quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um abraço, Georgios

Não é vulgar repetir um post. Mas vou reproduzir o que aqui publiquei, em 5 de outubro de 2009, porque ele é o melhor retrato que consigo fazer de um amigo que foi, até há uns minutos, o primeiro-ministro da Grécia:

"Georgios Papandreou foi ontem eleito primeiro-ministro da Grécia.

Desde o tempo em que foi secretário de Estado e depois ministro dos Negócios Estrangeiros do seu país, Georgios anima anualmente um clube internacional de discussão, para o qual tive o privilégio de ser por ele convidado algumas vezes - o Symi Symposium. António Guterres e Jaime Gama foram os outros portugueses presentes nessas reuniões, que têm uma composição variável. Por lá passaram já Bill Clinton, Amartya Sen, Joseph Stiglitz, Richard Holbrook, Fernando Henrique Cardoso, Yossi Beilin, Ségolène Royal, etc. São encontros com cerca de 25 pessoas, cada uma de sua nacionalidade, realizados sempre em locais diferentes da Grécia, nos quais, durante uma semana, se pensa livremente o mundo e, muito em especial, a Europa.

Houve um desses debates, creio que em 1999, que nunca mais esquecerei. Estávamos no tempo imediatamente posterior à grande crise do Kosovo e, à mesa, desencadeou-se uma acesa discussão entre uma resistente sérvia, aberta opositora de Milosevic, e um intelectual kosovar, recém-saído de meses de clandestinidade em Pristina. Num certo momento, o kosovar, num óbvio excesso de argumento, volta-se para nossa amiga sérvia e ataca-a da seguinte forma: "tu podes ser pró ou anti-Milosevic, mas o problema que nunca poderás ultrapassar é o facto de seres sérvia!".

Todos ficámos gelados! O ambiente de diálogo e cordialidade que caracteriza, desde há vários anos, aquelas reuniões, que não impede discussões acesas e vivas, nunca terá chegado a um extremo tal de agressividade, muito fruto de um tempo de tensão balcânica cuja conflitualidade inter-étnica ficámos, naquele instante, a perceber bem melhor.

Foi então que, com o seu ar sereno, no tom suave que nunca perde, Georgios interveio. E fê-lo para contar uma história, que se tinha passado consigo, já há muitos anos.

Durante a ditadura militar grega, o seu pai, Andreas Papandreou, que mais tarde viria a ser primeiro-ministro, encontrava-se na clandestinidade. Uma noite, o exército invadiu a casa da família de Georgios, que era então adolescente, e levou-o de carro para uma qualquer zona da Grécia. Umas horas mais tarde, ao chegarem a uma moradia isolada, cercada pela tropa, Georgios viu o oficial que o detivera e que comandava o grupo pegar num megafone e dirigir-se à habitação, que logo compreendeu ser o esconderijo onde estava o seu pai. O oficial gritou então para que Andreas Papandreou se rendesse, informando-o de que tinha ali o seu filho, que prenderia se ele não se rendesse, tudo isto acompanhado de outras ameaças violentas. Perante este cobarde ultimatum, o pai Papandreou entregou-se e foi preso.

A história que Georgios nos contou tinha um significado que ele pretendia projectar no ambiente de tensão que se criara no nosso debate. Porque acrescentou: "na passada semana, encontrei casualmente o militar que fez essa chantagem comigo e com o meu pai, utilizando-me como refém. Estendi-lhe a mão e cumprimentei-o. Essa é a nossa superioridade como democratas".

Recordo-me que todos olhámos para os nossos amigos da Sérvia e do Kosovo, para tentar perceber se eram sensíveis à lição. Não estou certo que ela tenha sido eficaz.

Se outras razões não tivesse, fruto da minha já antiga amizade com Georgios Papandreou, este testemunho reforçou-me a admiração pelo perfil humanista do homem que, desde ontem, dirige os destinos da Grécia. E a quem já dei os meus sinceros parabéns."

13 comentários:

tulipas disse...

"Estendi-lhe a mão e cumprimentei-o. Essa é a nossa superioridade como democratas".
Grande frase! Grande atitude! Grande Homem!
Ao lê-la, meu corpo estremeceu, de facto é a atitude de um grande democrata. Tenho duvidas se seria capaz...eu e muitos outros.
Respeitosos cumprimentos.

Anónimo disse...

Bem interessante o exemplo.
Mais ainda a sua memória nas horas dificeis.

LUIS MIGUEL CORREIA disse...

Uma das frases recorrentes da actual comunicação oficial lusa que me incomoda sinceramente é a afirmação recorrente de que "Portugal é diferente da Grécia."
Sempre gostei da Grécia e me senti bem entre os gregos. Lamento a actual tragédia Helénica que é de toda Europa...

EGR disse...

Senhor Embaixador : peço licença ao
anónimo das 18.27 para subscrever o seu comentário.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, os verdadeiros amigos são para as ocasiões. Um testemunho muito, muito bonito!

Isabel BP

Julia Macias-Valet disse...

Nao me recordo de ter lido este seu post em 2009 mas ele toca-me ainda mais depois de na passada semana ter visto as imagens de acolhimento aos chefes de estado durante o G20...

O presidente Nicolas Sarkozy acolheu, escoltado pela guarda Republicana, todos os representantes dos paises presentes à reuniao. Todos ? NAO ! Excepto Geogios Papandréou que nao tinha rigorosamente NINGUÉM para lhe "apertar a mao".
É triste "et petit"...

Julia Macias-Valet disse...

Para os queiram verificar o que acabo de dizer, ver aqui
ao 15 minuto + ou - . Mas aconselho-vos a ver o "Le Petit Journal de Yann Barthès" na integra.

http://www.canalplus.fr/c-divertissement/pid3351-c-le-petit-journal.html

Clicando a seguir na emissao de 03/11/11 - Festival de Cannes

Anónimo disse...

A história é comovente, no entanto é preciso ver uma pouco por detrás da cortina que separa os politicos do seu povo .

O Marcelo Caetano também foi "preso" pelo golpe militar e se calhar não se importaria de estender a mão aos militares que o prenderam!

Em politica, nada é feito ao acaso e tudo é feito com base em roteiros pré definidos e cozinhados nos bastidores entre todos os intervenientes!
É evidente que os funcionários politicos tem bons ordenados, boas reformas, bons lugares quando saem da politica activa, etc .

Eu tive o previlégio de conhecer pessoas que viveram intesamente os bastidores da politica e me confirmaram essa realidade.

Não quero fazer juizos de valor nem apreciações pessoais, apenas quero dizer que a Grécia, primeiro , Portugal , segundo e os restantes que virão , fazem parte de um espectáculo previamente definido para criar a depressão generalizada da Eutopa e da America e assim obrigar os povos a aceitar restricções , perder direitos , retornar à miséria , que de outra maneira não iriam aceiar!!!

Papandreu, é um homem da Goldman Sachs e contribui para a derrocada do pais como muitos 1º ministros que passaram por Portugal !

O objecto final , como aqui escrevi é forçar os povos a consumir menos, a terem menos mobilidade e a serem governados por um governo mundial, que emergerá da ONU, com uma moeda global, que não será nem o Euro nem o Dollar. E quanto à religião, depois de estalar a guerra que Alfred Pike designou pela guerra das religiões ( 3ª) aparecerá uma religião global .

Este é o Roteiro, os figurantes pouco importa , ontem foi o Papandreu , amanhã será outro . O filme é que continua até ao objectivo final !

Ogam

Anónimo disse...

Cara Júlia, vi o vídeo e é deveras mesquinho! :(

É triste "et TRÈS petit", mas o anfitrião não é propriamente um gentleman... A não ser para Frau Merkel!!!

Isabel BP

Fada do bosque disse...

E qual foi a lealdade que os “parceiros europeus” mostraram para com a Grécia e por essa Superioridade Democrática? Além de tomarem conta de algumas indústrias, desmantelarem o Estado e quase a apagarem como potência regional? Quando se invocam coisas como a lealdade e a honra (quase primordiais) é preciso 1) saber a gravidade do que se invoca e 2) compreender que são fenómenos mútuos…

Portugalredecouvertes disse...

Também devo dizer que me sinto incomodada quando ouço dizer que Portugal é diferente da Grécia, porque os países parecem ser levados por turbulências que não se controlam nem se entendem!

Helena Oneto disse...

A proposito da frase de Georgios Papandreou "Essa é a nossa superioridade como democratas", lembro-me que o meu tio Fernando foi muito criticado por alguns auto-intitulados "democratas" que oficiavam em Caxias na Comissão de extinção da PIDE, por ele tratar por "senhor" ou "senhora" os pides que ele interrogou inclusive os que o torturaram. A reposta do meu tio foi exactamente a mesma: Essa é a nossa superioridade como democratas.

Anónimo disse...

Pelo menos o Euro serviu para alguma
coisa para a Grécia livrou-a de uma nova ditadura.
O Euro é democracia pura, embora possa não parecer.