segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Silva Marques


Uma tarde de 1972, na universidade de Vincennes, em Paris, fui ouvir uma aula de Nicos Poulantzas. O seu "Fascismo e ditadura" era então uma "bíblia" laica, muito em voga entre nós. A certa altura, vejo-o interpelado por uma figura de bigode farfalhudo, que lembrava o "pai dos povos": "Cher Nicos, je suis tout à fait en désaccord avec toi...". O Zé Carlos Serras Gago, ao meu lado, esclareceu: o interpelante era português e chamava-se Silva Marques. 

Não o conhecia, mas logo me recordei da famosa "carta aberta" que, anos antes, Silva Marques enviara aos militantes do PCP, demitindo-se, com fragor ideológico, do lugar de principal responsável do partido na margem sul. Nessa mesma tarde de Vincennes, depois da aula, fui-lhe apresentado. Na conversa, perguntei a quem estava presente no grupo por um amigo, que presumia comum e que sabia estar por Paris. Grave, Silva Marques retorquiu-me: "Você é da PIDE?". Fiquei indignado. E disse-lho, logo apoiado por quem mo apresentara. Silva Marques, didático, recuou e explicou: "Só os provocadores é que costumam perguntar assim por alguém que está na clandestinidade". Fiquei a saber. Mas imaginava lá eu que o meu amigo andava clandestino...

De Silva Marques li, mais tarde, o interessante "Relatos da Clandestinidade", um livro de 1976 onde conta a sua odisseia no PCP e as andanças pelo exílio, ele que chegou a ser um quadro bastante importante do partido. Iria reencontrá-lo em 1995, ao tempo em que ele era deputado do PSD, onde chegara a líder parlamentar, depois de ter sido presidente da Câmara de Porto de Mós e Governador Civil de Leiria. Era um homem bem disposto, inteligente e perspicaz, com quem troquei divertidas "farpas" na comissão parlamentar de Assuntos europeus. Morreu ontem, segundo acabo de ler.

5 comentários:

Anónimo disse...

Este foi mais um que se posicionou conforme as modas. Quando viu que ser de esquerda não dava dinheiro em País de parolada, toca dai virou para um partido que dava tachos e benesses. Aliás temos centenas de casos desses tanto no PS como no PSD, não é assim Embaixador? no fundo o qu o comum dos mortais comenta nestas coisas é que pelo menos é uma reforma por certo choruda que se poupa ao erário público.

Reaça disse...

Essa das dezenas , milhares mesmo, porque não? que nos anos 50/60/70 se fizeram comunas, primeiro de barba-à-fidel, por inspiração salazarista, depois sem este, de calça-à-boca-de-sino e cabelo pelas orelhas por inspiração marcelista, outros cantautores maravilhosos com aquela velha cultura tipo estado-novo...tudo isso faz daquelas gerações, que também andaram numa curta e romântica guerra colonial, das gerações mais realizadas da história de Portugal.

Como era bonito ser comuna e revolucionário até ao 24 de Abril!

E como o povo vivia na ignorância, ficava de boca aberta a olhar para aqueles cabelos longos e tacões altos, quando foi aquilo dos cravos.

Anónimo disse...

Já não me lembrava deste. E, pelo que de agora me lembro, mais valia não me ter lembrado...

Reaça disse...

O anti-salazarismo fazia de quem o era, uns verdadeiros pigmeus.

Daí parecer-nos hoje, um gigante, aquele vulgaríssimo português de Santa Comba.

Anónimo disse...

Adorei o comentário do anónimo de 28 de Dezembro das 02.20.
"Já não me lembrava deste. E, pelo que de agora me lembro, mais valia não me ter lembrado..."
... pior é que é isso mesmo. :(



Mariana