quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Greve geral

No início da minha carreira, creio quem em 1978, houve em Portugal uma greve geral. Nesse dia, por coincidência, eu estava convocado  para ir a tribunal, por excesso de velocidade - embora com um imbatível e verídico alibi da ocorrência ter tido lugar quando levava uma pessoa ao serviço de urgência de um hospital. 

Na véspera, informei a minha chefia de que teria de deslocar-me ao tribunal, enviando cópia da convocatória. Fui informado que o secretário-geral de então, embaixador Caldeira Coelho, considerava "pouco aceitável" a minha desculpa e que, se havia greve, provavelmente o tribunal estaria encerrado, pelo que não valia a pena eu ir lá. A resposta que pedi que fosse transmitida ao secretário-geral, e que não sei se lhe chegou, foi a de que, a proceder dessa forma, estava a presumir que o juíz era um dos grevistas. E que quem não poderia arriscar essa hipótese era eu. Lá estive no tribunal. Não houve audiência.

Hoje, um significativo grupo de professores portugueses, sindicalmente organizados, alguns vindos da Alemanha, em dia de greve geral a que presumivelmente aderem, pediu ser recebido hoje por mim. Julgo que todos eles têm a consciência do facto curioso e irónico de que é precisamente por não estar em greve que posso conceder-lhes a audiência. 

10 comentários:

Um Jeito Manso disse...

E faria sentido, como Embaixador, fazer greve?

Habitualmente tão claro nos seus posts, hoje não o foi - ou eu, pelo menos, não percebi qual a moral destas suas histórias de hoje.

Anónimo disse...

Belo paradoxo, caro Embaixador. Se os sindicalistas entendessem que devia estar a fazer greve não lhe pediriam audiência hoje. Para lhes ser simpático, tem de mostrar uma atitude contrária à deles. Volto a dizer: belo paradoxo. E, mais uma vez, um excelente post (não faltando a memória do velho e relho CC)

CSC

Valdemar disse...

Touché, sr. Embaixador.

São outros tempos, é um facto.

Tempos em que, até para este jovem nascido já no pós 25 de Abril, se torna óbvio a campanha montada para retirar força a este protesto.

O que se pretende é um povo de cócoras...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara/caro Um Jeito Manso: mas por que diabo os posts têm de ter moral? Contei uma historieta passada com uma greve e sublinhei uma circunstância que me pareceu curiosa. Nada mais. Como às vezes por aqui digo, há coisas que são muito mais simples do que se julga.

Um Jeito Manso disse...

Caro Embaixador,

Obrigada pelo esclarecimento. Fiquemo-nos então pelas historietas simples e amorais.

Um Jeito Manso (no feminino, claro)

Anónimo disse...

Hoje é um bom dia para o Estado !

Como a sua actividade produz déficit , hoje devido à greve é um dia com pouco prejuizo !
Só em salários o Estado poupa uma fortuna!
Nós entidades privadas não nos podemos dar a esse luxo !

Greve é só para quem é rico !

Aqui também existe um bom paradoxo .

OGman

Anónimo disse...

A greve não é sempre o último recurso e não o deveria ser em regimes democráticos. Ela vem quase sempre em consequência da ausência, ou rotura, do diálogo.
Se a greve não fosse uma atitude de desespero que nos merece elevado respeito eu diria pois claro: O juiz do supremo, o embaixador, e até todo o governo (o governo ? onde é que já se viu isto ?) tem o seu direito de fazer greve !
José Barros.

Margarida disse...

Hölderlin tinha uma boa definição para 'simples'...

Margarida disse...

E, se permitir aqui uma nota a Valdemar, de uma jovem nascida no 'ancien régime' mas que andava de bibe nos tempos da revolução:
É tocante o esfusiamento revolucionário que ainda pode tocar a 'juventude' actual, mas sugeria a leitura destas breves linhas:
http://tempocontado.blogspot.com/2011/11/greve.html
ou como gerações distantes podem sentir e pensar da mesma forma.
É que não podia concordar mais com ele.
Cordiais cumprimentos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Margarida: conte lá então o que dizia o seu Holderlin, porque há muito o não leio.