quarta-feira, agosto 19, 2026

Leiam isto

 


"Abocanhado" (Brufe, Gerês)


Não fica à mão de semear, desde já esclareço. É preciso andar alguma coisa pelo Gerês acima para chegar a Brufe (será aqui que nasceu o Brufen?), depois de S. Bento da Porta Aberta, passando por Covide (!). Ou então pode ir-se por Terras de Bouro. Mas, depois de arribar, esquecemos a estrada e pousamos naquela bela obra arquitetónica, para fazer uma serena refeição com o imenso vale ao fundo.

A lista de hoje do Abocanhado, além de entradas variadas, tinha bacalhaus e diversos pratos de carne, porque esta é uma região onde não se brinca com a carne. Belas sobremesas fecham o repasto, acompanhado de vinhos, numa lista construída de forma muito competente. Preço nada especulativo.

Vou poucas vezes ao Abocanhado, mas a culpa não é minha, é toda da geografia.

Sendo diferente da anterior ...


... a vista deste quarto também não é má de todo!

"Victor" (São João de Rei, Póvoa de Lanhoso)


Fica em S. João de Rei, perto de Póvoa do Lanhoso, entre Braga e o Gerez. O bacalhau é rei por ali, como há muitos anos comprovo. 

Começa-se por uns bolinhos (em lisboês, pasteis) que, na minha modesta mas testada opinião, não têm rival. Depois passa-se ao bacalhau assado. Um Soalheiro Primeiras Vinhas rima lindamente. 

O senhor Victor lá estava, com os seus excelentes 88 anos.

terça-feira, agosto 18, 2026

Já agora...

Às vezes, pergunto-me se, um destes dias, Trump não anunciará a decisão de controlar a entrada no Mediterrâneo ocidental. Há imensos argumentos securitários possíveis. Como é que Marrocos reagiria? 

A alegria de uma queixa


Hoje recebi uma queixa. Uma queixa simpática, é certo, mas que nem por isso deixa de ser uma queixa.

Uma pessoa que segue este blogue — e que há anos está atenta às sugestões de restaurantes que por aqui deixo — voltou a uma dessas casas (onde, aliás, já tinha comido bem, seguindo uma dica minha) e saiu desiludida. Pelo que deduzi, esta terá sido a primeira vez que uma recomendação minha não a satisfez.

Mal imaginam como isso me deixou feliz! É que eu próprio, ao regressar a restaurantes que antes elogiei, já saí mais de uma vez com a sensação de que algo ali tinha mudado para pior. Que isto tenha acontecido a esta pessoa apenas uma única vez, e que ela se tenha dado ao amável trabalho de me escrever para o dizer, confere às minhas recomendações uma credibilidade média que eu nem ousava esperar.

As notas que por aqui deixo são instantâneos: refletem uma opinião formada num momento preciso. O dia seguinte já é outro dia: às vezes pior, outras melhor. Não há nada mais perecível do que um apontamento sobre uma experiência num restaurante. Para estar totalmente no "safe side", a única solução seria não escrever sobre nenhum restaurante. 

Por isso, a queixa que agora recebi só me dá mais alento: se a má experiência foi exceção, então a maioria das vezes as notas terão sido úteis, não?

Afinal

Parece que 75 migrantes saídos de Ceuta poderão ter entrado no continente. Imagina-se o grave impacto disto junto dos 450 milhões de habitantes que habitam neste espaço! Ou será que a preocupação é, afinal, eles poderem ser muçulmanos e não serem brancos?

segunda-feira, agosto 17, 2026

O rumor dos claustros


O embaixador errava, por aqueles dias, pelos corredores das Necessidades. Pelo vigor da passada, pelo modo confiante como observava à sua volta, era patente que estava ungido da determinação daqueles a quem, ao virar da esquina do futuro próximo, iriam ser atribuídas novas e importantes responsabilidades. 

Os contínuos já o olhavam de uma forma mais respeitosa, os jovens adidos com os quais se cruzava baixavam a cabeça, num reverencial temor, ficando a segredar murmúrios em torno do seu nome. 

Ele era, nesses dias de mudança, o objeto privilegiado do chamado "rumor dos claustros" - uma vetusta forma de boataria diplomática que, em casos limite, chega quase a ser constitutiva de direitos.

Forte das bênçãos do destino que inexoravelmente se aproximava, faltando apenas o despiciendo detalhe do convite, mas já com a segurança dos putativos eleitos, prenhe de confiança que contactos recentes só tinham adubado, abriu a porta de um determinado gabinete e, não podendo conter a exploração do sucesso que aí vinha, comentou, para uma funcionária, pessoa tida por bem informada, dado o seu lugar privilegiado na geografia funcional da casa, ciente de a ir ver ecoar as suas expectativas:

— Então!? Fala-se por aí muito no meu nome, não é?!

A senhora, uma distinta servidora da casa, já vira passar muitos mundos, das glórias aos ocasos, testemunhara a chegada e a partida de várias ambições, olhava já para tudo aquilo com uma relativização construída num sereno bom-senso. Pelo que, arvorando um indefinível sorriso, respondeu ao seu interlocutor:

— Falava, senhor embaixador, falava! Agora, esta semana, já se fala noutros nomes...

Já fiquei em quartos com pior vista


domingo, agosto 16, 2026

Este cavalheiro


Este cavalheiro é o meu avô paterno. Morreu subitamente em 1925, com 52 anos, mais de vinte anos antes de eu nascer. Deixou viúva a minha avó, que viveu até 1963.

Que eu saiba, há apenas uma meia dúzia de fotografias deste meu avô. Em todas, sem exceção, afivela este ar grave.

Desde criança que olho as imagens deste avô com uma imensa, mas insaciável, curiosidade. Como sorriria para os muitos netos, se acaso os tivesse conhecido? 

Sabendo-se, do comprovado arquivo oral familiar, que tinha um reconhecido êxito com as mulheres — e a minha avó bem sofreu com isso —, de que modo a sua aparente gravidade se adocicaria à vista dos campos da perdição sentimental?

O meu pai, que tinha 15 anos quando o pai morreu, recordava-o como um homem pouco dado a gestos de carinho para com os filhos. Ao que me contava, era também de uma extrema rigidez no tocante ao comportamento destes.

Por contraste, na memória da minha avó, passada mais tarde em conversas com os filhos, o António Emílio — era assim que se chamava — seria uma pessoa com imensa graça, mesmo um brincalhão.

Agora é tarde para sabermos se seria mesmo assim — ou se, no fundo, ele seria afinal as duas coisas. 

Eu, para sempre, olharei esta fotografia como um mistério.

Muzeu (Braga)

Andava com curiosidade de conhecer o Muzeu. 

Trata-se de uma coleção de arte contemporânea colocada à disposição da cidade de Braga por um empresário local. 

O espaço é magnífico, na zona central. As obras estão, em regra, bastante bem expostas. 

Como é da lei da vida, na opinião que cada um de nós cria sobre este tipo de mostras, concluimos que outras poderiam ter sido as escolhas. Mas foram estas. 

Tive no Muzeu algumas boas surpresas — como um conjunto de peças de Pedro Cabrita Reis e excelente obras de autores estrangeiros que desconhecia. E uma bela peça de Paula Rego que nunca tinha visto.

Se passarem por Braga, visitem o Muzeu. Vale bem a pena. 

Ah! E não usem como desculpa a falta de estacionamento: há um parque público bem perto.



Ai a IA !

(O texto que se segue tem sido lido por alguns de uma forma errada. Que fique claro: sou um fã da IA, que utilizo praticamente todos os dias, desde há anos. O que aqui digo é outra coisa. Leiam bem, por favor). 

Desconfiem de coisas longas, muito certinhas, escritas de forma organizada, sem uma vírgula fora do sítio, com argumentos em crescendo, com uma lógica circular, que quase sempre vai acabar onde começou. 

São coisas feitas pela Inteligência Artificial.

Os espertalhotes desta nova geração de "escritores" gatafunham umas filosofias baratas e, depois, vão ao ChatGPT, ou à dezena de coisas equivalentes, e o sistema abonita-lhes os textos, que ficam catitas e arrumadinhos, e que eles (e elas) depois levam para o Facebook ou outras "plataformas" (é assim que se diz, não é?) e assinam como sendo seus — esquecendo o Sofrível que tiveram nas provas de português.

É grave? É e não é. O problema não é o uso dessa técnica para a deteção de erros de ortografia, de concordância. Outra questão é a escrita não ser deles, é o tentarem fazer-nos passar por parvos, é o facto de estarem a mentir-nos com todo o descaramento. É uma vigaricezinha de trazer por casa que, dia após dia, começa a encher estes espaços.

Quando tiverem dúvidas, quando acharem que aquela pessoa que escrevia assim-assim passou, subitamente, a ser um génio da crónica, o teste é fácil: copiem o texto e visitem um qualquer site de IA, perguntando que probabilidade existe de aquele texto ter sido produzido por Inteligência Artificial.

Por mim, a regra é fácil: quando topo essa gente, não vou ao ponto de "desamigar" ninguém, mas deixo imediatamente de "seguir" (e, claro, de ler) a pessoa. 

Comigo, estes "prémios Nobel da literatura" feitos por máquinas vão cantar para outra freguesia. Nas últimas semanas, foram cerca de três dezenas.

sábado, agosto 15, 2026

Biden was the "sleepy Joe"?

 


O eclipse da transparência

Sabemos que o problema não é só português e se prende com a opacidade internacional do tipo de mercado. Mas a nós preocupa-nos Portugal. E é muito triste que, no tocante à aquisição de material militar, por cá fique sempre a sensação clara de que se trata de negócios escuros.

Vai morrer?

Não sei como aconteceu, mas, em princípio, é inadmissível ter ocorrido um erro de organização como aquele que conduziu ao acidente com um automóvel que provocou a morte de um ciclista na Volta a Portugal. 

Espera-se que a culpa não morra solteira!

Aljuba...quê?

Já experimentaram ler o que a História de Espanha diz sobre a batalha de Aljubarrota? Não deixa de ter graça...

sexta-feira, agosto 14, 2026

O Acordo de Meca


Veja em "A Arte da Guerra": aquihttps://youtu.be/NFGJN3QqA20

O martelo e a sobrevivência


Faz agora sessenta anos, quando fui para a universidade no Porto — ia escrever “estudar”, mas, perante os resultados, o pudor obrigou-me a recuar —, decidi, entre mil outras coisas, praticar desporto.

Joguei futebol, andebol e fiz atletismo, sempre com um entusiasmo muito superior ao talento. Sem falsa modéstia, fui apenas um anónimo mas sempre bem disposto membro do pelotão. Ainda assim, durante dois anos, levei o emblema do CDUP ao peito como se isso já fosse um currículo.

No atletismo — onde era um esforçado velocista, e “esforçado” é a palavra que conta — treinávamos no Estádio Universitário, junto à ponte da Arrábida. Nestes dias de Europeu de Atletismo, a ver a Sport TV, veio-me à memória um episódio do lançamento do martelo. Passadas seis décadas, ainda me faz rir sozinho.

O CDUP tinha, se bem me lembro, um único praticante da modalidade. Homem grande, ombros de armário, cara ao mesmo tempo pacata e ameaçadora. Talvez finalista de Engenharia. Ou de Medicina. Também não me lembro do nome. Do resto, sim: quando ele pegava naquele engenho, toda a gente sabia exatamente onde ele estava — e, sobretudo, onde não devia estar.

O lançamento do martelo exige redes metálicas sérias. Um desvio mínimo e o treino pode transformar-se numa experiência altamente traumática para quem estiver por perto. Só que montar a estrutura de proteção dava trabalho, roubava tempo. 

Nasceu assim um protocolo informal, mas rigorosamente respeitado: uma espécie de plano de sobrevivência coletiva, que passava de boca em boca.

Quando o nosso lançador era avistado a iniciar os movimentos de aquecimento — aquelas rotações lentas e solenes que pareciam anunciar o fim do mundo —, instalava-se no estádio um alarme silencioso. Sem sirenes nem altifalantes. Mas que funcionava na perfeição.

Os saltadores suspendiam tudo. Os velocistas paravam os sprints, ou melhor, reorientavam-nos de imediato numa outra direção. Todos, sem exceção, iam refugiar-se atrás nos corredores sob as bancadas, como se tivessem ensaiado aquilo desde miúdos. Em segundos o estádio ficava com ar de cidade à espera de bombardeamento. Só faltava alguém gritar: para os abrigos!

Ficava só ele, sozinho no campo, concentrado e solene, a rodar sobre si próprio como se estivesse numa final olímpica. À volta, um êxodo em massa. Ele parecia não dar por nada — ou talvez achasse que aquele afastamento geral era uma justa homenagem à perigosíssima nobreza da sua modalidade.

E lá vinha o lançamento!

O martelo descrevia a trajetória e, de debaixo das bancadas, dezenas de cabeças emergiam, cautelosamente, a conter a respiração. Espreitávamos, prontos a desaparecer ao primeiro sinal. Só depois de o engenho pousar, e o silêncio confirmar que ninguém tinha sido atingido, é que voltávamos lentamente às nossas coisas. Até ao próximo lançamento.

Era, no fundo, uma imensa galhofa. Pelo menos para nós.

Para o lançador, cada tentativa era a concentração e a legítima esperança de um bom resultado. Para nós, tratava-se sobretudo de sobreviver ao treino dele e conseguir regressar a casa com a cabeça no sítio certo. E, de preferência, inteira.

Visto à distância de sessenta anos, o episódio diz menos sobre o atletismo universitário de então do que sobre a nossa juventude. Éramos capazes de passar noites de copos e cartas, em branco, com refeições medíocres e a tomar decisões de vida completamente irresponsáveis. Mas, perante um tipo enorme a rodar um martelo de metal num campo aberto, sabíamos revelar algum bom senso. 

E por isso ainda cá estou. Não graças ao meu talento atlético, mas graças à prudente decisão de nunca permanecer na trajetória de um martelo. Os meus amigos trotskistas levam a mal se eu terminar com a graçola de que Liev Davidovich Bronstein não foi capaz de evitar isso?

quinta-feira, agosto 13, 2026

Graça Morais


Hoje é 5ª feira, dia 13 de agosto. Daqui a três dias, no domingo, dia 16 de agosto, às 18.00 horas, encerra no Palácio Anjos, em Algés, uma extraordinária exposição de Graça Morais, intitulada "Uma Antologia". 

Se estão por Lisboa e aceitam uma recomendação, não percam. Verão que não se arrependem. No âmbito da exposição, aconselharia também o filme realizado por Joana Morais. Nele, as palavras de Graça Morais dão-nos a chave para aquilo que as paredes nos mostram.

As boas exposições são como os eclipses: não se repetem no tempo útil das nossas vidas.

"The Sun"


Grande capa do The Sun, hoje. Nem a página 3 antiga teria este brilho...

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