terça-feira, 12 de julho de 2011

A hora da crise

Há quem pense que a zona euro pode estar a entrar no seu verdadeiro primeiro momento de verdade. O alargamento da situação de fragilidade de uma economia nacional com a dimensão e a importância da Itália, a confirmar-se a sua gravidade, conduz agora a crise europeia para um patamar diferente. 

Já não se tratará, simplesmente, de controlar derivas de economias periféricas, com mais ou menos "panos quentes" e "espadas de Dâmocles" individualizadas, mas de decidir, de uma vez por todas, se um projeto monetário comum pode, ou não, sobreviver sem instauração de outros mecanismos de natureza compensatória ou instrumentos criativos de financiamento, como os "eurobonds". Porém, a viabilidade destes modelos está dependente de um conjunto tão complexo de variáveis, nas muito diversas ordens políticas nacionais, que começa a ser legítimo interrogarmo-nos sobre se isto não será "areia demasiada" para a "carroça" europeia. 

Ontem à noite, um observador com grande experiência nestas andanças europeias dizia-me que temia que, um destes dias, um projeto que demorou décadas a construir pudesse ruir, como um castelo de cartas, em pouco tempo. Esperemos que este pessimismo não tenha razão de ser, até porque o modelo europeu tem agregado a si um conjunto de realizações (em especial, algumas políticas comuns), independentes do projeto da moeda única, que seria de grande irresponsabilidade pôr em causa.

Uma coisa é certa: em qualquer desses cenários, o saneamento das contas públicas, como aquele que Portugal está a levar a cabo, com grande coragem e determinação, continuará sempre a ser essencial. Não é por uma doença deixar de ser individual e, eventualmente, começar a mostrar-se como epidémica, que devemos deixar de tratar-nos.

15 comentários:

patricio branco disse...

creio hoje que portugal não devia ter entrado no € tal como outros membros da ue. Mas sair agora, nem pensar, seria desastroso e complicadissimo. A dinamarca e o ru não estão melhor ou pior por estarem fora da eurozona.
Se algum membro sair do €, que sejam a rfa e mesmo a frança. O € decaia então, desvalorizva, e paises como portugal e grecia tornavam se mais competitivos.

Alcipe disse...

O problema é que a nossa doença foi consequência da epidemia (e de falta de tratamento atempado, de acordo: mas não fomos os únicos a ficar descansados com alguns errados diagnósticos optimistas feitos em 2008, a nível internacional) e não sei em que estado poderemos sair de uma eventual "decadência e queda do Império do Ocidente"...

Gil disse...

Uma coisa parece evidente: o modelo de funcionamento da economia internacional, tal como foi apregoado e, depois, imposto pela ortodoxia do “pensamento único” dos últimos 30 anos, “deu o triste berro”. E os pânditas que, com ar professoral, continuam a esconder, atrás de fórmulas esotéricas, coisas simples, mistificando e travestindo, pretendendo fazer-nos crer que possuem um qualquer conhecimento iniciático, demasiado complexo e inacessível ao comum dos mortais, estão é mal enterrados e são já cadáveres sem o perceberem.
Desta crise, nada sairá incólume e, depois dela, nada será como dantes.

José Sousa e Silva disse...

Concordo com Patrício Branco.
Desvalorizar o Euro seria a solução
e fazer o que é preciso, entretanto.
Senão a crise causará uma revolução !

Francisco Seixas da Costa disse...

ATENÇÃO: Por lapso, acabo de eliminar seis comentários que pretendia... publicar. Coisas de quem não tem tempo! Por favor, repitam!

José Sousa e Silva disse...

Senhor Embaixador
Não consigo repetir...e pronto !
O que escrevi foi de improviso, como é meu costume, aliás.
Ainda pensei que o Senhor não tivesse gostado mas como já o "vi" em situações muito difíceis e GOSTEI ... fiquei esperando.
E não é que fiz muitíssimo bem !!!...
Agora repetir é que não sei.

Mônica disse...

Mais uma vez repito que esta crise seja passageira e dê tempo para os brasileiros fazer algo em benficio nosso.
Com carinho sua amiga Monica

patricio branco disse...

o € foi ou ainda é uma bonita utopia: uma moeda unica para quase 20 paises todos muito diferentes uns dos outros, cada um com uma particular situação politico economico financeira.
Como pode uma moeda unica adaptar se a tantas situações diferentes?
o € acaba por ser o que nunca se pensou, um espartilho das economias dos paises que o adoptaram, sobretudo quando estão em dificuldades.
claro que a crise não está em existir o €, mas o € é mais uma dificuldade limitando os mecanismos clássicos usados nestas situações, desvalorizações, taxas de juros, etc
vai ser necessaria imaginação para contornar os problemas mantendo o €

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Alcipe se for só a queda do Império do Ocidente...
Já sei. Sou bota abaixo, dirão. Pessimista. Não. Sou pragmática.

gogol de kapote disse...

a crise tem anos

não tem horas

escala temporal né?

Helena Oneto disse...

Partilho a sua e as opiniões de Tim Tim e Gil e espero, como o Senhor, que "este pessimismo não tenha razão de ser".

Anónimo disse...

A velha está imparável, a senilidade acabou-a, agora até rimalha politiquices. Ainda tenho que a internar.

rimo tanto disparate
que ninguém me leva a sério
mas no fundo do açafate
talvez haja algum minério

do gil acima partilho
opinião sobre a crise
que modelo já sem brilho
rebente e não se eternize

nada será como dantes
e ainda bem pois tão mau era
quartel general em abrantes
não rima com primavera.

Anónimo disse...

Bem, se é a hora da crise repetir não é indelicado?!!!
Isabel Seixas

Gil disse...

Por lapso, deixei ontem no post anterior ("Jornais") um comentário que era destinado a este.
Aqui fica.
Uma coisa parece evidente: o modelo de funcionamento da economia internacional, tal como foi apregoado e, depois, imposto pela ortodoxia do “pensamento único” dos últimos 30 anos, “deu o triste berro”. E os pânditas que, com ar professoral, continuam a esconder, atrás de fórmulas esotéricas, coisas simples, mistificando e travestindo, pretendendo fazer-nos crer que possuem um qualquer conhecimento iniciático, demasiado complexo e inacessível ao comum dos mortais, estão é mal enterrados e são já cadáveres sem o perceberem.
Desta crise, nada sairá incólume e, depois dela, nada será como dantes.

Anónimo disse...

"Saneamento das contas públicas"in FSC

De facto a expressão mediatiza o reforço e a importância dos cuidados primários na saúde pública da gestão moralizante...
Isabel Seixas