quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Haiti


Hedi Annabi, um diplomata de nacionalidade tunisina, era há muitos anos funcionário da ONU e representava a organização no Haiti. Segundo as últimas informações, terá morrido no terramoto que assolou aquele pobre país.

Annabi era meu amigo e amigo de Portugal. Era uma figura discreta, muito organizada e meticulosa. E um homem de uma só palavra, o que nem sempre é comum na vida multilateral (e noutras também, convenhamos). Em Nova Iorque, quando ele trabalhava no departamento de operações de paz, com o tema de Timor-Leste sobre a mesa, conversamos muitas vezes, pedindo-me sempre desculpa por só raramente poder aceitar os meus convites para jantar, porque vivia "upstate", para onde ia e vinha de comboio. Há cerca de quatro anos, através do meu colega Rui Macieira, Annabi sondou-me para uma tarefa honrosa no âmbito da ONU, hipótese a que me escusei, por vontade de continuar no Brasil. Hedi vai fazer falta, aos seus amigos e à ONU.

Este desastre humano e material no Haiti deveria, a meu ver, servir para relançar o debate sobre a necessidade de um urgente reforço, no âmbito das Nações Unidas, das suas estruturas destinadas à ação humanitária, por forma a conferir à ONU um papel central de coordenação das tarefas dos diversos atores, desde a Cruz Vermelha às ONG's, para além dos Estados e das instituições multilaterais. Coisa que hoje não acontece.

Na ordem política interna, é vulgar dizer que não se deve legislar sob a pressão dos factos. Na vida internacional, a experiência prova que os acontecimentos são, quase sempre, a única alavanca eficaz.

A melhor homenagem que se poderia prestar a um servidor da causa da paz como foi Hedi Annabi seria, com certeza, lançar uma iniciativa que ajudasse a comunidade internacional  a melhor reagir, no futuro, aos efeitos das tragédias como aquelas que resultaram na sua morte. 

7 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

Acabo de ver imagens desoladoras em :

http://www.lexpress.fr/diaporama/diapo-photo/actualite/monde/scenes-de-desolation-a-haiti_841659.html?p=2

Porque serao sempre as populaçoes mais pobres as mais martirizadas ?

Anónimo disse...

Hoje nas instituições é obrigatório a existência de planos de emergência e catástrofe e a operacionalização dos exigíveis simulacros sob pena de ser constatada uma lacuna passível de ser qualificada como um handycap da orgânica da instituição quando em auto e heteroavaliação.

"A experiência prova que os acontecimentos são, quase sempre, a única alavanca eficaz."

Depois da casa assaltada "Trancas á porta".

É ...também a experiência Me diz que os simulacros valem o que valem... E muito decerto... Mas são virtuais...

Já a Natureza...
É o maior teste... imprevisível, embora nos custe a admitir,implacável face à nossa impotência ...

Também me equaciono com a questão da Julia, encontro algumas teorias explicativas à luz da ciência ...Mas nenhuma me anima muito menos me sossega ou consola...
Torna mais nítida a percepção clara da minha mortalidade...

Essencialmente a lastima de Quem deixou Grandes projectos por concretizar com maior intensidade nos casos específicos onde não foram Semeados Seguidores...
Isabel Seixas

Margarida disse...

...ando às voltas há horas sem saber o que lhe escrever, mas querendo mesmo escrever alguma coisa...
Apresentar condolências traduz o quê, de facto?
Quando conhecemos quem parte, parece que não há conforto algum, só resta a perplexidade.
A dor intransitiva.
Confio que como todos passámos por perdas antes, sabemos o não dito.
Sobre a tragédia de um país, de um paupérrimo país, que mais fazer além de orar (para quem crê) ou enviar recursos?
Perceber o gritante exemplo.
Tomar medidas.
Prevenir.
Honrar os que tão brutalmente partiram ou sobreviveram com traumas indizíveis.
Prestar tributo.
Recordar.

Sidalia disse...

quero aqui deixar um adeus aos colegas da onu que morreram e em especial aos brasileiros meus conterraneos na pessoa de Luiz carlos da costa que se safou de tantas bestialidades humanas acabando por perecer num movimento brusco da natureza...

Carlos Alberto Falcão disse...

Justa homenagem.

HAITI, uma trajédia.
Tive a oportunidade de visitar este pobre país. 50% dos haitianos, vivem a baixo do seio de pobresa.

Um país duramente atingido: crises politicas, motins, más colheitas, deslizamentos de terra , currupção, violencia, e agora o terremoto. Um pesado tributo!

Nota:
« … não se deve legislar sob a pressão dos factos». Inteiramente d'acordo. Não só na politica interna ou internacional mas tambem, agora e aqui, na vida de todos os dias.

Cordialemente

P.S.: cruz vemelha.fr

José Barros disse...

Não posso dar muito mas não resisti sem chamar uma amiga haitiana que reside aqui na região parisiense e que sofre a angústia dos que estão longe de familiares e amigos na impossibilidade total de os contactar. Fiquei o tempo necessário com ela ao telefone para acalorá-la com algum reconforto. Estes pequenos gestos de solidariedade, que penso serem numerosos, são possíveis sem qualquer necessidade de organização ou coordenação. Já para a ajuda sanitária, médica e material indispensáveis àquela população onde tudo está destruído, a ausência ou ineficácia de uma coordenação torna muito mais difícil o socorro onde cada segundo conta... E se em situações de tão elevada emoção é relativamente fácil mobilizar os esforços de governos e populações de muitos países para uma ajuda reconfortante, as falhas de uma organização central têm sido frequentemente apontadas ao ponto de muitas vezes os organismos humanitários não saberem que destino dar a materiais que são obrigados a armazenar na impossibilidade de os encaminharem para o destino.
E não será por falta de exemplos que este problema não é resolvido. Catástrofes parecidas muito recentemente mostraram-nos o quanto é importante uma coordenação central sem falhas que não pode ser improvisada à última da hora. Se não à ONU, a quem poderia competir colmatar esta lacuna?

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Uma tragédia é sempre algo que nos desperta um sentimento de compaixão e uma vontade de reforçar a solidariedade nacional ou internacional, como é o caso da situação caótica no Haiti. Como achei sentido o seu testemunho de homenagem a um Homem Bom, como foi, o diplomata tunisino, Hedi Annabi, e me pareceu bem pertinente a sua sugestão de reforço dos meios e mecanismos de coordenação para acções humanitárias desta dimensão inusitada publiquei este seu texto no blogue colectivo “Milhafre” do Movimento Internacional Lusófono, tendo destacado que é de sua autoria, que foi publicado neste seu blogue e apresentei também a data de edição.

Como reconheço a pertinência das suas análises e dos seus temas irei publicar, com a identificação clara da sua autoria e proveniência, um ou outro texto seu ligado a temas culturais no meu blogue que tem esse teor, caso não tenha nada a obstar: www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Com os meus melhores cumprimentos, Nuno Sotto Mayor Ferrão