domingo, 12 de junho de 2011

Fado nos trópicos

Naqueles tempos, as relações políticas entre Portugal e Angola eram muito tensas, fruto conjugado de diversas circunstâncias, só parte das quais assentes na racionalidade das coisas, a qual ainda demoraria algumas décadas para se impor. A comunidade portuguesa atravessava então um período de alguma insegurança, pelo que a comemoração do Dia de Portugal constituía um importante momento para a sua união. Por parte da nossa embaixada, era também uma ocasião para fazer passar uma mensagem de confiança e esperança.

Foi isso que pensou o embaixador António Pinto da França, que era e é a personificação de um homem de boa-vontade, o qual havia chegado a Angola disposto a tentar o impossível para aproximar os dois países, superando o ceticismo, quase desanimado, de alguns dos seus colaboradores, que, depois de muito terem porfiado em remar contra a maré, já só achavam que "não há nada a fazer!". Afinal era ele que estava cheio de razão, como o tempo viria a provar.

Num desses "Dia de Portugal" organizado para nossa embaixada em Luanda, António Pinto da França decidiu convidar, para fazer um espetáculo para a comunidade, uma fadista na altura em voga no nosso país - Luz Sá da Bandeira. O fado é uma linguagem musical que, para além de alimentar o sentimento dos portugueses expatriados, poderia ter como potencial condão fazer despertar, em alguns setores angolanos, memórias subliminares que ajudassem a minorar a crise de afetividade que então se atravessava. Na verdade, só eu, com a frieza político-estratégica que vinha dos tempos da "ação psicológica", havia pensado as coisas dessa forma. O embaixador Pinto da França, com a sua sensibilidade diplomática apurada, havia considerado, muito simplesmente, que um bom espetáculo de fado ficaria bem, para juntar os portuguses e convidados, nesse 10 de junho.

Mas essa opinião não era generalizada. Alguém expressou discretas reticências quanto à bondade da escolha daquela cantora. Por razões de natureza musical? Não, apenas pelo seu nome. Essa pessoa comentou - nunca se percebeu se totalmente a sério - que o nome de "Sá da Bandeira" poderia soar como estranho aos ouvidos mais militantes da política local, cujo regime tinha caprichado, anos antes, em mudar o nome da cidade angolana de "Sá da Bandeira" para "Lubango".

O assunto, porém, logo morreu por aí, entre gargalhadas. Ninguém chegou ao ponto de pensar mandar imprimir cartazes e convites para uma sessão de fados de "Luz Lubango"...

2 comentários:

Anónimo disse...

Apaguem a Luz que se vai cantar o fado...

Tiradas bem engraçadas.
Isabel Seixas

catinga disse...

Bonito, bonito, era os antigos nomes das cidades serem readotados. Mas isto são sonhos...

Olharmos - por exemplo -, para os EUA e vermos que mantiveram todos os nomes deixados pelos Mexicanos... Ah, inveja!