sexta-feira, julho 10, 2026

De vez em quando...

Acho delicioso o conceito de "guerra esporádica" com que o "Le Monde" de hoje crisma os ataques americanos ao Irão. Está ao nível da histórica qualificação como "drôle de guerre" da situação que se viveu em França antes da Segunda Guerra mundial.

quinta-feira, julho 09, 2026

Escribas

Nas redes sociais, surgem uns fulanos a afirmar que o destino da sua vida é escrever e que a escrita lhes ocupa tanto tempo que praticamente não leem. Alguns não têm pejo em afirmar que a leitura pouco ou nada lhes ensina. Na minha terra, dizia-se: "Quem lhes atasse um arado!"

quarta-feira, julho 08, 2026

Júbilo, claro


Ninguém duvida do júbilo com que Bardella recebeu a decisão de Marine Le Pen de se candidatar.

terça-feira, julho 07, 2026

Para fechar o assunto


Roberto Martinez saiu de selecionador. Nada mais natural, perante a derrota — ou, mais rigorosamente, a não-vitória — num Mundial que ele próprio apontara como objetivo. 

Por claras limitações técnicas, não me incluo no esmagador número de compatriotas que, felizmente, sabem sempre melhor do que o selecionador quem deve ou não entrar em campo. 

Ainda assim, e sempre com a humildade de quem nada percebe da matéria, interroguei-me ontem sobre a razão pela qual um Ronaldo totalmente inoperante (registo, com o devido respeito, a tese de que ele “fixa dois defesas”) não deu lugar a Gonçalo Ramos — que, pelos vistos, também “fixa”, como a imagem demonstra —, pelo menos na segunda parte. Mas isto sou eu, que não percebo nada de bola. 

E, bem vistas as coisas, como tão avisadamente costuma dizer Teresa Guilherme, “isso agora não interessa nada”. O que interessa mesmo são as férias e as sempre belíssimas namoradas dos jogadores — algumas rotuladas de “atrizes”, outras de “influencers” —, em vilegiaturas invariavelmente passadas em recantos “paradisíacos”, com crianças cujo rosto a escrupulosa deontologia deste género de “jornalismo” — que cobre com tanto rigor momentos de tamanha magnitude — tem sempre o cuidado de borratar com o devido glicerinado.

Farage

O líder do partido de extrema-direita britânica "Reform", Nigel Farage, sob fogo de acusações de improbidade por aceitação de doações, demite-se de deputado, assim fugindo a ter o seu mandato suspenso. Procurará reeleição em Oeiras, perdão, em Clacton, para se relegitimar.

Justicinha

O juíz que vai presidir ao coletivo que julga José Sócrates não tem, neste momento, sequer quatro anos como magistrado. Comparem com o grau de responsabilidade que é atribuído, em outras profissões, a pessoas com a mesma antiguidade. Andam a brincar com a justiça.

Pulseira de campanha

Marine Le Pen pode concorrer à eleição presidencial com pulseira eletrónica. Ficava-lhe bem uma Bvlgari...



Viva!


Gosto muito de futebol, gosto que Portugal ganhe, detestei que tivéssemos sido derrotados pela Espanha, lamento imenso o desgosto que o afastamento do Mundial provocou nos portugueses (e em quem gosta de nós) um pouco por todo o mundo, mas peço um módico de racionalidade: não morreu ninguém! Foi só um jogo de futebol! 

Um dos mais antigos países do mundo, com quase 900 anos de história, pode muito bem acomodar, com galhardia e "fair-play", 90 minutos atrás de uma bola que acabaram por não correr bem.

Viva Portugal! 

segunda-feira, julho 06, 2026

O Mundial de 1982 no "Trópico"


Há poucos anos, numa deslocação profissional a Luanda, entrei no Hotel Trópico, uma das unidades hoteleiras mais históricas da cidade. Avancei por ali dentro com ar decidido, de quem segue rumo certo e não admite perguntas — assim evitava que porteiros ou fâmulos fardados se atrevessem a indagar por que diabo eu andava a deambular por aqueles corredores. E era exactamente isso: queria espiolhar todos os espaços acessíveis, das zonas comuns às salas de refeições e ao bar. Porquê? Porque me apeteceu ir à procura da memória. 

Em junho de 1982, o Ministério dos Negócios Estrangeiros decidira proporcionar-me uma experiência radical: de uma Oslo ultra-pacífica, onde me tinham colocado sem me perguntarem nada, veio a guia de marcha também imperativa — quatro anos, para uma Luanda em plena guerra civil. Era uma cidade sitiada, sem restaurantes nem comércio, com serviços de saúde de meter medo e lixo por todo o lado. E hotéis quase todos decrépitos. Com uma vantagem, é certo: uma bela praia ao fim de semana. A vida de diplomata é isto mesmo. E tempos melhores haveriam de vir. 

Como a minha bagagem só chegaria meses depois, por via marítima, a embaixada hospedara-me no Hotel Trópico, sem me dar outra opção — que, em boa verdade, não havia. Por ali fiquei quatro meses. Poupo-os à descrição da precariedade do conforto, das refeições medíocres, da limpeza descuidada, dos elevadores em avaria frequente. Nesse tempo, o Trópico era povoado por um bando heteróclito e cíclico de expatriados que, depois de negócios ou afazeres de várias naturezas, numa cidade com bem poucos lugares para entreter os ócios noturnos, se espojavam, após o jantar, pelos escassos espaços que o hotel oferecia. 

Por essa altura, viviam-se os dias do Mundial. A Televisão Popular de Angola retransmitia alguns jogos. Numa das salas do Trópico, com cadeiras em número bem inferior ao dos potenciais interessados, uma multidão de desportistas de bancada juntava-se diante de um pequeno aparelho vermelho de baquelite, de imagem naturalmente a preto e branco e granulado, como se a emissão viesse de Marte. 

Nesses primeiros dias, com muito poucos conhecimentos em Luanda, eu vivia entre o Trópico e o meu gabinete na embaixada, não muito distante. Trabalhava, lia, escrevia, ouvia a BBC World Service no meu Sony “9 waves” e ansiava pela montanha de jornais e revistas que me chegava, semanalmente, pela mala diplomática. À noite, com os conhecidos que ia fazendo no hotel, assistir ao Mundial era a ocupação possível. 

Regresso ao início deste texto. Aquela minha arrogante incursão pelo novo Trópico, há poucos anos, acabaria por não ter grande efeito. O hotel sofrera amplas obras e, como dizia Amália a propósito da casa da Mariquinhas, por ali “não vi nada, nada, nada” que me fizesse recordar o espaço daqueles tempos — já lá vão 44 anos! Mas, pensando bem, só por nostalgia masoquista é que eu poderia ter desejado revisitar aqueloutro Trópico. Que o Mundial que aí anda me recordou agora. É isto, pronto!

E se...

E se, a pedido de Donald Trump, a FIFA decidisse que Marine Le Pen se pode afinal candidatar às eleições presidenciais francesas? 

Perder, ganhar, viver — por Carlos Drummond de Andrade


(Não sou dado a publicar por aqui textos alheios. Mas este é um "textão" imperdível)

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos?

Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado.

A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres-diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.

Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?

(Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 07/07/1982)

Por uma vez, belgas

Após uma decisão de arbitragem, feita a expresso pedido do presidente americano, que favorece escandalosamente os EUA no seu próximo jogo, não será de admirar se, na próxima madrugada, meio mundo estiver a apoiar a Bélgica contra "a equipa de Trump". 

O choro e o riso


Vivi no Brasil e conheço os brasileiros suficientemente para entender que a sua eliminação, logo nesta fase do Mundial de futebol nos Estados Unidos, constitui um imenso desapontamento, se bem que as dúvidas sobre a real força deste grupo já tivessem surgido há muito na imprensa. O futebol é muito importante para o imaginário brasileiro, é a “pátria em chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues. Mais do que os clubes, a seleção — o “escrete” — tem um significado profundo numa brasilidade partilhada com fervor por quase todos. O Brasil tem uma história gloriosa no futebol mundial, e o presente contrasta, com frequente nostalgia, com esses dias gloriosos. O país provou, contudo, ser possuidor de um arsenal histórico de esperança, mesmo quando as razões para essa esperança foram ténues. Por isso, embora desiludido e em lágrimas, o Brasil vai reinventar-se. Não seria o Brasil se assim não fosse. 

Vivi na Noruega e julgo conhecer suficientemente os noruegueses para poder dizer que esta vitória sobre o Brasil — a Noruega não ganhou o Mundial, mas o Brasil perdeu-o — é uma alegria extraordinária e quase inesperada. Ainda assim, essa alegria não se compara, do “outro lado” do espelho, à intensidade da derrota brasileira. Os noruegueses estão felizes por esta saborosa vitória, mas, se, por acaso, tivessem perdido, não se atirariam do alto dos fiordes. O futebol é, na Noruega, um desporto popular, mas apenas uma das componentes em que se espelha o orgulho de ser norueguês. Perder com o Brasil não seria “morte de homem”, como se diria entre nós. Ganhar vai ser um ótimo pretexto para celebrar com cerveja, aquavit e boa disposição.


Em tempo: É em dias como este que, através das redes sociais, vamos ter uma excelente oportunidade de medir o estado da xenofobia anti-brasileira atualmente instalada em Portugal. 

Um livro e uma mesa (27)


O livro de hoje é "Intervalo - Diário 2024-2025 e A Memória dos Outros III - Ensaios e Crónicas", de Marcello Duarte Mathias, edição D. Quixote. 

O restaurante é "Via 14", por detrás do altar do papa, em Lisboa, com o tlf. 962 526 989.

domingo, julho 05, 2026

Ah! Pois é!

O clima parece apostado em estragar a festa a Donald Trump. Deus que se ponha a pau! Trump assina uma "executive order" e vai ser o bom e o bonito.

sábado, julho 04, 2026

Estados Unidos da América

Com Pedro Adão e Silva e Mário Crespo, estive esta noite na CNN Portugal para analisar o significado dos 250 anos passados sobre a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. 

Tentámos ir um pouco mais além da polémica criada pela tentativa de Donald Trump de se apropriar destas comemorações, saudando o contributo político para o mundo dado pelos "pais fundadores" da América.

O Reino Unido que aí virá


Veja a análise em "A Arte da Guerra" aqui

Trump — as atribulações antes da festa


Em "A Arte da Guerra" desta semana, que pode ver aqui.  

América Latina — a onda conservadora


Em "A Arte da Guerra" desta semana. Pode ver aqui.

De vez em quando...

Acho delicioso o conceito de "guerra esporádica" com que o "Le Monde" de hoje crisma os ataques americanos ao Irão. Está...