sexta-feira, 4 de março de 2016

A liturgia das instituições



Há dias, o líder do Podemos, nas mesmas mangas de camisa com que se apresentou semanas antes a uma convocatória feita pelo rei, foi ao centro do hemiciclo parlamentar espanhol e pespegou um beijo na boca de outro político radical, ao que parece congratulando-o por uma intervenção. A foto correu mundo, talvez com maior difusão do que aquela que, tempos antes, mostrava uma criança, filha de uma deputada do mesmo partido, a mamar, também durante uma sessão das Cortes.

Não há a mais leve dúvida de que gestos e trajes como estes têm como finalidade tentar dessacralizar as instituições, transmitir a ideia de que elas devem evoluir e tornar-se um espelho da própria sociedade, perderem a rigidez protocolar e, quem sabe se por essa via, aproximarem-se dos cidadãos.

Não tenho porém a certeza de que a banalização das instituições favoreça a democracia. Pode, no imediato, conferir alguma popularidade àqueles que “abanam” os modelos políticos, como que a relembrar que há um outro mundo, que não se revê no formalismo, e que ganhou o direito de cidade de ali estar. Mas tenho a maior das dúvidas de que o ruir de algumas liturgias acabe por funcionar em reforço da eficácia e da legitimidade dos modelos de representação.

Confesso que me choca o modo como alguns deputados do nosso parlamento se vestem, num “casual” que roça a bandalheira, não muito distante do sinistro fato-de-treino. Não é tanto a falta da gravata que se contesta: há modos de vestir sem gravata cuja manifesta elegância substitui a de um fato tradicional.

Carlos Brito, o antigo deputado comunista, conta num seu livro que, num dos primeiros anos da democracia, um seu colega, indicado para acompanhar uma visita oficial ao estrangeiro, anunciou que não ia utilizar gravata, não obstante as regras protocolares recomendarem um traje formal em certas ocasiões da deslocação.

A persistente resistência do deputado fez subir o assunto a Álvaro Cunhal. O secretário-geral lembrou então que é muitas vezes adequado, em alternativa às roupas protocolares europeias, o uso em cerimónia oficiais de trajes tradicionais, acrescentando: "Ora nós temos trajes tradicionais muito bonitos, por exemplo, os minhotos". E logo adiantou: "O nosso camarada podia ir vestido de minhoto e evitava-se a gravata. Até podemos telefonar já aos camaradas de Viana e encomendar já um fato". O deputado correu a comprar uma gravata.

Há dias, ao ver um secretário de Estado do governo socialista, nos salões estadonovistas das Finanças, apresentar o orçamento em atitude desengravatada, perguntei-me se acaso um traje típico não seria mais adequado.

17 comentários:

Anónimo disse...

" Non c'e più virtù. Tutto declina". ( Verdi, Falstaff, acto 3, cena 1 ).

Um abraço

JPGarcia

Anónimo disse...

O problema vem, desde logo, da falta de elegância. Que uma gravata não pode substituir.

Anónimo disse...

"Não há a mais leve dúvida de que gestos e trajes como estes têm como finalidade tentar dessacralizar as instituições, transmitir a ideia de que elas devem evoluir e tornar-se um espelho da própria sociedade, perderem a rigidez protocolar e, quem sabe se por essa via, aproximarem-se dos cidadãos. "


dessacralizar as instituições ou os dessacralizar aqueles que nelas nos representam?


quanto às instituições estou de acordo com o seu comentário, porém achar que a estas se faz maior dano por se estar vestido de fato treino do que por outras acções bem mais mesquinhas e frequentes...

"Não é tanto a falta da gravata que se contesta: há modos de vestir sem gravata cuja manifesta elegância substitui a de um fato tradicional. "

aqui é que vexa revela, penso, a maneira como vê o regime democrata. que quer dizer com elegância? a maneira de vestir de um aristocrata? de um padeiro? à escriturário? a jogador de esférico? à jornaleiro (digo realmente o das jornas)? à senhor doutor? à quê?
e qual é a relação da elegância com o poder? a elegância soviética era sinónima da elegância britânica? da coreana? da qatari?

se tivesse dito aprumo, não faria este escarcéu...


quantos aos chochos e às mamas ao léu concordo consigo, a assembleia não é nem a creche nem o maxime
embora às vezes pareça...

cumprimentos

Joaquim de Freitas disse...

O beijo à Brejnev, que horror! A bandalheira paternal sentimental na corte real, que horror! A matança" real" dos elefantes na África, em tempos de penúria para os sujeitos, que horror! O crime fiscal da princesa, que horror! Enfim, quando as instituições são tão mal protegidas e defendidas por aqueles que as incarnam, que devemos esperar dos sujeitos ou/e dos cidadãos.

Quanto à democracia, se Rajoy e a direita espanhola fossem obrigados a prestar contas à justiça, ela também estaria melhor!

Luís Lavoura disse...

gestos e trajes como estes têm como finalidade tentar dessacralizar as instituições

Discordo pelo menos em parte. Dar de mamar é necessário. Se defendemos o direito das mulheres a compatibilizarem o trabalho com o cuidado dos filhos, e se defendemos que a amamentação natural é benéfica, então devemos permitir a uma mulher que amamente no trabalho. Qualquer mulher, em qualquer trabalho. É isso que eu defendo.

A deputada do Podemos fez o que devia fazer: compatibilizou o seu trabalho como deputada com a sua obrigação como mãe. Não faltou num a um, nem à outra.

José Ferreira da Silva disse...

Caro Sr Embaixador,

Muito obrigado por mais este seu brilhante texto.
Eu também julgo que há "códigos" que não poderão deixar de ser respeitados.
Ao ler este seu artigo lembrei-me da cerimónia de imposição da Comenda da Ordem da Liberdade ao grupo U2, na pessoa de Bono, no ano de 2005, pelo nosso Sr Presidente da República, Dr Jorge Sampaio.
É que Bono apresentou-se de óculos escuros, de camisa vermelha, aberta, e com chapéu tipo cowboy.
Achei um completo desrespeito, tanto pelo Sr Presidente da República como pelo País. Dirão que a artistas algum grau de liberdade se concede. Muito bem. Mas também me lembro que pouco tempo depois o mesmo Bono recebeu uma condecoração britanica e foi vestido.....a preceito.

Anónimo disse...

Não me parece que tenha provocado uma grande comoção em Espanha o facto de o líder do Podemos se ter apresentado em camisa ao Rei. Mas também é verdade que pouco mais conheço dos espanhóis e de Espanha do que ir regularmente a Cadiz comer mariscadas com amigos espanhóis. E ainda por cima, toldado com a cerveja, muita coisa me pode escapar. Eu acho que a melhor forma de verificar isto é ver se o ABC, um pilar do monarquismo espanhol, fez editoriais indignados com tanto desrespeito a su Magestad. Por cá, sim, ainda há meia dúzia de anos o facto de um deputado se sentar no parlamento sem gravata, provocava emoções fortes, quanto mais um deputado apresentar-se de rabo de cavalo e camisa ao PR. Alguém é capaz de imaginar o que seria por cá uma coisa destas?

Anónimo disse...

Há 30 anos era inimaginável que houvesse no nosso parlamento um deputado com um brinco na orelha. Mais do que isso, era inconcebível. É bom para a democracia que tenhamos representantes que se apresentem tal como são. Obviamente, continua a ser aqui difícil que uma deputada amamente um seu filho em pleno parlamento, coisa que não provoca nenhum prúrido nem na mais conservadora duquesa espanhola. Portanto, este é um problema especificamente nosso. Não confundamos. Por alguma coisa são diferentes espanhóis e portugueses, até na forma como os políticos se tratam entre si. Passos e Costa, como se sabe, eram conhecidos desde muito novos, nas jotas, tratando-se por tu. E, no entanto, publicamente tratam-se por vossa excelência, senhor doutor. Não sei, talvez esta forma de tratamento protocolar seja uma nossa forma avançada de democracia…

Anónimo disse...

Ó Embaixador, e então na carregueira, em évora e por ai vai, como se deverão vestir os senhor doutores e "Inginheiros", com cursos tirados aos domingos depois das missisnhas? e o rol está a aumentar, com o pessoal que era do futebol, veiga, damásio que por enquanto saiua, mas pode voltar a entrar etc etc, e já agora o seu amigo Lula, mais conhecido como o macaco barbado de pernambuco, lá foi hoje de táxi da policia federal para ser ouvido, a coisa aperta para o PAi dos pobrezinhos. Há dias dizia-me uma senhora brasileira que quanto mais estudavam mais roubavam. Ora eu que tanto estudei, nunca roubei, bem pelo contrário tenho sido é roubaado á descarada, mas aproveitei e já lhe mandei uma mensagem a dizer que afinal os proto- ignorantes, bem representados pelo macaco barbado afinal não precisam de ir ás universidades para saberem da poda. Mas voltando á indumentária, eu sugeria o traje dos manos dalton. alguns deles tão elegantes que são, como ficariam bonitos. Mais baratos que os fatos de Paris. Assim o amigo silva já não precisaria de doar tanto dinheiro.

Luís Lavoura disse...

Noutro blogue vi que Cavaco Silva nomeou Passos Coelho primeiro-ministro, apesar de saber que ele não tinha maioria a sustentá-lo, porque a democracia tem os seus "ritos". Agora vejo aqui que as instituições têm uma "liturgia".
Não gosto de ver estas palavras de cariz religioso aplicadas à vida civil. Nós somos seres racionais, que diabo, não nos devemos reger por superstições e gestos sem sentido.

Eduardo Saraiva disse...

Post muito oportuno. Vou "roubar".

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Brilhante e completamente de acordo. Esta maltinha quer abandalhar.

É a diferença entre " à vontade " e " à vontadinha "

Joaquim de Freitas disse...

Oh Senhor Mello Breyner, aconselho-o a ir dar uma voltinha pela Corte de Espanha e pela Corte do RU, talvez veja os escândalos fiscais e outros , de reis e príncipes, uns caçadores iméritos sem vergonha, outros que arvoram o "brassard" nazi, e participam a orgias sexuais, em bebedeiras monumentais.

Não, Senhor Mello Breyner, a "upper class" não é homogénea do ponto de vista classe. E se não se fala mais dela é porque os media só se interessam aos que a combatem. Na realidade existe entre estas duas classes um mundo , mas não é aquela que pensa que está no fosso!

Procure bem onde se encontra a bandalheira na qual a sociedade se encontra hoje. E que lhe faz tanto mal e à democracia. E sobretudo quem dá os maus exemplos aos bandalhos potenciais, senão os bandalhos afirmados que tiram proveito duma sociedade sem valores reconhecidos.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Concordo plenamente consigo. É fundamental que as instituições democráticas, Parlamento, Tribunais e Governo sejam plenamente respeitadas e o traje faz parte disso.

É impensável ver um juiz no tribunal sem toga, assim como é inaceitável que o líder do Podemos se tenha apresentado ao Rei e no Parlamento naquela forma.

Anónimo disse...

Quanado ai diz que ele foi sempre amável e amigo de Portugal, deve estar a falar entre outras coisas daquilo que há tempos ele foi dizer da nossa colonização no Brasil. Tenho dá de quem assim tanto se abaixa a um ignorante daqueles.

Anónimo disse...

nem a proposito

http://www.dn.pt/mundo/interior/a-deputada-britanica-que-ja-foi-confundida-com-uma-empregada-de-limpeza-5061914.html

cumpirmentos

Anónimo disse...

Anónimo das 21:21, isso é um juízo que cabe aos espanhóis, incluindo o seu Rei, que não lhe encomendaram o sermão.
Há profissões no Estado que exigem farda: a toga nos juízes, a casaca ou o fraque nos embaixadores (e gravata e fato de bom corte em qualquer circunstância), a farda da policia, etc. Quanto aos políticos, representantes do povo, já os vi vestidos de todas as formas e já lá vai o tempo em que se exigia que se apresentassem de gravata no parlamento, por exemplo. Mas, por aqui, ainda se aplica plenamente aquele dito de um viajante inglês, em tempos: vestem-se com fausto, sem lavarem as partes baixas.
Senhor Mello Breyner, a maior preocupação dos espanhóis é o "à vontadinha", com que señoritos engravatos roubam o Estado. Questão de prioridades. Deixemo-nos de tartufices.