segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pousadas

Uma das poucas coisas que fragiliza a minha animosidade irredutível face ao Estado Novo são as nossas pousadas*. Foram criadas em 1942, por essa figura muito interessante da cultura portuguesa que se chamou António Ferro e representaram uma tentativa de dar realce às diferentes regiões do país, à diversidade da sua gastronomia e dos seus costumes, incentivando o turismo estrangeiro e um turismo interno mais exigente. Em 1945, tinham já sido estabelecidas oito pousadas. Vale a pena dizer que os "paradores" espanhóis, instituídos nos anos 20, foram os inspiradores das nossas pousadas, mas a expansão destas foi mais rápida e sustentada que o do (excelente, aliás) modelo vizinho, que só viria verdadeiramente a desenvolver-se a partir dos anos 70.

Ferro deixou bem claro o que pretendia das pousadas, ao afirmar, na inauguração da primeira daquelas unidades, em Elvas: "o luxo e a ostentação, muitas vezes sem conforto nem bom gosto, não constituem, obrigatoriamente, a matéria-prima do turismo", pelo que as pousadas deveriam ser "pequenos hotéis que não se parecessem com hotéis". Embora isto possa chocar os espíritos de hoje, nada melhor para qualificar o seu objetivo do que esta sua frase: "se o hóspede, ao entrar numa destas Pousadas, tiver a impressão de que não entrou num estabelecimento hoteleiro onde passará a ser conhecido pelo número do seu quarto, mas na sua própria casa de campo, onde o aguardam os criados da sua lavoura, teremos obtido o desejávamos". E também: "o conforto rústico, bom-gosto fácil no arranjo das coisas e também no paladar, simplicidade amável, eis as grandes linhas do programa das nossas Pousadas", que se pretendiam "pequenos conservatórios da cozinha portuguesa". Os tempos mudaram muito e as pousadas também.

Inicialmente, as pousadas eram relativamente baratas e - imagine-se! - tinham um limite imperativo de três dias de ocupação por utilizador. A forma da sua gestão teve um percurso que partiu da plena dependência estatal até ao modelo atual, em que o grupo hoteleiro Pestana detém uma posição maioritária, numa forma de semi-privatização, que não deixou de ter consequências sensíveis na oferta atual de serviço e qualidade das Pousadas, sujeitas a um padrão de exploração onde praticamente desapareceram as preocupações originárias de serviço público. Algumas unidades vivem num regime de "franchising" que, igualmente, afeta fortemente a identidade do conceito.

Atualmente (2011) estão em funcionamento 40 pousadas **. Verifico que já dormi em 33 destas unidades hoteleiras mas, na realidade, já estive alojado em 48 pousadas... Como é isto possível? Porque, ao longo das últimas décadas, pelas minhas contas pessoais, desapareceram 17 pousadas (de que conheci 15). Recordo unidades que encerraram como pousadas, como as de Miranda do Douro (ia-se jantar à Balbina), de Póvoa das Quartas (ia-se ao Camelo, em Seia, ou ao Júlio, em Gouveia), de Castelo do Bode (ia-se, claro!, ao Chico Elias), de Serpa (jantava-se na Pousada mas, antes, ia-se beber a melhor imperial "do mundo" ao Lebrinha), de S. Brás de Alportel ou de Sousel, todas com panoramas magníficos. Mas, devo dizer, não verto lágrimas por pousadas desaparecidas como as de Monsanto, de Almeida, de Proença-a-Nova, da Quinta da Ortiga ou da Batalha. Apesar de tudo, confesso que tenho pena de já não existirem as unidades tão históricas como as de Santo António de Serém, de Santiago de Cacém, do Torrão ou de Vila Nova de Cerveira (onde se comia muito bem). Houve ainda uma pousada, em S. Martinho do Porto e uma unidade na Madeira, a pousada dos Vinháticos, não tendo conhecido ambas.

Durante alguns anos da minha vida, por razões diversas, tinha obrigatoriamente de trabalhar todos fins-de-semana. As pousadas eram o meu "pouso" preferido para isso. Nesse tempo, quando os preços eram outros, cheguei mesmo a passar férias em pousadas. Por isso, tenho sobre elas muitas e diversas experiências, que vão desde grandes exemplos de profissionalismo a monumentais descasos. Mas, apesar de algumas razões que possa ter em contrário, ainda hoje sou "addicted" das nossas pousadas e, sempre que posso, frequento-as.

* Uma nota curiosa. O conceito de "pousada", no Brasil, qualifica, em regra, estabelecimentos hoteleiros com um nível abaixo do das nossas pousadas. Assim, quando o grupo Pestana recuperou, em Salvador da Baía, o Hotel Convento do Carmo, que era, à  época, a mais bela unidade das "Pousadas de Portugal", não lhe essa designação.  

** Anoto aqui as primeiras Pousadas: Santa Luzia, Elvas (1942), São Gonçalo, Marão (1942), Santo António, Serém (1942), São Martinho, Alfeizerão (1943), São Braz, S. Braz de Alportel (1944), Santiago, Santiago do Cacém (1945), São Lourenço, Serra da Estrela (1948)

29 comentários:

Aclim disse...

Chique bem, só para quem pode.

Abraço

Margarida disse...

"viciado"...
(e a 'minha' Rita vai gostar muito deste texto...)
Tanta Pousada, hã!... que vida burguesa...
;)

Anónimo disse...

Hum... "addicted"
Então e a do Marão?

Isabel Seixas

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

... estão carotas, caro Amigo. O ferro teria um chilique se entrasse em alguma nos dias que vão correndo. É o mercado..., dizem.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: "Burgueses somos nós todos que horror irmãos. Burgueses somos nós todos ou ainda menos. Burgueses somos nós todos desde pequenos" - Cesariny. E, quando eu era pequeno, as pousadas eram mais baratas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Carz Isabel Seixas: A pousada do Marão (um das primeiras) foi alienada pelas "Pousadas de Portugal" e vive num regime de "franchising". É a vida

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Aclim: posso, às vezes.

Paulo de Abreu e Lima disse...

Senhor Embaixador, cuidado com os tempos. Hoje em dia, muito principalmente nestes dias de crise, vem (como hei-de dizer sem ferir susceptibilidades...), digamos, o "escrutínio" dos gastos alheios (safei-me...?) aliado à fama de bon vivant. Pelo que ao dizer que já frequentou 48 pousadas, soma-se a fome com a vontade de comer.

Cordialmente,

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Cobiço essas merecidas férias que tão bem lhe têm feito.
Já viu que agora "responde" a todos nós?
Mas prepare-se. As cinco amigas - três de Portugal e duas de França* - que se encontraram nesta sua casa, estão a preparar uma excursão...

* Júlia, agora já estamos a contar consigo para o assalto!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Paulo de Abreu e Lima: que se há-de fazer? Como sou funcionário público há 40 anos, vivo apenas do meu trabalho e tenho uma vida fiscal "com paredes de vidro".

Anónimo disse...

Nunca estive numa pousada dessas,
mas senhor Embaixador já estive a acompanhar estudantes em pousadas da juventude, experiência inebriante onde a diversidade de aromas oriunda de diferentes hábitos de higiene abunda, a Teoria da cama vazia se sobrepóe ao quarto vago e a possibilidade multicultural de ver acama do seu lado povoada por alguém de uma geografia superior,socializar-se após insónia e relembrar pai nossos interditos finalmente aspirar a ver-se pousada em casa de preferência, depois achar piada volvidos uns tempitos, dada a irrelevância de uma noite e claro invejá-lo no bom sentido.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

o khadaffi, coitado (!), agora bem precisa de pousio.
nao conhece porventura nenhum lugar onde o possam abrigar?
(isto para alem do tpi claro...)

ainda nao percebi quem vai ganhar com isto tudo. e gostava de perceber o papel do qatar.

claro que o bouteflika é o maior dos democratas, desde que nos va dando o gas nosso de cada dia...


como dizia o outro

Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.


bem haja

Helena Oneto disse...

Tomara eu ser suficientemente burguesa para gozar de novo "o conforto rústico... e a "simplicidade amável" dos "pequenos conservatórios da cozinha portuguesa". Dormi e comi muito bem em algumas Pousadas e dormi confortavelmente em alguns Paradores quando ia de carro a Portugal com a família. Mas nada, hélas, que se compare com a sua longa lista que invejo!

Há tempos o Senhor já havia escrito, aqui, sobre o triste destino ("franchising")de algumas Pousadas...

Anónimo disse...

(outra coisa)
E tambem curioso ver como em 10 anos quase todo o socialismo arabe foi a vida, iraque, egipto, libia, e para la caminha, a siria.

(socialismo arabe so em si dava muito que falar...)

e quem ficou a ganhar?
no iraque os franceses ficaram a perder, tinham boas relacoes com saddam, parece que a libia fica assim uma especie de presente dos eua por lhes terem tirado o doce iraquiano...

nao ha nisto tudo um bocado de neocolonialismo? de 7 caes a um osso?

que tristeza.


bem haja

Anónimo disse...

Caro Amigo

Ha meses, tinha lido num lugar qualquer de publicidade das Pousadas (gosto do P maiusculo) esta citacao de Antonio Ferro:

Se o hóspede, ao entrar numa destas Pousadas, tiver a impressão de que não entrou num estabelecimento hoteleiro onde passará a ser conhecido pelo número do seu quarto, mas na sua própria casa de campo, onde o aguardam os criados da sua lavoura, teremos obtido o desejávamos

Mas a citacao estava incompleta como agora vejo. Olhe o que tiraram:

mas na sua própria casa de campo, onde o aguardam os criados da sua lavoura

Sao parvos, nao?

CSC

patricio branco disse...

As minhas experiencias:
hospedei-me uns dias na pousada do convento do carmo na baia e o aproveitamento do velho e historico edificio, o ambiente, a decoração, o mobiliário, o serviço, a gastronomia, fazem dele uma verdadeira pousada. Cara, no entanto. Magnífica a colecção de pinturas de várias epocas no claustro, bem como o mobiliário e outras antiguidades.Seria uma optima pousada em portugal.

Em cabo verde tambem há algumas unidades chamadas pousadas (ou posadas)mas penso que são algo diferente (a de morabeza que conheço dos anos 80 era bonita e agradável, mas construida de raiz, moderna).
Nos açores não sei se há pousadas da rede portuguesa inatur; na madeira, havia uma no pico do areeiro, feissimo o edificio, mas que fechou; outra, pequena mas muito cómoda e bem localizada, a dos vinháticos, com um bom leitão nos fins de semana.
No marão, quando era pequeno, dormi numa (s. lourenço?)em que houve um incendio na garagem,de noite,arderam completamente 2 carros, carbonizados, foi um susto!
A experiencia que tenho de ficar em pousadas em portugal é pobre, umas 10 noites na minha vida. De almoçar e jantar bastante mais e tenho tido boas experiências.
Muito interessante tema o da entrada.

Julia Macias-Valet disse...

Torrao tem uma Pousada : Vale do Gaio.

A sua lista é de fazer inveja !
Eu fico-me por um empate : Serpa -1 / Alcácer do Sal 1

Para mais informo que existe actualmente um programa especial familias - 25% ! 25 % de muito dinheiro sai sempre mais interessante ; )

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Julia Macias-Valet:

A lista de pousadas do Alentejo, que a seguir copio do site oficial, já não traz a do Torrão, a do Vale do Gaio, junto à barragem.

Alcácer do Sal, D. Afonso II
Alvito, Castelo de Alvito
Arraiolos, Nossa Sra. da Assunção
Beja, São Francisco
Crato, Flor da Rosa
Elvas, Sta. Luzia
Estremoz, Rainha Sta. Isabel
Évora, Lóios
Marvão, Sta. Maria
Santa Clara-a-Velha, Sta. Clara
Vila Viçosa, D. João IV

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patrício Branco: o seu comentário traz-me à ideia de ter havido uma pousada da Enatur na Madeira. Alguém poderia dizer algo sobre isto?

Anónimo disse...

Senhor embaixador permita-me um recado...

Cara presidente das quinquenas e assistentes (numa das quais me incluo)...

A "menina" ...
Hum...Perspicaz
Ah é para ver, o efeito insidioso do água mole em pedra dura...

Etapa seguinte conquistar a face e o rosto feminino do entorno aquela que manda mesmo, nós sabemos e estará então formatado o painel consultivo (e só , não se iludam)dos Anjos de Francis...
Isabel Seixas

patricio branco disse...

Na madeira, a "pousada do pico do areeiro", que fechou há uns 4 anos, espantoso o local, no cimo da montanha, mas feissimo o edificio moderno, sem nada de regional. Valia pela localização.
Era da enatur, parece-me.

Há a "pousada dos vinhaticos", actualmente explorada por um grupo hoteleiro da madeira, que foi uma criação do governo regional, ignoro se esteve integrada na rede inatur. Bonita casa de montanha em pedra, com uns 20 quartos, bom restaurante, muito confortavel.

patricio branco disse...

posso estar enganado, mas tenho ideia que chegou a haver nas berlengas, no forte, uma pousada ou estalagem da inatur

Jonathan Melo disse...

Eu adoro as Pousadas de Portugal. Concordo com alguns comentários aqui mas gostava de deixar a minha opinião. Eles tem vindo a esforçar-se por se adaptar ao contexto económico do nosso País! Ainda recentemente fiquei na Pousada Histórica do Crato por 99€ a noite e hoje recebi a newsletter deles com Pousadas a 50€! Se isto não é pensar na crise.
Não sei se recebem a Newsletter Pousadas exclusiva das terças-feiras, mas está no site deles na parte das promoções

Julia Macias-Valet disse...

Assim nao VALE ! Nao sabia que a esta também lhe tinha dado o "badaGAIO" ! : )

Patricio Branco tem toda a razao na Forte das Berlengas existiu uma Pousada, para a qual devido aos problemas de falta de àgua doce que existem na ilha, os clientes tinha que levar os seus proprios lençóis e atoalhados.
Actualmente pode-se la prenoitar, mas para isso tem que se reservar quarto com (muita) antecedência junto da CM de Peniche...e claro, levar tudo menos a cama : )
Caro escriba, também existem duas Pousadas nos Açores.

PS Eu bem me parecia que me tinha esquecido de fazer
qualquer coisa este verao...foi ir ao Zé Lebrinha : (

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Júlia Macias-Valet: é claro que nos Açores há duas pousadas; fazem parte das que não conheço... E a Pousada das Berlengas era parte da rede das pousadas oficiais, com estatuto idêntico às restantes? Essa é uma dúvida que tenho.

Julia Macias-Valet disse...

Vou-me informar...tenho uma amiga de Peniche : )))
Volto asap !

PS Estou de acordo com Helena SC é bem simpático ter resposta aos comentarios...mas também acredito que muitos nem mereçam resposta ; )

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Júlia Macias-Valet: eu percebo que seja agradável poder ter resposta aos comentários. Mas o tempo já escasseia para os posts e temo que o laconismo das respostas possa ser mal entendido e corra os riscos das mensagem "twitter".

Anónimo disse...

A Pousada das Berlengas era uma pousada da juventude.

Confesso que aprecio muito o conceito das pousadas, mas noto que ele está a ser modificado desde que o controo das Pousadas de Portugal foi assumido pelo Grupo Pestana. As pousadas novas, Freixo, Estói e Viseu são demasiado grandes e não permitem a tranquilidade das pousadas.

também na oferata de produtos, nomeadamente o vinho se notam mudanças, antes as pousadas davam bastante atenção aos vinhos da sua região, agora têm uma carta de todo o Portugal, que não é contudo adequada e completa. Deviam voltar a prestar mais atenção às especificidades vínicolas de cada região.
Não resisto também a contar o que se passou comigo na Flor da Rosa, quando pedi à empregada do restaurante conselho sobre vinhos, ela disse-me que de vinho não percebia, apenas de cerveja porque era checa...

O equipamento também precisa de alguma renovação.

Talvez fosse melhor retirar as Pousadas ao grupo Pestana, pois não me parece que ele esteja a fazer justiça ao espírito das pousadas como espaço diferente para o turismo português.

patricio branco disse...

quem saberá de pousadas e da sua historia antes da entrada do grupo pestana será o dr eduardo ambar que foi presidente do CA do inatur aí pelos anos 1997-2000.
Nos anos 80 fez parte da equipa governamental do MNE e mais recentemente chefe do gabinete de jaime gama na AR.

ps. a ocupação das pousadas desceu. Em julho estive na de arraiolos (na inauguração duma exopsição de pintura, sem pernoitar)e tinha pouca ocupação, uns tantos espanhois, uns 10 carros de hospedes estacionados fora.