quarta-feira, 15 de junho de 2011

Votos

Uma locutora da conhecida escola do jornalismo ofegante, presente na sala onde hoje se contam, com toda a serenidade, os votos das comunidades portuguesas no estrangeiro, afirmava há pouco, numa televisão, de forma jornalisticamente irresponsável, que o ambiente vivido na sala parecia o de uma "eleição africana" (aquele telejornal é transmitido também por toda a África, pela SIC Internacional). 

Ora o ambiente era idêntico ao de qualquer local de contagem manual de votos, em todo o mundo. Com o seu comentário, a senhora em causa, para além do seu triste e preconceituoso eurocentrismo, lançou uma nota de injusto descrédito sobre o sistema eleitoral português, cuja eficácia está acima de toda a suspeita, tanto mais que tem todos os mecanismos de fiscalização e controlo necessários para o apuramento rigoroso da vontade popular.

A locutora já se deve ter esquecido da "africana" Flórida...

23 comentários:

Anónimo disse...

Ouvi e estarreci!
P. Rufino

Alcipe disse...

Se fizeres essa pergunta à dita locutora, ela nem percebe a que te estás a referir...

Alturense disse...

Infelizmente o jornalismo televisivo (e os outros, já agora) anda pelas ruas da amargura.

Na última segunda-feira uma jornalista da RTP 1, dizia-nos, em directo da sala de monitorização das Estradas de Portugal, que, apesar de ser dia de regresso de um fim-de-semana prolongado, "não havia trânsito". E repetiu o disparate mais três ou quatro vezes.

Claro que todos nós víamos nos monitores que havia trânsito. O que não havia era o congestionamento que, provavelmente, a senhora esperava.

Depois, não satisfeita com o disparate, adiantou que a ausência de trânsito se devia ao facto de no dia 13 de Junho "apenas ser feriado em Lisboa".

Não há quem lhe diga que mais de vinte municípios celebram o seu feriado neste mesmo dia?

Ainda há pouco ouvi, na mesma estação televisiva, o jornalista Rodrigues dos Santos afirmar que alguns deputados da Catalunha tinham entrado no Parlamento sob "escôlta". Depois, a jornalista que fez o desenvolvimento da peça, já pronunciou escolta, abrindo a vogal.

Mas disparates jornalísticos são o pão nosso de cada dia.

Carlos Fonseca

catinga disse...

Mas, Sr. Embaixador, ainda tem dúvidas de que a comunicação social é um dos grandes cancros da sociedade atual (nomeadamente a portuguesa)?

O que diz desta pérola: uma jornalista da RTP pergunta a um curioso por astronomia (há coisa de meia hora), como é que ele consegue fotografar a Lua sem flash?...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Catinga: é verdade???!!!

Fada do bosque disse...

Tanto é Sr. Embaixador que o Catinga já fez um post lá no seu blogue. :))
O Catinga não perdoa... e com razão! O que me ri já, com os posts acutilantes do Catinga! :))

Elisa disse...

Quando das últimas inundações em Lisboa,andavam os bombeiros atarefados a escoar a água e a ajudar a limpar casas e estabelecimentos comerciais, da lama que se acumulava, dizia uma jornalista num dos telejornais das 20.00: ”os bombeiros estão a proceder à operação de rescaldo” : ))

Anónimo disse...

"Depois, não satisfeita com o disparate, adiantou que a ausência de trânsito se devia ao facto de no dia 13 de Junho "apenas ser feriado em Lisboa".

Não há quem lhe diga que mais de vinte municípios celebram o seu feriado neste mesmo dia?"

Não, caro Alturense! É que eles e elas "pensam" que o país é Lisboa. E o resto nem paisagem é!

Até deve ter sido capaz de falar no concelho de Lisboa, quando os concelhos deixaram de existir vai para 30 anos....

Mas que dizer, se a extinção dos concelhos foi feita aquando da revisão constitucional assinada pelos lideres do PSD e do Ps de então, Cavaco Silva e Vitor Constâncio, e uma dessas personalidades que ocupa hoje, curiosamente o mais alto cargo da Nação, ainda falar publicamente em concelhos?!!

É o lisboetismo e...não só! Mas isso levar-nos-ia longe...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Posso entrar?

Um jornalista que foi meu (in)subordinado no Diário de Notícias redigiu, em princípios de Dezembro de 1975, uma pequena notícia que rezava assim:

Ontem, em Portalegre, fulano assassinou o senhor beltrano, com sete (???) tiros de revólver, dos quais felizmente apenas um mortal. O alegado criminoso foi detido pela PSP.

(In)felizmente, o então Chefe da Redacção-adjunto, um tal Antunes Ferreira, cortou a prosa. A Comissão de Trabalhadores, face ao opróbrio, deliberou por unanimidade o fuzilamento do censor.

Porém, face à prova documental em suporte de papel amarrotado e deitado na cesta secção do tal AF, mas devidamente recuperado, a execução ficou adiada para um outro dia, caso fizesse bom tempo.

Coisas destas sempre houve, há e haverá. Mas, nos tempos que correm, são em demasia, penso eu de que.

EM TEMPO: O criminoso confesso, ou seja o supracitado AF tem em seu poder a prova convenientemente desamarrotada; e, além disso, há testemunhas presenciais da ocorrência. Já tá.

Anónimo disse...

As pérolas do jornalismo nacional sucedem-se, também fiquei horrorizada com a "eleição africana". Enfim!

Isabel BP

Anónimo disse...

Todas as generalizações são perigosas inclusivé esta...

A tentação de tomar a parte pelo todo,é compulsiva e transversal...

Calma também me incluo...
Mas não me orgulho.
Isabel Seixas

Julia Macias-Valet disse...

(alguns) Jornalistas...esses iluminados !

Os (alguns) jornalistas funcionam como os circuitos na fisica...em sistema fechado !

Caro Catinga nao pode imaginar como me ri com o seu post de "tendências fashion" sobre camuflados : )))

António disse...

Estremeci de vergonha ao escutar esse impropério etnocêntrico de mais uma das "estrelas da comunicação" (ex-jornalistas).

Já se torna raro ligar a TV na minha casa porque, do que ouço e vejo, me exalto de indignação, que logo passa a vergonha (alheia) e depois a depressão.

Como é possível que, quando a Imprensa não era livre e não existiam licenciaturas em comunicação, os nossos jornalistas fossem muito melhores?

Qualquer um dos velhos repórteres, agora na reforma ou apenas na memória, que outrora batia teclas nas Messas e Remingtons, em redacções fumegantes do Bairro Alto, sabia mais de jornalismo, era muito mais culto e detinha uma ética muito superior ao de uma redacção inteira destas "estrelas" pagas a peso de ouro.

Contra todo os princípios, agora o mais importante da notícia é o próprio jornalista. Ainda conheci grandes profissionais na RTP que jamais davam a cara para a câmara. Agora, não é possível ver uma reportagem sem o respectivo "palhaço" (perdoem, mas é gíria da profissão) em primeiro plano. A tudo se sobrepõe a obsessão "desta vaidade, a quem chamamos fama".

A Imprensa portuguesa é, actualmente e na generalidade, tão inculta e tão clientelar como nunca antes foi. Decerto que tivemos tempos muito maus, com muito jornalismo de frete; mas nunca a ignorância, a incultura e a fatuidade dos jornalistas chegou tão longe como agora.

Subjacente a este falso jornalismo, está a conhecida cultura da cunha, tornando o acesso à profissão dependente de empenhos familiares e outros interesses da mais variada índole.
Incapaz de me sujeitar aos mesmos métodos, prisioneiro de uma ética que aprendi com velhos e nobilíssimos camaradas, permanecerei desempregado de longa duração.
Ao contrário da contagem dos votos, é aqui, nesta cultura da corrupção e da cunha, que Portugal está muito mais perto das ditaduras africanas do que das democracias europeias. E é esta cultura que ditará o irreversível fracasso português e o fim da nossa História.

Helena Oneto disse...

Caro António,
Concordo com tudo o que disse excepto a última frase: Há portugueses de grande qualidde capazes de salvaguardar a História do nosso país.

catinga disse...

Eu bem tentei "apanhar" o momento do telejornal em que semelhante pérola nos foi oferecida mas, logo por coincidência, era o único que não abria, no "site" da RTP. Paciência.

Mas... se gostaram da história do flash à Lua, fiquem ainda com esta sobremesa: a jornalista apresentou o senhor em questão como alguém que ia fazer uma coisa "inédita" - tirar uma fotografia usando o telescópio!!!

catinga disse...

Relativamente ao comentário do "parecer África", deixemo-nos de "politicamente correto": alguém acha, em boa verdade, que uma comparação com África pode ser positiva? Só se for vinda de um tratador do Jardim Zoológico (algo do tipo: as zebras em Angola são mais bonitas).

Não há etnocentrismo mas sim realismo e noção de que a Europa é - ainda -, um paraíso a todos os níveis e um verdadeiro padrão. A jornalista merece, realmente, ser criticada por comparar Portugal com África mas... não faz ela senão alimentar essa mania tão lusa do "isto é do terceiro mundo"?

Anónimo disse...

E as embaixadas africanas em Lisboa nao poderiam a "cabeça" do Presidente dessa televisao?!!!!

Senhor embaixador isso nao é so eurocentrismo, mas sim RACISMO!!!!

Reporter X

catinga disse...

Reporter X, que embaixadas africanas? As dos países em guerra civil? As dos países a morrer à fome? As dos países sob ditaduras? As dos países com regimes racistas? As dos países com regimes fundamentalistas? As dos países onde se praticam sistemáticos genocídios? As dos países de onde a população foge à violência e à miséria?

Está a pensar em que países de regime democrático impoluto?

Francisco Seixas da Costa disse...

Por lapso, o post referiu (já foi corrigido) que a jornalista era da RTP quando, de facto, era da SIC

Fada do bosque disse...

Ouvi em directo na Antena1, enquanto os jornalistas esperavam para saber como se comporia o novo Governo, uma jornalista a dizer:- Vem aí o carro do Sócrates, mas com outro motorista e no lugar do morto é um adido!

Anónimo disse...

Realmente, "Flórida" só se for africana mesmo já que, na América, apenas conheço a Florida...

:)

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 18.12: É tanto Flórida como Geórgia, não acha?

Anónimo disse...

Não, não é. "Florida" vem de "Pascua florida" (espanhol), logo é um adjectivo e deve ser respeitado.

Georgia tem a ver com uma homenagem a um rei. Escrever com acento só serve para respeitar a nossa ortografia. O significado não muda.

Faço notar que "Florida" é de uso corrente.