quarta-feira, 24 de maio de 2017

Roger Moore



Às vezes, há a tendência para alguma generosidade, por altura da morte das pessoas. Comigo, confesso, isso raramente acontece. Posso ocultar alguns aspetos menos notáveis de quem se vai, mas não caio em edulcorar-lhes por excesso as virtudes.

Lembrei-me disto ao ler que morreu Roger Moore. Era um senhor respeitável, que protagonizou alguns filmes de James Bond com um misto de humor e charme machista, que sempre saía das cenas mais violentas com a poupa intocada, com aquele sorriso simpático de marca, que, aliás, conservou na velhice, como pude comprovar quando, há não muitos anos, o cruzei num evento em Paris.

Conseguia dar um tom saudavelmente picante aos rápidos diálogos com Moneypenny, fazia desesperar "Q" com um nunca batido humor e sempre cuidou em não dramatizar o tom da eternamente "impossível" relação com "M", que Daniel Craig, produto "eslavo" de um "casting" para 007 que estou certo teria irritado Ian Fleming, levou a um cúmulo de tensão muito discutível, no modelo de relação com a personagem de Judy Dench.

Como ator, desempenhava um Bond divertido, ao mesmo nível, comparadas as épocas, com que já fizera para a televisão as séries "Ivanhoe" ou "O Santo". Mas, sejamos honestos!, foi sempre um ator "13 valores", para usar a classificação que o meu pai costumava dar às prestações "assim-assim". Sempre pressenti que, no seu íntimo, vivia com um fantasma chamado Sean Connery - o "verdadeiro" Bond.

Uma novidade para os menos iniciados na "bondmania". Moore usou a famosa frase de 007 para pedir o Martini - "shaken, not stirred" - num episódio de "O Santo", meia dúzia de anos antes de ter vindo a protagonizar 007.

Presto aqui uma sincera homenagem a Roger Moore. Divertiu-me por muitas horas - também no "Ivanhoe" e em "O Santo" da minha juventude - "cultivou" mulheres lindíssimas (algumas segundo o padrão da época, outras de modelo estético mais "sustentável" no tempo) e soube transmitir a algumas cenas inverosímeis a ironia necessária para as não tornar completamente ridículas.

16 comentários:

Fernando Frazão disse...

Ivanhoe fez as delicias da minha juventude.
Lembra-se do tema musical da série?
https://www.youtube.com/watch?v=RswoQJUGI6Q

Anónimo disse...

Eu não consigo ver agora o Bond do Roger Moore. Dá-me vontade de rir, coitado, é embaraçoso. Há coisas do início da nossa juventude a que não se deve voltar, if you know what I mean. Aquilo era engraçado na nossa infância, mas envelheceu muito mal. A mesma coisa para O Santo, uma curiosidade engraçada.
Isso não impedia nada que o Roger Moore fosse um tipo realmente lúcido e tivesse o sentido das suas limitações. Dizia ele que "O Bond", por definição, é o Daniel Craig. A seguir, punha o Sean Connery.

Anónimo disse...

Fernando Frazão, eu não me lembro nada de ver essa série do Ivanhoe, mas a música soa-me de certa forma familiar. Isso alguma vez passou na televisão portuguesa?

Anónimo disse...

Foi um bom ator, sem duvida!| Mas compara-lo a Sean Connery nos "007" sou da sua opinião...

Anónimo disse...

"quando, há não muitos anos, o cruzei num evento em Paris". Fez-lhe uma cruz? Não será "quando ... com ele me cruzei"? A menos que queira usar o verbo como transitivo e aí... enfim, são outras questões.

Anónimo disse...

Ontem ao ver a notícia no telejornal, fiquei baralhado, pois o JRS tratava-o por Mór enquanto o jornalista que desenvolveu a notícia dizia Mur...e no final JRS voltava ao Mór!
De qualquer das formas, o Santo foi uma das séries que acompanhou a minha juventude, pois era transmitida ao domingo, que era o único dia que eu via televisão na tasca da minha aldeia, a troco de uma moeda colocada numa bandeja. Claro que nesse dia me desforrava e mantinha-me até ouvir o Hino Nacional!
UC

joana gouveia disse...

Já agora que estamos em maré de memórias, lembro também uma série , ainda a preto e branco, que se chamava " The Persuaders" ou algo deste tipo. Era protagonizada por ele e por ,tanto quanto me lembro o Tony Curtis. Uma espécie de "Santo" a duo. Recordo ainda que o Moore fazia de Inglês,formal com um "brutissimo " Aston Martin e o Tony Curtis um americano mais "estarola" com um "desportivíssimo" Ferrari ou equivalente.
E Eram amigos, claro . e sempre no meio de aventuras e mulheres fatais

Anónimo disse...

Só me cruzei com Roger Moore em vários eventos (salas de cinema), pouco convincente no papel.

Anónimo disse...


Era como se dizia nos passados anos 70:
Eram filmes sem substracto e sem mensagem.

Só os filmes de "autor" franceses valiam alguma coisa. E tinham de ser vistos no Quarteto a horas impossiveis de no dia seguinte poder-se trabalhar decentemente.

Que tempos aqueles. Nem é bom lembrar, até arrepia.

Majo Dutra disse...

~~~
Sempre me pareceu pouco inteligente...
Penso que a minha intuição não me enganou.
~~~~~~~~~

Helena Sacadura Cabral disse...

Permita-me caro Francisco usar este seu espaço para responder ao

Anónimo das 19:42
"Que tempos aqueles. Nem é bom lembrar, até arrepia."
Diria exactamente o mesmo. Quando penso nos filmes de autor a que fui "obrigada" a assistir, a bem da elite cultural da época, ainda hoje fico estafada, só com a lembrança!
Até "aguentei" 50 minutos de uma obra de arte em ecrã completamente negro. Tratava-se da superação de alguma coisa - nem sei o quê, nem era preciso - que mereceu os mais rasgados elogios ao realizador por uma pleíade de criticos de cinema que debateram, claro, os valores contidos no negro do ecrã...
Ufa! uma pessoa livra-se de cada uma!

Anónimo disse...

James Bond só houve um, Sean Connery. E mais nenhum. Há aliás um livro, muito interessante, "The James Bond Man", que fala exactamente de Connery como JB-007. Ponto! Craig faz um papel de brutamontes, pouco sofisticado (ainda por cima um tipo relativamente baixo, para Bond, 1,78m), tipo PT dos ginásios, onde ridiculamente uns/umas tantos/as maraus, se espojam, em vez de correrem, ou andarem de bicicleta, por exemplo, no meio natural, junto ao rio, do mar, ou no campo. DG é uma daquelas figuras que nunca deveriam ter sido convidadas para desempenhar o papel de Bond. Haja esperança que apareça outro actor melhor adaptado ao papel. Seguindo, de algum modo, a linha de Sean Connery: duro, sofisticado, com charme, sentido de humor, e uma personalidade forte - carismático.
a) A.F

Fernando Frazão disse...

Caro Anónimo (?) das 9.27
Não consigo datar mas tenho a certeza que a série passou na RTP.
E também muitas vezes o filme com o Robert Taylor e a Elisabeth Taylor e a Joan Fotaine.
Fantástico

Anónimo disse...

Fiquei aqui saber que existem pessoas que eram obrigadas a ir ao Quarteto ver filmes franceses. Meu Deus, mas isso não foi na altura denunciado a quem de direito?! Estão a ver aquela cena do Laranja Mecânica em que punham um tipo preso a uma cadeira de cinema, com umas pinças nos olhos, para os manter abertos? Eu nem sabia que isso existiu aqui na realidade.
Eu, nessa altura, felizmente, tinha liberdade para ir ver tudo o que era Trinitá e Kung Fu e filmes indianos e james bonds e tudo.

Anónimo disse...


@Anónimo de 25 de Maio às 12.42

"não foi na altura denunciado a quem de direito?!"

Não se podia fazer isso porque os intelectuais que existiam eram todos de esquerda. Não havia ninguém de "direito".

Anónimo disse...

Imagino que sim. O PREC foi mais terrível do que eu imaginava, pelo que leio. Felizmente, na cidade onde moro, na província, não havia Quartetos, nem Cinematecas, nem nada dessas coisas.