terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Agora, a sério

O que se passou ontem com a entrevista do primeiro-ministro à RTP obriga a uma reflexão. 

A entrevista, em si mesma, pareceu-me basicamente correta. A barragem de "avisos" que as redes sociais de direita (deixemos de falar em "centro-direita", que é um termo próprio da direita envergonhada) haviam feito nos últimos dias contribuiu para a postura fortemente inquisitiva dos entrevistadores. 

Não me pareceu mal que assim fosse. António Costa não esteve à vontade, irritou-se e teve alguma dificuldade em "navegar", de forma satisfatória, pelas trapalhadas da Caixa. Pelo meio, disse algumas coisas interessantes sobre o tratamento europeu da questão da dívida e sobre as perspetivas legislativas em matéria laboral. O "ticket" de entrevistadores pareceu-me bem escolhido.

O escândalo - porque é um verdadeiro escândalo - foi a escolha dos jornalistas que, na RTP 3, analisaram a entrevista, na sua imediata sequência. Nem uma só dessas pessoas é conhecida por ter uma atitude isenta face ao atual governo. 

Para ser mais claro, trata-se de comentadores que, sem uma única exceção, defendem opções económicas e políticas opostas às de António Costa. Só por ali faltaram Camilo Lourenço ou José Gomes Ferreira ou Pedro Arroja ou Paulo Ferreira ou António Costa ou João Vieira Pereira ou a maré liberal da blogosfera - tudo gente que, dia após dia, exercita um jornalismo de oposição que, sendo legítimo, um juízo de meridiano equilíbrio editorial obrigaria a ser posto lado a lado, não com académicos defensores da "geringonça" (como depois fizeram com Paes Mamede ou Pedro Lains), mas com jornalistas que não façam parte do grupo dos invocadores do Diabo outonal que teima em atrasar-se.

Esteve muito mal neste caso a direção de informação dirigida por Paulo Dentinho, de uma RTP chefiada por Gonçalo Reis. Mostrar independência não é sinónimo de entregar poder informativo à oposição. Até porque me não recordo de que, nos tempos da antiga maioria, a opinião económica veiculada pela mesma RTP, que lembro que já era dirigida por Gonçalo Reis, fosse alguma vez tão esmagadoramente de esquerda como esta é de direita.

9 comentários:

Anónimo disse...

Pedro Sousa Carvalho, Henrique Monteiro, António Ribeiro Ferreira são outros para essa lista. Teixeira e Macedo não estiveram bem, deixaram de lado muita economia e emprego, para dar espaço à banca. Lains e Mamede tiveram contraponto, pelo menos do Bento que passei por lá em zaping e foi no que reparei. A Direita na televisão nunca tem contraponto.

Mas o Senhor Embaixador equivoca-se. Há mais de dez anos que esse grupo ocupou o comentário televisivo, sem contraponto não propagandístico. Os outros foram reformados compulsivamente, despedidos, corridos da profissão. Há é uns vigaristas que andam nos blogues a dizer que os OCS são de esquerda.

josé ricardo disse...

Acho obviamente mal esta escolha de comentadores por parte da RTP. No entanto- e felizmente - as pessoas em geral têm cada vez menos pachorra para comentadores. Aliás, este país está inundado deles, sejam políticos ou desportivos, os quais, lamentavelmente, mesmo muito parecidos. Daí que quem tenha a presunção de que o comentário seja parte integrante do jogo político, ao nível, por exemplo, de influenciar tendências eleitorais, desengane-se. As sondagens estão como estão também por causa desta gente.

Lúcio Ferro disse...

Ora nem mais, assino e subscrevo, pôr os pontos nos iii, dizer as coisas tal como são.

Os telejornais em sinal aberto foram todos tomados por grupos económico-políticos com interesses que não se compaginam com a actual mudança de rumo da governação.

Daí decorrem as manipulações de alinhamentos, contradições abafadas de Maria Albuquerque, os negócios pouco transparentes nos ajustes directos milionários do ministério Crato etc, etc.

Em simultâneo, a palavra de Passos é tratada com vénia e deferência, os OCS dando voz ao pm no exílio e a sus muchachos na sic notícias. ~

Para logo passarem todos em uníssono ao minuto 17 para o Futebol, nacional e estrangeiro, com fugas ao fisco de intermeio. Valha-nos isso, esse último mas potente resquício do salazarismo: Viva o Benfica! O Porto! O Sporting, o Alguidares de Baixo! Viva.

Anónimo disse...

"6 de dezembro de 2016 às 22:24"

Não é que as pessoas todas lhes liguem, mas é que as coisas da cidade apenas são discutidas nos termos em que eles as põem. Logo, nada que saia fora daquelas lógicas ganha direitos de cidadania ou de sentido.

A Nossa Travessa disse...

Caro Chicamigo

Venho hoje aqui depois de uma ausência bastante longa para te dizer uma vez mais que concordo 200% com estes dois últimos textos e os subscrevo mesmo sem a tua autorização.

A (des)informação que vamos tendo não precisa de adjectivos de tão simples que é: uns pagam, outros mandam, outros recebem e escrevem, outros publicam. Tudo com €€€€€€€€ por baixo da mesa. Salários? Baixíssimos. E um homem (ou uma mulher) tem de comer, pagar a renda, ter um (ou dois) automóvel - de preferência topo de gama - frequentar bons restaurantes, convidar as fontes de confiança, ir ao estrangeiro para reportar novas fábricas, empreendedorismo, iniciativas para desenvolver os amig, oops, o país e tudo com salários baixíssimos...

Para terminar deixo aqui um abraço ao Lúco Ferro que não conheço mas quem concordo irrevog,..oops, completamente

Abç do Henrique, o Leãozão

Anónimo disse...

Queria gente do lado do Governo, para quê? Para termos aquelas perguntas cândidas - tipo AR -, feitas pelos "amigos" para que o PM possa brilhar (eventualmente começando a resposta com um "Ainda bem que me pergunta isso")?

Estes momentos são inquéritos! O PM está ali para se submeter a um interrogatório, não é para fazer propaganda. Isso é o que ele pretende mas não é o que interessa a quem ouve. Quem ouve quer aceder à verdade dos factos e esta não vem ao de cima com perguntas combinadas feitas por camaradas, irra!

Que interesse jornalístico podem ter perguntas que, obviamente, nunca irão por em causa a propaganda do PM? Ou a isenção jornalística também já é (mais um) exclusivo da Esquerda? Se lá estivessem jornalistas camaradas, fariam perguntas boas, interessantes e isentas mas os de "direita" (quando perderá FSC o pudor e começará a usar "extrema direita" ou "fascista" para se referir à oposição, já agora?), esses, só colocam questões maldosas e tendenciosas.

Ora bolas!

Reaça disse...

"Valha-nos isso, esse último mas potente resquício do salazarismo: Viva o Benfica! O Porto! O Sporting, o Alguidares de Baixo! Viva".

Senhor Ferro, a gente nova não sabe que Salazar não ia nem gostava de bola, nem permitia que Arouca ou Alguidares de Baixo perdessem tempo a jogar à bola, havia batatas para semear.

Respeitinho!

Reaça disse...

Há o centro direita, o centro esquerda, o Dó sustenido o Dó bemol, e já se vê foices e martelos ao lado de fundos verdes e até fundos azuis, é tudo uma bagunça.

Com a verdade vamos sendo enganados (o povão) há 40 anos.

Anónimo disse...

"7 de dezembro de 2016 às 06:58"

Este não percebe o que está em causa, para ele fala-se de um esquerda-direita propagandístico e não do cumprimento do papel constitucional e ético do jornalismo.

Vale a pena dialogar com quem tem da liberdade de expressão estas ideia instrumental? Democratas? Uma fava.