexo pavloviano, ligado ao surgimento, na conversa, de nomes mais sonantes. As orelhas como que lhe cresciam, quando tal acontecia. Ficava visivelmente deliciado se, num repente de um de nós, algum adjetivo mais cáustico crismava um desses nomes.
Era jovem, nos "early thirties", com ar "da Linha", talvez universitário, com pinta de ter amigalhaços na imprensa das notícias curtinhas, da que se faz sem palavras que obriguem a dicionário. Isso mesmo: a imprensa "das gordas", querendo com isto significar os jornais de títulos fortes (não vá o Bloco suspeitar que estou aqui a falar insidiosamente de sexismo adiposo).
O interesse obsessivo do fabiano começou a chamar a nossa atenção e a encanitar-nos.
A certa altura, decidimos, como dizem os militares, "explorar o sucesso". Embarcámos então numa conversa de exageros, de fabulação, de "affaires" inventados, de "complots" em gestação, de atribuição a implausíveis autores de episódios inacreditáveis. Tudo isto acompanhado de uma adjetivação criativa, às vezes raiando o insulto a gente insuspeita, outras angelicando no comentário inapeláveis canalhas. O que o rapaz aprendeu! E parecia que tomava afanosamente notas!
Acabada a função, com ele já longe, ao telefone, saímos às gargalhadas. Combinámos ficar atentos à blogosfera e ao "garbage" mediático. Se sair alguma coisa, vai ter graça, podem crer!
Ao entrar no carro, arrependi-me, contudo, de não ter explicado ao fulano que, na próxima segunda feira, faz 42 anos que acabou uma atividade, às vezes remunerada, a que ele, com as suas "qualidades", poderia ter fácil acesso: ser informador da Pide. Mas saberá lá ele o que isso foi..
sexta-feira, abril 22, 2016
Abril e a doença
Um jornal informático ideológico, criado para que a maioria cessante não tivesse cessado de existir, decidiu agora promover um curso, orientado por um politólogo, sob o título "Ser de direita - normalidade ou doença?"
Devemos ser um dos poucos lugares democráticos do mundo onde o setor conservador da sociedade vive ainda com estas ridículas angústias existenciais, não se dando conta de que, ao colocar em público este tipo de questões, agrava o sentido de gueto e de auto-exclusão em que, de há muito, se deixou cair. Como se já não bastasse a direita da paróquia disfarçar-se, por regra, em "centro-direita", em "liberal" ou em "não ser de esquerda"...
Ser de direita é tanto uma "doença" quanto o é ser de esquerda. São maneiras diferentes de olhar a sociedade e o seu futuro, ambas admissíveis, e concorrentes na captação das ideias e do voto, na democracia que temos.
O que uma certa direita portuguesa nunca percebeu - e já começo a perguntar-me se alguma vez perceberá - é que continuará a viver num beco envergonhado, onde adubará estes complexos, enquanto não tiver a coragem de vir para a rua de cravo vermelho ao peito no 25 de abril, enquanto não fizer luto e a denúncia aberta das patifarias da ditadura e dos malefícios da guerra colonial. Até lá, deixará inevitavelmente os louros da liberdade à esquerda.
Repito o que sempre pensei e disse: o 25 de abril também se fez para dar direito de cidade à direita democrática. Prouvera que ela o saiba aproveitar.
Os legisladores
O mundo, e creio que o próprio Brasil, acordou, há dias, para a realidade do que é, na crueza da evidência, a representação parlamentar brasileira. Poucas coisas terão feito pior à imagem do Brasil do que o espetáculo patético daquela turbamulta ululante, no processo de destituição da presidente. Fiquei triste pelo Brasil. Vou contar-lhes uma história de que fui testemunha naquele mesmo espaço.
Era o dia 19 de agosto de 2005. Tinha sido convidado para estar presente numa homenagem que a Câmara dos Deputados ia promover a Sérgio Vieira de Mello, o funcionário brasileiro das Nações Unidas que, precisamente dois anos antes, tinha sido vítima mortal de um atentado em Bagdad.
Quando cheguei à sala, dei-me conta de que era o único embaixador presente. As restantes missões diplomáticas estavam ali a nível inferior. Não estranhei: de toda aquela gente eu era, com grande probabilidade, a única pessoa que conhecera pessoalmente Vieira de Melo. A diplomacia brasileira também estava debilmente representada, mas isso também não surpreendia: o Itamaraty, o MNE brasileiro, nunca apreciara excessivamente Vieira de Mello. Também sentada nos lugares dos deputados, estava uma luzidia banda de música, que iria abrilhantar o início do ato com a execução do belo hino brasileiro.
A sessão foi aberta pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, um inopinado presidente, escolhido como efeito colateral de um dissídio entre fações, que não durou mais de seis meses, suficientes para o consagrarem no anedotário político local. Cavalcanti começou a sua intervenção dirigindo-se ao «Senhor Sérgio Vieira de Mello». Um fâmulo acorreu, pressuroso, informando-o de que, tendo o passamento do homenageado ocorrido já há dois anos, era justificável a sua ausência da sala. Cavalcanti tinha lido mal, deveria ter-se dirigido ao «Senhor familiar de SVM», que ocupava um lugar na mesa. Passou a um texto laudatório e, acabada a função, saiu da sala.
A presidência passou então a ser ocupada pelos oradores seguintes, que emergiam sucessivamente dos bastidores, representando os mais de vinte partidos. Logo que acabavam de falar, zarpavam de imediato.
Quando cheguei à sala, dei-me conta de que era o único embaixador presente. As restantes missões diplomáticas estavam ali a nível inferior. Não estranhei: de toda aquela gente eu era, com grande probabilidade, a única pessoa que conhecera pessoalmente Vieira de Melo. A diplomacia brasileira também estava debilmente representada, mas isso também não surpreendia: o Itamaraty, o MNE brasileiro, nunca apreciara excessivamente Vieira de Mello. Também sentada nos lugares dos deputados, estava uma luzidia banda de música, que iria abrilhantar o início do ato com a execução do belo hino brasileiro.
A sessão foi aberta pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, um inopinado presidente, escolhido como efeito colateral de um dissídio entre fações, que não durou mais de seis meses, suficientes para o consagrarem no anedotário político local. Cavalcanti começou a sua intervenção dirigindo-se ao «Senhor Sérgio Vieira de Mello». Um fâmulo acorreu, pressuroso, informando-o de que, tendo o passamento do homenageado ocorrido já há dois anos, era justificável a sua ausência da sala. Cavalcanti tinha lido mal, deveria ter-se dirigido ao «Senhor familiar de SVM», que ocupava um lugar na mesa. Passou a um texto laudatório e, acabada a função, saiu da sala.
A presidência passou então a ser ocupada pelos oradores seguintes, que emergiam sucessivamente dos bastidores, representando os mais de vinte partidos. Logo que acabavam de falar, zarpavam de imediato.
Entretanto, na assistência, foi-se registando uma discreta debandada dos convidados diplomáticos. Eu resisti, estoicamente. No fim da longa cerimónia, chegou-se a um momento patético: eu era o único convidado que permanecia sentado nas cadeiras da Câmara. Na mesa, restava o último orador e o familiar de Vieira de Mello. Ah! Mas não estávamos sós: os músicos da banda, alguns já adormecidos, com as cabeças pousadas sobre as mesas parlamentares, continuavam à espera de que os mandassem embora. Aparentemente, ninguém lhes tinha dito nada!
quinta-feira, abril 21, 2016
O novo ministro
Ontem, o novo ministro da Cultura foi entrevistado na televisão. Eu não o teria aconselhado a, tão cedo, se expor às luzes inquisitivas do jornalismo. Mas ele entendeu fazê-lo. No final (eu vi de madrugada, com calma, em repetição), cheguei à conclusão de que o país deve ter entendido que tem, perante si, alguém que traz uma rara autenticidade ao discurso governativo, que joga com as cartas sobre a mesa, que está ali, vindo por bem, com o genuíno desejo de ajudar, com equilíbrio e isenção, a essa tarefa quase impossível que é fazer a "sopa da pedra". Luís Castro Mendes sabe, desde o primeiro minuto, que, tal como João Soares, não tem um orçamento que possa estar à altura das expetativas de um mundo cultural muito "demandeur", pelo que vai ter de desiludir alguns e ser bode expiatório da frustração de outros. Mas o sentido de serviço público que revelou (e eu gostei muito que o fizesse) é a demonstração clara daquilo que dele se pode esperar.
Com toda a franqueza, tenho esperança que o país tenha entendido bem o homem que ontem teve à sua frente. É que, quando ele falou da sua poesia, das pulsões ciclotímicas da escrita e da evolução da mesma perante o quotidiano que se transforma, Luís Castro Mendes deixou claro aquilo que, verdadeiramente, constitui a essência da Cultura e do papel desta na sociedade. Disse-o com simplicidade, sem gongorismos, numa linguagem acessível e transparente, num discurso de quem é muito culto sem necessitar de ser críptico nem hermético. Espero bem que tenha surpreendido.
Uma raínha em Vila Real
Em Vila Real, a terra onde eu nasci, havia uma sala de espetáculos que tinha por nome Teatro Circo. As novas gerações vilarrealenses não fazem a mais pequena ideia do que isso era, mas talvez possam entender um pouco essa realidade de lhes for dito que o espaço onde existia essa curiosa sala fica perto do Pioledo, numa geografia entre o Barracão e o café Brasília. Se, mesmo assim, não conseguirem lá chegar, então nada feito! De todo o modo, creio que poucos dessa geração lerão este texto.
Numa tarde de fins de 1953 ou, mais provavelmente, de inícios de 1954, andava eu pelos meus seis anos, recordo-me de mim mesmo num camarote do Teatro Circo, levado por uma tia-avó, a visionar o filme da coroação de Isabel II de Inglaterra. Nunca consegui esclarecer se o filme era um documentário, antecedendo o filme principal, ou se constituía o essencial da programação dessa tarde (só sei que era uma tarde, porque, nessa idade, eu só ia a "matinés"). A primeira hipótese, contudo, era a mais provável.
Por uma qualquer razão, esse filme permanece como um dos primeiros da minha vida de espetador cinematográfico. (Esclareço, sem falsa modéstia, que nunca fui um grande cinéfilo, como nunca fui um grande melómano, como nunca fui um grande leitor de ficção, como nunca fui um grande cultor de artes plásticas, como nunca me deu para mentir sobre as minhas "habilidades" culturais).
Isabel II de Inglaterra permaneceu sempre, para mim, nesse remoto registo cinematográfico, até que as voltas da vida me colocaram um dia, em 1990, pessoalmente perante ela, ao tempo em que era ministro-plenipotenciário em Londres.
Numa noite, no palácio de Buckingham, fui-lhe apresentado (eu e umas centenas de outros diplomatas, diga-se) e troquei com ela umas breves palavras de circunstância. Isso viria a repetir-se em anos seguintes, nas receções ou nos "garden parties", sem que o sentido dessa "conversa" (chamar-lhe "conversa" é obviamente um exagero para qualificar essas trocas de palavras) tivesse mais do que um simples sentido protocolar. Como sempre acontece com as figuras da História com que nos cruzamos, nós lembramo-nos de todos os pormenores e elas, claro!, não fazem a mais pequena ideia de quem nós somos ou lembram o que nos disseram ou de nós ouviram. É a lei destas coisas!
Numa noite, no palácio de Buckingham, fui-lhe apresentado (eu e umas centenas de outros diplomatas, diga-se) e troquei com ela umas breves palavras de circunstância. Isso viria a repetir-se em anos seguintes, nas receções ou nos "garden parties", sem que o sentido dessa "conversa" (chamar-lhe "conversa" é obviamente um exagero para qualificar essas trocas de palavras) tivesse mais do que um simples sentido protocolar. Como sempre acontece com as figuras da História com que nos cruzamos, nós lembramo-nos de todos os pormenores e elas, claro!, não fazem a mais pequena ideia de quem nós somos ou lembram o que nos disseram ou de nós ouviram. É a lei destas coisas!
Em 1993, o presidente Mário Soares fez uma visita de Estado ao Reino Unido. Coube-me a responsabilidade de coordenar a organização desse evento, pela parte portuguesa. Um dos pontos relevantes da visita era a receção à raínha na embaixada portuguesa em Londres. Por virtude da velha Aliança - hoje, talvez, a sua real virtualidade! -, a única embaixada estrangeira a que Isabel II se desloca em Londres é a missão diplomática portuguesa.
Foi algo complexa a organização da cerimónia, mas o que nunca esquecerei foi a naturalidade formal da soberana, o seu profissionalismo simples, ao lado do seu marido, Philippe de Edimburgo, mas também dos filhos Charles, Andrew e Edward, da irmã Margareth, bem como de Diana, que - vale a pena confessar - concentrava as nossas atenções (pelo menos, as minhas). Recordo eu algo que Isabel II tenha dito? Nada! Nunca lhe ouvi dizer nada de especial, embora fale sempre, numa "langue de bois" muito competente, feita de redondas banalidades que tendemos a levar à conta de coisas "sérias", sendo que, ao tempo da última frase que nos dirige, o seu olhar já está colocado na próxima pessoa a cumprimentar, antes que possamos retorquir a algo que ela própria tenha suscitado - o que faz sempre por um gesto ritualista, sem nunca verdadeiramente ficar à espera de uma resposta. Ser rei ou raínha é muito isto!
Isabel II faz hoje 90 anos. Quem diria! Por isso, por muito que isso me "envelheça", não posso deixar de me ver ao lado da minha tia Tininha, no Teatro Circo, em Vila Real, a olhar no écran a sua cara (não excessivamente) laroca, recebendo a coroa real, em Westminster, das mãos do arcebispo de Canterbury. Parece que foi ontem! Mas, infelizmente, não foi...
De toda a forma, com a maior sinceridade republicana do mundo, os meus parabéns, Ma'am! E que conte muitos!
De toda a forma, com a maior sinceridade republicana do mundo, os meus parabéns, Ma'am! E que conte muitos!
quarta-feira, abril 20, 2016
Condecorações
Não sou contra as condecorações. Acho perfeitamente normal que um Estado queira, através desta forma de nobilitação republicana, prestar preito público a cidadãos (espero que as cidadãs percebam que a expressão também as inclui...) que se hajam distinguido em determinadas áreas. Trata-se de um reconhecimento e de um ato de respeito.
Mas sou bastante crítico do modo como a atribuição das condecorações é atualmente feita, quanto mais não seja por ter sido já testemunha privilegiada de lóbis e de truques, normalmente por parte de agentes político-partidários, para que certas pessoas (seus amigalhaços) fossem condecoradas. Entendo que, nesta matéria, é inescapável ter de viver com alguma subjetividade e discricionaridade, mas, se houver vontade, há formas de as limitar.
Além disso, acho que a quantidade de condecorações que anualmente são entregues é excessiva. Haveria, por isso, que pôr termo alguns exageros, quer redefinindo critérios (mudando a lei, por exemplo), quer sendo parco na utilização dos graus (vejo "grã-cruzes" em peitos a quem um mero "oficialato" já seria mais do que adequado), quer estabelecendo limites quantitativos muito estritos, a serem seguidos como regra fixa pelos Conselhos das Ordens, encarregados da gestão das propostas.
Li hoje que o presidente Rebelo de Sousa terá decidido reduzir as condecorações do Dia de Portugal. Se assim é, aplaudo.
terça-feira, abril 19, 2016
Sem culpa formada
O preconceito é uma coisa terrível e todos nós, confessemos ou não, somos um pouco ou muito preconceituosos. Não escapo à regra. Melhor (ou pior), sou muito preconceituoso.
Há um género de figuras (de figurões, já em registo de preconceito) que, de há muito, chamam a minha atenção. Olho para elas, para a sua cara, e fico com a ideia imediata de que são ou más pessoas ou óbvios "bandidos". São aquilo a quem eu chamo os que deviam de imediato "ser presos sem culpa formada".
Numa sociedade ideal, esses meus ódios impressionistas de estimação seriam presos de imediato, depois investigavam-se com calma e, pela certa, na grande maioria dos casos, a possibilidade de se estar a cometer um erro judiciário era muito limitada. O mundo ficava muito melhor e eu ficava muito mais sossegado, o que é bem mais importante, claro.
Acontece-me muito ter esta reação perante alguns dirigentes do futebol, tal como em face de uns tipos de ar untuoso e gravata descaída que falam "da massa do vinte-vinte" em almoços de lóbi. Há dias, num jantar, fiquei ao lado de um deles. Não digo a profissão que tinha, para não prejudicar a sua inscrição da Ordem. Há minutos, sentado ao sol neste delicioso "Café Marly", nesta primavera imbatível de Paris, fazendo horas e água na boca para a sanduíche da TAP, tenho ali em frente dois espécimens desta fauna.
(Num mundo ideal, chegaria daqui a minutos o comissário Maigret e engavetá-los-ia no 36 do Quai des Orfèvres. Mas Maigret não existe, embora continue a existir a magnífica "blanquette de veau" (provei uma deliciosa, ao almoço) que ele tanto apreciava comer na Brasserie Dauphine, restaurante que, por acaso, também não existe no tal mundo ideal em que, igualmente por não existir, estariam sempre "dentro" os bandidos de quem eu não gosto).
Mas, voltando à minha fixação, devo dizer que nunca encontrei tantas figuras do jaez que descrevi como na votação no parlamento brasileiro, há dois dias. Foi um fartote!
Uma nota final: quem levar a sério o que aqui escrevi será "desamigado". Mas não perdoarei aos restantes, podem crer!
As verdadeiras mentiras de Ali
Não sei há quantos anos me habituei a ver surgir, nervosa e rápida, aquela figura magra, com um sorriso desdenhoso, que, aí pela uma hora da tarde, irrompe pelo perímetro do cruzamento entre o boulevard Saint Germain e a rue de Rennes, aqui em Paris. Dizem-me que anda também por outras paragens, mas nunca vi.
Quem, pela primeira vez me chamou a atenção para ele foi José Paulouro das Neves, ao tempo em que era embaixador em Paris, quando me trazia a almoçar ao Lipp. Nunca mais o perdi de vista, sempre que almoço por lá.
No braço, o Ali traz invariavelmente o "Le Monde" acabado de sair, mas igualmente, nos dias de saída, o "Le Canard Enchainé", o "Charlie Hebdo" e o "Le Parisien". Nunca o vi com o "Le Figaro", sei lá bem porquê.
Ali é paquistanês de origem. É um "ardina", como se diria na Lisboa de outros tempos. A peculiaridade que assume no modo como vende jornais - o que faz no Flore, no Lipp, no Deux Magots ou nos "nouveaux territoires" (Armani, etc) - está nas "bocas" que manda, sempre "mentiras" preparadas e ditas em alta voz, como se o jornal que vende as trouxesse.
Ouvi-lhe imensas coisas notáveis, como "Le Pen va chanter à L'Eurovision", "Sarkozy était dans la même chambre avec Strauss-Khan" e, há meses, quando também passei por aqui, "le Pape a été arreté". Hoje, mudou de estilo, havia uma notícia pessoal: "Aidez moi! Ils ont fermé mon offshore au Panama", além de outra, como sempre, política: "Hollande est candidat. Juppé vote pour lui"...
Só para comprar o "Le Monde" ao Ali, vale a pena vir a Paris.
segunda-feira, abril 18, 2016
Uma comunidade diferente
Há dias, reproduzi por aqui um texto que publiquei na última edição do quinzenário cultural "Jornal de Letras" sobre a ação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, neste ano de comemoração do cinquentenário da sua Delegação em Paris. Nesse texto, referi a circunstância da Gulbenkian estar a caminhar para um "encontro" com uma nova comunidade nacional fixada na capital francesa, parte dela de uma nova geração emigrada de Portugal ou oriunda já de outros países, outra parte emergente de uma segunda ou terceira geração da migração tradicional.
Esta manhã, em Paris, estive presente num encontro organizado pelo presidente da Fundação, Artur Santos Silva, durante o qual o primeiro-ministro português, António Costa, teve o ensejo de ouvir um grupo representativo dessas pessoas. No meu caso, participei na minha qualidade de presidentdo Conselho Consultivo da Fundação para a sua Delegação em Paris.
Foi muito interessante recolher testemunhos de gente que por aqui hoje está nos novos movimentos associativos, nas artes, na ciência, na academia, no mundo empresarial e outras atividades. Gostei de sentir a diversidade das suas perspetivas, os "conselhos" dados ao país a que se sentem muito ligados - muito mais do que aquilo que alguns poderiam pensar, depois de alguns anos de alheamento oficial sobre o seu futuro. Devo dizer que, em especial, me agradou ver reconhecido o trabalho desenvolvido, ao longo de vários anos, no domínio da ciência, que hoje continua a dar evidentes frutos. Imaginei ver, à volta daquela mesa, o sorriso satisfeito de José Mariano Gago.
domingo, abril 17, 2016
Um presidente de Cascais aos Urais...
O presidente Rebelo de Sousa escolheu o fundo da baía de Cascais para a sua fotografia oficial. Fez bem, fez mal? Não sei. Logo se verá.
Nasci no tempo de Carmona, passei a infância com Craveiro Lopes, tive o divertidíssimo "direito" de crescer nos idos de Tomaz. A ditadura obrigou-me a ser herdeiro desses "venerandos" chefes de Estado. Um dia, foi-me dado o ensejo histórico de contribuir para uma conjuntura que colocou em Belém essa figura de opereta que foi Spínola.
Marcelo introduz agora a novidade de um sorriso, quebrando o olhar esfíngico de Costa Gomes, o fácies graduado de Eanes, a bonomia contida de Soares, a seriedade de toga de Sampaio e o rictus indescritível de Cavaco.
Em democracia, e em matéria de presidentes, aprendi a seguir a regra de Almeirim para os melões: só depois de abertos e experimentados é que se sabe se são bons ou maus...
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O que tem de ser
Há pouco mais de nove anos, no dia em que Donald Trump tomou posse pela primeira vez, escrevi este texto na coluna semanal que então tinha n...











