segunda-feira, julho 18, 2016

Guerra civil de Espanha

Faz hoje precisamente 80 anos que teve início um dos mais trágicos conflitos europeus - a guerra civil de Espanha. Entre 1936 e 1939, centenas de milhares de pessoas perderam a vida ou foram vítimas desse tempo que dividou o país, para muitos até hoje.

No cruzamento central das Pedras Salgadas existe uma casa branca, com uma pérgola num terraço, onde hoje funcionam a Junta de Freguesia e os Correios. Ao tempo da Guerra Civil ali estava instalado o "Hotel Colonial", que pertencia a duas senhoras da minha família. Eram pessoas sem a menor ligação à política, muito provavelmente de pendor conservador. E, no entanto, por uma razão que não cuidei de esclarecer atempadamente, elas acolheram, durante alguns meses, um cidadão galego, que era um refugiado "rojo". Passava os dias escondido num grande armário de madeira (!). Terá sido um ato humanitário, intermediado por alguém conhecido, que implicava evidentes riscos, num tempo de ditadura Portugal.

Esse refugiado acabaria por ficar por Portugal, estabelecendo-se como industrial em Chaves, onde veio a tornar-se uma personalidade local muito conhecida. Permaneceria, para sempre e até ao fim da vida, um grande amigo da minha família. Era uma figura que recordo ter encontrado por várias vezes, em idas a Chaves com os meus pais, no café de que era proprietário, o "Aurora", uma casa que hoje ainda existe. E de visitar, em diversas ocasiões, o café homónimo, propriedade dos seus familiares, existente em Verín, do outro lado da fronteira.

Esse refugiado e depois amigo espanhol, pertencente ao "velho" PSOE, chamava-se Avelino Sola Castro. É a memória dele que, no dia de hoje, pretendo saudar - e, nele, todos quantos lutaram pela liberdade em Espanha.

Pena de morte


O cigarro começou a tremer fortemente na mão daquele membro do governo turco. A minha assessora olhou para mim (mais tarde, disse-me que pensou que, naquele instante, a reunião ia ser suspensa). A conversa estava a ser tensa, mas não tinha passado os limites da razoabilidade. Mas, para Mehmet Irtemçelik, ministro dos Assuntos europeus e Direitos humanos (curiosa designação), a referência que eu acabara de fazer tocara uma corda sensível. Eu dissera-lhe que a União Europeia não deixaria de reagir muito negativamente se acaso o líder histórico do PKK, Abdullah Öcalam, que havia sido detido escassas semanas antes, viesse a ser condenado à pena de morte.

Estávamos em 1999. No final desse mesmo ano, se tudo corresse bem, o Conselho europeu, a ter lugar em Helsínquia, iria dar um sinal de partida para as negociações de acesso da Turquia à União Europeia. Mas apenas se tudo corresse bem... Se acaso, a montante dessa reunião, a moratória (suspensão de aplicação efetiva) de aplicação da pena de morte, que a Turquia vinha a seguir, desde há anos, fosse interrompida, naturalmente que a UE não deixaria de retirar daí as devidas consequências. E Portugal, que iria assumir, em janeiro de 2000, a presidência das instituições europeias, teria de ter isso em devida conta. Essa era a palavra de um país que, como Portugal, sempre demonstrara uma grande abertura face à Turquia.

Fora apenas isso que eu dissera a Irtemçelik, a convite de quem eu visitava Ancara. A sensação com que eu ficara, desde o início, era de que o ministro não tinha a certeza absoluta se a rigidez máxima da justiça não seria, de facto, aplicada a Öcalam. Daí o seu nervosismo, daí também a minha insistência. Mas o encontro acabaria por correr relativamente bem.

Nessa tarde, dei uma entrevista à CNN turca (a Turquia é dos poucos países que têm uma CNN própria) em que, escolhendo bem as palavras, me referi ao assunto. Mas já evitei fazê-lo numa conferência, ao fim do dia, na excelente "Middle East University", onde foi reconfortante debater a Europa e as então perspetivas para a integração turca, durante duas horas, com uma audiência de mais de duas centenas de estudantes e professores - num notável ambiente pró-europeu, que então estava em crescendo.

No dia seguinte, ao ser recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Ismail Cem, um homem encantador, falecido poucos anos depois, e que já conhecia de outras ocasiões, voltei a explicar o meu "mandato". Penso que, ao contrário de Irtemçelik, ele compreendeu bem a posição que eu transmitia.  Este "banho escocês" de encontros, com sinal de aceitação diferente, culminaria com um jantar, com uma conversa bastante dura, na nossa embaixada, com um grupo de deputados, proporcionado pelo nosso embaixador, José Stichini Vilela. É que, horas antes, eu fizera questão de aí receber um grupo de militantes de Direitos humanos, encontro que lhes não tinha agradado. Dias complicados...

Esta visita não terminaria sem uma surpresa. A horas do regresso a Portugal, Irtemçelik telefonou-me, informando que o primeiro-ministro, Bülent Ecevit, queria receber-me. Confesso que, sendo apenas secretário de Estado, não tinha a menor expetativa de ser recebido pelo chefe do governo turco. A conversa começou de forma estranha. Mal acabados de sentar, Ecevit colocou-me, de um modo pretendidamente intimidatório, uma questão sobre Chipre, que um dia já contei aqui. Depois, tratou da minha visita. Com serenidade, disse que a Turquia tinha tomado nota das preocupações que eu transmitira. "A seu tempo, a Europa saberá o que vamos fazer", acrescentou, críptico. E acabámos a falar de Mário Soares, de quem era velho conhecido.

E a Europa não tardou em saber das intenções da Turquia. Escassas semanas depois, ainda antes da reunião de Helsínquia, a Turquia anunciou que manteria a moratória sobre a pena de morte, pelo que o processo negocial de adesão se iniciou então. Depois, em 2002, Ancara suprimiu a pena de morte para delitos em tempo de paz e, dois anos mais tarde, em todas as circunstâncias. A Turquia aderiu também à Convenção Europeia sobre Direitos do Homem. E Öcalam continua vivo. E preso.

Apeteceu-me hoje lembrar este episódio, agora que o presidente Erdogan, no rescaldo do fracasso de um golpe de Estado, que confessou ter sido "uma bênção de deus", anunciou ser sua intenção estudar a reintrodução da pena de morte, imagino que com o objetivo de ser aplicada (retroativamente) aos militares sediciosos. O mundo dá muitas voltas.

domingo, julho 17, 2016

O futuro da Europa



"Grande Conferência"
 do "Diário de Notícias" sobre o Futuro da Europa

Quinta- feira, 21 de julho, no Pátio da Galé, Praça do Comércio, Lisboa

10:00 – Boas Vindas por Daniel Proença de Carvalho, chairman do Global Media Group 
Abertura pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa 
10:30 – Debate sobre o futuro da Europa
Maria Luís Albuquerque, vice-presidente do PSD)
Francisco Seixas da Costa, embaixador
Nuno Melo, eurodeputado do CDS
Mariana Mortágua, deputada do BE 
Moderação: Paulo Baldaia
11:15 - Coffee break
11:35 - Debate de empresários sobre o futuro das exportações no novo enquadramento europeu 
José Miguel Júdice, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa 
Jorge Armindo, CEO da Amorim Turismo 
Miguel Pina Martins, CEO da Science4You
Miguel Santo Amaro, CEO da Uniplaces 
Moderação: António Perez Metelo 
12:20 - Entrevista ao comissário europeu Carlos Moedas, por André Macedo 
13:00 – Encerramento pelo primeiro-ministro, António Costa

sábado, julho 16, 2016

Dilema

O que separa um democrata de quem o não é, no binómio segurança/direitos fundamentais, é ser ou não atravessado pela angústia da dúvida.

Turquia

É pelo saldo do equilíbrio entre a "realpolitik" e a fidelidade aos princípios que a Europa será julgada, nos próximos dias, no caso turco.

Ironia


É uma trágica ironia dizer que o fracasso do golpe de Estado e a confirmação de Erdogan no poder configuram uma vitória da democracia.

sexta-feira, julho 15, 2016

David Davis


"És um péssimo exemplo para os meus funcionários", disse-me David Davis, com uma gargalhada franca e simpática, quando o encontrei em Bruxelas, nesse dia 30 de outubro de 1995, recém-empossado, 48 horas antes, como secretário de Estado dos Assuntos europeus. Desde maio desse ano que eu o encontrava regularmente nas reuniões do "grupo de reflexão" europeu, criado para rever o Tratado de Maastricht, onde Portugal era representado por André Gonçalves Pereira, sendo eu o representante "alternante".

David Davis era o "minister" para a Europa, no "Foreign Office". No governo do Reino Unido, "minister" significa secretário de Estado e "secretary of state" significa ministro. Eu passara a ser colega de Davis, coisa que, para ele, fora uma imensa surpresa (para mim também, confesso). Porquê? Porque naquele país só pode assumir funções governativas quem é membro do parlamento, na Câmara dos Comuns ou dos Lordes. E eu tinha chegado ao governo depois de ser simplesmente diretor-geral adjunto para os Assuntos europeus. Daí a "graça" sobre os funcionários britânicos, a quem eu poderia induzir "más" ideias...

Tive uma excelente relação com David Davis, um homem inteligente, preparado, mas um feroz eurocético. Sempre o achei fisicamente parecido com Paulo Sande, embora entre os dois haja um mundo de diferenças no tocante à Europa. Deixou o lugar em maio de 1997, quando os trabalhistas chegaram ao poder. Um dia, tendo ido a Londres a seu convite, fomos entrevistados em conjunto na BBC, nuns estúdios próximos do parlamento. Aquilo que parecia ir ser uma conversa suave acabou por se transformar num debate onde foram muito notórias as clivagens entre os governos português e britânico, no tocante às questões europeias que à época estavam mais em evidência. À saída, Davis, sempre a sorrir mas um pouco a sério, deixou cair: "Se eu soubesse que ias discordar tanto de mim, não tinha organizado esta entrevista!"

David Davis atravessou os anos Blair nos governos "sombra" dos conservadores, tendo chegado a assumir a presidência do partido, um lugar "senior" mas pouco importante na real hierarquia política dos "tories". Tenho uma vaga ideia de que tentou ascender à liderança conservadora, tendo falhado nesse propósito. 

No governo ontem apresentado por Theresa May, Davis assume um lugar com uma designação única: "Secretary of State for Exiting the European Union". Conhecendo-o, sabendo da sua desafetação pelos ideais europeus, da sua profunda desconfiança face à máquina bruxelense, acho que se vai divertir imenso, ao caber-lhe o desmantelamento da relação de Londres com o continente integrado.

Só não lhe desejo "good luck" porque não sei - nem ninguém sabe - se isso é compatível com a defesa dos nossos interesses. A ver vamos, como diz o cego.

Nervos de aço



Na essência do governo formado há uns meses por António Costa estava um compromisso delicado. Os socialistas obrigavam-se a respeitar o essencial das regras europeias, no quadro do equilíbrio macro-económico exigido pelos tratados, e, ao mesmo tempo, procuravam encontrar alguma margem de manobra, nesse muito estreito caminho, para acomodar exigências colocadas pelos partidos à sua esquerda, que lhe garantiam o suporte parlamentar. Essa pressão confortava a ala esquerda do PS, que assim pensava poder fidelizar algum eleitorado que, com o tempo, se fora deslocando para a “esquerda da esquerda”.

Nesta difícil equação, Mário Centeno partiu de uma constante que eram as políticas do BCE, cavalgou a conjuntural quebra dos custos energéticos e desenhou um orçamento impulsionado pela procura interna – com medidas que, em si mesmas, configuravam uma reversão da austeridade que afetara setores importantes da sociedade portuguesa. Na negociação desse orçamento, no “semestre europeu” com que a União disfarça o seu real “diktat” sobre as finanças nacionais, a Comissão rejeitou muitos desses estímulos, o que debilitou parte daquilo que era a estratégia de Lisboa para induzir crescimento através do consumo.

No plano europeu, as coisas nunca foram muito róseas para António Costa. Para a ideologia que comanda económica e politicamente Bruxelas, a fórmula de governo da Lisboa representa algo de provocatório. A última coisa que a máquina europeia deseja é o menor sucesso deste governo. Se acaso a “quadratura do círculo” por ele desenhada viesse a revelar-se exequível, estaria aberta a porta à heterodoxia, através de modelos diversos, noutros Estados com outros problemas na observância da regras dos tratados.

O episódio das sanções é bem sintomático do isolamento a que a fragilidade económica condena Portugal. Já se percebeu que a política de aliança “dos fracos” é um mito, com a Espanha a dizer “não somos Portugal”. Nesta guerra de nervos, é absolutamente essencial não perdê-los. O que quero dizer com isto?

Quero dizer, com clareza, que o governo português tem de evitar a tentação de cavalgar a onda de indignação que detetou na opinião pública nacional por virtude das sanções e não pode enveredar por uma denúncia exaltada, mas vã, das políticas europeias, do Tratado orçamental às práticas consagradas de apresentação dos orçamentos, numa atitude que alguns lerão como traduzindo radicalização ou desespero. Da mesma maneira que “Portugal não é a Grécia”, os socialistas não são os partidos à sua esquerda. No dia em que o “compromisso delicado” de que falei na primeira linha deste texto se romper, está o caldo entornado, como se diz na minha terra.

quinta-feira, julho 14, 2016

Contra a corrente


Sei que vou ser cruxificado como um irrecuperável "cota", mas prefiro sê-lo a calar uma indignação. E essa é o facto de, aparentemente, ter passado a ser moda pronunciar em público, ou usar com à vontade "modernaço" nas redes sociais, algumas palavras que a educação sempre me levou a designar como palavrões.

Já antes de um inesperado herói desportivo se ter permitido, há dias, usar em público, perante milhões de portugueses e o gáudio visível da turbamulta, uma dessas expressões, as redes sociais estavam já cheias delas, na boca ou na tecla de gente "crescidinha", cultivada e educada, de quem eu esperava alguma contenção. A esses, eu gostaria de perguntar se achariam graça que um seu filho ou neto trouxesse para a mesa ou para o convívio familiar algo que passasse além do "fogo!", ou do nortenho "carago!", fórmulas com que se edulcora, de forma envergonhada, o convívio com algum vernáculo. Mas talvez não se importem e, nesse caso, está tudo dito!

Liberdade, liberdade

Nestes dias em que muito se tem falado de condecorações, jantei com alguém que, em 25 de abril de 1974, arriscou a vida para nos dar a liberdade. Perguntei-lhe, apenas por curiosidade, se tinha Ordem da Liberdade. Confirmou-me que sim, que a recebera já há alguns anos, acrescentando;

- Pelo correio...

- Pelo correio?! A condecoração chegou-te pelo correio?

- É verdade! Foi a minha mulher que me impôs as insígnias. Foi uma bela cerimónia...

Ele há cada uma!

quarta-feira, julho 13, 2016

Joaquim de Sousa Ribeiro


Nunca falei com o dr. Joaquim de Sousa Ribeiro, presidente do Tribunal Constitucional, que leio que agora termina funções. Creio que apenas nos cruzámos socialmente uma ou duas vezes.

Não obstante, quero deixar aqui uma palavra de grande apreço pela sua postura ao longo de todo o seu mandato. Muito em especial, desejo saudar a sua firmeza à frente da instituição que lhe competiu dirigir, na defesa da Constituição da República. Nunca esquecerei a dignidade dessa postura, que evitou pesados danos a setores mais fragilizados da sociedade portuguesa e soube travar irresponsáveis assaltos à ordem constitucional vigente.

O Tribunal Constitucional português foi objeto, nesses tristes anos passados, de ataques sem conta por parte do Governo de então, sob a cumplicidade inqualificável do anterior presidente da República, a quem competiria defender as instituições do Estado e "cumprir e fazer cumprir a Constituição da República".

Nem perante ataques vindos do exterior, que a honra do país obrigaria que fossem respondidos com a maior firmeza, o chefe do Estado foi capaz de reagir. Pelo contrário, o seu penoso silêncio funcionou como um subliminar apoio a quantos procuraram condicionar o Tribunal. Foi um tempo lamentável, em que, aparentemente, quem por aqui mandava estava mais atento àquilo que o Tribunal de Karlsruhe determinava do que à instituição congénere nacional.

Por tudo isto, quero dizer ao dr. Joaquim de Sousa Ribeiro: obrigado e bem haja!

Santana pôde e Theresa "may"


A crónica do nosso reino consagrou, em 2004, a subida a S. Bento do então "número dois" do PSD, Santana Lopes, por simples substituição de Durão Barroso, emigrado para Bruxelas.

Devo dizer, em pouco discreta confidência, que a opção acabou por me satisfazer bastante. Por quatro razões cumulativas: o país teve a honra de ver um dos seus na presidência da Comissão Europeia (o que por lá se passou depois já é outra história), vimo-nos livres de um péssimo primeiro-ministro, inaugurámos um governo de "trapalhadas" que nos divertiu por um ano e, finalmente, "the last but not least", isso abriu caminho à recolocação dos socialistas no poder. No que me toca, continuo a pensar que foi um belo "pacote".

Hoje, os britânicos colocaram Theresa May no nº 10 de Downing Street quase da mesma forma. Enquanto, por cá, Jorge Sampaio foi criticado (bem ou mal) pela opção feita, no Reino (cada vez menos) Unido a raínha não tugiu nem mugiu e lá vai ter de aceitar o 13° primeiro-ministro do seu reinado.

Para quem não saiba, o sistema decisório do Partido Conservador britânico tem regras muito próprias. Quem dirige o partido é o grupo parlamentar. É exclusivamente no seio deste que as decisões sobre a liderança são tomadas. O partido, à escala nacional, "não existe" como poder permanente de direção política. Às "constituencies" locais cabe apenas organizar o Congresso anual (sob controlo discreto do "central office") e escolher os deputados, mas estes, depois de eleitos, ficam de mãos livres, embora respondam permanentemente na defesa dos interesses locais, sendo julgados no final do mandato. (Uma curiosidade: muitas "constituencies" conservadoras preferem designar deputados sem ligações locais, para evitar caciquismos: os candidatos às vagas, não importando a sua origem, são-lhes propostos pelo "central office" e depois escolhidos através de um exame oral. É verdade!)

É por virtude dessa dependência parlamentar que, quando a vontade maioritária dos deputados começa a apontar numa determinada direção para a definição da liderança partidária, os contendores potenciais se afastam logo. 

Veja-se o que aconteceu a Boris Johnson ou a Michael Gove, os quais, não obstante terem sido os "vencedores" do Brexit, desapareceram quase sem combate. Já assim tinha sido em 1990, quando Michael Heseltine não conseguiu substituir Margareth Thatcher e John Major ascendeu a primeiro-ministro. 

Nos tempos mais remotos, estas decisões eram tomadas nos clubes londrinos (onde os deputados da província pernoitavam e os caciques londrinos conciliabulizavam), podendo imaginar-se que as coisas, nos dias de hoje, estejam um pouco mais profissionalizadas.

Mas, enfim, hoje é um dia de "vingança" para Santana Lopes.

O estado do conselho

O Conselho de Estado é um órgão de consulta do Presidente da República. Os seus membros, que o integram por inerência de certas funções e por escolha do parlamento ou do chefe do Estado, comprometem-se a guardar absoluto sigilo do que nele se passa, do teor das suas discussões e, muito em particular, das posições individuais assumidas durante as mesmas.

Contudo, o que se tem visto cada vez mais é a circunstância dessas conversas, que deveriam ser sigilosas, até para preservar a liberdade de cada um de poder ser totalmente franco, acabarem por surgir na praça pública, dias depois, através da imprensa. É um excelente retrato do nível a que chegou a ética cívica da paróquia! 

Imagino que os arautos da "transparência" defendam que deveria haver mesmo uma transmissão televisiva em direto das sessões daquele órgão de Estado - "o povo tem o direito de saber!" - mas nunca será demais lembrar que a demagogia no poder não é sinónimo de democracia. Bem pelo contrário!

Clostermann em Vila Real


Ontem, num texto numa rede social, um familiar de alguém que teve funções muito relevantes na aeronáutica portuguesa falava de Pierre Clostermann e, de repente, veio-me à memória um episódio de que tenho um registo incompleto.

Noto, para quem não saiba, que Pierre Clostermann foi um célebre piloto francês durante a Segunda Guerra Mundial. Nascido no Brasil, filho de um diplomata, Clostermann integrou as forças gaullistas durante o conflito, combatendo integrado na Royal Air Force e, após o termo da guerra, fez uma carreira política em França. Publicou pelo menos três livros, de que tenho um exemplar do mais famoso, "O Grande Circo". Morreu em 2006, aos 85 anos. Alguém, também nas redes sociais, referiu hoje que Clostermann terá sido proprietário de uma casa de férias em Sesimbra.

Ao ler o nome de Clostermann, veio-me à memória uma história que sempre ouvi na minha família. Um dia, que dato nos anos 50, um avião pilotado por Pierre Clostermann foi obrigado a fazer uma aterragem de emergência na Campeã, uma localidade perto de Vila Real. O piloto, que terá saído ileso dessa arriscada aterragem, foi trazido para a cidade, onde se hospedou por uns dias no Hotel Tocaio. A cidade pacata que Vila Real então era ficou em polvorosa com a presença de Clostermann. É tudo quanto lembro ter ouvido.

Alguém, em Vila Real, terá memória deste episódio? Algum dos jornais locais o referiu? Ou a censura achou mais conveniente que a imprensa "ignorasse" o assunto? Se o meu amigo Elísio Neves, o mais qualificado "vilarrealógrafo" à face da terra, não sabe do assunto, então ninguém saberá!

EM TEMPO: Aqui vai o que me chegou de um amigo de infância, Antonio Lopes, através de um contacto:

"O piloto fez uma primeira tentativa de aterragem no Alto Velão, acabando por efectuá-la na zona da Sardoeira (Campeã) tendo saído ileso. Passados três ou quatro dias, foram colocadas chapas de ferro ao longo do vale, numa determinada extensão, para uma tentativa de levantamento de voo, que não resultou. Assim, como solução, desmontaram as asas do avião que foi posteriormente rebocado para Vila Real e depois levado para a pista da Chã-Alijó. Aí foram novamente colocadas as asas e levantou voo rumo a França." Este facto é datado de 1958.

terça-feira, julho 12, 2016

Sanções

"Perdi a mão" há muito do dia-a-dia de Bruxelas, mas a minha leitura (de quem só lê sinais e não tem a menor informação privilegiada) leva-me a concluir, depois do "eurogrupo" (ministros das Finanças dos países do euro) de ontem, que o Ecofin (ministros das Finanças de toda a UE) irá propor sanções (o facto de ser anunciado que será "por unanimidade", exceto o próprio país em causa, significa que Portugal votará a favor de sanções à Espanha e vice-versa) que caberá depois à Comissão decidir no detalhe. 

Porque Portugal e Espanha não são masoquistas, quer-me parecer que o "deal" passa por aprovar o princípio das sanções e ter a garantia (já negociada com a Comissão) de que essas sanções serão iguais "a zero". 

Fica salva a "honra do convento" e, na prática, as sanções são teóricas e sem incidência orçamental. Os países mais radicais ganham a aplicação do princípio e os "faltosos" a não punição efetiva.

Uma hipótese que sempre me pareceu implausível, no atual contexto (Brexit) seria uma "linha dura" no Ecofin reclamar sanções efetivas, obrigando à "recolha" de votos para conseguir uma minoria de bloqueio. Nem os tempos estão para isso, nem o "mood" da Comissão dava garantias de que esta pudesse "obedecer" substantivamente a um conselho de ministros "severo" (mesmo com "instruções" de Berlim).

Aliás, as conclusões do colégio de comissários de há dias já apontavam no sentido da Comissão não querer o "odioso" de propor as sanções: o Ecofin que as decida politicamente e a Comissão lá estará para as definir (previamente deixando claro que serão igual "a zero"). A Comissão passará, por esta vez, a "bom da fita".

É este um bom acordo? É melhor do que multas e cortes nos fundos estruturais. Uma dúvida, no que nacionalmente nos toca, é se, no acordo, haverá ou não alguns "strings attached", com uma espécie de condicionamento a montante do orçamento para 2017. E saber se haverá, por via desta decisão de "censura", efeitos reputacionais que, no nosso caso, possam vir a afetar a leitura das agências de notação.

Uma coisa é clara: ao votar a imposição de sanções (ainda que teóricas) a Espanha, Portugal dá um passo no sentido de aceitar formalizar a aplicação, pela primeira vez, desta disposição do Tratado Orçamental. Era inevitável? Talvez. Verdade seja que a posição do FMI, a montante da reunião do "eurogrupo", não ajudou a "fugir" a este condicionamento.

A ser assim que as coisas se passam, elas não estarão muito fáceis para nós, a partir daqui. Mas qual era a opção, de facto? 

Mas posso estar completamente enganado e acabar por não ser nada disto que escrevi. Logo veremos.

As esperanças

Vi-o há dias. Ele não me viu. Caminhava por uma rua de Lisboa. Inteligente, culto, com boa capacidade expositiva em várias línguas, razoável escrita e dedicação ao trabalho. E, contudo, teve uma carreira diplomática com alguns flagrantes insucessos. Porquê? Por falta de bom-senso, que o levou a multiplicar as incompatibilidades, a ter atitudes impensadas e insensatas, a dizer coisas inconvenientes no lugar errado. Como consequência, esteve colocado em postos que sofreu como injustos, onde não se sentiu bem e, claro, onde a sua "performance" se ressentiu desse mesmo mal-estar. O que o conduziu a novos atos que acabaram por afetar o seu currículo. E a criar-lhe uma "fama", essa imagem "de corredor" que, numa carreira onde as pessoas passam muitas vezes anos a milhares de quilómetros das outras, cada diplomata transporta consigo, para o bem e para o mal. 

Ao longo de quase quatro décadas de vida profissional, conheci bem mais de uma dezena de casos de gente assim, que acabou por ter uma carreira que passou muito ao lado daquilo que as suas qualidades intelectuais poderiam justificar. Gente que começou bem, mas que jogou contra si mesma. Alguns eram "trouble-makers" (que têm genialidade para complicar tudo e que colocam sempre o ónus nos outros). Outros eram arrogantes ou indisciplinados (confundindo isso com a qualidade da frontalidade). Há ainda os azedos ou sarcásticos (ou que assim se tornaram, muitas vezes frequentando já os terrenos da intriga, da inveja ou da má língua). Não raramente, é verdade, alguma sorte não os bafejou, mas o facto é que eles não souberam dar a volta ao destino, ou ter a humildade de arrepiar caminho, e não se deixar apanhar, em definitivo, por um azar conjuntural. As mais das vezes, olhando com frieza mas com simpatia, foram eles os principais criadores da ratoeira em que acabaram por cair. 

Tive e tenho amigos nesta classe: "esperanças" no início da carreira e que, com o tempo, se revelaram "estrelas cadentes". Tenho pena por eles e pelo país que neles investiu e deles não pôde retirar todo o potencial que tinham para dar. 

segunda-feira, julho 11, 2016

A vitória e a sorte


São três e meia da manhã. Agora, que ninguém estará a ler o blogue, posso confessar? Nunca acreditei que Portugal pudesse ser campeão europeu de futebol em 2016. Porquê? Porque não tinha nenhuma "fezada" nesta equipa. (Podia estar aqui a dizer o contrário, aproveitando a onda da vitória, mas acho mais honesto, embora talvez impopular, dizer simplesmente a verdade). Claro que ainda tinha uma esperança muito residual de que houvesse uma conjugação ideal de fatores, se bem que improvável, que levasse a equipa portuguesa ao título. Mas, ontem, quando vi Cristiano Ronaldo lesionado, a minha réstea de esperança foi-se quase por completo. E apenas fiz figas - e só porque tinha lá Rui Patrício e Pepe - para que não sofrêssemos nenhum golo e pudéssemos chegar aos penáltis. Porque aí, eu confiava que Patrício não teria as angústias que consagraram a obra de Peter Handke.

Felizmente, eu estava redondamente enganado. E Portugal ganhou. Esta vitória, precisamente porque era improvável, tornou-se muito mais preciosa. Faz bem à nossa auto-estima, faz-nos esquecer, por uns dias, o espetro das sanções, faz feliz um país que tem passado "as passas do Algarve". Não nos reduz o défice, não nos atenua a dívida, não dá emprego a quem o não tem, mas tornou, por horas ou dias, as pessoas mais alegres. E isso é muito importante. Houve, neste título, coisas dadas pela sorte? Claro que sim! Mas "a sorte protege os audazes", como soe dizer-se. E, como português, estou cansado de ver o meu país não ter sorte. Também eu tive a tentação de pensar que era mais fácil um "dois cavalos" ganhar o Mundial de Fórmula Um do que Portugal um Europeu de futebol com Éder a "ponta de lança". E, no entanto, foi Éder quem nos deu a vitória. Esta é a beleza e a bizarria do futebol. Onde o improvável pode acontecer, onde, na final e afinal, Gary Lineker deixou de ter razão e não foi a Alemanha que ganhou. 

Ganhámos nós! Mas muito mais importante do que para os portugueses que vivem em Portugal - e sei que muitos não entenderão isto - ganhou a "concierge" do XVIème, que esta manhã, de olheiras sorridentes, vai cruzar-se com locatários apressados de cara fechada. Ganhou o operário do "bâtiment", que, daqui a pouco, com sorriso irónico e boca de sarro, deixará graçolas intraduzíveis aos colegas do país que, no Stade de France, só tinha papelinhos azuis, brancos e vermelhos, porque nunca pensou ser necessário utilizar a cor verde, que é a da esperança que ele (não eu) tinha. Ganhou o Mathis, de que aqui falei ontem, que pode atirar agora uma piadas orgulhosas aos seus colegas, nacionais de um grande e extraordinário país onde, porém, por um "azar dos Távoras", nasceu um dia um soldado de seu nome Chauvin, que lhes destinou para todo o sempre um vírus de nacionalismo arrogante de que nunca se libertaram, a que se dá o nome de chauvinismo.

Foi muito boa e saborosa esta vitória. Quando acordarmos (também dela), a segunda-feira estará aí e os nossos problemas não desapareceram, por um passe de mágica. Mas, caramba, quase tão importante como ganhar, faz-nos muito bem ter sorte!

domingo, julho 10, 2016

Post

Este blogue tem, pelo menos, um post por dia. Os temas são quase sempre "o que vier à rede", como sabe quem por aqui passa. Há pouco, quando pensei em escrever, percebi que seria muito estranho, num dia como o de hoje, em que a atenção do país vai estar concentrada no jogo da seleção, se acaso me desse para falar de algo diferente. Seria como que uma espécie de snobeira, de implícita promoção insensata de uma distração face a esse nosso desejo coletivo de vitória. E, contudo, era o que me apetecia fazer. Às tantas, para esconjurar alguma coisa. Por isso, e por ora, fico-me por aqui.

sábado, julho 09, 2016

Portugal e a França

Há um mundo de "não ditos" na relação entre os povos, nas mútuas perceções. Neste tempo de emoções coletivas fortes, que o futebol proporciona, alguns sentem-se legitimados para deixar escapar aquilo que lhes vai no fundo da alma, da mesma forma que o empolgamento de uma bancada permite exprimir a muitos aquilo que, com serenidade, nunca diriam.

Na nossa vida diária, nunca dizemos "tudo" aos outros, tudo aquilo que deles pensamos, com o objetivo de salvaguardar o essencial, que é a relação pessoal. Por isso, e até por vício profissional, sempre entendi que, no tocante aos países estrangeiros e ao que deles pensamos (naquele redutor e caricatural "eles"), há que procurar manter alguma contenção, embora perceba que este tempo de "pátria em chuteiras" não ajude muito a isso.

Centenas de milhares de cidadãos portugueses vão continuar a viver em França, depois de segunda-feira, independentemente do que vier a passar-se no domingo. Muitos terão, nas suas famílias e nos seus amigos, quem esteja muito dividido ou quem seja ferrenhamente por um dos lados. Espero, com sinceridade, que as tensões destes dias, os exageros verbais de parte a parte, não acabem por ter um efeito negativo no quadro de relacionamento entre muitos franceses e outros tantos portugueses que vivem em França. Seja lá isso o que for, na realidade dos factos, para além da mútua retórica.    

Carta ao Mathis, que hoje tem mais seis anos


Hoje, véspera do jogo entre a França e Portugal, lembrei-me desta "carta ao Mathis" que, há mais de seis anos, publiquei neste blogue. Eu era na altura embaixador português em França e a carta fala por si. Que será feito do Mathis, já com mais seis anos? Gostava bem que, amanhã, ele tivesse uma grande alegria, igual à de todos nós:

Olá, Mathis

Soube há pouco, por um jornal, que não te deixaram entrar na escola, aqui em França, porque levavas vestida a camisola da seleção portuguesa. Os teus pais, ao que parece, ficaram aborrecidos com isso.

Queria dizer-te que não deves ficar preocupado com o que aconteceu. Pelos vistos, o objetivo da direção da tua escola foi evitar a possibilidade de outros meninos, de várias nacionalidades - a começar pelos franceses -, poderem meter-se contigo e criar alguma confusão. Se calhar, na tua escola, há meninos da Coreia do Norte*...

É muito bom que tenhas sentido orgulho em usar a nossa camisola. A França é o país onde vives mas, como se viu, Portugal é o país que trazes no teu coração. É aqui que, provavelmente, irás fazer a tua vida, no futuro, mas isso não te torna menos português. A França é uma terra onde há muita gente que veio de outros países, como de Portugal, à procura de oportunidades para trabalhar. A França deu-lhes essa possibilidade e os portugueses retribuíram com o seu esforço, com a sua seriedade e a sua honestidade, para a riqueza da sociedade francesa. E aqui estão, também em sua casa. Ninguém deve nada a ninguém. E tu és a melhor prova do sucesso da integração dos portugueses em França, com a tua mãe francesa e o teu pai luso-descendente.

Os portugueses que aqui vivem devem ser sempre leais para com a França que os acolhe, da mesma maneira que a França tem de aceitar que tu, tal como os outros meninos que se sintam ligados a Portugal, possam mostrar isso, nas ruas ou nas camisolas. Pode discutir-se se a escola é o lugar mais indicado para andar com as camisolas da nossa seleção, mas, aos teus amigos de cá, deves lembrar que foi a Revolução Francesa, aquela que está na bela "La Marseillaise", que ensinou o mundo a lutar pela liberdade, a defender a igualdade entre todos e a demonstrar a nossa fraternidade perante os outros.

Para ti, caro Mathis, quero deixar-te um abraço bem lusitano e um convite para, um destes dias, vires, com os teus pais, visitar a Embaixada. E também espero que, qualquer que seja o resultado que a seleção portuguesa venha a ter no Mundial, tragas vestida a camisola das quinas. É que nós, os portugueses, temos por tradição ser muito orgulhosos do nosso país, tanto nos bons como nos maus momentos.

Francisco Seixas da Costa


* Portugal jogou por esses dias com a Coreia do Norte

O Reino Unido que aí virá

Veja a análise em "A Arte da Guerra" aqui .