quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Angola

Não posso deixar de recomendar, no "Expresso" do passado sábado, que só hoje me chegou (Paris é longe...), o emocionante texto que Francisca Van Dunen dedica ao seu irmão e à sua cunhada, José Van Dunen e Sita Valles, mortos nessa maré de tragédia que foram os acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.

Cheguei a Luanda em Maio de 1982, precisamente 5 anos depois desse tempo terrível e ouvi às vezes, sempre num sussurro de prudência, relatos esparsos desses dias em que, para sempre, se quebrou o encanto em torno de um certo sonho colectivo. Durante todos os anos seguintes que passei em Angola, raramente encontrei alguém disposto a abrir-se comigo sobre esses momentos, qualquer que houvesse sido o lado da barricada em que se tivesse então situado. Na altura, eu havia ficado com a sensação de que os angolanos faziam um esforço deliberado para provocar o esquecimento sobre esse período, como se as feridas acabassem por sarar melhor se se não olhasse para elas. Não era verdade. Muito do que, entretanto, se publicou sobre o 27 de Maio provou que nada substitui o trabalho em torno da verdade, qualquer que seja o preço que isso possa ainda ter e por muito que essa mesma verdade possa doer a alguns.

No seu texto, a Francisca, pessoa por quem tenho uma grande admiração e que é hoje um expoente de dignidade na turbulenta Justiça portuguesa, confronta a sua trágica memória por via da ternura e fá-lo com uma serenidade por onde perpassa bem todo o seu amor a uma certa Angola. Leiam o texto com atenção. Todos temos muito a aprender com ele.

3 comentários:

Anónimo disse...

Comovente, de facto. E sólido. E não deixa ilusões sobre a quem se dirige. Ao irmão e a Sita. E não, como pode parecer, a algumas mentes menos claras, aos carrascos.

Mas facto é que esta prosa surge n um momento em que José EDuardo dos Santos se prepara para comemorar os 30 anos da sua chegada ao poder.

Já se provou que este não tem mácula no processo tenebroso do 27 de Maio. Mas sabe-se também que ninguém para além dele pode impôr que a verdade se sobreponha aos cinismo com que no MPLA se lida, ainda hoje, colm este assunto.
Rita

Helena Sacadura Cabral disse...

Se o texto do Expresso me comoveu - e ainda bem - a referência que lhe faz neste post enche-me, uma vez mais - e têm sido muitas - de orgulho de ter no nosso MNE alguém como Francisco Seixas da Costa.

Alcipe disse...

Lamento o balde de água fria:

O projecto nitista, acalentado pela embaixada soviética, só não foi mais assassino porque foram eles os assassinados... Tivessem eles ganho e as lágrimas e os hinos iriam hoje para os outros.

As canonizações póstumas dos vencidos coadunam-se mal com a verdade histórica.

A barbárie estava em todos.