segunda-feira, 27 de junho de 2011

Dedicatória

Vi-o ao longe. Estava mais gordo, com uma forte bigodeira. Mas não havia dúvida: era aquele velho conhecido que estivera comigo na tropa, com quem passara longas horas à sueca, na messe da EPAM, nos tempos que antecederam a Revolução de 1974. Nas três décadas que tinham entretanto decorrido, havia-me cruzado com ele num restaurante e num aeroporto. Momentos breves, em que falávamos de amigos comuns, por onde cada um de nós andava e de uma almoçarada que nunca acontecia.

Eu estava sentado a uma mesa, com uma longa fila de gente à frente, para dedicatórias que fazia em exemplares de um livro que lançava nesse dia. Tal como as centenas de pessoas que tinham tido a simpatia de querer estar comigo na sessão, esse amigo, que devia ter lido num jornal que eu publicara um livro, quis ir dar-me um abraço e obter uma palavra escrita minha no seu exemplar, como a nossa velha relação pessoal mais do que justificava.

Só que, de repente, uma imensa angústia me começou a invadir: como é que aquele amigo se chamava? Eu sabia o nome, várias vezes falara dele a outras pessoas, mas, naquele preciso momento, não me "saía". À medida que eu ia "aviando" quantos o antecediam, ele sorria-me, com uma proximidade física vez mais temível, seguro da nossa cumplicidade de outros tempos. Eu estava já a ter alguma dificuldade em me concentrar nas dedicatórias feitas às pessoas que estavam à sua frente, temendo mais alguma "branca", que o meu crescente nervosismo pudesse provocar. É que, francamente, não me estava ver com a "lata" de lhe perguntar: "ó pá! desculpa lá! relembra-me o teu nome". Mas que diabo podia eu fazer?

E o momento fatídico chegou. O meu amigo estava, enfim, no topo da fila, frente à mesa, sobre a qual colocou o exemplar que comprara à entrada. Eu levantei-me para lhe dar um abraço, agradeci-lhe ter vindo e voltei a sentar-me, derreado pela tragédia da impossível dedicatória. Até que o ouvi dizer, para meu imenso descanso: "Dedica isso ao Luís, o meu filho, que quer entrar para a carreira diplomática e a quem tenho falado imenso de ti". 

Claro que dediquei, com todo o gosto, lembrando, no que escrevi, a minha velha e imprescritível amizade com o pai. Nunca soube se o rapaz chegou a entrar para as Necessidades. Mas, um destes dias, vou dar uma vista de olhos àquele inventário de nomes, a que chamamos lista de antiguidade. É que, entretanto, eu nunca mais me esqueci do apelido do homem.

7 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caramba!, isto sim, isto é uma crónica!!!!!!! Quando eu for grande, gostaria de escrever assim.

Anónimo disse...

Também poderia utilizar a estratégia de lhe pedir a direção, o mail;...

Um professor num congresso visivelmente já habituado a esses fenómenos de amnésia normal filha da mãe, passou-me um bloquinho e disse escreva-me o seu mail, eu escrevi e disse o i de isabel claro(Já tive por essa via quem passasse a chamar-me Inês,também...Não é que me importe só não dou pelo nome)

O desfecho foi giro, um perpetuar de amizade na recordação da geração a seguir, bem bonito.
Isabel Seixas

O Senhor dos Queijos disse...

é curioso que um sítio que produz pessoal que raramente passa necessidades

tenha tal nome

patricio branco disse...

o amigo percebeu a situação embaraçosa e contornou o problema...seria?

quanto ao haf e às suas aspirações, não é só escrever, é tambem autografar o que se escreve.

Situação comum a descrita, esquecer o nome de alguem que em principio não deviamos esquecer.
muitos nos reconheceremos neste texto.

maria disse...

Meu caro "senhor dos queijos"

Não deixa de ter piada...

Mas, acredite as necessidades, são por vezes muitas!

Já se imaginou a viver, três anos numa capital sem água potável, luz, hospital...

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Aconteceu-me na Feira do Livro com um político muito conhecido. Nem o Mário Zambujal que estava comigo me salvou. Ambos tivemos uma branca.
Safei-me escrevendo:
"Para aquele amigo que fez fila para me ver, a estima da...".
Só quem passa por elas é que sabe. Minutos depois lembrava o nome encravado. A velhice - no meu caso -, não perdoa!

Alberto Arons de Carvalho disse...

Já me aconteceu embaraço igual. E, pior, em outra ocasião, fiz uma amável dedicatória a uma pessoa errada e ausente, com a qual a minha interlocutora tinha uma fria relação pessoal...