sexta-feira, 13 de maio de 2016

Governo brasileiro


Que conclusões se podem retirar da composição do novo governo brasileiro?

A primeira é que este é, sem a menor dúvida, o governo mais à direita desde o fim da ditadura militar. Desde o discurso assumido aos seus integrantes, passando pelos acordos conhecidos com certos setores conservadores, nada infirma esta perceção.

Desde logo, pode deduzir-se que Michel Temer optou por um executivo muito político, que obedece em absoluto aos cânones tradicionais. Nunca terá estado em cima da mesa a hipótese de um governo com uma forte componente técnica, que poderia ser apresentada como uma resposta de responsabilidade, e até de alguma rutura com o passado recente. Tudo indica que o aparelhamento do executivo eca acomodação de fortes interesses prevaleceu, em absoluto, no seu desenho. Temer terá "costurado alianças", como se diz no Brasil, em troca de cargos. Os grandes "barões" estaduais do PMDB estão presentes ou representados, o que parece indicar que irá haver uma imediata sangria dos lugares que o PT ocupava. Curiosamente, foram feitos alguns gestos para com alguns antigos aliados de Lula, o que, contido, na lógica política local, pode não ter um significado político profundo e corresponder apenas a um "pick and choose" individualizado.

Temer terá procurado dar dois fortes sinais. 

A nomeação de Henrique Meirelles para a Fazenda (Finanças) é um recado forte aos mercados. Meirelles, um antigo quadro do Banco Boston que Lula levou para o Banco Central no seu primeiro mandato, é uma figura muito respeitada e a garantia de uma ortodoxia financeira que, no entanto, parece muito longe de ser compatível com o prosseguimento do tecido de políticas sociais que disse pretender manter intocadas. Meirelles não estará muito distante da orientação de Levy, o nome do penúltimo ministro de Dilma para o cargo, que acabou por não resistir às pressōes.

A designação de José Serra para a chefia da diplomacia é uma escolha interessante. Por um lado, compromete o grande partido da oposição ao PT, o PSDB, com a solução Temer. Embora Serra tenha "vida própria", a verdade é que o Brasil olha para ele como uma caução de Fernando Henrique Cardoso a este governo. Para o mundo exterior, José Serra é uma escolha sossegante, "a safe pair of hands". Serra, que quereria a Fazenda, terá exigido o controlo do Comércio Externo, reduzindo em grande parte o poder do ministério da Economia. Conhecendo relativamente bem o Itamarary, um ministério que sempre esteve confortável com o PSDB e menos com o núcleo próximo do PT que o dominou na última década, a escolha de Serra deve ser um alívio.

Duas notas finais.

A nomeação de Blairo Maggi para a Agricultura e de um nome fraco para o Ambiente revela o peso da "bancada ruralista" e do "agronegócio" sobre a preservação ambiental. Para certos setores ambientalistas internacionais, onde o nome de Maggi é diabolizado, isso não serão boas notícias.

Péssimo e incompreensível sinal é a circunstância do governo não ter nenhuma mulher. É uma decisão reveladora de uma imensa falta de sensibilidade política. 

18 comentários:

Anónimo disse...

quem sabe se o + a direita melhora a situação, pois o + a esquerda não deu certo.
Acabou o dinheiro de quem produz, o esquema foi pro brejo.

Joaquim de Freitas disse...

Como sabemos, a nomeação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como Ministro da Casa Civil foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal em decorrência de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás, investigado pela Operação Lava-Jato.

Assim como Lula, alguns Ministros indicados pelo presidente interino Michel Temer também tiveram seus nomes citados nessa operação, razão pela qual deve o Supremo se manifestar sobre a legitimidade destes para a posse nos cargos públicos e obtenção ou manutenção de foro privilegiado.

São eles: Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Henrique Eduardo Alves, Bruno Araújo, Ricardo Barros, Raul Jungmann e José Serra.

Não aceitaremos posições contraditórias da Suprema Corte!

Anónimo disse...

No fundo o Joaquim Freitas queria era um governo dos sem terra, ou melhor dos que tem muita terra. Garanto ao Joaquim Freitas que um dos maiores cancros que o Brasil tem são os sem terra, nunca vi pessoas que tenham tanta aversã ao trabalho como eles e que gostem tanto de viver de subsidios e roubar o que é dos outros para fazerem negócios como eles. Aliás o verdadeiro chefe dos sem terra que é o Lula também pouco ou nada trabalhou na vida dele, andou sempre no bem bom dos sindicatos, aliás como temos muitos em Portugal.

Anónimo disse...

Oh pá, se o Freitas não aceita, a gente também não! Não passarão!!!

E muitas gajas no governo, se fazem favor, que a que acaba de sair fez um grande trabalho (e as guarda costas não podem ir para o desemprego).

Anónimo disse...

eu adoro estes moralizadores de sofa que se exprimem como na tasca
o que em si nao tem mal nenhum claro
mas de que serve comentar se nada vai mudar
é apenas para mostrar a frustracao

e compensa?

Joaquim de Freitas disse...

Se o Senhor Embaixador permitir:
A ESCRAVATURA à HORA do BRASIL

Neste dia santo vale a pena transcrever as boas intenções dos esclavagistas brasileiros há mais de. um século!

Crónica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de Maio de 1888, seis dias após a abolição da escravatura.

Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um mole cote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanhe e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

– Oh! meu senhô! fico.

– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô…

– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Reaça disse...

O Brasil nunca acertou o passo, desde que os militares resolveram entregar o país à democracia.

Ernesto Geisel-1979

Exceptuando o Chile e Argentina, a América Latina está pior que certa África.

Anónimo disse...

Realmente como uma vez disse o Otelo eu li os livros errados. Não tive a sorte que o Joaquim Freitas teve de ler só os livros certos. Certo só ele, o resto são fascistas, racistas e outros aperitivos mais. Bora lá, queremos um governo escolhido pelo Fretas, Lula, Dilma, tupiniquins, e mais duzentos sem terra. Garanto que com este elenco o Brasil desta vez ultrapassará até a mais avançada das civilizações que possam existir em todo o Universo. Claro tudo isto coordenado pelo Joaquim Fretas, que ele leu os livros certos.

Majo disse...

~~~
Trogloditas machistas!

A criaturas como estas muito convém a iliteracia
da população.

Um perfeito desastre, em termos humanitários e ambientais...
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Joaquim de Freitas disse...

Reaça disse...
14 de maio de 2016 às 09:27
« a América Latina está pior que certa África.” , escreve Reaça !
Exacto. Graças a quem?
Um século, de golpes de Estado:

1910-1920 – Mexique
1936 - NICARAGUA. Grâce à la protection de Washington, Tacho Somoza, assassin de Cesar Augusto Sandino, prend le pouvoir et devient président en 1936. Il établit une dictature fortement anticommuniste que ses fils perpétueront jusqu'en 1979.
1945 - BRESIL. En 1937, la dictature de Getulio Vargas instaure "l'Etat Nouveau". Chassé par un coup d'Etat militaire en 1945, il est ensuite élu en 1951 président de la République.
1943 - ARGENTINE. Après une tentative ratée de coup d'Etat en juin 1943, l'armée prend le pouvoir à l'automne. C'est "le coup d'Etat des colonels". En 1946, Juan Domingo Peron, colonel de la junte, est élu président de la République1945
- SALVADOR. Le général Salvador Castañeda accède au pouvoir par un coup d'Etat.
1954 - GUATEMALA. le gouvernement élu de Jacobo Arbenz est renversé par un putschsoutenu par les Etats-Unis. Début de 40 années d'exactions des escadrons de la mort, faisant plus de 200 000 victimes.
1954 - PARAGUAY. Le général Alfredo Stroessner prend le pouvoir et instaure une longue dictature où se mêlent népotisme, corruption, prébendes et violences, et qui perdure jusqu'en 1989.
COSTA RICA. Plusieurs tentatives de renversement du régime et même d'assassinat du président José Figueres dans les années 1950 puis dans les années 1970.

Années 60
Une dizaine de coups d'Etat contre des gouvernements pour la plupart démocratiquement élus 1960
SALVADOR. En octobre 1960
1962 - ARGENTINE. En 1962 puis en 1966, les gouvernements argentins sont destitués par des coups d'Etat.
1963 - EQUATEUR. En juillet 1963, l'armée renverse Carlos Julio Arosemena, le président en poste depuis 1961. Les militaires l'accusent notamment d'être favorable au communisme
1964 - BOLIVIE. Le coup d'Etat du colonel Barrientos en 1964 marque le début d'une succession de régimes militaires et de coups d'Etat. La dictature est "officellement" instaurée à partir de 1974.
1964 - BRESIL. Le coup d'Etat militaire qui renverse le président élu Joao Goulartinstaure une dictature violemment anti-communiste, qui sévit pendant plus de 15 ans.
1968 - PANAMA. En 1968, un coup d'état militaire mène le Général Omar Torrijos Herrera au pouvoir. Il y reste jusqu'à sa mort en 1981.
1968 - PEROU. En octobre 1968, des militaires, dirigés par le commandant Juan Velasco Alvarado, renversent le président élu Fernando Belaunde Terry et instaurent un régime aux accents nationalistes.

Années 70
Une série de coups d'Etat militaires porte au somment de l'Etat des gouvernements déterminés à éradiquer par tous les moyens les forces de gauche.
1973 - CHILI. En 1973, un coup d'Etat dirigé par le général Augusto Pinochet et soutenue par les Etats-Unis renverse le gouvernement de Salvador Allende. On dénombre 3 000 morts (bilan officiel) au cours des premiers mois, des milliers de disparu, et des dizaines de milliers de personnes torturées.
1973 - URUGUAY. En 1973, le régime du président Bordaberry est renversé par une junte militaire qui entreprend le contrôle systématique de la population. En une décennie, 80 000 Uruguayens passeront par les geôles de la junte.
1976 - ARGENTINE. Après le retour, la réélection puis la mort de Juan Peron, une junte militaire s'empare du pouvoir en 1976. Sept années de dictature feront 10000 morts et disparus.
1992 - VENEZUELA. En février puis en novembre le Mouvement révolutionnaire bolivarien de Hugo Chavez provoque deux tentatives de coup d'état, qui échouent.

Joaquim de Freitas disse...

Segunda parte:


1996 - PARAGUAY. Lino Oviedo échoue dans sa tentative de coup d'Etat. En mai 2000, nouvelle tentative de coup d'Etat : un groupe de militaires se soulève contre le gouvernement du président Luis Gonzalez Macchi. L'état d'urgence est décrété pour 60 jours dans tout le pays
2000 - EQUATEUR. En janvier 2000, un soulèvement indien aboutit à la destitution du président Jamil Mahuad au profit d'une junte militaire
2002 - VENEZUELA. En avril 2002, un coup d'Etat avorté contraint Hugo Chavez à démissionner. Les violentes manifestations dans les rues de Caracas font plus de 20 morts. Dès le lendemain, Chavez retourne au pouvoir (
2009 - HONDURAS. Coup d'Etat au Honduras contre le président Manuel Zelaya
2010 - EQUATEUR.
2016 – Brasil - Golpe de Estado constitucional. A burguesia, a imprensa, o aparelho judiciário, os deputados e senadores corruptos, depõem a presidenta eleita democraticamente.

Joaquim de Freitas disse...

Sim, a iliteracia é o maior flagelo deste início de século, porque há muitas coisas que pedem reparação nas relações humanas, e sobretudo na protecção das multidões que se enterram cada vez mais na miséria, mas com gente tão atrasada a tarefa será longa e difícil.

Joaquim de Freitas disse...

SIM Majo: Trogloditas machistas.


Sem dúvida um golpe de Estado, não militar. Para o momento é somente constitucional. O objectivo é claro: a alta finança retoma o poder sobre a riqueza nacional.
Com a ajuda das oligarquias nacionais aliadas aos EUA, que continuam, mais que nunca, interessados pelo controlo e dominação da América Latina.
Ainda não é mais uma Operação Condor, mas pode tomar o seu caminho.

Um bando criminoso que na formação do governo anuncia já a sua “cor” : austeridade para os pobres, corte nos orçamentos sociais, um pontapé na Cultura, como Goebbels, e morte aos Homens Sem Terra e sem destino num país riquíssimo.

E machismo não disfarçado. Contra uma mulher que foi torturada pelos fascistas, os mesmos que ainda têm amigos nas instituições. Bando de indivíduos desumanizados, corrompidos financeiramente e nas suas próprias consciências, demonstrando a falta de valores democráticos e morais.


Os golpistas pensam ter abatido a ex- guerrilheira! Mas creio que se enganam, porque ela sabe combater.

O símbolo é forte: Uma mulher sozinha contra homens obscenos, sem ética democrática e sem respeito pela lei das relações humanas.

Querem punir em Dilma os crimes que eles próprios cometeram. Porque ela não cometeu nenhum crime.

Reaça disse...

Os países da América Latina e a maioria dos Africanos, precisam intercalar eleições democrática com ditaduras nacionalistas.

As democracias ali, escorregam em compadrios partidários familiares tribais e/ou regionais.

Anónimo disse...

Por favor tragam o prozac para o Joaquim Freitas. Fala ai em falta de cultura do novo governo, credo ó Joaquim Freitas tem razão. Depois do Brasil ter tido um Presidente tão literato como o Lula, dificilmente alguém Poderá competir com tal sábio, cheio de doutoramentos. Quanto ás oligarquias ao que parece elas estiveram estes anos todos bem juntinhas do PT na roubalheira e corrupção dava para todos. Para as oligarquias e para os descamisados do PT e dos sem terra. Enfim era uma aliança curiosa. Tenho dó de si ó Joaquim Freitas com essa cegueira toda que tem. São todos burros, menos voc~e, toda a gente se enganou em Colocar esta gente fora, o Joaquim Freitas deveria ter sido ele a votar no congresso e no Senado, ele é o dono da verdade foi um golpe, mas um golpe na máfia, nos parasitas e por ai fora.

CORREIA DA SILVA disse...

Mister Reaça:
Teorias !!!!!!!!!!



Anónimo disse...

O Freitas e a sua prosápia, a forma como toma de assalto este espaço para escrever, escrever, escrever... Ele sabe de tudo, ele disserta sobre tudo, ele tem razão em tudo... Credo! Que enfado...

Joaquim de Freitas disse...

Ô senhor « anónimo » das 06 :54 : O senhor não dorme bem ! Levanta-se cedo demais. Começo a ter remorsos de lhe causar insónias! Mas tem razão: gosto de escrever. Mas gosto muito de ler e informar-me, sobretudo.
O senhor é o contrário: escreve pouco, e lamenta-se muito do que os outros escrevem. Como venho de dar um passeio na minha montanha, ao sol, que me fez bem, vou lhe confessar uma coisa: Recordo muito bem os anos em que em Portugal não se podia falar e muito menos escrever do que era susceptível de desagradar ao regime. E recordo muito bem o que aconteceu a certas sociedades, a certos povos, porque não havia ninguém para denunciar as iniquidades, as injustiças e os crimes, porque, muito simplesmente, era proibido. E aqueles que ousaram, foram para a prisão ou foram assassinados.

Em 1974 houve um punhado de homens valentes que, ao desprezo da sua vida, nos trouxeram a liberdade. Ora eu pretendo que é um crime de deixar passar sob silêncio onde quer que seja, os mesmos actos, cometidos por homens que se assemelham àqueles que conheci na minha juventude em Portugal.

Porque o que se passou em 1933, ano em que nasci, passa-se, disfarçadamente, hoje no Brasil. Sim, sim, senhor anónimo! Senão, olhe bem:

Direitistas de todos os matizes, estimulados por jornalistas criminosos, passaram a estigmatizar o que viam como "objetos de odio ": a cor vermelha, os petistas, os que criticam a ditadura de 64, de repente comodamente reunidos debaixo do rótulo: "corruptos". Mais ou menos como se fazia com as bruxas de antanho ou os judeus de menos antigamente.

O raciocínio é mais ou menos assim: os jornais do “golpe” dizem que alguns petistas foram corruptos; então, todo o petista é corrupto e todo o corrupto é petista; se não é, não interessa, porque é preciso construir um bode expiatório visível, porque a corrupção é algo mais difícil de combater do que os petistas, que se pode cercar na rua, bater neles, insultà-los, a partir da cor vermelha, ou de seu retrato. Indo até ao ponto de recusar atender um filho doente, porque a Mae é petista!
Pode extrapolar, pode liberar o seu ódio, os seus preconceitos, tudo. Substitua as palavras "petista", "esquerdista" etc., por "judeu", "cigano", "homossexual", "social-democrata", "liberal" "comunista" etc. – a estrutura é a mesma. Só que hoje, como na Alemanha de 1933, ninguém está pensando no "etc.".

Recordo que nos anos primeiros da Revoluçao de Abril, alguns, para cima de Rio Maior, pensavam da mesma maneira quando viam gente da “esquerda”!

Pense um pouco, caro anonimo, e descukpe de lhe dar mais isto a ler, neste espaço de liberdade, se o nosso Embaixador me permitir.