terça-feira, outubro 20, 2026

"Bah..."


Ainda estou para perceber o verdadeiro significado da exclamação "Portoghese?! Bah...", de um polícia italiano que há pouco me interpelou, quando eu conduzia um carro no centro histórico de Palermo. Às tantas, o facto de ser uma zona exclusivamente dedicada a peões pode ter alguma coisa a ver com isso...

domingo, outubro 18, 2026

António Belém Lima


O arquiteto António Belém Lima apresentou ontem no Museu da Vila Velha, em Vila Real, uma exposição sobre a sua obra, do final dos anos 70 até à atualidade. A curadoria é de Jorge Figueira e Francisco Alves.

A paisagem urbana de Vila Real — mas não só, porque há trabalhos seus em outros locais do país — mudou com intervenções por ele assinadas, desde prédios de habitação ao próprio museu onde está a exposição, da Biblioteca Municipal ao Conservatório de Música, até à "nova" avenida Carvalho Araújo, um arrojado arranjo da principal artéria da cidade. 

Belém Lima fez o seu curso nas Belas-Artes de Lisboa e cedo assentou arraiais em Vila Real, de início integrando o coletivo Arquitetos Pioledo e, mais tarde, passando a fazer o seu percurso profissional a solo. Foi também professor universitário. 

É uma figura com uma marca muito própria na arquitetura portuguesa contemporânea, tendo estado representado em várias exposições coletivas e havendo bibliografia publicada sobre a sua obra, em Portugal e no estrangeiro.

A exposição encerra a 18 de dezembro.

sábado, outubro 17, 2026

Artur Santos Silva



A Universidade de Coimbra atribuiu a Artur Santos Silva um doutoramento honoris causa. Nada me parece mais justo. Homenagear uma das grandes figuras do Portugal contemporâneo, além do mais com profundas ligações àquela universidade, é um ato que não prestigia apenas o próprio, mas também a instituição que o promove. 

Já por aqui escrevi, no passado, o que há muito penso. Mas quero repeti-lo. Artur Santos Silva é, para mim, e desde há muito, a expressão discreta da ética na vida cívica portuguesa. 

Oriundo de uma família liberal do Porto, cedo foi educado no culto da liberdade. Passou brevemente pela política e, tendo decidido adotar a independência como modo de vida, prestigiou-se profissionalmente, vindo a ser o criador de uma instituição bancária de referência, tendo trabalhado ainda em gestão empresarial. A banca, em diversos tempos e modos, ocupou grande parte da sua vida. 

Pelo caminho, não deixou de intervir na ação pública, a seu modo e de forma equilibrada, com permanente bom-senso, granjeando um raro e alargado respeito. A cultura foi sempre uma dimensão central da sua intervenção pública. Da Fundação de Serralves ao Porto Capital da Cultura (onde mostrou saber bater fragorosamente com a porta, quando isso se revelou imperativo), passando pela Universidade de Coimbra, onde presidiu ao seu Conselho Geral. 

Artur Santos Silva viria ainda a exercer, com sucesso, na Fundação Calouste Gulbenkian, a presidência da mais importante instituição cultural do país, numa conjuntura bastante complexa da respetiva existência. 

Pelo meio, ficou também a liderança da comissão para a comemoração do Centenário da República — uma vez mais, o culto da ética republicana que sempre foi a sua. A Fundação ligada ao banco que ajudou a construir constituiu outra das áreas em que se empenhou com visibilidade pública. 

Artur Santos Silva pode, muito simplesmente, ser qualificado como um grande homem de bem. Lamento que o país, em alguns ciclos de atribuição de responsabilidades para a sua gestão coletiva, não tenha tido a sabedoria de o aproveitar nas mais altas funções de Estado. Estou certo de que Portugal teria ganho com isso. 

Um forte abraço de parabéns, meu caro Artur.

sexta-feira, outubro 16, 2026

Letria e as estátuas


A confusão era imensa. Do avião que transportava o presidente Ramalho Eanes a S. Tomé, na sua visita de Estado em 1984, desembarcou uma multidão de pessoas que a frágil logística local estava a procurar acomodar o melhor possível para aqueles três dias de estada. Além da equipa de Eanes, dos diplomatas, dos membros do governo, havia imensos convidados, como empresários, jornalistas e outra gente. O grupo sairia dali para Kinshasa, pelo que havia pessoas que tinham S. Tomé apenas como pouso de descanso.

A embaixada local — o embaixador e um secretário — não chegava para as encomendas. Eu tinha sido destacado de Luanda para a apoiar. A minha experiência na preparação de uma visita de Estado do presidente Eanes à Noruega, dois anos antes, terá sido recordada por Lisboa. Cheguei uns dias antes, mas depressa percebi que S. Tomé era, para efeitos de organização, o oposto de Oslo...

No programa da visita, que fiz questão de percorrer em pormenor, a parte santomense tinha incluido uma deslocação do presidente Eanes à fortaleza. Ao chegar ali, constatei que se acumulavam, sem o menor cuidado, estátuas do tempo colonial, retratos de figuras portuguesas do Estado Novo e uma exposição fotográfica sobre o massacre de Batepá, com uma determinada legendagem. 

Num minuto, concluí que as coisas não se apresentavam ali com uma dignidade compatível com aquela que seria a primeira deslocação de um chefe de Estado do Portugal a São Tomé. No pós-25 de abril, Portugal não rejeitava naturalmente a sua responsabilidade pelos crimes do período colonial, mas não se podia associar, numa visita oficial daquela dimensão, à sua evocação em moldes que afetassem o respeito que era devido ao nosso país em tempos de democracia. 

A reação do responsável santomense — que, curiosamente, era um amigo pessoal desde os meus tempos do Porto — às minhas reservas não foi a mais calorosa. Insistiam em manter esse ponto da visita. Eu mantive-me firme. Chegado à embaixada, disse ao embaixador português em São Tomé, Francisco Quevedo Crespo, o que tinha decidido. O Francisco advertiu-me: "Vais ter de garantir que o pessoal vindo de Lisboa te dá cobertura...". Estava a sobrar para mim. 

No meio da confusão da chegada da delegação, logo procurei contactar alguém responsável da Casa Civil, para explicar que havia um ponto da agenda que estava em aberto, pela minha recusa. Minutos depois, aproximou-se de mim Joaquim Letria, porta-voz de Eanes. Disse estar disponível para se deslocar comigo à fortaleza. Minutos depois, eu conduzi-o pelas ruas de S. Tomé, num carro que me fora emprestado por outro amigo, nesse caso um colega de liceu de Vila Real. O mundo, em português, é mesmo muito pequeno.

Eu não conhecia Joaquim Letria, ou melhor, conhecia o Joaquim Letria que todos os portugueses tinham visto e ouvido nas televisões, com aquela voz envolvente, aquele modo sereno e calmo de abordar as coisas, sempre com um sorriso. Tivemos uma conversa em que eu lhe expliquei as razões da minha atitude e a reação santomense. Não comentou.

Chegados à fortaleza, sob o olhar silencioso de um funcionário local, conduzi Joaquim Letria, quase sem trocarmos palavras, pelos locais que eu tinha achado problemáticos. 

Regressados ao carro, Letria disse-me: "Você tinha toda a razão. Ainda bem que levantou a objeção. O presidente não pode vir aqui". Suspirei de alívio. E Eanes não visitou a fortaleza.

Lembrei-me disto hoje, ao saber da morte de Joaquim Letria.

Brasil!

Bela entrevista de Lula à Globo. Amanhã será a vez de Bolsonaro. Fazer melhor do que Lula vai ser muito difícil. Estará o Brasil numa "virada"? Se o debate no domingo correr muito bem a Lula, ouço especialistas a dizer que tudo pode acontecer. Grande momento eleitoral este! 

Ainda a IA

É obviamente legítima a escrita de artigos e livros com auxílio da IA. Temo, contudo, que o perfil de alguns autores venha a perder identidade e genuinidade no processo. A escrita é muito mais do que o rigor da construção da frase ou a articulação ótima do argumento — às vezes, a contradição e a incoerência são mesmo o sal do texto. Logo veremos.

Os seguidores

Uma das coisas com graça nas redes sociais é a certeza de que há gente a deixar de "seguir-nos", nas horas seguintes, quando escrevemos algo que é abertamente desagradável para um dos "lados". A mim, diverte-me imenso.

Indecisão

Há anos que, no casal Anne Applebaum e Radosław Sikorski, não consigo decidir de quem gosto menos.

Espanha

Duas caras bonitas a representar o pior que há na política espanhola: Cayetana Álvarez de Toledo e Isabel Díaz Ayuso.

Brasil: já vale tudo?

No "mata-mata" dos últimos dias da campanha presidencial brasileira, assiste-se a tudo: dos golpes mais baixos à demagogia mais descarada. De ambos os lados. É um vale tudo!

A Europa face a Trump

Um dos poucos trunfos de que os europeus dispõem no dossiê Ucrânia são os pacotes de sanções e os bens russos congelados, essenciais para qualquer compromisso final com Moscovo. Vai ser interessante perceber se Trump consegue dividir a Europa neste tema para finalizar um arranjo com Putin.

Trump

O visível nervosismo que sente nas hostes trumpistas com o aproximar das eleições está a provocar uma natural euforia no campo democrático. Ora é importante ponderar que um Trump acossado, perante a iminência de uma derrota pesada, poderá ser tentado a golpes de força para pôr em causa o resultado eleitoral. Vale a pena ter isto presente.

França

É muito interessante o que está a passar nas lideranças políticas em França, contaminando o centro (socialistas e ditos socialistas incluídos) e, neste caso sem supresa, a direita: o inimigo deixou de ser Marine Le Pen e o Front National e passou a ser Jean-Luc Mélenchon e a sua La France Insoumise.

Carlos Contreiras

 


Contas à vida


Devia ter adiado aquele almoço. Tinha convidado dois colegas lá para casa, mas uma reunião inesperada, marcada para meio da tarde, ia impor um limite de tempo à refeição, o que era menos compatível com a conversa pós-prandial, um dos grandes privilégios da reforma. Também eu estava reformado, embora, pelos vistos, um pouco menos do que eles. Faltou-me, ainda assim, a coragem de lhes dizer da minha pressa.

O almoço correu lindamente. Ia olhando para o relógio, de quando em vez, com a discrição possível. Vieram os cafés, apareceram uns whiskies e a conversa, como tantas vezes sucede, instalou-se e foi-se alongando. Pouco antes das três, comecei a inquietar-me. A reunião era às três e meia, não ficava longe, mas faltava ainda a gravata, o blazer e o táxi. 

Os meus amigos, alheios à minha urgência, seguiam na melhor das conversas, história atrás de histórias, e eu não tinha coragem para interromper. 

Um pediu mais um café. O outro acompanhou-o. Eu, claro, fui na onda. 

Chamei a empregada: 

— Por favor, traga mais três cafés… e a cont… 

Fiquei a meio da palavra. Ia dizer "conta", como quem, num restaurante, tenta fechar a despesa e zarpar para um compromisso. Mas eu estava em minha casa, caramba! A empregada percebeu de imediato, sorriu e foi buscar os cafés. Os meus amigos, felizmente, não deram por nada, ou tiveram a delicadeza de fingir. 

Lá consegui, minutos depois, vê-los partir pelo seu pé. E disparei para a minha reunião. Chegado ao destino, pedi mais um café. Estava mesmo a precisar.

quinta-feira, outubro 15, 2026

Zelensky

Olhe-se bem a cara de Zelensky. Goste-se ou não do homem, da sua causa política e do modo como a defende, daquela cara transparece, a cada dia que passa, o extraordinário peso que traz sobre as suas costas. O que ele terá aprendido nestes anos, na sua trágica solidão!

A vigarice

Uma das vigarices nas redes sociais consiste em reproduzir textos publicados há muito tempo, como se fossem de hoje. A "vítima" mais frequente é Trump: como ele diz tudo e o seu contrário, há sempre uma citação (mal) adequada ao dia. Eu bloqueio de imediato quem tenta iludir-nos.

Trump e o resto (2)

Que efeito teria, em termos da atitude americana nas guerras da Ucrânia e no Médio Oriente, um Trump enfraquecido nas eleições intercalares? Salvo para anúncios de fogacho (já houve a experiência do "tratado de Versalhes" com o Irão), já não parece haver tempo para algo concreto.

Trump e o resto (1)

Trump quer um acordo na Ucrânia antes das intercalares. O desespero contido de Zelensky nas entrevista ao FT e a Piers Morgan mostra que está contra a parede. A chave, curiosamente, parece estar nos europeus. Trump precisa deles (mesmo sem a Polónia) para fechar qualquer acordo.

"Bah..."

Ainda estou para perceber o verdadeiro significado da exclamação "Portoghese ?!  Bah...", de um polícia italiano que há pouco me i...