quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Notas

Não há ninguém que perceba melhor do que eu o fascínio que os famosos cadernos da Moleskine provocam nas pessoas. Tenho um grande amigo brasileiro que diz sentir-se "nu", se se esquece do Moleskine! Desde há muito que sou um infatigável coleccionador daquilo que os britânicos apelidam de "stationery", categoria comercial onde se incluem pequenos livros, de capa dura ou mole, de folhas brancas, quadriculadas ou de linhas, destinados a apontamentos diversos.

(Uma nota curiosa, de cultura "de almanaque": chama-se "stationery" a estes produtos porque se vendem em sítios fixos e não em vendedores ambulantes: "si non è vero, è bene trovato"...)

Compro-os incessantemente pelo mundo, para angústia de espaço de quem vive comigo, pela certeza que temos que, nem com outra vida, chegaria a ter tempo para os escrevinhar a todos. E tenho-os de várias espécies e tamanhos: desde uma "raça" muito bruxelense, usada na União Europeia, com capa dura coberta a pano acinzentado, até uma vienense de tom verde escuro brilhante, passando por alguns azuis fortes, com belíssimo aspecto e que quase dá pena de encetar. Nas reuniões internacionais, se vislumbro do outro lado da mesa alguém com um modelo que me interessa, não deixo logo de inquirir onde o adquiriu - e lá vou eu... Tenho agora encomendados, num encadernador de Vila Real, exemplares de um novo modelo que vi nas mãos de um amigo, coberto a carneira, que vai passar a estrela (episódica) do armário onde jazem dezenas desses livros e cadernos, separados, "às paletes". E, claro, também tenho um Moleskine, mas apenas um.

Dito isto, convém que ninguém se iluda. O mundo pode produzir toda a espécie destes caderninhos anti-Alzheimer (chamo-lhes assim porque neles tomo nota incessante de tudo o que posso esquecer), mas os melhores de todos - e os mais baratos de todos - encontram-se no Porto, na Papelaria Heróica, no número 110 de uma das mais bonitas artérias da Invicta, a Rua das Flores, paralela à Mouzinho da Silveira, para quem desce da estação de S. Bento para a Ribeira. Há décadas que lá me abasteço desses livrinhos, de capa preta, convencendo-me eu que os passaram a produzir também em papel quadriculado (eram só brancos e de linhas) depois de anos de operosas conversas que tive com os antigos proprietários. Eles fizeram-me a vontade, mas os actuais donos "estragaram-me" a gramagem da capa, o que torna agora os cadernos um pouco mais duros e menos maleáveis. Mesmo assim, valem muito a pena. Experimentem!

Já agora, se forem à rua das Flores, aproveitem para nela ver uma das mais belas igrejas do Porto e, quase em frente, um dos melhores alfarrabistas do país, para coisas contemporâneas, o "Chaminé da Mota". E, por hoje, basta de publicidade!

5 comentários:

Anónimo disse...

Gostei da ultima palavra !

Obrigada, Sr. Embaixador, quase pensei que o tinha vexado.

João Antelmo disse...

Partilho da sua convicção sobre a origem da palavra "stationery" que me foi explicada por um amigo inglês. Procurei algumas informações sobre a palavra ao deparar com uma insólita tradução: "estacionário". Ocorreu-me que se deveria, em caso de absoluta necessidade de aportuguesar a palavra se deveria dizer "estacionÉrio".
O burocrata que estava na origem da palavra (e da minha pesquisa) queria, simplesmente, referir-se a "material de escritório" mas, membro que era de uma corporação de poliglotas bem-falantes, pareceu-lhe mais tecnocrático o neologismo britanizado.
Mas também eu não tinha razão absoluta; dada a origem etimológica, a enormidade poderia ser, de facto, "estacionÁrio".

Helena Sacadura Cabral disse...

Sou uma fã incorrigível dos Moleskine. De tecido de lã cinza, à clássica capa de pele preta, passando pelos forrados a seda, lindos de morrer, para senhoras - supostamente intelectuais onde, espantem-se, pareço pretender incluir-me -,todos jazem no único armário fechado à chave aqui em casa, na presunção utópica de que alguma vez os utilizarei a todos.
Mas que, confesso, têm feito a inveja de colegas com quem vou a reuniões internacionais. E, se "por acaso", condizem com o que visto, então sim, consigo prodígios de atenção...
Se os/as políticos/as descobrem esta oportunidade, a A. Republica vai tornar-se um arco iris!

Aristides Dourado, ofs disse...

Caro Senhor,

Grato pela memória que faz da Papelaria Heroica, propriedade do meu avô - Domingos Dourado Campos - durante muitas décadas, e onde eu aprendi o valor do trabalho digno e honesto.
Quanto aos cadernos que refere, de excelente qualidade e acabamento, são um bom exemplo do que, na senda do Armando Monteiro, aquela empresa, quase artesanalmente, produziu.
Bem haja! Grato.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Aristides Dourado: dei-me conta há semanas que o novo local para onde os produtos da Heróica passaram a ser vendidos, numa esquina frente ao restaurante DOP, também fechou. Que isto dizer que os cadernos já se não produzem mais? Se souber algo sobre isto, ficava-lhe grato