sábado, 10 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)

Nunca falei com Urbano Tavares Rodrigues. Nunca consegui acabar um livro seu (defeito meu, pela certa, que me confesso um pouco atento leitor de alguma ficção). Sempre senti uma distante simpatia pela sua figura humana, que me parecia suave e amável, com uma aparente tranquilidade. Não tinha aqueles tiques de "prima dona" grave que marcam alguns dos nossos escritores, sempre a fugir-lhes o pé para a polémica ácida, a imitarem o que leram das tricas intelectuais do século XIX. Urbano Tavares Rodrigues foi um lutador contra a ditadura e era um homem de abril, embora num registo que nunca foi o meu. Sinto-me solidário com quantos lamentam a sua morte.

ps - esta é a resposta a um amigo que me telefonou, há pouco, a dizer: "então não escreves nada sobre o Urbano?". Aqui fica, com total sinceridade

7 comentários:

Isabel Seixas disse...


Urbano Tavares Rodrigues

“Pois é:talvez.

Mas eu gostava de ter a certeza. A certeza de que não havemos de esquecer os velhos sem esperança, nem os catraios com fome, nem estes cegos que tocam pelas ruas, nem os que morrem sem um queixume, quando formos nós a fazer congressos, e filmes, e exposições...

Porque restaurar a verdade não basta. É preciso modificar a verdade. mesmo a ciência, mesmo a beleza me parecem frívolas, vãs, se...”

Urbano Tavares Rodrigues,in Os insubmissos
http://www.goodreads.com/author/quotes/183994.Urbano_Tavares_Rodrigues


Naquele que será o seu último livro, Nenhuma Vida, a publicar ainda este ano

"Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz".

ISABEL LUCAS , ISABEL COUTINHO , SÉRGIO C. ANDRADE e CATARINA MOURA
http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-o-escritor-urbano-tavares-rodrigues-1602646

patricio branco disse...

sim, um bom escritor, talvez o ultimo duma geração, a de d m ferreira, sebastião da gama, fernando namora, v ferreira, lindley sintra, a sua obra tem força, valor literário e conteudo social, um homem sim suave, cortês, simpatico, de aparencia tranquila, sensivel às injustiças, levou uma sova em 1969 na campanha eleitoral à saida ou durante um comicio, de delinquentes pidescos, mas será o escritor que mais fica e agora interessa, um dos nossos grandes contistas que não temos assim tantos grandes, pois que seja homenageado como merece, irão autoridades, pr, pm, quem seja, prestar lhe atenções funebres?
tambem ocasião do ler, etc

Anónimo disse...

Que pena... Independentemente das nuances ideológicas, não conheceu o Homem, tolerante, amigo, generoso, de uma coragem invulgar, extraordinariamente culto, conversador, dionisíaco, doce como o Cintra, sedutor como o David. Hoje, na hipocrisia dos que o ignoraram, como está morto, vai ser louvado, em homenagem, antes da cremação... «Também está bem!...», como diria o Aventino...

São disse...

Tive a honra da sua amizade e a prova da sua generosidade e estou triste porque morreu um Homem, com quem não partilho a ideologia, mas que lutou pela Liberdade e se recusou a pactuar com a aniquilação da Primavera de Praga pelos tanques da União Soviética.

Li a obra quase toda e, só por exemplo, lembro "Os Insubmissos", "Bastardos do Sol" e o conto "A Samarra".

Obrigada por o ter lembrado aqui.

Joaquim De Freitas disse...

Quando os partidos nos quais tínhamos depositado a nossa confiança, viram pouco a pouco falsos sociais democratas ou mesmo sociais liberais, a pobreza não interessa mais ninguém.
Quando a tuberculose, doença da pobreza, ataca de novo os mais miseráveis mesmo nos nossos países "desenvolvidos", é sempre com tristeza que vemos apagar-se uma voz, intransigente desde sempre, que os defendia.
Vivi a minha juventude com Urbano Tavares Rodrigues. Fazia parte dos meus exemplos de combate contra o fascismo , nesses tempos em que eram poucos os que se arrojavam a combatê-lo dentro das fronteiras. Depois de Abril eram legiões.
Não é porque não podemos tudo, que não podemos alguma coisa; não é porque não sabemos tudo que não podemos aprender; não é porque somos falíveis que não podemos ser bons.
Urbano Tavares Rodrigues tentou fazer algo da sua vida, não aprendeu certamente tudo, foi falível mas travou o bom combate.

Helena Oneto disse...

Tive o privilégio de conhecer Urbano Tavares Rodrigues e confirmo o que diz o comentador das 15:19 "Homem tolerante, amigo, generoso, de uma coragem invulgar, extraordinariamente culto, conversador, dionisíaco, doce como o Cintra, sedutor como o David".

Subscrevo também o comentario de Joaquim De Freitas.

Querida Isabel Seixas,
Saber morrer é tão lindo!
"Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei,..."
O Urbano morreu como viveu: com coragem e dignidade.

Isabel Seixas disse...

Querida Helena

Uma das discussões que urge continuar a debater e de onde nós profissionais de saúde temos de interiorizar a necessidade de respeitar é o testamento vital.

O testamento vital Como última vontade expressa,
verbalmente ou por escrito, em consciência e com insight ou seja com capacidade/lucidez dos utentes (que temos o privilégio de cuidar ou que se deixam cuidar por nós), ainda não é um plano integrado nos cuidados, pela delicadeza que envolve a antevisão temporal da morte e consequente finitude.


Achei interessante como acho sempre a classificação de morrer com coragem e dignidade, presumo que é conformado e rendido à evidência de que se morre e que mesmo em desespero deve morrer-se em silêncio?... Ou numa emotiva despedida, com um sorriso e um suspiro ...

Uma das atividades mais difíceis de enfermagem a seguir a ajudar a viver é ajudar a morrer...

Já nos congratulamos se for sem dor Física claro, a de alma ficamos sempre sem saber...

Ainda se morre muito só...