quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Diplomacia e liberdade

Acaba de ser publicado um livro com uma longa entrevista com o antigo primeiro-ministro Lionel Jospin. Dele falaremos em breve.

Para já, gostava de transcrever a razão dada por Jospin para abandonar o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, onde ingressou por cinco anos, no início da sua vida profissional: "O trabalho interessava-me, os constrangimentos da vida de embaixada menos. E, depois, tudo passava pela renúncia a valores, a referências, a esperanças que eram muito importantes para mim". Para acrescentar: "Quis reencontrar a minha liberdade de pensamento, de acção, de empenhamento, pelo que senti a exigência de uma ruptura", porque "aumentava o fosso entre os desejos e as esperanças do estudante de esquerda que eu tinha sido e o destino que se desenhava para o jovem alto funcionário em que eu me tinha tornado".

Aqui está a prova provada de como, num país como a França, podem germinar experiências bem diferentes daquelas que são concedidas em Portugal aos profissionais do mesmo ofício. Para honra do Ministério dos Negócios Estrangeiros português.

13 comentários:

Anónimo disse...

Gosto da dicotomia /parceria...
Diplomacia e liberdade...

Cito com frequência em citações conceptuais e integrais, Daniel Sampaio, uma referência credível no âmbito da promoção da Aprendizagem por uma Escola Integradora...Um dos seus livros que consulto "Vivemos livres numa prisão" ensina com subtileza a concretização encorajadora e possível noutras dimensões do binómio supracitado...
Ainda Bem que O sente e aufere...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Sobre os diplomatas "no coments". Sobre o politico Jospin, trranscrevo apenas isto, do jornal Mariane:

"Le jospinisme, la maladie gériatrique du socialisme"

"Deux militants Gaël Brustier et Jean-Philippe Huellin et un élu Mickaël Vallet, tous socialistes, fustigent le retour sur la scène médiatique de Lionel Jospin. Pour eux, l'auto-congratulation de l'ex-premier ministre est représentative de la sclérose idéologique du parti depuis 27 ans."

Julia Macias-Valet disse...

Se este post nao tivesse o 3° paragrafo ficariamos a pensar : " O autor deste blogue é um oprimido que disfarça muito bem"...

Anónimo disse...

Interessante: os diplomatas portugueses são mais livres e certamente melhores que os franceses.

Anónimo disse...

"Quis Reencontrar a minha Liberdade De Pensamento,
De Acção,
De Empenhamento,
Pelo que Senti
"A exigência de uma Ruptura",
Porque "Aumentava o Fosso"
Entre os Desejos e as Esperanças
Do Estudante..."
(Jospin, citado por F.S.C. : 2010)

Já senti isso no meu contexto de trabalho, mas por teimosia eventualmente determinação decidi reafirmar o meu direito inalienável de ser Eu própria com direito á diferença e tudo, respeitando as diferenças de tudo e de todos sem as plagiar de imediato, só porque constituem maiorias, percebendo com naturalidade que nem sempre a minha opinião pode prevalecer e que de facto as minorias são também massa crítica e o pano de fundo sustentável das maiorias...

Tenho-me dado bem... Do meu ponto de vista, claro, sempre numa relação consensual custo benefício, sem ser a qualquer preço.

Mas sou bem capaz de fazer o que o Monsieur jospin... Fez, mas ainda não me apetece, ou não chegou a hora, melhor ainda efectivamente não tenho motivos.
Isabel Seixas

Julia Macias-Valet disse...

Quanto a Lionel Jospin ja estamos habituados às tolices que diz.
E pelos vistos...com a idade nao melhorou.

Francisco Seixas da Costa disse...

O meu comentário não põe em causa, de forma alguma, a genuinidade dos sentimentos de Lionel Jospin, cuja opção de sair da carreira diplomática foi de grande coragem.

O que eu procurei sublinhar é que o serviço diplomático português, em regra, proporciona um ambiente de tolerância e aceitação de diferenças que muito o dignifica. As excepções ocorridas - e, talvez como ninguém nas Necessidades, tenho autoridade para dizer isto! - apenas servem para sublinhar a preeminência da regra.

Helena Oneto disse...

Pois é exatamente o 3° parágrafo "qui me gène"! Li-o e reli-o a tentar perceber o alcance das entre-linhas.

Tenho por Lionel Jospin, homem de esquerda, uma grande admiração e considero que foi um bom PM. Políticos, há muitos. Mas homens políticos de esquerda ou de direita honestos que não praticam a "langue de bois" e que ponham os seus ideais acima de uma (bela) carreira seja ela diplomática ou não, há poucos. Lionel Jospin foi coerente e tem assumido com dignidade todas as decisões que tomou incluindo a de se afastar da cena politica depois da derrota que sofreu por culpa do Partido socialista (e de sofrer, com a grande maioria dos franceses a afronta de ver J-M Le Pen à sua frente nas eleições para presidente da Républica).
Que hoje seja considerado um "has been" não me espanta! alias não é o unico. Os partidos da esquerda francesa e portuguesa estão cheios de dirigentes "has been" incapazes de se unirem para renovar ideias e liderar esperanças.

Que pretende dizer o Diplomata, com esta frase "... num país como a França, podem germinar experiências bem diferentes daquelas que são concedidas em Portugal aos profissionais do mesmo ofício." ?

Ainda bem que houve e há Embaixadores fieis aos seus ideais humanistas de quem se possa dizer "Para honra do Ministério dos Negócios Estrangeiros português." O Senhor é um deles para exemplo da diplomacia mas sobretudo para bem de Portugal!

Helena Oneto disse...

Em Tempo, como o Senhor diz, postei o meu comentario sem ter lido o seu no qual responde em grande parte a pergunta que lhe fiz.

José Barros disse...

O direito à diferença numa democracia deve ser possível sem ir para rupturas. Mas todos sabem que é mais difícil manifestar a sua diferença em cargos de maior responsabilidade onde não pode haver desacordos flagrantes. Recordo a este propósito dois sucessivos abandonos do Cargo de Ministro de Jean Pierre Chevènement: a primeira vez em 1983, como Ministro do Plano, creio, e a segunda vez como 1991, agora como Ministro da Defesa, para protestar contra o envolvimento das tropas francesas na guerra do Iraque.
Portanto as divergências não resultavam do facto de estar em governos de coabitação, prefiro recordar. Ambas as vezes os Governos eram chefiados pelo P.S., partido a que ele pertencia. Mas não podia manifestar o seu desacordo, pelo menos no segundo caso, e chefiar o Ministério da defesa que enviava os seus soldados para a guerra. “Un ministre, ça ferme sa gueule, si ça veut l’ouvrir, ça démissionne”.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Deixa-me de certo modo confuso o seu último parágrafo que transcrevo na integra a seguir ao meu texto.
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Mas dá-me a impressão que os diplomatas portugueses, desde que inseridos no Palácio das Necessidades, ficam de pés e mãos atados.
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Como “manga de alpaca” que haja sido (encontrei e tenho amigos diplomatas), este facto fui notando .
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O medo, o receio amordaçamento de palavras, fui-o encontrando , entre alguns dos meus amigos, como que se ainda existisse a “Santa Inquisição” .
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Mas também notei, certas amizades e abraços que numa mão, um amigo, segurava um “punhal” invisível.
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Espero que ainda viva, mais uma meia dúzia de anos, para ler as “Memórias de um Embaixador”, cujo autor será o Embaixador Francisco Manuel Seixas da Costa.
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Uma maravilha ler tantos contos; tantas raivinhas, havidas e traições à mistura.

Será a liberdade de expressão de um diplomata, que antes não teve a oportunidade.
Seu admirador
José Martins
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“Aqui está a prova provada de como, num, país como a França, podem germinar experiências bem diferentes daquelas que são concedidas em Portugal aos profissionais do mesmo ofício. Para honra do Ministério dos Negócios Estrangeiros português”.

Anónimo disse...

Não tendo a sua enorme e rica experiência nem o conhecimento da vida como diplomata do M.N.E ponho em causa o seu último paragrafo.

Passo a explicar porquê:

É perfeitamente compreensivel tudo aquilo que Jospin diz. Qualquer diplomata seja ele francês ou português está restringido na sua liberdade. Liberdade de pensamento - acção, entenda-se. É um soldado do Estado e dificilmente se tornará grande nessa profissão se a sua linha de raciocinio - acção for na maioria das vezes diferente daquela que é pretendida pelo seu país. Há quer se queira ou não uma perda de alguma individualidade a esse nivel.

Quanto à honra do MNE português em conceder maior liberdade aos seus diplomatas - não será isso uma necessidade menor dos nossos diplomatas num pensamento independente e do tal "think for yourself" ou pelo menos em exprimi-lo. Com muitas virtudes que encontro na maioria dos portugueses é certo que a valorização ou a importância que dão ou não à sua liberdade individual (ao revés a comunicação social e não só encontra-se hoje cheia dos que se tropeçam constantemente e confundem-na com libertinagem) não é uma delas. Contrariamente, será uma das necessidades (virtudes) que mais se destacam no povo francês.

Quando diz isto num comentário:

"As excepções ocorridas - e, talvez como ninguém nas Necessidades, tenho autoridade para dizer isto! - apenas servem para sublinhar a preeminência da regra."

Sendo o senhor uma dessas pessoas que é excepção e que exprime publicamente o seu pensamento mesmo que em desacordo com outros maiores ou menores do MNE português pergunto-lhe, desde que tempo? Será que nos seus primeiros 10 anos como diplomata ou 5 como diplomata numa embaixada as suas posições (de orientação ou estratégia politica) públicas iriam contra as do seu embaixador caso pensasse diferente? Será que se achasse na altura a estratégia diplomática do seu país errada em relação ao local para o qual tinha sido destacado confrontaria o Ministro ou SE português em relação a isso? Porque é disso que se trata e é a esse tempo que Jospin se refere. Será que antes de ter ganho a sua própria marca dentro do MNE (e todo o mérito por isso) e não só permitiria-se ter opiniões públicas tão livres como as de hoje? Duvido seriamente e desconfio que até à menos de quinze -vinte anos não era tão livre. Sim, a diplomacia restringe a liberdade individual. It's the price you pay. Until your a heavyweight. If your ever a heavyweight...and most aren't.

Um abraço e obrigado por este blogue muito bom.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro anónimo anterior. Quem me conhece, sabe duas coisas: que sempre disse, alto e bom som, o que pensava (mesmo nos primeiros anos da carreira e nunca isso me foi impedido) e que sou um servidor público obstinadamente disciplinado. Desafio alguém a provar o contrário.