segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Hubert

Ao final de uns minutos, eu já estava arrependido de ter puxado conversa. Ele era do Haiti, negro, vivia em França desde os anos 90, tinha aquele francês caribenho macarrónico. Comecei por perguntar-lhe pelo seu país, pelo terramoto, pelas vagas migratórias para a América, Canadá e França. Vieram também os Duvalier à baila - do pai ao "baby Doc" e aos "tonton macoute" -, falámos da desilusão que foi o Aristide. Ele era democrata, contra a ditadura, falou do desvio de verbas para a reconstrução, da escassa esperança na nova solução governativa. A certo passo, dei comigo a cometer o lapso de lhe perguntar quem é que ele achava que ia ganhar a eleição francesa do dia 7. O homem começou a responder relativamente sereno, equilibrado, quase diplomático. Depois, subitamente, confessou, excitado, que ia votar Marine Le Pen. Não contestei, não disse nada, ouvi a sua litania sobre a necessidade da França sair do euro, regressar ao franco, travar a entrada de estrangeiros (!). "Com um franco comprava-se uma baguette, agora é preciso o equivalente a seis francos", sem que eu lhe perguntasse quanto ganhava então. E, de um momento para o outro, Macron passou a ser o objeto de todas as críticas. Ainda estive para perguntar-lhe se, por acaso, já tinha refletido no que poderia vir a acontecer, em caso de vitória de Le Pen, aos estrangeiros, mesmo aos que, como ele, já estavam há muito em França. Contive-me, para não atiçar ainda mais a conversa que ele empolgara. E, praticamente, "desliguei". A certa altura ouvi-o denunciar a aliança de Macron e com o Hubert. Conheço relativamente bem as figuras políticas, e outras, francesas, mas não consegui chegar à personagem a quem ele se referia. O tal Hubert surgir-lhe-ia umas vezes mais no discurso, que agora era contra a "globalização", o "neo-liberalismo" e clichés assim. Eu já tinha deixado para trás a conversa. Saí do carro. Paguei. E, um segundo depois, como dizem os brasileiros, "caiu a ficha": o Hubert, esse maroto conluiado com Macron, que eu não identificava, era afinal o Uber. Muito por causa dele, o taxista haitiano de Paris vai votar Le Pen. Que lhe faça bom proveito, é o que não lhe desejo.

17 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Pobre Haitiano ! O que me desola mais na história que nos conta, Senhor Embaixador, é o facto que essa gente não sabe ler a história recente do seu pais. Aristide, mesmo apoiado por George Bush Pai, acabou por ser levado pelos Marines US, um dia, após muitos dramas, e muitos mortos, para fora do país. E isto porque o seu programa social não agradava à classe económica dominante. Mesmo se mais tarde também meteu a mão no saco dos dólares da ajuda para a reconstrução após o tremor de terra de Port au Prince.

Amanhã, se a Marine for eleita, pode dar-lhe o tratamento que Trump começou a dar aos seus compatriotas fugidos do Haiti:

Os Americanos prenderam e expulsaram, na semana passada, centenas de haitianos em situação irregular, consideradas "prioritárias" na lista de deportações. Apresentadas como "rotineiras", essas são as primeiras operações da era Trump .e tiveram como alvo as casas de imigrantes clandestinos em Los Angeles, Nova York, Chicago, Austin, Miami e outras cidades.


Rui C. Marques disse...

Lembrei-me de um conterrâneo meu que regressava da guerra em Angola e,cheirando a sardinhas assadas no cais de Alcântara onde aportava o navio que o trazia,escreveu:" Um copo de vinho tinto/o cheiro a sardinhas assadas/e esta vontade que sinto/de me rir
às gargalhadas."

Valdemar Iglésias disse...

Por todo o lado (a começar na América), o regresso a nacionalismos de visões curtas. A ditadores de opereta que prometem que vão chegar para salvar o país de todos os males.

Corrijam-me se estiver errado, mas não é assim que começam guerras em grande escala? É melhor protegerem os arquiduques...

Um forte abraço, sr. embaixador.

Francisco Guerra Tavares disse...

Caro Embaixador, não querer analisar as razões que levam a votar em Le Pen, é o mesmo que continua a ser feito em relação à eleição do Trump: põe-se lhe o carimbo e não se discute mais o assunto. Os demmocratas nos EUA nem querem ouvir falar das razões porque perderam, para eles o Trump simplesmente foi eleito pelos russos. Mau demais....... Quanto a França, eu não votaria Le Pen (digo eu, reconheço, aqui sentado), mas pergunto: qual a diferença do Macron para as políticas seguidas atualmente em França? Tanto quanto vislumbro, será mais do mesmo. O que para mim quer dizer que as principais razões que estão detrás da progressiva expansão da Front National (desregulação do mercado de trabalho, redução dos salários, precarização do trabalho, tentativa de redução das pensões, zona monetária criadora dos atuais desequilíbrios económicos, política externa alimentadora da desestabilização e destruição dos países de origem dos refugiados) continuarão a ser alimentadas.

Anónimo disse...

Hubert Védrine? Hubert Beuve-Méry (re-fundador do Le Monde)? Hubert de Givenchy?

Anónimo disse...

Apliquemos o adágio português:
"Só quem mora no convento é que sabe bem o que se lá passa."

caruma disse...

Caro Embaixador, quero pedir sua sugestão/s sobre um ou mais bons livros que se passe em Paris, mais ou menos agora. Nada do Don Brown etc etc. Nem dos clássicos que esses já "marcharam todos como "marcharam" já os Museus. Vou a Paris daqui a uns meses, desta vez para "curtir" a cidade. E assim como foi óptimo ler o Dostoiewski antes de ir a São Petersburgo, queria fazer o mesmo relativamente a Paris - mas a de agora. Posso ler em Fr, sim, mas prefiro em Port, já que vou com outras pessoas que já não percebem nada dessa Língua extraordinária. Boa Literatura, claro.
Agradeço-lhe imenso.

caruma.zinha@gmail.com

Anónimo disse...

A esquerda tem quase tudo em comum com a Marine, incluindo a vontade de sair da União Europeia e do Euro, a desconfiança relativamente ao grande capital e aos mercados e a vontade de erguer barreiras económicas para estancar as ameaças da globalização.

Possuem o gosto pelo exercício musculado do poder quando o exercem, que não o gosto pela submissão a poderes musculados quando outros os exercem.

Convergem no ódio aos judeus, sendo que uns odeiam os judeus massacrados pelo nazismo, os outros odeiam os que os vizinhos árabes se têm esforçado nas últimas décadas, com diligência mas insucesso, por massacrar.

Anónimo disse...

Grande analise pelo anonimo das 16h32

Joaquim de Freitas disse...


" os outros odeiam os que os vizinhos árabes se têm esforçado nas últimas décadas, com diligência mas insucesso, por massacrar.

1 de maio de 2017 às 16:32"



Sim, talvez o comentador das 16:32 tivesse razão, se não tivesse esquecido que actualmente sao os Palestinianos que as vitimas de ontem na Alemanha, massacram em terras da Palestina., como massacraram ante ontem em Sabra e Chatilla. Amnésia ?

Joaquim de Freitas disse...



"A esquerda tem quase tudo em comum com a Marine, incluindo a vontade de sair da União Europeia e do Euro"escreve o mesmo comentador.

Parece-me que o comentador esqueceu o resultado do referendo, em França, em 2005, que viu os Franceses rejeitar largamente o tratado constitucional europeu,. Com 54,67 % dos votos, o “Non” foi claro. Foi Sarkozy que lhe torceu o pescoço em Lisboa, em 2007, fazendo ratificar o tratado , quase idêntico, pela via parlamentar. Q

Quem votou contra? A esquerda, só? Sempre esta mania de "carregar" a esquerda de todos os vicios...

Pela primeira vez talvez, o referendo de 2005 mostrou a fractura entre « as elites » e « o povo ». As classes sociais superiores e os reformados votaram « OUI » ao contrário das classes populares.
62% dos quadros superiores e das profissões liberais votaram ‘OUI”, contra 26% dos trabalhadores e 38% dos empregados.

Quando se trafulha uma decisão do povo, paga-se mais tarde. Hoje por exemplo.


Luís Lavoura disse...

Porque não utiliza o Francisco os transportes públicos? Evitaria estas conversas.

Luís Lavoura disse...

Esta história serve para ilustrar o ridículo que é numa língua as palavras "uber" e "hubert" lerem-se exatamente da mesma forma.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura. Porquê? Porque é mais cómodo, ora essa! E porque eu não quero sair da minha "zona de conforto", no que estou no meu direito, ou não? Às vezes, as conversas acontecem...

Francisco Guerra Tavares disse...

Independentemente dos transportes, o que me parece é que já chega de evitar estas conversas. Mesmo falando sobre uma realidade que é diferente da nossa (e será assim tão diferente?), o que se coloca no próximo domingo é Escolher Macron, escolher Le Pen, ou escolher não escolher.
E é sobre as razões e as consequências de cada opção que seria bom que se converse. Tanto quanto possível sem rótulos.
Quanto ao Macron, ele já prestou provas enquanto ministro de Hollande: a lei Macron, que teve por objetivo a privatização de parte do capital de aeroportos como os de Lyon e Nice, da flexibilização dos despedimentos e da liberalização do acesso a profissões antes muito reguladas, como os advogados, os notários ou os oficiais de justiça. Em suma, privatizações e desregulamentação do mercado de trabalho para embaratecer a força de trabalho. Algo que conhecemos bem do período em que tivemos a tripla Passos/Portas/Troika.
Quanto a Le Pen, com um programa económico aparentemente à esquerda, mas um programa político claramente à direita da direita. Como se comportaria se a Assembleia Nacional refletisse com a devida proporção a Front National?
Escolher não escolher: O chamado não ir a jogo. A ver o que acontece. Mas que favorecerá algum dos candidatos. Qual?

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Francisco Guerra Tavares

: Claro que é preciso ir votar Domingo. Claro que devemos fazer barragem ao FN. Mas que ninguém se tape as relhas nem os olhos. A frente republicana contra Le Pen é o tapa olhos, o esconde miséria de todos estes governos que durante décadas esqueceram de tratar os problemas que afectam o povo.

O que é necessário é estancar o reservatório que alimenta o extremismo da direita, o das condições sociais e politicas que alimentam o FN como a barragem alimenta a turbina. Sentem-se à beira duma barragem e vejam como a turbina acaba por parar quando não hà água na barragem…

Claro que as gentes ordinárias mas reputadas insubmissas, recalcitrantes, utopistas, e de esquerda, têm uma certa dificuldade a ir votar , mais uma vez,como em 2002, para salvar a Republica. Claro que não é nada evidente para quem não é Alain Minc.

Enquanto que os políticos se entretinham desde hà muito a empurrar a carroça das desregulamentações e do liberalismo , grandes sumidades estudram o fenómeno do empobrecimento generalizado dos povos europeus. E que dizem eles?

Como o sapo se eleva acima do seu bocal, a cota do FN sobe à escala do desemprego de massa.

Produzir um drama não é difícil, a receita é imparável : deslocalização, desindustrialização, desemprego, pobreza e subida do FN.

O fenómeno do empobrecimento estende-se hoje para là das classes populares, como o demonstra o declínio das classes médias e a fuga acelerada dos jovens expatriados.

Se essa fuga era compreensível nos anos sessenta, e eu fui um deles mas por razoes politicas, hoje é inaceitável. Algures à partilhas da riqueza produzida que não se fazem correctamente.
Desde hà mais de trinta anos que a partilha do valor acrescentado entre capital e trabalho privilegia os acionistas.

As exigências dos fundos de pensão accionistas, de 15% de retorno sobre investimento, laminaram as rendas do trabalho, os salários .E eu conheci essas exigências, na empresa de 300 colaboradores que dirigi .E para os obter, os nichos de produtividade a descobrir em permanência, .não bastavam

Não é necessário ser um desempregado em fim de direitos para ser pobre. Cada vez mais, estes infelizes, estão a “seco” no dia 10 do mês que começa, e portanto trabalham, e acrescentam o desespero ao desespero.

O neo liberalismo que nos esmaga, tem varias facetas. Como dizia o Director Geral da OMC : O principio da realidade é a economia, o principio do prazer, é a politica” Ele dizia mais ainda : “ O capitalismo sob esta forma é doloroso porque é eficaz, e eficaz porque é doloroso”.

O futuro será por conseguinte o da pobreza e duma dupla violência, a da miséria e da injustiça.

O vulcão pode acordar um dia. E sabe-se que as explosões mais violentas são aquelas em que os vulcões dormiram durante mais longos períodos de tempo.

Francisco Guerra Tavares disse...

Joaquim de Freitas
100% de acordo. Não voto Le Pen. Mas o Macron eleito sabe-se que significa continuar a "picar" para que o vulcão acorde. Mas não vejo em França, nem noutros países, alternativa organizada que faça frente a esta gente. E à falta disso a extrema direita vai capitalizando o desespero.
Nesta nossa viagem de argonautas, andam por aí uns textos estimulantes a propósito da 2ª volta em França.