domingo, 3 de julho de 2011

Etimologias

O ambiente era excelente, naquele restaurante tradicional de uma velha cidade do mundo árabe, em que as autoridades nos ofereciam um almoço, com as melhores especialidades locais. Sentávamo-nos em largos almofadões e cruzávamos as pernas para poder aceder às vitualhas que, com abundância, nos eram trazidas por ondas cíclicas de fâmulos, intervaladas por momentos em que nos aspergiam com água perfumada. A ocasião estava a ser muito agradável, a temperatura fresca da sala ajudava a compensar a manhã de intenso calor, que fora passada em visitas a empresas e a obras públicas. A diplomacia económica estava a ter uma merecida pausa gastronómica.

Era patente uma hesitação, entre alguns membros daquela delegação oficial portuguesa, quanto ao modo como abordar certos pratos. Eu era um desses hesitantes. É que, em muitos casos, e por exclusão de partes, não se via outra solução senão usar as mãos para comer aquilo que nos ia chegando às mesas redondas de latão desenhado, pelas quais informalmente nos distribuíamos. E a verdade é que havia quem nisso tivesse alguma relutância, como era o meu caso.

Um dos colegas desse grupo português, com uma profissão técnica que nem recordo, dava-se, contudo, ares de grande familiaridade com os hábitos daquele tipo de refeições, forte de experiências de que se gabava, tidas em desertos e oásis, sobre as quais contava histórias das arábias, num "estrangeiro" algo macarrónico. Isso seria o menos, se tal familiaridade não o levasse a assumir algumas atitudes de muito mau gosto, de escassa elegância e educação. O seu avançar ansioso para a comida, dando uma imagem quase famélica, começava a incomodar-nos, aos olhos dos nossos delicados anfitriões. É que, perante tudo quanto nos era servido, ele chafurdava de imediato as travessas, de forma quase obcena, com as mãos e até a cara a resplandescerem já de coisas oleosas. Falava com a boca cheia e aberta, monopolizava o diálogo, como se o mundo lhe fugisse e todos tivéssemos obrigação de ouvir os seus percursos de mil-e-uma-noites. O espetáculo estava longe de ser edificante para as cores nacionais, que ali representávamos, nesse tempo, já longínquo, em que a diplomacia portuguesa  procurava reforçar a sua relação económica com o mundo árabe.

A conversa daquele nosso técnico, resvalou, a certo passo, para o consabido lugar-comum com que a generalidade dos portugueses avança, quando têm um árabe à mão: a origem de certas palavras começadas por "al". Desde há muitos anos, na vida diplomática e social, costumo medir o tempo que este tema demora a chegar à tona, sempre que estamos perante pessoas de origem árabe. Pela minha experiência, raramente passa dos cinco minutos...

Agarrando com uma mão uma coxa de frango, com a outra à busca de fritos que, aparentemente, não queria deixar arrefecer nas travessas, falava ele então de Alcantarilha, de Alcoutim, de Almeirim e de coisas do género, num imparável chorrilho de lembranças em "al", que tem sempre como momento de suprema erudição o significado de Alcântara (para "a ponte") e de Algarve (para "o ocidente"). Os nossos anfitriões, coitados, não podendo fazer outra coisa, sorriam.

O nosso homem, a certa altura, soergueu-se das almofadas, atravessou-se por cima da sua mesa, pela frente das pessoas, e, ao tentar agarrar um pedaço de borrego que acabara de chegar numa travessa, com ótimo aspeto, escorregou e o braço deslizou-lhe para um prato oleoso, logo apanhando na manga do fato uma imensa nódoa, das que fazem as delícias profissionais do "5 à Sec". 

Mesclada com manifestações oficiosas de pena, atravessou-nos uma irreprimível risada coletiva, como se todos estivéssemos à espera que, mais cedo ou mais tarde, a justiça divina acabasse por se abater sobre aquele triste comportamento.

Eu era então um jovem diplomata, irreverente e de graça rápida, que me sentia incomodado pela imagem que aquele colega estava ali a dar do nosso país. E não resisti. Fazendo uma cara um pouco mais séria, dando-me ares de, muito simplesmente, querer prolongar a conversa etimológica que ele tinha iniciado, perguntei: "Diga-me lá: você acha que "alarve" também é uma palavra de origem árabe?".

Os portugueses à volta das pequenas mesas encangalharam-se a rir. Os árabes não percebiam o que se estava a passar. O homem, que não era parvo nenhum, fusilou-me com o olhar e, por pouco, não terei apanhado com uma daquelas travessas de especialidades oleosas. Nunca mais me falou. Até à sua morte, há já alguns anos.

25 comentários:

Anónimo disse...

Magnífico, Senhor Embaixador

Helena Oneto disse...

Ahhh!:) Mais uma das suas "graças rápidas" digna de Almanaque! Imagino a cena... Esta estória dava uma soberba comédia das antigas! Nada melhor para acabar um domingo a rir às gargalhadas:)!

Anónimo disse...

Demais(...)
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Ainda bem que "os árabes não percebiam o que se estava a passar", pois que, num infeliz assomo de xenofobia na nossa língua, é mesmo de "al-árab" que o tão pejorativo "alarve" vem.

Anónimo disse...

Caro Francisco,
Não resisto voltar a sugerir-lhe que escreva um dia na reforma uma espécie de "memórias diplomáticas"! Genial descrição.
cordial abraço!
P.Rufino

catinga disse...

Vamos ao que interessa: no fim, alguém arrotou?

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu estimado Embaixador devo-lhe a primeira risada franca deste pesado fim de semana. Bem haja!
Espero que ela seja o ponta pé de saída para voltar ao meu normal.

Anónimo disse...

Catinga,
A propósito do seu patusquíssimo comentário, tanto quanto me é dado saber, o arroto é uma prática mais dos chineses (sem ofensa para os mesmos), o que não quer dizer que, pela descrição do tal “alarve (ou, Al- Arve)” não se coadunasse com a personagem do Post.
Um dia, algures pela Ásia, num restaurante mediano – eu era único ocidental – dois dos convivas, no termo do repasto, arrotaram, com toda a dignidade (!) e postura facial seraficamente adequada e, prosseguindo a conversa, ainda me comentaram: “estava excelente!”, como que a justificar a “expressiva forma” com que tinham acabado de brindar a refeição. E foi excelente, acreditem. Hábitos não se discutem, já dizia um velho tio meu.
Noutra ocasião, num almoço em casa de uns amigos ingleses, algures no “country side” da Velha Albion, uma simpática octogenária, mãe de um dos presentes, a meio da refeição, deu um arroto, que não sendo exageradamente sonoro, nem por isso deixou de chamar à atenção de todos os presentes, que, como bons ingleses, fingiram ignorar, para não embaraçar a velha senhora e a conversa continuou, como se nada fosse. Mas, ainda hoje julgo que ela me deitou um vago sorriso maroto. Talvez por ser, também ali, o único “não-inglês”.
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro P. Rufino
Não pude deixar de sorrir com o seu post, que me lembrou algo passado numa família amiga.
Num jantar de aniversário de uma velha senhora que havia passado muitos anos na China, falava-se dessas estranhas manifestações ruidosas de satisfação alimentar, quando alguém se "descuidou" noutra igualmente sonora, mas de odor pouco agradável. Fez-se algum silêncio. Que acabou a velha aniversariante disse esta frase lapidar "continuemos a conversar. A Berta já arrotou...como poude". A gargalhada foi geral!

carlos disse...

A parte de que eu gostei mais do engraçadíssimo post é quando o sr. embaixador confessa que os convivas "encangalharam-se a rir" (SIC). Esse verbo tem um também um requinte etimológico precioso. Por isso, também me ri muito, apesar de não ter chegado tão longe.
Muito obrigado por este momento de boa disposição.
Deus o guarde - e às suas memórias - por muitos e bons anos!

Anónimo disse...

Estimada Helena,
Fabuloso comentário este seu!
O que eu me ri! E essa do "como poude" é única!
É um gosto lê-la, HSC.
Cordialidade,
P.Rufino

Fada do bosque disse...

Pois... sr. Embaixador... essa do alarve foi a doer! :))))
Brilhante este seu post! :)

Mônica disse...

Sr Embaixador.
O senhor consegue como poucos fazer de um fato irritante, uma parte hilariante.
com carinho Monica

Anónimo disse...

Mais um post divinal! :)

Isabel BP

patricio branco disse...

a fotografia e o texto abrem o apetite, comida do medio oriente, humus, pão arabe, azeitonas, pepino com molho de iogurte, borrego assado.
Evitar no entanto sujar a manga e comer sofregamente mesmo com apetite e apreciando as iguarias. Não são boas maneiras.
Falar um pouco das influencias arabes no português não está mal, no entanto.

catinga disse...

Sempre ouvi dizer que a saudável prática do arroto era comum a "árabes" e "chineses". Só lhes fica bem, acreditem!

De repente, lembrei-me da minha professora de Japonês que dizia "A massa tem de ser comida com barulho. Vocês não fazem barulho. Assim, não tem piada".

Sabedoria oriental?

Anónimo disse...

"Alarve" provem, de facto, de "al-arab"; a evolução semântica começou com a utilização insultuosa e racista do termo para designar uma "pessoa que se comporta mal".

Anónimo disse...

A minha velha não perdoa (mas está triste, que não dá, diz, pra rimalhar palavrôes):

sereis parente ou parenta
anónimos que o mesmo sabeis
o de ontem às três cinquenta
hoje às doze trinta e seis.

papoila disse...

Que bom foi passar por aqui!
Duas grandes histórias, duas enormes gargalhadas.

Anónimo disse...

Estarão os frères Dupont/Dupond a comentar por aqui?
4.07 às 03.50 fomos esclarecidos que alarve era efectivamente de origem árabe e que não queria senão dizer: o árabe e que Dona Semântica tivera uma crise de xenofobia!
Eis que hoje, 05.07 às 12.36, chega o 2º mano Dupont a dizer mais... do mesmo!
Pelas alminhas, um pouco mais de atenção! Todos nós tinhamos entendido a primeira explicação! :)

Anónimo disse...

Acabo de ver que uma tal rimalhadeira que por aqui nos sarrazina (origem árabe?) também deu pelos Frères Dupont/Dupond...

Anónimo disse...

a velha sarrazineira (que vem de 'sarraceno', sim senhor, em mais uma traquinice semântica do português) gostou dos dupond e apressou-se a integrá-los na rimalhice:

o mesmo anónimos dizeis
dupond com dupond se apresenta
dia quatro ás três e cinquenta
e cinco ás doze e trinta e seis.

…e anónim@ de hoje ás zero e quarenta
repete o que disse antes - eis.

Anónimo disse...

a sarrazineira rimalhadeira meteu-se no tinto e rimou desatinada! Ora corrija lá a métrica coxa, faz favor!
xg

Anónimo disse...

Caro/cara xg, muito obrigado. Não me lembro de ver esta velha senhora tão envergonhada:

por uma vez me chega xis gê com razão
sinto-me velha pega a mim o palavrão
pla métrica que errei a esta me abandono
foi bem do tinto a lei e foi em mim o sono.

E corrigiu assim, enquanto se cobria de palavrões:

o mesmo anónimos dizeis

dupont com dupond se apresenta

dia quatro ás três e cinquenta

e cinco ás doze e trinta e seis.

…e anónim@ ás zero e quarenta
de hoje seis acusar podeis
que dupont e dupond comenta
em dois postes também ora eis.

Cunha Ribeiro disse...

Que grande momento literário! Parabéns.