quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Os protestantes


Na tarde de ontem, passei por um templo (por que não é igreja?) protestante, ao lado da (essa sim, conhecida como tal) igreja da Misericórdia, em Vila Real. E recordei-me do tempo em que, numa rua da cidade onde vivi nos anos 50 e 60 (do século passado, como agora se diz), foi criado um espaço (repito, não sei se se chama igreja) "dos protestantes". Creio que o primeiro na cidade.

A minha família era católica, mas imagino que o facto de eu ser, ao que creio, o único (repito, o único) miúdo da minha geração vila-realense que não fez primeira comunhão deva indiciar que a pressão para a prática religiosa no seu seio não deva ter sido muito forte. Corria uma tese familiar segundo a qual terei ficado doente no ano em que todos os meus colegas de escola primária passaram por essa fase; outra, menos verosímil, apregoava que eu tinha sido expulso da "doutrina" da Maria Vilar, por ter levantado a saia ou puxado um banco, fazendo-a cair, a uma menina. Seja como for, assim se formou um bom ateu. Ateu mesmo, nada agnóstico ou minimamente dubidativo sobre existências celestiais e questões correlativas.

Vem isto a propósito desses protestantes na minha rua. Lembro-me de, à época, ter suscitado perguntas na família sobre quem era "aquela gente" que, ao princípio da noite, com um ar que me parecia algo comprometido, se reunia num baixo alugado na casa do Rodriguinho Araújo, para fazer não sabia eu bem o quê. E tenho ideia do meu pai me ter explicado, no seu eterno respeito agnóstico pelas coisas religiosas (o meu pai usava chapéu e sempre o tirava quando passava frente a uma igreja ou cemitério), que "aquela gente" eram pessoas que seguiam ensinamentos religiosos um pouco diferentes daqueles que eram cultivados nas igrejas onde as pessoas da nossa família iam. Não me recordo de ouvir o menor juízo valorativo sobre qualquer dos credos.

Tenho bem presente que então criei um respeito muito grande por essas pessoas e, nesse tempo de quase unanimidade católica, via com alguma admiração quantos se arriscavam ao olhar desdenhoso (porque era isso mesmo que eu detetava) dos vizinhos e à quase clandestinidade do exercício a que se dedicavam, que rapidamente me apercebi ser fortemente combatido pela igreja católica. Com os anos, a própria designação de "protestantes " - os que protestavam, atitude que identificava a coragem - foi-me seduzindo, talvez por ligá-la a uma contestação do "statu quo". Verdade seja, só anos depois cheguei a Martinho Lutero.

7 comentários:

dor em baixa disse...

Cenário exatamente igual ao da minha terra, localizada no centro do país, na mesma época. Vejamos as diferenças: fiz a 1.ª comunhão, o crisma, a comunhão solene, assistia a todas as missas obrigatórias, comungava com a periodicidade exigida, tinha temor ao meu deus. Para mim, claro, ser "protestante" era algo inadmissível, embora não soubesse o que fosse. Foi com muita dificuldade e sofrimento que saí de dentro dessa bolha.

Anónimo disse...

Não é igreja, porque eles proprios chamam templo à "igreja protestante".

cumprimentos

Anónimo disse...

Vamos em frente que atrás vem crentes!!!

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

As tres religious de abraao, OS cristaos, OS de Mohamed e OS judeus tambem atacar am OS deuses de Roma e europeus e destrui ram a ordem vigente. Assim como socialistas e comunistas de hoje se jutaram aos islamistas de hoje para impor a sua ordem mundial.

Portugalredecouvertes disse...


Lutas pelo poder houve muitas
os ingleses dizem para explicar os acontecimentos "follow the money"
eles consideram que percebem de contas
isso não quer dizer que os protestos não tenham bons motivos para existir, venham eles dos protestantes ou de outros, quantos atos de coragem nos católicos, nos primeiros cristãos, nos resistentes, nos clandestinos, nos tempos medievais, nos que se revoltam contra as guerras atuais...
bom ano 2017

Anónimo disse...

Eu cá, protestante me sinto! Então, V.Exa., nem uma palavrinha sobre o assunto dos resíduos nucleares junto à fronteira?

Ana Vasconcelos disse...

Temos uma longa história de intolerância religiosa que persistiu até há muito pouco tempo. Lembro-me de como era incomum não ser baptisado ou não frequentar aulas de religião (sempre católica) nos anos 60. Não tenho boas memórias desses tempos, mas foram formativos do que sou.
Gosto de pensar que muito mudou desde então, mas quem sabe...