sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Castrim


Há pouco, numa troca de mensagens, lembrei-me de Mário Castrim. Castrim foi casado com a escritora Alice Vieira e morreu há 14 anos. Foi ele próprio escritor e jornalista. Autor de excelentes obras para crianças, escreveu teatro e editou livros de ensaios. É um nome que, nos dias de hoje, merecia ser mais conhecido do que é. E é pena, porque o país da Cultura deve bastante a Mário Castrim, pessoa com quem nunca me cruzei mas que sempre admirei.

Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, ficou talvez mais conhecido por fazer crítica de televisão, em especial no "Diário de Lisboa". Nos dias de hoje, com montanhas de canais acessíveis, os mais novos espantar-se-ão talvez que essa função tivesse alguma relevância entre nós. Mas tinha, e muita, nos tempos em que havia um único canal, a oficial e oficiosa RTP, fautora da imagem que o regime queria dar de si mesmo, que cuidava dela com um desvelo proporcional ao jeito que lhe dava como fator condicionante da opinião pública. 

Todos os dias, o DL trazia-nos o "Canal da Crítica", onde Castrim, num português de lei, nos deliciava com "innuendos" e artimanhas estilísticas, com vista a dar a volta à censura, comentando programas, apreciando conteúdos, às vezes com notas bem à margem daquilo que comentava. Era um regalo conseguir ler por entre as linhas de Mário Castrim, mesmo que soubéssemos que, aqui ou ali, o "lápis azul" dos coronéis da rua da Misericórdia tinha feito os seus estragos. Mas até algumas ausências pressentidas de texto chegavam a ter significado.

(Esses eram "bons tempos"? Uma ova! Eram tempos sinistros e o facto de, por vezes, os referirmos com leveza e ironia deve ser apenas visto como uma forma de exorcismo. Que isto fique muito claro!).

Mas Castrim era muito mais do que um mero crítico de televisão, sendo esse embora um terreno em que nunca teve um émulo à sua altura. Era um intelectual e um homem das letras, que orientou o magnífico DL Juvenil, um espaço do "Diário de Lisboa" que, num tempo em que não havia blogues nem facebook, permitia a publicação de textos de conteúdo literário a muitos jovens - alguns que foram e são hoje figuras consagradas da nossa Cultura.

Politicamente, Mário Castrim era, creio, militante comunista e, com a Revolução, o seu radicalismo, algo extremado, veio ao de cima. Alguma da unanimidade de que até então usufruía nos meios oposicionistas veio a reduzir-se nesses anos "da brasa", como aliás aconteceu com muito boa gente. A certo ponto, alguém, com graça, apodou-o mesmo de "sectário-geral"... 

Castrim era magnífico na polémica, mesmo antes do 25 de abril. Recordo-me bem de duas confrontações que teve. Uma com Artur Portela Filho, com uma das peças a ter o título genial de "Ó Artur! Ó Portela! Ó Filho!". Outra, bem pesada, com Luiz Francisco Rebello, que creio chegou a meter ameaça de bengalada. E Castrim usava uma!

Regresso ao ponto em que comecei. Provavelmente, muito poucos, nos dias de hoje, se recordarão já de Mário Castrim. Entre os outros, os mais antigos, alguns lembrá-lo-ão sob um olhar bem diferente do meu, quiçá mesmo oposto. Mas esta é a "graça" da democracia da opinião, que Castrim, com a sua pena acerada na pele tosca da ditadura, também nos ajudou a construir.

11 comentários:

Anónimo disse...

Lia Mário Castrim nas suas crónicas da RTP.

Hoje não existe o lápis da censura, mas a nuvem tóxica subtilmente instalada nos media, que engole de joelhos o prato de sopa que lhe põem na mesa, nomeadamente cozinhada por hábeis mãos de antigos larápios, feirantes/farsantes de gado vacuum, humanóides "programados" em multiculturalismo.


É fartar vilanagem.....



Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 00:42 não devia falar assim de figuras que, só por serem conservadoras e ligadas ao antigo regime e aos seus vícios, já expiaram as suas penas. É feio

Anónimo disse...

Em blogues e em jornais vejo muitas vezes referirem Mário Castrim referido. Ainda há pouco o foi na RTP memória no programa Traz prá frente, num que contou com João Gobern como convidado.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Francisco
Tive o gosto enorme de ser amiga de Mario Castrim. Ele foi tudo isso que escreveu. Mas foi muito mais. Foi o mais leal, mais directo, mais frontal dos amigos que alguém pode ter.
Tornamo-nos amigos pelas palavras. Ficamos amigos pelos gestos, pela atenção que nos dispensava, pela ternura que nos dedicava.
Talvez nunca tivesse sido capaz de escrever se não fosse o seu alento. Devo-lhe também isso!
Costumo dizer que ele me deixou uma herança preciosa, a Alice Vieira, de quem hoje sou admiradora e profundamente amiga. Poucos casais conheci que "se merecessem tanto".

Anónimo disse...

Concordo que é feio.

A actualidade também não é bonita.

Lia o MC no DL, e na altura, como se diz agora era o "máximo".

Ana Vasconcelos disse...

Lembro-me, com saudade, de um dia o meu avô, extremamente irritado com um programa de informação, exclamar: "Mal posso esperar pela crónica do Castrim, amanhã!!".

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 12:14: "e agora mudando de tema". Isto é à vontade do freguês?

Manuel disse...

"O cavalo do lenço amarelo é perigoso" - livro infantil todo ele uma metáfora que me foi oferecido pela minha mãe tinha eu, talvez, 10 anos.
O Mário Castrim era uma entusiasmada e divertida leitura diária lá de casa, nesses tempos nostálgicos a que também chamamos infância.

Artur Gomes disse...

Foi meu professor no 7 ano (atual) na Escola Comercial Ferreira Borges...

Anónimo disse...

A minha reverência para as palavras da Dr.ª Helena Sacadura Cabral. Felizmente, ainda há pessoas com coluna vertebral, que se distinguem dos vermes paleolíticos. Não a conheço, mas admiro-a.

António Ferreira disse...

Foi meu professor de História, na Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto, no início da década de 60.
As suas aulas eram do mais absoluto terror. Indescritíveis, mesmo. Nunca vi uma coisa igual em toda a minha vida escolar. Em todas as aulas, duas por semana, eram sempre três alunos chamados à lição(chamada oral),10 perguntas.para cada, quem aguentasse... Quem falhasse as três primeiras perguntas, dava, de imediato,lugar a outro.
Que me lembre, tive sempre a sorte de ser chamado ao sábado(dia em que as aulas terminavam às 13 horas), em que ele, de charuto no bolso superior do casaco, antecipando o fim de semana, vinha um pouquinho mais acessível, e lá me ia safando...
Naquela Escola, quem viesse a ser aluno do professor Manuel "Mau", duas respostas tinha que saber: 1- Que os Egípcios inventaram o carro de guerra, porque...RESPOSTA
...já era conhecida a roda desde os Assírios, segundo uns, e dos Caldeus, segundo outros; 2ª Estudar é verbo porque...RESPOSTA... designa acção.
No último dia de aulas, por muito que fosse o esforço, ele não conseguia esconder as lágrimas...
Tempos difíceis, Senhor Embaixador; tempos difíceis.