domingo, abril 19, 2026

Verde



Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.

O que eu não disse

A graça da vida é o improviso. 

Na sexta-feira passada, fui convidado para falar sobre o tema "Liberdade e Democracia em desordem", num evento na biblioteca municipal de Tavira. (Que belo edifício de Carrilho da Graça!).

Sou um tradicional descuidado nestas coisas: não cuidei em saber o formato do evento. Ao longo da vida, concluí sempre que a melhor forma de intervir em público é deixar que as coisas fluam com espontaneidade. É auto-confiança? Talvez, mas nunca me arrependi.

Sabia que ia ter um interlocutor, Eduardo Campos Martins, uma pessoa que conheço há muito. Desconhecia, contudo, se a conversa se iniciaria com uma primeira intervenção minha ou se passaríamos, de imediato, ao modelo de pergunta-resposta. E nem me lembrei de perguntar. Mas, pelo sim pelo não, preparei um guião. Não é exatamente o que diria se tivesse de falar os usuais 15/20 minutos, mas seria uma orientação para o que podia dizer sobre o tema.

Chegado ao local, o Eduardo disse-me que entraríamos, de imediato, num diálogo. Disse-lheque me tinha preparado para outro cenário, se fosse necessário. E acabou por ser tudo muito diferente - e ainda bem, creio eu! Foi bem mais interessante.

Aqui deixo aquilo o que poderia ter dito:

"Fala-se muito, por estes tempos, da crise da democracia liberal. Detesto a expressão democracia liberal.A democracia é democracia, ponto. Falar em democracia liberal oferece um estatuto de dignificação a um conceito completamente contraditório — o de "democracia iliberal". 

A democracia, que está manifestamente doente, não morreu — em muitos países foi sendo esvaziada. Foi um processo feito de pequenas cedências institucionais, normalizadas uma a uma, que se tornam difíceis de reverter precisamente porque nenhuma delas, isolada, parece suficientemente grave para justificar um alarme. É é este o perigo: não houve um golpe de rua, mas a erosão.

Esta erosão tem hoje um acelerador que as gerações anteriores não conheceram. A tecnologia digital permite que governos - e muitos atores políticos - operem hoje com menos transparência, que as campanhas eleitorais contornem os canais tradicionais de escrutínio e que as mensagens políticas cheguem diretamente a milhões de pessoas sem passar por qualquer filtro. 

O resultado mais visível deste processo é uma espécie de autoritarismo 2.0. Essa força anti- democrática não vem para a rua de armas na mão. Chega com eleições, com discursos e com aplausos. Líderes como Donald Trump, Bolsonaro ou Viktor Orbán mostram que é possível invocar legitimidade democrática e, ao mesmo tempo, conseguir desmontar, passo a passo, as regras da legitimidade real. A forma mantém-se, mas o conteúdo esvazia-se.

O veículo preferido deste autoritarismo é o populismo — não como ideologia, mas como técnica. Divide o mundo em dois campos aparentemente irreconciliáveis: o “povo puro” contra a “elite corrupta”. Não propõe soluções, apresenta uma caricatura de soluções, falsas obviedades, respostas fáceis — e, essencialmente, alimenta ressentimentos. A técnica é explorar mal-estares (não sei se a palavra existe), vindos de todos os lados. 

Curiosamente, o popululismo adapta-se à direita e à esquerda, mas tem sido a extrema-direita europeia - e agora a extrema-direita dos EUA - a utilizá-lo com mais consistência e eficácia. As crescentes desigualdades e as migrações fornecem os factos que esta narrativa transforma em combustível político. 

Neste quadro - e esse é o principal problema - as instituições tornam-se o inimigo. Chamam-lhes o "sistema". Quando alguém afirma que só ele (o "eu" tem aqui um papel central) representa “o verdadeiro povo”, está a afirmar que os tribunais, a comunicação social, os organismos de regulação e os parlamentos se configuram como obstáculos ilegítimos à vontade popular. No passado, se recordarmos, era o anarquismo que tinha esta abordagem radical. Hoje é o populismo. Olhando os casos mais paradigmáticos, esta lógica, quase niilista, que antecede sempre a concentração de poder, prepara o terreno para governar sem limitações reais.

O primeiro alvo concreto do populismo é, quase sempre, a imprensa livre. Não para a calar de imediato — isso seria demasiado visível, embora às vezes aconteça, como foi o caso da Rússia. Ou, em escala diferente, a Hungria. O objetivo é desacreditá-la, sistematicamente, até que os cidadãos deixem de confiar nela. A erosão da confiança precede a limitação formal. E num ambiente em que conteúdos fabricados circulam mais depressa do que as notícias verificadas, esta tarefa ficou muito mais fácil. 

É claro que, ao lado da imprensa livre, mais plural, existe uma espécie de comunicação social (em especial, televisões) que, ela própria, é uma plataforma do populismo - porque o populismo vende, dá audiências.  Dar voz ao vocalistas do escândalo, aos arautos da luta contra "o estado a que isto chegou", cavalgar um ambiente subliminar e muitas vezes artificial de insegurança, de criminalidade, de dúvida sobre a capacidade e real vontade dos poderes de atuarem em função dos reais interesses dos cidadaos, é um serviço feito ao populismo - e nós vemos todos os dias essa tarefa a que se prestam muitos media. E aí estão os títulos redutores dos tablóides, para ajudar à perceçâo: pode não ser mentira, é um "digest" enviesado da verdade. Porque, quase sempre, a mentira vem embrulhada em alguma verdade. 

Neste ambiente, os populistas acusam as “fake news”, os “media manipulados”, os “jornalistas ao serviço de interesses”. Os EUA estão a ser, neste campo e neste tempo, um belo exemplo. Os ataque de Trump à CNN ou ao NYT, a humilhação e apoucamento dos (principalmente das) jornalistas, tudo isso se destina a descredibilizar a informação independente - ou mesmo aquela que é meramente desviante face à narrativa do poder. (Falar de Tucker Carlson e do Truth Social). 

Estas acusacoes têm como objetivo envenenar o ambiente. Quando são repetidas com frequência e por vozes com suficiente audiência, tornam qualquer facto contestável e qualquer investigação suspeita de viés. O cidadão, chegado a certo ponto, não sabe em quem confiar — e é precisamente esse o efeito pretendido. 

Sem uma imprensa livre, desaparece aquilo de que a democracia mais precisa: um conjunto de factos concretos com base nos quais seja possível debater e decidir. Sem esse chão comum, a política deixa de ser uma deliberação e torna-se um mero confronto de narrativas, de "achismos". Cada grupo vive na sua própria realidade informativa, na sua bolha, alimentada por fontes que confirmam exatamente aquilo em que ele já antecipadamente acredita. O espaço comum, necessário à democracia, fragmenta-se — e com ele, a possibilidade de encontrar soluções coletivas. 

As redes sociais sao muitas vezes acusadas de serem as culpadas desta deriva. Elas não foram as criadoras deste problema, mas amplificaram-no de forma exponencial. Os seus algoritmos não foram desenhados para informar — foram desenhados para maximizar o tempo que passamos ligados a estas plataformas. E, nao tenhamos ilusoes: aquilo que mais nos prende ao ecrã não é a informação equilibrada, é a indignação, o escândalo, a confirmação de que o outro lado é mau. A polarização não é um efeito secundário deste modelo — é o seu produto natural. 

Do contrário daquilo que pensamos, chega-nos sempre o mais radical. É a forma de potenciar a nossa indignação. O nosso oposto não é mau - é sempre péssimo! E isso só ajuda a alimentar ainda mais os nossos preconceitos.

Neste quadro, o clickbait é a expressão mais visível deste modelo de negócio. Não é um problema de má qualidade jornalística — é uma escolha económica, embora deontologicamente muito duvidosa, num mercado em que a atenção humana é o recurso mais escasso e disputado. 

Na prática, o clickbait promete algo muito chamativo para despertar curiosidade, mas o conteúdo, o mais das vezes, não corresponde ao que o título sugere. O objetivo costuma ser gerar mais tráfego, visualizações e, claro, receita publicitária. 

Quem capta a atenção, captura a agenda. E a agenda capturada desta forma não é a que serve a democracia — é a que serve o conflito, é o que degrada o debate, é a que polariza e fecha as pontes de um mínimo de consenso. 

O efeito acumulado de tudo isto é o que se pode chamar o reino das perceções. O que parece verdade tornou-se mais poderoso do que o que é realmente verdade. A comunicação política já não procura convencer com argumentos — procura criar imagens, associações, emoções. Na verdade, não é nova a ideia de que a política tem uma dimensão de sedução, de emoção. O que é novo, nestes dias, é a escala, é a precisão e a velocidade com que hoje se pode operar sobre as perceções de milhões de pessoas. 

Neste contexto, a desinformação não precisa sequer de convencer, basta confundir. Um cidadão que não sabe o que é verdade e o que é mentira, que não sabe em que fonte confiar, que vê contradição em tudo — esse cidadão está desarmado. As teorias da conspiração funcionam exatamente assim: não precisam que todos acreditem, basta que instalem a dúvida e tornem tudo igualmente incerto.

Sobre este terreno de incerteza e desconfiança, as agendas do medo crescem com facilidade. O medo é a ferramenta mais antiga da política e continua a ser a mais eficaz: insegurança nas ruas, invasão de estrangeiros, colapso económico, fim do modo de vida que conhecemos. 

As crises climáticas e as migrações são realidades verificáveis e complexas — mas são sistematicamente apresentadas não como problemas que exigem uma resposta racional, mas como catástrofes iminentes que exigem líderes capazes de agir sem demoras nem discussões. 

Quando tudo parece ameaça e o futuro parece incontrolável, a procura de segurança sobrepõe-se à proteção e preocupação com os direitos. É assim que as democracias cedem voluntariamente. O cidadão não abre mão da liberdade de forma consciente — abre mão dela em troca de uma promessa de ordem, de segurança perante o que pode estar a seguir à curva. E essa troca raramente é anunciada com clareza: acontece por acumulação, mesmo por cansaço. 

O cansaço é, aliás, o fator central. A desorientação dos cidadãos não é apenas um efeito colateral de tudo o que foi descrito — é, muitas vezes, um objetivo deliberado. Cidadãos exaustos pela sobrecarga de informação contraditória, confusos sobre aquilo que é real, que estão desiludidos com a política, tendem a afastar-se, a tornar-se indiferentes. E o afastamento cívico é extremamente conveniente para quem quer governar sem escrutínio e sem ter de prestar contas. 

A abstenção é a forma mais visível deste afastamento — e é importante percebê-la e combatê-la. Não votar não é uma posição neutra. É uma escolha com consequências concretas: beneficia sempre quem quer menos fiscalização e quem tem menos a ganhar com uma participação alargada. Quando a maioria se abstém, quem decide são as minorias mais organizadas e mais motivadas — e são frequentemente as dos extremos. 

Perante a escassa sedução que as agendas moderadas trazem — porque são os que nada mudam, nada querem mudar, andam nisto 'há 50 anos", como entre nós dizem os demagogos  — o cidadão confuso e sem referências, ou se torna um cético da vida cívica ("eles sao todos iguais, nao saímos disto!") ou deriva para as perspetivas radicais: "O que é preciso é deitar abaixo isto: depois, logo se vê,". É uma atitude em que convem saber separar o que é ideologia e o que é sentimento. Muitas vezes nada disso é qualificável rigorosamente em esquerda e direita. 

Perante tudo isto - e volto ao que comecei por dizer - a tentação de concluir que a democracia está condenada é compreensível. Essa é uma perspetiva derrotista que não devemos aceitar. 

A democracia, em muitos lugares, está doente, mas não morreu. As democracias têm instrumentos para resistir a estas pressões: eleições transparentes e escrutinadas, uma justiça independente, imprensa livre e financeiramente sustentável, uma sociedade civil ativa e com acesso real à esfera pública. Isso ainda existe e devemos apoiá-lo.O problema não é a falta de instrumentos — é a erosão progressiva das condições que permitem que esses instrumentos funcionem. 

A legitimidade democrática não se decreta — constrói-se, continuamente, através de processos que os cidadãos reconheçam como justos e de instituições que resistam à pressão, sem se dobrar. O avanço da extrema-direita em França, na Alemanha ou na Itália - mas também no RU e nos EUA - não é um acidente histórico nem uma anomalia passageira: é o resultado acumulado de desigualdades não resolvidas, de medos não respondidos e de uma prática política que durante demasiado tempo falou sobre os cidadãos em vez de falar com eles. 

A juventude é o nó central desta questão. Não porque lhes sejam indiferentes as questões da liberdade. Mas porque lhe comeca a ser indiferente uma democracia que não resolve os seus problemas concretos imediatos: habitação inacessível, emprego precário, futuro incerto. Se a democracia não souber responder a estas questões com propostas credíveis, outros responderão — com supostas soluções simples para problemas complexos, mas com uma capacidade de mobilização emocional que a política tradicional raramente consegue igualar. Pelo menos até se mostrar, pela prática, que aqueles que falam nas soluções miraculosas afinal nao resolvem os problemas. Foi a economia que derrotou Orbán. Mas, para tal, foi necessário que as sociedades experimentassem a extrema-direita no poder.

Dar razões aos jovens para defender a democracia não é pedir-lhes que sejam gratos por uma herança que não escolheram. É mostrar-lhes, com factos e com exemplos concretos, que as alternativas já foram testadas — e que o preço foi sempre pago pelos mais vulneráveis, pelos que tinham menos poder para se proteger. E é mostrar-lhes também que a democracia, quando funciona, é o único sistema que permite corrigir os seus próprios erros sem recorrer à violência. E essa não é uma sua virtude menor. 

A desordem em que vivemos, nos dias de hoje não é o fim da democracia. É, contudo, o seu teste mais sério desde a Segunda Guerra Mundial. E nós, os democratas, somos responsaveis por provar que a resposta não virá de líderes providenciais — esses fazem parte do problema, não da solução. Virá da reconstrução paciente das condições que tornam a democracia possível: instituições que funcionam, informação verificável, eleições em cujos resultados se pode confiar e cidadãos que recusam, mesmo quando estão cansados, abdicar de pensar. 

Termino com seis razões para não desistir, que me parecem óbvias:

1. As instituições, embora pressionadas, continuam a funcionar em grande parte das democracias consolidadas. Tribunais constitucionais em vários países europeus têm travado os abusos de poder e têm mantido o Estado de Direito a funcionar, mesmo contra a vontade dos governos em exercício. A pressão autoritária existe — mas a resistência democrática também. 

2. A alternância de poder pode acontecer, mesmo em contextos de forte polarização. Viu-se na Polónia e na Hungria: governos perderam eleições e entregaram o poder. A democracia resistiu onde muitos duvidavam que resistisse — e isso não é pouco. 

3. Há uma nova geração politicamente consciente, ainda que desconfiada das formas tradicionais de participação. Os jovens mostram níveis de envolvimento acima da média em causas como a transparência governamental e a regulação das grandes plataformas tecnológicas. Não estão ausentes — estão noutras áreas, com outras linguagens. Mas têm de ser os jovens a falar entre eles. O paternalismo geracional já deu o que tinha a dar. O futuro é deles, o futuro é o lugar onde eles vão passar o resto dos seus dias - e nós não... 

4. O jornalismo mantém ainda uma boa capacidade de expor abusos. A informação verificada ainda tem poder — e ainda incomoda quem tem algo a esconder. Resta tentar evitar que aquilo que a informacao verdadeira expoe seja raptada por agendas extremistas. As redes sociais não são apenas um espaço para a mentira, podem ser um instrumento para a verdade e para a denúncia da mentira. E devem ser usadas também para isso.

5. A sociedade civil reage quando algo de essencial está verdadeiramente em causa. Em vários países europeus, muitas propostas que ameaçavam a independência dos tribunais foram travadas ou alteradas,  em resultado de mobilização cívica organizada — petições, manifestações, pressão pública sustentada. A cidadania ativa não desapareceu. E tem de ser alimentada.

6. A história recente mostra que retrocessos democráticos podem ser revertidos. Há Trump? Claro que sim, mas há mais vida para além de Trump. E o mundo, acreditem, já passou por momentos muito mais dramáticos. E nós cá estamos, cá continuamos, a dizer o que muito bem entendemos."

sexta-feira, abril 17, 2026

"A Arte da Guerra"


Com António Freitas de Sousa, em "A Arte da Guerra", continuamos naturalmente a falar do conflito no Golfo, mas também damos atenção à crise no Líbano, à polémica entre Trump e o papa e às mudanças no governo da Hungria.

Pode ver aqui.

quinta-feira, abril 16, 2026

Tavira, dia 17, sexta-feira

 


Excelentes escolhas

São excelentes as escolhas feitas por António José Seguro para o Conselho de Estado. Um conjunto muito equilibrado e com figuras de grande qualidade. O presidente da República começa muito bem.

quarta-feira, abril 15, 2026

Grande Vicente!


Isto de haver gente amiga atenta é muito bom. António Pedro Faria, que conduziu meio mundo luso em Nova Iorque e deixou esse memória num livro, teve agora a amabilidade de me enviar a minha imagem com o grande Vicente, com a Cruz de Cristo do seu Belenenses ao peito, uma fotografia que eu tinha perdido, como referi em outro post. 

Vicente


Sou um desorganizado. Não sei onde tenho uma fotografia que tenho com Vicente Lucas, que morreu ontem.

Um dia de 2005, fui de Nova Iorque, onde então trabalhava, a Newark, entre outras coisas para assistir a parte de um jogo de futebol onde intervinham, numa das equipas, velhas glórias (outros nem tanto) do futebol português. Só recordo dois nomes que ali estavam, ambos defesas. 

Um deles era Cruz, antigo lateral esquerdo do Benfica. Não tive então coragem de lhe perguntar se era verídica a resposta que teria dado, durante um Portugal-Espanha no Jamor, ao selecionador nacional Manuel da Luz Afonso, quando este o repreendeu por estar a deixar passar, com excessiva facilidade, o "ponta direita" espanhol, o extraordinário Amancio. Cruz, que era mais "sarrafeiro" do que tecnicista, razão porque não veio a evitar que Hilário se eternizasse no lugar, teria respondido: "Amanse-o o senhor ..."

O outro era o Vicente, irmão de Matateu, esteio da defesa dos "magriços" da equipa de 1966, ao lado de José Carlos. Encarregado de marcar Pélé, cumpriu com imensa eficácia e "fair play" essa função, como o próprio "rei" reconheceu. E não foi ele - foi Morais - quem, tristemente, ajudou a dar cabo do joelho de Pélé, nesse jogo em que ganhámos por 3-1.

Nessa tarde, ainda antes do jogo, pedi para tirar uma fotografia com o Vicente — logo eu, que sou pouco dado ao cultivo desse tipo de "instantâneos" com figuras. Anos antes, Vicente tinha perdido uma vista, num acidente de viação. Era uma figura muito simpática, modesta, como constatei quando lhe disse a grande admiração que tinha por ele.

E agora não sei onde anda a fotografia. Ora bolas!

terça-feira, abril 14, 2026

Sarko


O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy prossegue o seu longo calvário nos tribunais. Embora já condenado em termos definitivos em diversos processos, tem outros em curso — e alguns podem agravar em muito a sua situação penal. Já passou uns dias na Santé (a clássica prisão de nome irónico) e não é impossível que lá regresse. O caminho que o espera é o das pedras.

Nos últimos dias, Sarkozy colocou-se, em tribunal, contra Claude Guéant, aquele que foi o seu mais íntimo colaborador — desde o Eliseu, de que foi secretário-geral, até ao (em França) muito poderoso cargo de ministro do Interior. Guéant está gravemente doente, com problemas cardíacos sérios, e não pode comparecer às audiências. Contudo, no dia de hoje, deixou por escrito uma resposta dura a insinuações, que me pareceram muito baixas, do ex-presidente. Tudo isto a propósito de alegados financiamentos da Líbia de Kadhafi para efeitos eleitorais.

Destruído politicamente, derrotado pela justiça francesa, sem hipóteses de qualquer retorno, Sarkozy mantém viva uma imagem positiva junto de muita gente no seu país. Muitas pessoas da direita francesa têm saudades dele — o que também é alimentado pela atual má gestão do património político que deixou, entretanto bastante absorvido por Macron e por Le Pen, cada um à sua maneira.

Mas as decisões da justiça não apagam certas lealdades. Há não muito tempo, num jantar em Lisboa, fiquei sentado ao lado de uma senhora francesa. Falou-se da política do seu país e, como é natural, não tardou a surgir o nome de Sarkozy, cuja prisão efetiva, por alguns dias, tinha tido lugar semanas antes. Eu disse que conhecia muito bem o pensamento político dele, que tinha lido todos os livros de Sarkozy, com exceção do último, em que ele relatava precisamente a sua breve experiência na prisão. A cara animou-se-lhe: por ser leitor, julgava-me fã do político.

A senhora, curiosamente, de Sarkozy, só tinha lido esse tal livro. E disse-me: “Devia ler. É muito bom.” Expliquei que não tinha curiosidade e que me parecia uma obra um tanto oportunista. Ela percebeu que se tinha enganado a meu respeito e escandalizou-se: “Oportunista? Mas ele está completamente inocente, como toda a gente sabe…” Aí fui eu quem reagiu: “Mas se toda a gente sabe, por que é que ele tem vindo a ser condenado, processo atrás de processo?” Ela foi perentória: “É uma invenção dos juízes!” 

Não resisti, e até porque a senhora tem residência em Portugal, conhece nossa língua e foi casada com um cidadão português, inquiri: “E Sócrates? Qual é a sua opinião? Também está inocente? Se a justiça o condenar será um erro judiciário? Ao contrário de Sarkozy, Sócrates ainda não foi condenado por nada, em nenhum processo.” 

Tergiversou na resposta — o que me fez pressupor que a minha companheira de mesa tinha mais fé na assertividade da justiça portuguesa do que na do seu próprio país. Mudámos de conversa.

Casa dos Açores



Foi ontem, na Casa dos Açores em Lisboa, com casa cheia. Uma palestra sobre a situação internacional, em que tive o agradável e informado contraponto de Henrique Monteiro. 

O debate que se seguiu foi muito animado. Queijo da ilha e um "Pico de Honra" fecharam a sessão, quase duas horas e meia depois do seu início. E eu tive de sair cedo, por ter outro compromisso.

Debate

O problema do debate de Pacheco Pereira é só um: soube que foi ali dada uma oportunidade de ouro, em prime time, ao argumentário anti-democrático e ao branqueamento do fascismo, que só reforçou os "factos alternativos" na cabeça de quem já lá só tem o que sabemos. Não se brinca estas coisas! E brincou.

Porto

 


segunda-feira, abril 13, 2026

TACO

"Iran controls the Strait of Hormuz and it is open for us", diz um porta-voz oficial chinês.

Aceito apostas em como, neste caso e uma vez mais, vai funcionar a doutrina TACO ("Trump always chickens out" equivalente a "Trump recua sempre").

E as ogivas de Leão?

Ao olhar a diatribe de Trump contra o papa Leão, não pude deixar de lembrar uma história, verdadeira ou falsa, com mais de 90 anos. 

Stalin recebia o fascista francês Pierre Laval, então ministro dos Estrangeiros, que, uma década depois, viria a ser fuzilado por colaboracionismo com os nazis, ao tempo em que foi primeiro-ministro do governo de Vichy.  

Laval ter-lhe-á dito que o papa Pio XI havia criticado as perseguições aos cristãos na URSS. A resposta desdenhosa de Stalin ficou nos anais: “E quantas divisões é que tem o papa?”

Não deve tardar muito até que Trump reaja às críticas do Vaticano com um: "Quantas ogivas tem o papa?"

Este homem não está bem!

 


Isto não é falso!


Esta é uma imagem colocada por Donald Trump, sob a sua responsabilidade pessoal, na página que tem na rede social Truth Social. Acho que qualquer comentário é dispensável. Repito: isto não é "fake".

"The right thing"

Churchill dizia que "Americans can always be trusted to do the right thing, once all other possibilities have been exhausted". Com Trump, a possibilidade de alguma vez vir a fazer a "right thing" parece muito remota, porque o seu portfolio de asneiras parece inesgotável.

Não quero parecer bruxo...


... mas apetece-me pedir-lhes que leiam este post que coloquei no blogue vai para uma década.

domingo, abril 12, 2026

Da democracia na Hungria

A grande notícia que decorre da derrota de Viktor Orbán é o facto da democracia na Hungria, que esteve ameaçada nos últimos 15 anos por várias práticas autoritárias do até agora presidente, ter revelado estar afinal de boa saúde, permitindo uma serena alternância por via do voto.

A voz húngara


Há cerca de seis anos, fui convidado pela fundação alemã Bertelsmann para representar Portugal como perito num estudo independente dedicado tema "Europe’s Coherence Gap in External Crisis and Conflict Management'', um trabalho ao qual associei, em co-autoria, Patrícia Magalhães Ferreira, e que foi posteriormente editado em livro.

A regra era esses trabalhos não terem um caráter oficioso. Era dada aos peritos a oportunidade de fazer uma apreciação independente da ação do seu Estado, de natureza crítica, com total distância face aos poderes políticos nacionais. O estudo sobre Portugal não passou pelo crivo de nenhum ministério.

Quando, numa das últimas reuniões em Bruxelas, que tinham lugar no Centre for European Policy Studies, entidade associada à iniciativa, foi abordada a questão da liberdade que reivindicávamos para cada um de nós, o nosso colega húngaro, a pessoa que a Bertelsmann tinha convidado para escrever o relatório sobre o seu país, afirmou mais ou menos isto: "Gostava que soubessem que não me posso comprometer a entregar o meu texto sem antes o fazer passar pelo crivo das minhas autoridades. As coisas são assim na Hungria. Não tenho, infelizmente, a margem de manobra que, pelos vistos, todos vocês têm. Vou ter de submeter o meu texto ao governo húngaro, antes de preparar a versão final do capítulo sobre a Hungria".

Fez-se um silêncio embaraçado na sala. Todos ali percebemos bem, nesse instante, que a Hungria tinha um regime político que, não obstante usufruísse de um estatuto formalmente idêntico ao dos restantes Estados-membros, vivia sob condicionantes muito próprias em matéria de liberdades.

Na noite de hoje, com Orbán fora do poder, quero crer que o nosso amigo Gyorgy Tatar deve estar a comemorar.

Verde

Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.