quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Gibraltar


 
Entre a Espanha e o Reino Unido renasce, a espaços, a polémica em torno da questão de Gibraltar, com ambos os países a insistirem nos seus direitos de soberania sobre o rochedo. Nos últimos dias, o tema voltou a agitar as duas diplomacias, por virtude de uma iniciativa espanhola de reforçar os controlos fronteiriços.

Este é um tema difícil para Londres, que não consegue fazer esquecer a solução que foi dada a Hong-Kong, face à China, e tem sempre presente a paralela questão das ilhas Falkland/Malvinas, com a Argentina. Mas a diplomacia espanhola tem igualmente que defrontar-se com o exemplo da sua presença em Ceuta e Melilla, contestada por Marrocos. E já nem trago aqui a questão de Olivença...

O que julgo não ser conhecido, mas que me parece suficientemente longínquo no tempo para já o poder ser, é o interessante processo de mediação que Portugal desenvolveu, durante a sua presidência da instituições europeias em 1992, no sentido de se poder encontrar uma solução para a integração de Gibraltar no espaço de livre circulação no espaço europeu, com a possibilidade de utilização do respetivo aeroporto - construído numa zona de soberania contestada pela Espanha, o que constitui um outro problema, que é independente da própria questão central da soberania de Gibraltar.

As conversações tiveram como principal interlocutor português o dr. Paulino Pereira, representante pessoal do então secretário de Estado dos Assuntos Europeus, dr. Victor Martins, e o embaixador britânico Jeremy Greenstock, ao tempo diretor-geral para a Europa. Estive presente nas reuniões que tiveram lugar em Londres, sendo que outras decorreram em Madrid.

Infelizmente, e não obstante toda a criatividade, em matéria de soluções técnicas, demonstrada por Portugal, cuja mediação tinha a confiança política de ambas as partes, não foi possível obter-se um acordo. Lembro-me, em particular, que procurámos gizar um modelo de utilização dual do aeroporto, com acessos diferenciados e jurisdições complementares. Não guardei qualquer documento sobre esse processo negocial, que então foi rodeado de grande secretismo, pelo que não tenho opinião sobre quem possa ter sido o principal responsável pelo seu insucesso.

Resta dizer que o aeroporto de Gibraltar (atravessado pela estrada de acesso ao território, como se vê na foto) hoje só é acessível por voos tendo como origem ou destino o Reino Unido. Uma abertura de Madrid para permitir voos a partir de aeroportos espanhóis acabou por não ter sequência.   

12 comentários:

EGR disse...

Senhor Embaixador: embora aborde tema afastado do nosso quotidiano eis mais um texto bem interessante para quem tenha alguma apetência por estes assuntos.

patricio branco disse...

chegou a haver há alguns anos, durante 1 ano ou coisa assim, voos comerciais entre madrid e gibraltar, ib e/ou ba, depois terminaram, não sei se por razões comerciais ou por reviravolta politica no contencioso.
a grande dificuldade dificil de ultrapassar é que os gibraltenhos não querem de maneira nenhuma ser espanhois ou ficar sob essa soberania, e ceuta e melilla muito ajudam, quanto ao aeroporto, interessante saber que portugal mediou em conversações que, já agora, podiam ter sido em olivença.
mais dificil de perceber é a existencia dum enclave espanhol em frança totalmente pacifico que não causa polemicas.

Anónimo disse...

Quando toca a propriedades e dinheirinhos, não há sociedades (e pessoas) civilizadas. Afloram logo os sentimentos mais primários.
Como dizia E. H., “O patriotismo (no fundo propriedades e dinheirinhos) é o ópio dos povos fascistas. O verdadeiro fascismo. Não o que é apregoada a torto e a direito nos media por uma qualquer imbecilidade governamental, como a última, em que querem esconder o gato com o rabo (bem felpudo) de fora.
E não se almeje por outros, porque é tudo igual: Ignorantes e batoteiros! A todos os níveis, desde a junta de freguesia até ao topo. Mesmo havendo exceções, que há, em pessoas e medidas, são completamente anuladas por estas “porcarias” (a expressão entre aspas é de Ernani Lopes).

Mônica disse...

SR Francisco
Tem tantas coisas envolvidas nestes assuntos, que a gente acaba sem saber pra que lado ficar. Como no nosso pais tem muitas estradas, pontes e ate hospitaios que deveriam ser terminadas e estao parados por causa de politicos que esperam nao sei o que.
Imagino entao :Ainda mais um aeroporto que todos querem ter.
Vou contar outra historinha. Posso? A nossa cidade é pequenina, e tem aeroporto ha muito tempo, só porque o governador da epoca tinha fazenda na cidade e precisava chegar rapido. Enquanto isto outras cidades maiores tiveram que esperar alguns anos pra tambem ter seu aeroporto com politicos mais afluentes.
E hoje o nosso aeroporto so serve pra caminhar. Esta um deserto puro. Poucas vezes avistamos algum aviao descendo.
com carinho Monica

Anónimo disse...

Gibraltar é um caso bicudo, principalmente porque é uma conquista de guerra entre dois países que tiveram vários confrontos militatres e económicos.
Depois também há a importância estratégica da sua colocação que faz com que os ingleses aí queiram continuar. É interessante como nem a abertura das fronteiras na UE veio resolver isto.

Catinga disse...

Muito bem lembrado, Patrício Branco.

Até pode ser que esse enclave espanhol em França um dia se torne catalão. :)

Joaquim De Freitas disse...

Gibraltar, o paraíso dos fasts-foods e dos fish& and ships ,onde, por toda a parte, tudo cheira à gordura mortal, o "graillon" , o paraíso do shopping à gogo, onde a densidade nas ruas é igual à da festa da musica na Bastille, o paraíso dos "desficalisados" da Barclays e da Goldman Sachs, trafulhas gloriosos do Libor, o paraíso prometido pelo Mister Cameron , honesto "partner" da UE, que promete aos "tricheurs" franceses um tapete vermelho à descida do avião, graças a Gibraltar, Jersey, ilha de Man, as Ilhas Virgens, as Bermudas, etc, etc, para ai armazenar as montanhas de dinheiro subtraído aos impostos,em pleno sul dos povos dos"pigs" que eles acusam de preguicite aguda, que, eles, pagam os seus impostos, Gibraltar, o rochedo dos macacos, que tapam os olhos para não verem o horror arquitectural deste tumor nas costas da bela Andaluzia, ela mesma "estragada" pelo "boom" imobiliário, Gibraltar, puro produto do imperialismo britânico,escândalo financeiro , verruga arquitectural, que a geopolítica autoriza sem pestanejar. "Rule Britânia" porque os 28 assim lhes permitem!

Anónimo disse...

É curioso que o Anónimo "7 de Agosto de 2013 às 14:49" descreveu na perfeição a situação de Olivença, não foi?

Anónimo disse...

caro patricio branco

os pastores de ambos os lados da fronteira nao devem ter mudado os pastos de transumancia...

em espanha pelo menos a guardia civil (nao sei de quando foi criada exactamente) so comecou estar presente no final do sec xix

e tenho ideia de ter lido que na zona de montalegre a pertença a portugal ou a espanha tera sido decidida pelas proprias comunidades/aldeias meados do sec xix

a delimitacao das fronteiras (na europa...) o aparecimento do professor primario a "gendarmerie" (gnr/guardia civil/etc) correspondente parece-me sao tudo fenomenos de uma mesma epoca

no fundo as questiunculas geralmente nao sao dos pastores, sao dos estados... (etc etc)


e mais que ceuta e melilla o que eu nao percebo sao os penons, uns calhaus a 100 metros da costa...


tretas.


bh




Defreitas disse...

Na sequência do meu comentàrio precedente( peço desculpa pela ponctuaçao, o meu note-book nao é o computador habitual!), e a proposito da palavra "graillon" que nao sei traduzir em Português, mas que é caracteristico daquele cheiro nauseabundo que emana de todoas as cozinhas dos restaurantes de "under" classe onde se cozinha para ingleses, o "mayor" de Londres anda atrapalhado com um problema nos esgotos da capital, onde toneladas de gordura dos fish&ships e outras "especialidades" saxonas, entupiram os esgotos. Nalguns bairros chics os moradores nao ousam puxar ou apoiar no botao dos WC com receio de retorno desagradàvel da encomenda!

Vi as fotos na TV francesa: é monumental, kolossal como diria um alemao !

Rule Britânia

Anónimo disse...

Snr. Embaixador,

mesmo que V. Exª não queira trazer o assunto à colação, resulta chocante o contraste entre o activismo espanhol em relação à questão de Gibraltar e a letargia - estive quase para escrever "a pusilanimidade"... - da diplomacia portuguesa, no que respeita à questão de Olivença. Basta ler os comentários dos leitores às notícias sobre o caso ora evocado, nos jornais de referência, para perceber que o paralelo não passa despercebido a ninguém.

E é pena que assim seja, tanto mais que é notório que a posição nacional relativamente à velha vila alentejana tem muito mais mérito, em sede de Direito Internacional, do que a dos nossos vizinhos em relação ao Rochedo.

Esta sua postagem trouxe-me à memória um dos momentos mais "curiosos" da nossa vida diplomática recente: a daquele MNE que, numa das cimeiras Ibero-americanas, se empenhou pessoalmente para colocar a questão de Gibraltar no comunicado final (exigindo-se a sua pronta devolução a Espanha...), sem que alguém lhe conhecesse qualquer diligência, por mais insignificante que fosse (aliás, muito pelo contrário, e poderia dar testemunho pessoal disso), para obter solução para o nosso contencioso bilateral com o país vizinho.

Com os habituais cumprimentos, acrescidos por votos de boas férias,

A. Costa Santos

Portugalredecouvertes disse...

Achei engraçado a fronteira à antiga quando por lá passei há uns anos!
à chegada levaram os B.I.'s e passaportes, descemos do autocarro, foram fiscalizar o autocarro, e foi então possível continuar a nossa entrada em Gibraltar depois de nos devolverem os documentos e atravessar a pista do aeroporto.

fizemos uma visitinha da cidade, e umas 2 horas depois estávamos de regresso à fronteira, então para sair, novamente verificação dos B.I.'s, fiscalização do autocarro, e nós surpreendidos, mas será que já não se lembram de nós ??!