quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

José Gil


José Gil é um pensador da "coisa portuguesa", espécie intelectual bastante rara. Quanto mais não seja, só por isso, merece toda a nossa atenção.

Mas o que dele aqui trago hoje é uma imagem, porventura polémica, da sua visão sobre as "categorias" entre os imigrados políticos portugueses em França, no tempo do Estado Novo, que há dias li numa sua entrevista ao "Público":

"Uma delas eram grupos que não se abriam à sociedade francesa e europeia: fechados sobre si, só falavam do que estava a acontecer em Portugal, da avenida da Liberdade, das notícias que chegavam de Portugal. Outros abriam-se malgré eux - sem que eles o quisessem; e como não estavam preparados para isso, perdiam-se. Entravam em loucura, em alcoolismo, as promessas de juventude de que seriam grandes poetas iam por água abaixo, suicidavam-se. Uma terceira categoria: rapazes e raparigas que se abriam à sociedade francesa, e que o queriam. E aí começava um tumulto de outro tipo: não ser integrado pela sociedade francesa e perder todos os benefícios secundários que se tinham em Portugal. Em Portugal, quando havia problemas emocionais, desregulamentos, havia sempre uma família."

Seria assim?

12 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
A emigração cria sempre nas famílias um núcleo de "apátridas".
Um pouco como os filhos de gente humilde que alcançam os "grandes postos".
Nos emigrantes, para o bem ou para o mal, existe um grupo de nenhures. Nem de Portugal donde sairam, nem dos países que lhes deram abrigo.
Nos outros, porque pelos estudos sairam do meio de origem, mas também sentem que não pertencem ao meio a que alcandoraram.
É triste mas é verdade. Só as segundas gerações de uns e de outros, que apenas vêm de férias a Portugal, é que já não têm esse problema!

Helena Oneto disse...

Conheci refugiados políticos que vieram para Paris nos anos 67, 68 e 69 que não 'entram' em nenhuma das categorias citadas. Alguns voltaram para Paris desiludidos da revolução, outros porque não arranjaram emprego em Portugal.
Cito dois militantes anti-fascistas que conheço bem : o meu irmão Antonio (foi denunciado e desertou da tropa para não ser preso pela PIDE) e o meu Tio Fernando, constantemente perseguido pela PIDE (para nao voltar para Caxias onde jà tinha passado muitos anos). Passaram todos momentos muito difíceis, tinham imensas saudades da família mas nenhum sucumbiu nem ao alcool nem ao desespero nem à loucura!

Em Londres, onde me 'refugiei' de 1970 a 1973, conheci muitos 'imigrados' e refugiados políticos portuguêses, desertores americanos que recusaram ir para o Vietnam, militantes anti-fascistas espanhois, militantes irlandeses da IRA, brasileiros e gregos fugidos dos coroneis, etc. Todos
tinham saudades da familia, dos amigos e dos seus paises. Nenhum se suicidou. Tive imensa sorte!

O "tableau" que o Senhor José Gil faz dos 'não abertos' e dos "malgré eux" é alucinante!

Anónimo disse...

Pois identifico-me na integra com o José Gil, também com Suas Ex.as as "Senhoras Idóneas Helenas..."

Estamos a identificar segmentos de população emigrante Diferentes...

O filho do sr. Doutor que emigrou estoicamente por perseguição politica, com um efeito de halo por inerência a programar ainda que na clandestinidade, ainda que de forma indelével a sua Ascenção ao poder...

É incomparável com o filho do Sr... António que já nasceu fatalmente ocupado com a sobrevivência implacável, de ter que beber para matar a sede e comer para matar a fome para cristalizar Sem saída(Se se atrever a sair é novo Rico, ou Pimba porque não teve tempo nem a possibilidade de conhecer Shakespeare,ou =O= já viste o filho do caseiro e da criada!?...) nos meandros da existência da caridade e pobreza que seria?...:

Das Igrejas?...
Dos discursos políticos?...
Da supremacia?...
Da hegemonia?...
Da necessidade de aparecer...

and so on and so on(tenho mesmo que ir trabalhar)

Sem Elas...(A pobreza, a caridade, a comiseração,... )

Sem Elas?!... Como Poderiam Alguns Luzir ...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Permettez que je vous rapporte en français une petite anecdote qui m'est arrivée ses dernières vacances de Noël a Lisbonne. En français, mon portugais écrit est trop mauvais pour ce blog. Je suis née a Madère et quand je parle portugais mon accent m'attire une certaine sympathie compassionnelle de la part de mon interlocuteur qui a toujours un commentaire élogieux sur la beaute de mon lieu de naissance.
Je recherchais un logement à Lisbonne, pour y vivre un congé sabbatique de 3 ans à partir de l'été prochain. Dans mes nombreux contactes avec les agents immobiliers l'un d'eux me propose de visiter un appartement qui selon lui devrait me convenir, et il ajoute " O proprietario tambem è estrangeiro ..."
Dans mon environnement de travail quand je parle de mon projet de congé sabbatique à Lisbonne on me demande si c'est un retour a mes origines ...
Qui suis-je ? Ou vais-je ? ...
D'aucuns se sentiraient rejetés, pour ma part je considère ma double culture comme une grande force !!

MVDJ

Julia Macias-Valet disse...

Ai ! Senhor José Gil...que quadro tao dramatico...!!!! Isto mais parece o argumento de uma telenovela mexicana...

Todos sabemos que se viveram nesses anos situaçoes muito dificéis. Mas dito desta maneira dà uma imagem muito pouco dignificante da juventude portuguesa que se viu obrigada a deixar o pais nos anos 60/70.

Nao sera assim ?

Anónimo disse...

Eu também acho um bocadinho... inquinado o pensamento de José Gil. Mas, se calhar, o temo mais correcto será contaminado.
Porque pessoas forçadas, obrigadas, sem solução outra que não esta, há, haverá, houve... porque essa a condição humana.
Isso em Paris da década de 1960, de hoje ou em Folguedo das Vinhas, ontem e amanhã.
Por isso tem razão Helena Oneto, ao vincar que não é uma particularidade lusitana, embora aquele sublinhado aos que viam Paris como a caixa de ferramentas com que se ergue um "grande poeta" tenha piada, bastante piada mesmo...
Paris foi, isso sim, importante para Portugal nos idos de 60 e 70 pelas marcas que essa passagem teve em pessoas que, ainda hoje, marcam, delimitam, pensam, agregam uma ideia para o país a partir da bondade, humanidade, solidariedade, pulhice, velhacaria, adquirida em Paris.
Bom, mas o que eu quero dizer, essencialmente, é que as pessoas são muito iguais, quase sempre mais iguais umas às outras do que aquilo que gostariam e, por isso, não é o facto de Paris, directamente, que influiu, foi o facto de estar ausente, e, aqui, a ausência(de Portugal, recorde-se) funciona como o eixo onde gira o tumulto interno dos indivíduos que, normalmente, por ser mais fácil, creio, é atribuído ao espaço sociológico, geográfico, de Paris, a cidade.
Ainda hoje é assim, só que ninguém liga, mas continuam a seguir para Paris(enquanto ponto no horizonte a partir do qual se conquista o estatuto de ausente, estar longe, sofredor, conquistador...) muitos portugueses.
Coloque-se de fora, por norma e não por regra, o português que parte por razões unicamente económicas, porque esse apenas sofre, não se transforma.
Rita

Helena Sacadura Cabral disse...

Minha cara Isabel Seixas, não pode calcular a gargalhada que dei com a sua expressão "Senhoras Idóneas Helenas".Uma pequena delícia que vou contar à Família!
Quando não estiverem de acordo comigo, lanço mão da qualificação e zás, domino a situação e imponho o ponto de vista.
Bem haja pela qualificação que me enche de orgulho e lisonjeia o ego.

Helena Sacadura Cabral disse...

Desculpe Senhor Embaixador, mas com o riso, veio o pouco siso, e esqueci-me de dizer que estou plenamente de acordo com a Isabel Seixas.

Carlos Alberto Falcão disse...

Há cada uma...

Conheço um emigrante português, digno e forte de carácter. Entrou em França, a salto, em Outubro de 1969 depois de ter atravessado o rio Bidasoa com a roupa na mão.

Chegou a Paris sem "nada nos bolsos", mas trazia dentro do peito um "porquê e um como" atingir o que imaginava. Esse corajoso emigrante, tinha, e tem, uma força de vontade inabalável. Aquele homem, é o meu maior amigo. Tenho imensa honra.

Posso dizer-vos sem revelar segredos, que quatro décadas depois, uma grande parte dos sonhos por ele imaginados realizaram-se: No vector familia, contínua na "Grande Prova da Vida", sempre com o mesmo "director desportivo". "Arrastou a asa" há 38 anos, àquela que é hoje a sua esposa... de cultura francesa. É pai duas vezes e avô de dois rapazes e duma adorável rapariga. Profissionalmente deu a volta ao mundo.
Presentemente está na reforma "activa". Com uma forte convicção diz-me todos os dias:
« óh pá, o melhor está para a frente». Feliz na vida dele, lá vai aquele entusiasta e valoroso emigrante português, queimando tudo o que possa ser queimado antes que lhe queimem a ele.

Há, Francisco... antes que eu me esqueça. Tenho para si um recado daquele emigrante português :

« Senhor Embaixador, não obstante esta comunicação ser internética, a minha mensagem é franca.
Receba o meu reconhecimento pela existencia deste seu "club de cultura".
Para os seus e para si, um ano 2010 "valente", cheio de "Apontamentos". Seja feliz.

Assinado: Um emigrante Português. Será que eu sou apenas mais um dentre todos aqueles que vão passar despercebidos? Mas poucos sabem o que são, o que se tornaram ».

P.S.:
« Para aqueles que não sabem para onde vão, os ventos são sempre ao contrários»
.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador...

Ainda Diz o Sr. que não É Poeta...

Meu Deus...

O Sr...

É...

O Server...

Desta rede de pensadores em que o estilo literário...
Se rende e torna irrelevante
Perante a qualidade dos pensamentos emitidos...

E que independentes da clausura da diferença de estatuto social, são de facto humanos, livres, iguais a Si próprios e ás suas Circunstâncias,Respeitadores incondicionais "Dos Outros",usando qb a qualidade (dangerous/aliciante )de Ser descomprometidos...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Minha cara "Helena"Sacadura Cabral
Que fique bem claro que o mérito é todo Seu...
As aspas são de respeito pela Tal Idoneidade que a Sra. Transpira...
E que sinceramente gosto, até invejo, mas como sabe devemos ter expectativas altas embora exequíveis e Eu também chego lá, apesar de ser baixa, uso "ás vezes se calhar abuso, por causas que considero justas) escadote...

Tenho o Maior Respeito, Orgulho e Admiração pelos Emigrantes...

Seja qual for a modalidade...

Tenho Grandes amigos, que só vejo em Agostos rápidos e de passagem e o resto do ano "trago-os ao peito"
(Autor conhecido divulgado neste Blogue)numa reza constante e partilhada de que tudo esteja bem...

Sendo que tenho a consciência de que ...Só Foram porque Querem e precisam voltar...

Porque Querem e têm direito à dignidade inalienável da Paz , Pão, Habitação, saúde,Educação...
E é essa a única diferença/Igualdade significativa que nos separa...fisicamente, mas que nos une num objectivo comum...
Respeito mútuo.

É que Eu bafejada por uma Sorte qualquer simplesmente Não precisei IR...
É claro que me sinto com sorte.
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Permita, Senhor Embaixador.
Mais uma vez, Isabel, estou consigo. E, como você, não precisei de ir.
Mas também lhe digo que estive à beira disso, por amor ao meu filho mais velho,então, bastante perseguido.
Decidi, contudo, ficar."Pude" ficar, será mais correcto dizer.
Mas creia que pago um preço alto por essa decisão. É que ter dois filhos na política activa é duro para o coração...