terça-feira, 1 de setembro de 2020

De verde


Foi vestido de verde que conheci o António Franco, que nos deixou há algumas semanas e que hoje vai ser evocado pela família. Ele também estava de verde. Foi em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, na segunda incorporação de 1973.

Não estávamos sozinhos. Éramos cerca de 900, todos vestidos do verde da farda, recém tirados à vida civil, por um período que não podíamos prever, mas que podia ir até mais de três anos, com guerra colonial em África pelo meio, para a esmagadora maioria daqueles que por ali estavam, nas lúgubres traseiras do convento que ainda não tinha obtido glória por via literária.

Éramos muito diversos. Havia por ali gente casada, com filhos, curso superior, com vida organizada, alguns a aproximar-se dos 30 anos, ao lado de uns miúdos a quem a tropa tinha apanhado cedo, logo após a vintena. O António estava no grupo dos primeiros. Eu estava no meio da tabela, já empregado, prestes a casar.

Creio que foi um primo do António - engenheiro, Ribeiro, de seu nome, que perdi de vista desde então - quem nos apresentou. Despachada a “tropa”, saídos das tarefas castrenses, íamos os quatro jogar cartas e roleta para uma casa que o Vasco Bramão Ramos tinha na Ericeira.

O António, ao que recordo, terá trazido a roleta. As cartas existiam lá por casa. Eu levava apenas uma irritada irreverência que disfarçava um mal-estar crónico pela condição militar, que nunca me passaria. Os fins de tarde só não eram de total diversão porque havia que estudar para os testes “americanos”, sem o êxito nos quais nos arriscávamos a perder a saída do fim de semana. Ali se aprendia que o sargento da guarda “rende e ronda”, decoravam-se magnas questões das temáticas da “ordem unida” (a coreografia militar na parada), inteirávamo-nos do funcionamento da culatra da G3 e temas tão ou menos apelativos do que esses.

Julgo não macular postumamente a folha militar do António se agora revelar que ele tinha conseguido obter, por artes que nunca cuidei em saber, para não ter de partilhar o pecado, os testes do ciclo anterior ao nosso - e facilmente se perceberá que a imaginação militar nunca iria ao ponto de mudar o conteúdo das perguntas, de um ciclo para o outro. Aquele quarteto não só comungava esse imenso segredo como era mesmo obrigado, no momento do teste, a “falhar” em uma ou duas questões, para não parecer excessivamente “perfeito”. Para que conste, nunca falhámos um fim de semana em casa.

O António, sem surpresa, era o soldado-cadete (já não me recordo como isso era designado) que sempre coordenava e apresentava o seu pelotão, bando de trinta cadetes em que se dividem as companhias. Ficou famoso pelo seu garbo, sempre irónico.

Um dia, creio que nas festas de Mafra ou da unidade, em que fomos obrigados a mudar de farda umas quatro ou cinco vezes, ao ser inquirido na formatura da saída, por um tenente “chicalhão” (dizia-se dos milicianos que gostavam mesmo daquilo, ao ponto de algum sadismo sobre quem era comandado), como apreciara a forçada agitação de vestes durante a jornada, o António crismou uma frase que ficou nos anais do ciclo: “Saiba vossa senhoria, meu tenente, que, ao ter de me vestir e despir tantas vezes, no mesmo dia, por um momento senti que esta venerável Escola Prática se assemelhava a uma casa de meninas, sem qualquer ofensa para estas últimas, bem entendido!”

Mafra acabou, depois desses três meses que registei como dos mais sinistros da minha vida, mas que o António, surpreendentemente, achou divertidíssimos. E, sempre de verde, lá marchámos, salvo seja, para a Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, em Lisboa.

É que, dos 900 bravos cadetes de Mafra, nove havíamos sido os felizes eleitos, por testes psicotécnicos, para a simpática especialidade de Ação Psicológica, uma área em que se era “operacional” pela palavra. Desses nove, os primeiros três classificados ficariam garantidamente na “metrópole”, sendo os restantes seis destinados às “províncias ultramarinas”, mas sempre acolhidos no conforto dos quartéis-generais, onde a “Apsic”, com razão, era uma tarefa muito invejada.

Posso revelar que, ao final desses mais três meses de “instrução”, o António, o Jaime Nogueira Pinto e eu fomos classificados para não pôr os pés nas “possessões ultramarinas”. O Jaime, coerente, não aceitou e quis logo marchar para Angola, o António foi requisitado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (o que era possível, por não ter sido “mobilizado” para o “esforço de guerra”) e só eu fiquei pelo Lumiar, a dar aulas de patriotismo oficioso, até que Abril se proporcionou.

Tinham assim terminado os seis meses em que eu e o António Franco andáramos juntos, de verde, quase todos os dias. Ele voltou, entretanto, às gravatas das Necessidades, “farda” que, por sugestão dele, vim também a envergar, tempos mais tarde. O resto é sabido.

Tenho uma forte saudade do António, é tudo quanto se me oferece agora dizer, para usar o gongorismo que ele tão bem manejava, para raiva de muitos e gozo de quem lhe apreciava o humor, que nunca o abandonou até ao fim.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Sérgio Godinho


Sérgio Godinho faz hoje 75 anos. Sem qualquer nostalgia pateta mas com um sincero reconhecimento pessoal, noto que a sua música me fez companhia serena por bem mais de quatro décadas. Alguns dos seus temas fazem parte da minha "playlist" íntima, interpretaram, às vezes na perfeição, sentimentos que fui tendo ao longo do tempo, das raivas às ternuras, das esperanças aos desencantos, confirmando-me que a sintonia geracional é uma realidade sem discussão. Godinho, porém, está mesmo um pouco para além disso, porque não ficou colado, como acontece com outros, a uma espécie de gueto etário. E não deu ares de ter feito um esforço especial para isso. A inteligência com que conseguiu fazer evoluir as suas palavras e melodias, dotando-as de uma contínua modernidade, nem artificial nem obsessiva, transformou-o num dos raros autores que mantêm hoje entre nós uma singular transversalidade de públicos. Sérgio Godinho tem 75 anos. Quem nos dera a todos envelhecer, e ver envelhecer aquilo que dizemos e fazemos, dessa mesma e alegre forma. Não conheço Sérgio Godinho. Se o conhecesse, dava-lhe hoje um abraço. Como se dá a um amigo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Flagrantes da vida real


“Dois chás de camomila e um café”. 

Ela tinha um ar de vida próspera. Bem vestida, devia ter sido bonita, até que os quilos da cinquentena haviam chegado para ficar. Estava no início de algum desmazelo.

“Ponho na conta de que quarto?”, perguntou o empregado da Pousada.

Ela hesitou. Voltou-se para o marido, que ia a passar: “Qual é o número do quarto dos meus pais?”

“Não sei. Põe no nosso”.

“Isso é que era bom!” E lá foi ela, três salas adiante, para poupar nove euros. Regressou com o número do quarto dos pais. 

Poupanças.Há um país de gente assim. Coitados! Devem estar ricos. Mereciam ser deserdados.

Vamos a isso!


Pela fúria organizadora com que me vejo a planear as próximas semanas, confirmo a velha perceção de que os anos começam em setembro e acabam em julho. Aquela coisa do início de janeiro, depois no Natal e no ano novo, é uma vigarice cronológica, sem a menor aderência à realidade. Nem imaginam as listas de coisas para fazer que estou a preparar neste fim de semana! Para mim, já “cheira a setembro”, como escreveu o Ary, embora falando de outra coisa.

sábado, 29 de agosto de 2020

Os melhores do mundo



 ... no Victor, em São João do Rei.

Lídia Jorge



O prémio de Literatura em Línguas Românicas, da FIL Guadalajara, acaba de ser atribuído a Lídia Jorge. 

Trata-se de uma distinção criada em 1991, que reconhece um escritor vivo com uma obra relevante de criação em qualquer género literário – poesia, romance, teatro, conto ou ensaio – cujo meio de expressão seja espanhol, catalão, galego, francês, italiano, romeno ou português. 

Um beijo de parabéns, Lídia, num ano em que o vírus lhe trouxe uma imensa tristeza familiar.

Um caso sério


Algumas vezes, no passado, por ali parei, para um chá, pela tarde, a meio da viagem entre Vila Real e Viana. O “Turismo”, em Barcelos, era um espaço clássico, com um toque “rétro”, bem “estadonovista”. Mas, no fundo, digamos a verdade, era um local nada de especial.

Almoçar, na bela cidade de Barcelos, para mim, foi sempre sinónimo da clássica e estimável “Bagoeira” ou, a caminho de Esposende, da “Maria”, na Pedra Furada. Em alternativa, havia os “Arcos” ou a “Babette”. Depois, ia-se pelos doces, à “Colonial”. Nada mais, que eu soubesse.

Um amigo falou-me, há meses, do “Turismo”. “Mas come-se, lá no Turismo?”, perguntei, cético. Esse amigo, que também sabe cozinhar e o faz de forma aprimorada, assegurou-me: “Come-se e bem!”. 

Sou um cético, melhor, era, até hoje, ao almoço, ocasião em que, de facto, comi por lá lindamente. O espaço está renovado, arejado de vistas, com um serviço muito profissional e uma cozinha de elevada qualidade, numa lista soberba. Ah! E, para quem queira, há um menu executivo, bem em conta.

A chegada à mesa do proprietário, e chefe de sala, trouxe-me duas evocações. 

O Jorginho, com a máscara da conjuntura, é uma cópia perfeita do Bruno Nogueira. Até nos gestos! Se me tivessem dito que era o humorista que ali estava, teria acreditado, confesso. Perguntei-lhe e ele confirmou-me a regular confusão.

Mas o modo como ele apresentou os pratos, fazendo uma descrição individualizada, com riqueza semântica, cheio de pormenores, trouxe-me à memória uma curiosa figura histórica da restauração lisboeta: Francisco Queiroz, do saudoso ”Sua Excelência”, na rua do Conde, na minha vizinhança. 

Aquele desenrolar do menu, com pormenores pessoais (“como a minha tia fazia lá em casa...”), era um espetáculo que, numa versão mais contemporânea, vim encontrar no Jorginho (Jorge Falcão Bogas, mas gosta de ser conhecido por Jorginho), descrevendo as artes de cozinha do seu chefe Miguel Morgado (não, não é o liberal homónimo!).

Concluindo. Tenho, a partir de agora, no “Turismo”, em Barcelos, um caso muito sério de boa restauração, que me vai obrigar a desviar mais vezes por aquela cidade, nas minhas viagens ao Norte. 

Este fantástico país dá uma imensa trabalheira!

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Fim de tarde

 




Manel!

 

Numa carreira diplomática onde, historicamente, algum snobismo teima em marcar as formas de tratamento, o Manuel Lopes da Costa foi alguém que cuidou sempre em reduzir a distância face aos colegas mais novos. Senti isso desde o primeiro momento, em que me “ordenou” que o tratasse por Manel, e sempre “por tu”, como todo o ministério se habituou a testemunhar. 

Há dias, neste tempo de pandemia, comentei com alguém da Casa: “Quem deve sofrer imenso com isto é o Manel!”. Porque o Manel era um “físico”, gostava de tocar nas pessoas, agarrava-nos o braço, as mãos. Era a sua forma de demonstrar afetividade, amizade, simpatia. O Manel era a antítese perfeita do conceito de “distanciação”.

Manuel Lopes da Costa afirmava também uma caraterística incomum na Carreira: tinha por “vício” não dizer mal de ninguém. Para minha grande surpresa, uma noite, num bar de um hotel, em Roma, abriu uma exceção e qualificou alguém com um adjetivo duro. Mas tinha imensa razão em assim proceder! Eu teria dito bem pior dessa figura.

Longe de Lisboa, não tenho comigo o Anuário do MNE (uma utilíssima publicação que, por um qualquer mistério, deixou de se publicar neste século), o que me impede de confirmar a perceção de que o Manel, que leio que hoje morreu, aos 87 anos, praticamente nunca teve chefes no estrangeiro: foi “encarregado de negócios” em vários postos, acabando por chefiar embaixadas em Maputo e Dublin, locais onde fui encontrá-lo, sempre à vontade, com ótimo espirito e boa disposição, muito ativo, atento leitor da realidade local.

Percorri alguma África com o Manel - do Congo à Tanzânia, do Zaire ao Quénia, da Zâmbia às Maurícias. Ajudei a libertá-lo, entre gargalhadas coletivas, de uma sarilhada no aeroporto de Addis-Abeba, onde decidiu comprar um facalhão que, com toda a ingénua naturalidade, quis levar para um avião. Com ele e outros compinchas, atravessei o deserto que bordejava o Kelimanjaro, numa carrinha que ele nos convenceu a alugar em Arusha e que, de quando em vez, nos obrigava a parar, para se limpar, por sopro, o carburador (seria isso? não percebo nada de motores), no meio da estrada de terra batida para Nairobi, sob o olhar indiferente das tribos de Masai com que nos cruzávamos (o João Salgueiro não esqueceu isto).

Tenho montes de histórias divertidas com o Manel, uma, incontável, em Londres (o João da Rocha Páris lembra-se), outra, difícil de descrever, em Frankfurt (o António Monteiro recorda-se), sem falar das da caça, arte em que ele era reconhecido como um praticante de elevada craveira. 

Um dia, em Washington, no State Department, o Manel deparou-se com uma sala de reuniões onde, por todo o lado, se viam letreiros de “No Smoking”. Na mesa, de madeira impecável, nem vestígio de cinzeiros. Eram os anos 80, início do fundamentalismo anti-tabaco. 

A “chaminé” que era o Manuel Lopes de Costa começou a agitar-se na cadeira. Alguns membros da delegação portuguesa notavam a sua nervoseira. Ia passada uma dezena de minutos da reunião quando se viu o braço do Manel adiantar-se na mesa e agarrar uma meia dúzia de folhas brancas de A4. “Vai tomar apontamentos”, pensou-se, embora o Manel tivesse à sua frente um caderno de argolas onde escrevinhara já algumas notas.

Foi então que, expectantes, olhos de ambas as delegações viram o Manel dobrar, cuidadosamente, umas faixas laterais do molho de folhas e, com um saber seguramente de experiência feito, criar uma espécie de caixa, com quatro pés assentes sobre a mesa, em frente ao seu lugar. 

De repente, o Manel inclinou-se para a pasta preta, com asas, que sempre trazia consigo e que tinha pousado no chão, ao seu lado. Segundos depois, desse mesmo sítio, no ar daquela sala da sede da diplomacia americana, alçou-se um pequeno fumo, provocatória e libertariamente. Impávido, com o esgar sorridente que era o seu, com a sua barbicha branca, de cabeça sempre levantada, o Manel surgiu com um cigarro incandescente, para cuja cinza - estava desfeito o mistério! - ele havia construído o engenhoso cinzeiro de papel. Alguns americanos, graves, olhavam a delegação portuguesa, com certeza interrogando-se sobre a “lata” de alguém que, com um cigarro, havia raptado a conversa, onde a guerra civil em Angola era o tema. O nosso lado estava divertido. Era o Manel no seu estilo incontrolável!

Tenho muita pena de ver desaparecer o meu querido amigo Manuel Lopes da Costa. Se a diplomacia tem um lado humano insubstituível, esse lado estava bem representado na sua figura, na sua excecional capacidade de relacionamento, de que fui feliz beneficiário. Tenho a certeza de que ele ficaria satisfeito ao saber que o recordei com uma sua história divertida, tão alegre como as muitas horas bem dispostas que passámos juntos. “So long”, Manel!

Um beijo à Maria Cecília e o meu pesar à família.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Elogio do turismo


Andando pelo país, do Sul ao Norte, nos últimos dois meses, tenho-me apercebido muito bem do modo como os setores da restauração e da hotelaria estão a procurar reagir à muito grave crise provocada por uma pandemia que ainda não tem data marcada para atenuar os seus principais efeitos.

Com a maior sinceridade, quero dizer tenho vindo a criar um enorme respeito pelo esforço dos profissionais de ambos os setores. Um pouco por todo o lado, quase sempre sem grandes queixas, tenho observado o modo rigoroso como responsáveis e trabalhadores seguem as estritas regras de higiene a que a situação obriga, garantindo as melhores condições a uma clientela que ainda se mostra hesitante e temerosa.

Nos últimos anos, o turismo disparou entre nós, com uma dimensão que, há que reconhecer, por vezes se tornou incómoda para a vida de muitos cidadãos, que viram o seu quotidiano invadido de uma forma bastante agressiva. Mas, ao afirmar-se, a importância do turismo na nossa riqueza ajudou a alguma folga nas contas, facilitando políticas públicas, gerando uma imensidão de empregos. Percebemos melhor agora que não é possível “ter sol na eira e chuva no nabal”.

Houve algum exagero na oferta hoteleira, que parecia imitar as “pirâmides” de lucro? Claro que sim. Mas convém compreender que muito do património imobiliário foi renovado, nomeadamente com o surto do alojamento local, que a vida comercial das cidades foi estimulada e os restantes setores turísticos, com os transportes pelo meio, tiveram ganhos de qualidade que os índices internacionais não deixaram de refletir.

Sei que, no olhar de alguns, um outro aspecto pode parecer de somenos, mas, dada a minha experiência profissional, tenho de destacar o impacto que a onda turística dos últimos anos tem vindo a ter na imagem internacional do nosso pais. Olhe-se o número crescente de obras que, pelo mundo, são publicadas sobre Portugal, sobre os portugueses e a sua História, os filmes que nos tomam como cenário e o muito que, de positivo, se diz sobre a segurança das nossas cidades. Muitos não terão reparado mas, em escassos anos, demos um imenso salto nessa perceção. E quem, mais do que o turismo, fez por isso?

Não sabemos ainda o que o turismo português vai ser, no futuro. Mas uma coisa é certa: se ele não recuperar, as coisas não irão ser nada fáceis para a economia nacional, nos próximos anos. Como o relatório Porter nos ensinava, temos de fazer melhor o que já fazemos bem. E em poucos setores somos tão competitivos como na área turística.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

“Reaccionaria” (também com “c”)


Andava há anos para lá ir. Tinham-me falado daquele restaurante galego em que a dona, franquista dos sete costados, cantava pelas mesas o “Cara al Sol” (ontem, só lhe ouvi o “Granada”) e alardeava que, na sua casa, não entravam socialistas (e, por maioria de razão, comunas e anarquistas, porque quem pode o mais pode o menos).

É uma marisqueira pequena, numa rua esconsa do porto de La Guardia (A Guarda, para os galegos). Lá chegados, com mesa marcada, surgiu a “facha” (“Ah, Portugueses!”, sem especial nota de afeto ou desafeto). Explicou, logo ali, que, em tempos de pandemia, se cruzam os braços no peito e se vai com um dedo ao nariz, apontando depois para o outro (“Los socialistas son los que saludan con los codos”).

Plano de conversa: dizer bem de Salazar, elogiar o Caudillo, que sempre achei Fraga “muy de esquierdas” (e então o Feijóo!), que nos faz falta um Vox, que em Portugal já temos um genérico “facho”, mas que, a mim, até me parece um pouco esquerdalho, da minha admiração pela vedeta do PP Cayetana Álvares de Toledo (e que fiquei comovido com o artigo sobre ela, do Vargas Llosa, no “El Mundo”), revelando-lhe, como cúmulo de credenciais direitolas, que, num 20 de novembro, tinha mesmo estado a ouvir Blas Piñar, na Plaza de Oriente, “hace muchos años”. À saída, o plano era berrar, à distância, o “La mujer de Paco Franco... de su marido cabrón”, com música do “Ay Carmela”.

“Quer-se dizer”: tinha pensado dizer e fazer tudo o que acabam de ler, mas acabei por não dizer nem fazer nada disso. Já bastam as máscaras que para aí andam...

Comemos bem, bebemos um albariño razoável e pagámos “la dolorosa”, em conta para o consumido

Reaccionário (com “c”)


A distanciação, em tempos de pandemia, colocou-me atrás dele, a uma boa distância. Foi ontem de manhã, na fila para os jornais, na Atenas, na praça central de Caminha. 

Era um homem pequeno, idoso, de cabelos muito brancos. Vestia um casaco (seria fato?) escuro. Verdadeiramente, a minha atenção à figura começou quando o ouvi pedir a conservadoríssima “Valeurs Actuelles”. Logo eu, que vinha pelo “Nouvel Obs” da semana passada, que já não conseguira apanhar no Porto. 

Espera aí! Um cavalheiro daquela idade, a pedir aquela revista, por aquela zona, seria ele? Ele quem? Se o leitor lê o “Correio da Manhã”, pecado comum a muitos portugueses, ter-se-á encontrado já com as crónicas do Dr. António Sousa Homem, autor de quatro livros de compilação de textos, todos com o subtítulo de ”Crónicas de um reaccionário minhoto”. Quando ele se voltou, para me dar lugar junto ao balcão, esperei para ver se o farfalhudo bigode branco se mostrava, mas a máscara não deixou.

Não resisti, para não ter o destino infeliz de dois escribas lisboetas. que falharam o encontro com o homem. Pousei no balcão a revista que levava na mão e fui atrás do cavalheiro. Chegado ao largo, interpelei-o: “Dr. Sousa Homem?” O senhor parou, tirou a máscara, mostrou uma cara levemente sorridente, com o bigode que lhe vemos nas badanas dos livros, e respondeu: “Presume bem!”. Dei por adquirido que fazia uma citação ínvia do encontro de Livingstone e Stanley, e também sorri. 

Tinha pouco a dizer ao Dr. António Sousa Homem, além do que, de facto, lhe disse: que tinha lido todos os seus livros, que apreciava a sua escrita, que estava longe de lhe dar os 99 anos que lhe sabia de vida. Disse-lhe também quem eu era, o que fazia, mas isso em nada o pareceu interessar. Perguntei-lhe se continuava a ir almoçar ao Ancoradouro, embora sabendo que isso lhe era de regra. 

O Dr. Sousa Homem, manifestamente, não estava com jeitos de me dar muito troco. Sim, ia dali a pouco ao Ancoradouro. Como pretexto para arrumar uma conversa que não andava para a frente, pedi-lhe que desse um abraço por mim ao Alfredo, que tutela aquelas mesas de toalhas aos quadrados. “Com certeza que sim”, adiantou, talvez para se ver livre de mim, cujo nome duvido que sequer tivesse fixado. 

Foi então que, de uma mesa na esplanada da Riviera, se ouviu uma voz feminina: “Tio! Estamos aqui!”. Ele olhou, despediu-se de mim com um inclinar de cabeça e foi ter com a senhora ali sentada. Era, pela certa, a sobrinha, a Maria Luísa, a decoradora de interiores em Braga, de que Sousa Homem nos fala nas crónicas, que vem vê-lo com frequência ao Moledo, onde ele vive.

Ao lado da suposta Maria Luísa, refastelado, estava um cavalheiro. Tenho uma memória de elefante. Era a cara chapada de um tipo que eu tinha cruzado, há cerca de três anos, quando o Nova Sintra ainda estava aberto em frente ao meu hotel, na rua do Heroísmo. Eu tinha falhado a hora do pequeno-almoço do hotel, como cada vez mais me acontece, e tinha atravessado a rua para uma bica e um sumo de laranja, a um preço decente. Ouvi então o empregado do café perguntar, para aquele que era, por uma pinta, o acompanhante de Maria Luísa: “O costume, senhor inspetor?”

Agora, eu estava com alguma pressa. Ainda ia almoçar a La Guardia (A Guarda, para os galegos), onde já levavam uma hora de avanço, para experimentar as delícias da Casa Olga (amanhã conto). 

Quando arranquei, cruzei-me com um carro onde, ia jurar!, ia o Francisco José Viegas. Mas foi impressão minha, pela certa. O Francisco anda por Soltróia. Mas lá que parecia ser ele, isso parecia!

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Barto


Por esta altura do ano, nas Escadinhas da Fonte da Pipa, em Sintra, reunia-se uma seita distinta, que invadia o terraço da casa do Bartolomeu Cid dos Santos. 

Íamos comemorar o aniversário dessa grande figura da arte portuguesa, professor da Slade School e ímpar amigo e companheiro de muitas festas. O Bartolomeu teria feito ontem 89 anos.

Foi em Londres que conheci o Bartolomeu - Barto, para os amigos britânicos -, nos idos de 70, através da Fernanda, sua esplêndida companheira. Quando para lá fui viver, nos anos 90, juntávamo-nos com frequência, em longas e bem regadas conversas e comezainas. O Bartolomeu cozinhava uma “shepherd’s pie” como ninguém, mas também tinha a mania da cozinha grega, arrastando-nos, com frequência, para um restaurante da dita, perto de Tottenham Court Road.

O Bartolomeu tinha a curiosidade de uma criança, a vivacidade de um adolescente, a sabedoria da gente com a idade de que ele se aproximava. 

Foi pela mão do Bartolomeu que passei a integrar, em 1991, a Crabtree Foundation, uma prestigiosa associação britânica (de que ele e eu acabámos um dia presidentes) que, vai para sete décadas, comemora - com afinco, pertinácia e, vá lá, com o rigor possível - a figura de Joseph Crabtree (1754-1854), uma personalidade que nem pelo facto de nunca ter dado o menor sinal de vida deixa de ser um expoente em muitas e desvairadas artes, ofícios e saberes. A “oration” do Bartolomeu sobre a suposta passagem de Crabtree por Portugal continua a ser um marco!

As festas de aniversário do Bartolomeu, lá por Sintra, só se equiparavam às noites de passagem de ano no mesmo local, que começavam num jantar e acabavam dentro da madrugada, depois de sessões de revelação de documentação, que o Bartolomeu cuidava em colecionar, coisas magníficas, como cartas escritas de Cabul para ele, por José Cutileiro, na juventude de ambos. Uma das suas preciosidades era uma “cunha” de alguém para tentar proteger o jovem estudante António Sebastião Ribeiro de Spínola. 

O Bartolomeu, homem que nunca renegara o seu amor ao “partido”, guardava, além disso, uma “memorabilia” de imensas coisas com a foice & martelo, uma “cunhalogia” do melhor que vi até hoje. Não sei se, para aquela coleta, tinha tido a ajuda do Ruben de Carvalho, figura que muito animava essas nossas ocasiões.

Nós éramos felizes participantes desses extraordinários “gatherings”. Para além do Rúben e de José Cutileiro, lembro ver por lá o Antonio Tabuchi, o Zé Cardoso Pires, os “londrinos” Luís Sousa Rebelo e Helder Macedo, o Gérard Castello Lopes, o Júlio Moreira e a Ana Viegas, o Alberto Seixas Santos, o Luís Santos Ferro e tantos e tantos outros.

O Bartolomeu, até à morte, nunca largou Londres, mas voltava sempre a Portugal, a Sintra e a Tavira. Algumas vezes, como quando fez a arte magnífica que está nas paredes do Metro de Entrecampos, trouxe consigo, da “pérfida Albion”, umas excelentes “trupettes”, estudantes da Slade, que muito animaram as marmoreiras de Pero Pinheiro. Tenho dele uma gravura dedicada, com a sombra de uma dessas beldades.

O dia de aniversário já terminou. Se fosse vivo, o Bartolomeu iniciaria agora o caminho para os 90. Assim, tem de se contentar com a eternidade.

Um beijo para ti, Fernanda.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cafés do Porto


Passei há pouco no “Piolho". Fez 110 anos e, salvo a pandemia, está de boa saúde, com gente a animar-lhe a esplanada. 

O "Piolho", ou melhor, o "Café Âncora d'Ouro", é uma bela instituição do Porto, estrategicamente situada junto aos Leões, à beira dos Clérigos, de Carlos Alberto e do início de Cedofeita. É um local de profundas tradições culturais e académicas. 

Na segunda metade dos anos 60 do século passado, em que o frequentei, por ali aportava gente do Teatro Universitário, do Orfeão, do Coral de Letras, da cooperativa livreira Unicepe, os pró-associativos (no Porto, a ditadura não dava direito a associação académica), estudantes das Faculdades de Ciências e de Economia, logo em frente, bem como os de Letras e Medicina, então um pouco abaixo. 

Tudo bebia por ali o seu café de saco. É que o "Piolho", durante muito tempo, não teve "cimbalino", essa portuense expressão para o "expresso", derivada das máquinas italianas "La Cimbali", que, à época, já equipavam a modernidade dos cafés da cidade, a começar pelo "Montarroio" e a acabar na "Brasileira".

Tal como em Lisboa, para muitas gerações desaguadas da província para estudar no Porto, sem muito dinheiro, num tempo de escassez de locais de convívio, os cafés representavam um espaço de acolhimento, socialização e convívio. 

O "Piolho" era um expoente desse universo, que também tinha o "Aviz" (algo intelectual) e o "Ceuta" (em frente ao Rádio Clube Português), como fóruns clássicos de conversa. Mas também o "Progresso", no Moinho de Vento, com “o melhor café de saco do mundo” (dizia-se que punham, dentro da máquina, um rabo de bacalhau salgado), mas com professores a mais pelas mesas, o "Estrela", na rua da Fábrica, com os seus belos bilhares no 1.º andar, e o "Bissau", em Cedofeita, um oásis de serenidade onde se concentrava a gente de Engenharia e dos lares universitários da Torrinha e Rosário, ainda antes da abertura do “Latino”, a que assisti.

Para estudo ou a fazer disso, havia o "Saban", em Sá da Bandeira, ou o "Diu", na Boavista, sempre cheio de "pequenas" de Farmácia. Mais para namoro, havia o "Guarany", nos Aliados, ao fim da tarde, o "Orfeu" na Rotunda, o "Pereira" no Marquês, ou os recatados e distantes "Bela Cruz" do Castelo do Queijo e o "Chalet" do Passeio Alegre. 

Na baixa, onde se parava em outras diferentes ocasiões (por exemplo, ao final da tarde dos domingos, à espera do "Norte Desportivo"), ficavam os institucionais "Rialto", "Embaixador" ou "Imperial", embora com a estudantada menos presente, E também o "Astória", no passeio das Cardosas, que abria às 6 da manhã (para “apoio” à estação de S. Bento), meia hora depois de fechar a "Stadium", no Bonjardim. 

Curiosamente, o "Majestic" não tinha então o "glamour" de hoje e, bem perto, na Batalha, preponderava então o "Chave d'Ouro", onde a gente nova não ia muito. Não longe, ficava o “Sagres“, também um lugar “ível”, isto é, onde se podia ir. Resta notar, na Passos Manuel, nesta memória muito breve de cafés do Porto, o ”Santiago”, onde uma intelectualidade menos ortodoxa adubava os finais de tarde.

Hoje, é difícil que os cafés admitam que alguém se eternize por lá, à conversa, com um café e um copo de água à frente, como era frequente no século passado. 

Quando vivi em Viena, aprendi que, durante a guerra, os cafés da cidade aceitavam que quem não dispunha de aquecimento em casa passasse muitas horas dentro deles. 

Nos tempos de esse outro Portugal, aos poucos que tínhamos o privilégio de frequentar a universidade, os cafés também nos ajudavam a “aquecer” os dias e, em especial, as noites.

Francesinha


Ontem à noite, dei por mim a olhar, com clara inveja, para uma francesinha, pousada sobre a mesa ao lado, na Cufra, aqui no Porto. Eu já tinha pedido outra coisa, caso contrário teria marchado, pela certa, aquela bomba calórica, sobre cujo local de melhor confeção a doutrina tripeira sempre se dividiu. Mas não deve ser por acaso que, desde há muitos anos, não me passava pela cabeça pedir uma francesinha num restaurante portuense. É que costuma haver tanta coisa melhor nas ementas da cidade! Infelizmente, não é o caso da Cufra, com pena o reconheço.

domingo, 23 de agosto de 2020

MNE - os dias quentes da Revolução

Com um sexto e último artigo, Bárbara Reis conclui, no “Público” de hoje, uma série de textos, recheados de testemunhos, sobre o tempo que se viveu no Palácio das Necessidades, em 1974 e 1975, da ditadura para a democracia. Vale a pena ler.

Porto


É das cidades onde me sinto melhor. No Porto, tenho sempre a sensação de estar em casa. Talvez porque, minha infância, ir ao Porto era ir à civilização, pelo Marão curvoso ou pela linha que então desaguava em São Bento. Da varanda traseira da casa de uns tios, na Ramada Alta, avistava o mar ao fundo, olhava aquela imensidão de casas e luzes, via passar um comboio que me diziam que ia para a Póvoa e sentia que aquilo é que devia ser a vida! Um dia, o destino mandou-me mesmo para lá, supostamente para estudar, na prática para usufruir da liberdade que Vila Real não me tinha nunca dado. Perdi-me, claro, nas muitas coisas e nas longas noites. Em dois anos, concluí, com esforço, duas cadeiras de Engenharia, ambas com notas a rasar os mínimos. Não tivesse eu saído a tempo do Porto e aquela cidade seria a minha perdição. Mas voltei lá sempre, todos os anos, sem exceção, para rever amigos, flanar por ruas que conheço como os dedos das mãos, comer em belos restaurantes, folhear nos alfarrabistas. Quando ouço amigos lisboetas dizer que se confundem no trânsito do Porto, gabo-me de saber ali conduzir por quelhas e desvios, pelo meio de bairros de que nem ouviram falar, eles que, na rádio, ao verem referido o Nó de Francos ou Bessa Leite, não têm a menor ideia do que isso pode ser. Nos últimos anos, o trabalho tem-me levado imenso ao Porto. Amanhã, vai ser o lazer. Todo o pretexto é bom para ir ao Porto.

sábado, 22 de agosto de 2020

A “minha” cozinha

Quando, em 1985, chegado de posto em Angola, fui viver para perto do Campo Pequeno, alguém me disse maravilhas de um restaurante que tinha acabado de abrir, na rua de Entrecampos - o Poleiro. Eram dois irmãos Martins: o Manuel, a chefiar a cozinha, e o Aurélio, a dirigir a sala, então minúscula (não chegava a 30 lugares; depois aumentou apenas um pouco mais). A oferta inicial era eclética: havia espetadas madeirenses e comida minhota, por exemplo. O Aurélio, nos vinhos, converteu-se num constante descobridor de coisas novas e excelentes.

Por muitos anos, o Poleiro foi um “caso” numa restauração lisboeta que estava então muito longe de ter o leque de diversidade que hoje tem. Havia filas à porta. Ao almoço, era o mundo da política, do jornalismo, das empresas. À noite, eram casais e pequenos grupos. As reservas eram feitas com grande antecedência. Havia dias “impossíveis”.

Vivendo a cinco minutos a pé, tornei-me, de um regular frequentador, num bom amigo da casa. E já lá vão 35 anos. Noites houve em que o Aurélio me dizia, pelo telefone: “Pode ir descendo, que a sua mesa está quase pronta”, depois da rodada anterior. E, lá chegado, sabia ter à minha espera os peixinhos da horta e um belo queijo amanteigado, que ainda hoje vejo figurar por detrás dos níveis de colesterol das minhas análises. Grandes noitadas, com a família e amigos, passei no Poleiro.

Quem me conhece sabe que fiz sempre, por todo o lado, imensa “propaganda” do Poleiro. Não por ter a sua gente por amiga, mas porque achava, e continuo a achar, que por ali se servia e serve uma das mais genuinas cozinhas de Lisboa. Sem quebras, sem cedências, sem recuos na qualidade dos produtos. 

Hoje, como é da lei da vida, os dias do “Poleiro” não são os mesmos desse tempo, somada agora a pandemia a tudo o resto. Há muitos concorrentes, diversas ofertas gastronómicas, modas a prevalecerem. Mas o Poleiro ali está, impecável no que nos propõe, como ainda ontem tive ocasião de comprovar, numa visita que fiz à minha “cozinha”, como o Pedro d’Anunciação escreveu, há quase 15 anos, num artigo numa revista que encontrei por lá encaixilhado e de que aqui deixo imagem para memória presente.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Giocondas e anjos-maus

Farto-me de me cruzar com as duas espécies, mas nunca me tinha sucedido encontrar uma de cada naipe, ao mesmo tempo. Aconteceu-me, há pouco, nos correios (onde assisti a uma pobre empregada doméstica, com ar de pouco urbana, ser endrominada para comprar um vigésimo de lotaria - mostrando onde chegaram os correios!)

As giocondas, trato-as assim intimamente há anos, são mulheres que entram em lugares públicos com um esgar levemente sorridente, às vezes um pouco sofrido, que prolongam até serem atendidas - nas lojas ou nos serviços. Há nelas um à-vontade natural, um estar-bem naquele espaço, quase sempre num registo de segurança, muito “easy-going”, falando pouco e baixo, dando ares de terem todo o tempo do mundo. Tenho amigas assim e são, em geral, boa gente (se não fossem, também não eram minhas amigas, claro!).

Descobri o conceito de anjo-mau numa canção de Jorge Palma. É a cara fechada, dos modelos de “passerelle”, parece que representando, em geral, uma atitude defensiva, desincentivando a confiança e a aproximação. Há anjos-maus lindíssimas! As anjos-maus são, em geral, muito mais novas do que as giocondas, ou melhor, às anjos-maus mais velhas, ou quando já não vão para novas, não se chama anjos-maus, chama-se apenas trombudas. Ah! E, ao que tenho apurado, não há muitas giocondas novas. (No que eu me fui meter, neste tempos de politicamente correto!)

E fico-me por aqui, nesta caracterologia de trazer por casa, numa Lisboa vazia, onde a tarde rende imenso e só a máscara está a mais. (Já estou a ver os espertos do costume a perguntarem: “E como é que, com as máscaras, viste as caras?”. Aí é que está o poder de observação. São muitos anos...)

A Torre



A casa é hoje a Fundação Maestro José Pedro. No largo Vasco da Gama, em Viana. Foi dos meus avós, não sei se logo que chegados de Ponte de Lima, em 1912. Olhando agora para o edifício, constata-se que nada mais há sobre o segundo andar. Mas nem sempre foi assim. Por ali ficava a Torre.

A Torre era o nome dado na familia a um sótão. Sempre houve a ideia de que nele haveria ratos. Nunca vi nenhum mas, à noite, se bem interpretava uns ruídos estranhos que, nas minhas madrugadas de leitura (a partir de certa idade, montavam-me uma cama num escritório, no andar imediatamente abaixo da Torre, rodeado de livros), escutava por cima do teto, parecia haver. Aliás, as frequentes idas dos gatos por lá indiciavam um potencial petisco dessa natureza, que também existiria na Loja, mas não os vou maçar mais com a geografia descritiva da casa da minha avó.

O sótão, como todos os sótãos, estava eternamente cheio de poeira. Não me consta que a “Seconceição”(a senhora Conceição, na versão fonética da minha infância) ou a sua filha Arménia, que oficiavam no serviço da casa, alguma vez tivessem passado pela Torre a espanejar aquela confusão de móveis velhos, de malas sem préstimo, de caixas e caixotes, de exemplares repetidos dos livros do Domingos Tarrozo (uma figura interessantíssima de Ponte de Lima), amigo da família: “O Monopólio da Sciencia Official”, “A Poesia Philosophica” e “A Forma de Votar”, sendo estes os títulos de que ainda me lembro - e que nunca li, claro.

A Torre tinha, para a frente, um janeluco voltado para o largo, na direção da doca. Se ainda existisse, desse envidraçado esconso ter-se-ia, nos dias de hoje, uma vista magnífica sobre o Gil Eanes, o navio-hospital que, à época, acompanhava a frota dos bacalhoeiros para as costas da Terra Nova. A doca era então fechada, tinha muro de pedra e um belo gradeamento e um portão (de correr, se bem me lembro), que eu só atravessava para ir “à natação”, acompanhado do meu pai (e imagino que da minha mãe, preocupada), para a escola benévola ali montada, no Verão, por uns carolas da cidade.

Da Torre tembém se avistava, ao longe, o caminho para o Cabedelo, com vista desfogada, ainda sem o mar de coisas industriais e portuárias que lá foi parar, já há anos. Espreitando, à esquerda, ali estavam (e estão), na sua solidez granítica, arquitetura muito Estado Novo, os escritórios do João Alves Cerqueira. Estendendo o pescoço, à direita, por muito que tentasse, não conseguia ver a capela da Senhora das Candeias, e a gorda a assomar no janeluco ao lado, mas tinha-se um olhar sobre o edifício comprido, que parece que é hoje um bingo, e que, ao tempo, foi uma fabriqueta de cordas para barcos, que se prolongava, no exterior, também para os lados da capitania, com grandes rodas de madeira.

Logo em frente da janela da Torre, impante, lá estava (e lá está - milagre numa cidade onde as estátuas costumam andar de um lado para o outro, como agora e em boa hora aconteceu ao Caramuru) a figura do Mercúrio, com casquete e âncora, encimando a taça com água. Nunca lhe achámos muita graça: viráva-nos as costas...

Não se via muito mais, da Torre? Essa agora! Da Torre via-se o mundo! Eu, pelo menos, vi.

(Dedico este texto aos meus primos Filomena e António, comigo, nos Verões, felizes, frequentadores dessa Torre da nossa infância)