segunda-feira, março 30, 2026

No MNE


Na passada semana, regressei por umas horas à minha casa profissional de origem, o Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

Estive lá na minha qualidade de presidente da direção do Clube de Lisboa / Global Challenges, a moderar, com a presidente do Instituto Diplomático, a embaixadora Ana Paula Zacarias, uma mesa redonda de reflexão sobre uma determinada temática relevante para a política externa portuguesa.

Tratou-se de um interessante exercício, que envolveu quadros diplomáticos de topo naquele Ministério, a que se juntaram testemunhos e propostas de gente experiente e qualificada. Esperamos sinceramente que aquele trabalho conjunto possa ter sido de utilidade. 

Naturalmente que nada do que ali se tratou pode vir a público, porque assentou naquilo que é a estratégia que orienta a política externa de Portugal. Mas julgo importante, e permito-me louvar e destacar, esta abertura do MNE a uma colaboração com uma entidade exterior e independente. Pela nossa parte, asseguro que seremos dignos dessa confiança.

O Clube de Lisboa, uma organização de que fui co-fundador há uma década, sem fins lucrativos e nem a menor agenda doutrinária ou ideológica, que tem como única vocação promover a reflexão sobre as grandes temáticas globais, sente-se honrado em ter podido ser útil ao Estado português. Outras coisas conjuntas faremos no futuro, estou certo.

domingo, março 29, 2026

Sttau Monteiro


Há dias, fui com amigos almoçar a Alcabideche. A expedição tinha um propósito simples e sério: um cozido à portuguesa num restaurante que eles conheciam, o “Aires”. Valeu a pena.

Nesse dia, dei-me conta de algo que ignorava: aquela zona está densamente povoada de restaurantes.

E isso trouxe-me uma memória. A partir do final dos anos 60, Luís Sttau Monteiro escrevia, semanalmente, na “Mosca”, o suplemento de sábado do “Diário de Lisboa”, pequenas crónicas gastronómicas, sob pseudónimo. Falava de restaurantes de Lisboa, mas não só. (Quem tiver curiosidade sobre essa faceta do escritor pode ler "Luís de Sttau Monteiro – Gastrónomo", de Ana Marques Pereira.)

Alguns leitores passaram então a seguir-lhe o rasto. Ao sábado, iam jantar ao restaurante recomendado nessa semana. Com o tempo, sem se conhecerem, foram formando uma discreta comunidade. Pelas oito da noite, ao entrar na casa escolhida, encontravam-se as mesmas caras — um aceno leve, um sorriso cúmplice, como quem partilha um segredo sem o dizer.

Foi através dessas e de outras dicas do género que conheci, ou revisitei, várias casas que então surgiam ou estavam em voga. Eram mesas de cozinha portuguesa, num tempo quase sem “chefs” e longe das estrelas dos pneus, como ironizava José Quitério. A maioria desses restaurantes desapareceu; os poucos que restam mudaram de rosto, de donos e, muitas vezes, de qualidade. Ao contrário do que hoje se possa supor, Lisboa tinha então muito menos restaurantes. Sem grande exagero, atrevo-me a dizer que, fora algumas tascas de bairro, conheci praticamente todos.

Incluindo um, em Alcabideche, que agora me ocorre e que motivou este texto. Esqueci-lhe o nome — se alguém se lembrar, que se acuse — e nunca mais lá voltei. Era uma moradia isolada, alcançada por um descampado. A decoração seguia o rústico previsível da periferia de então. Não recordo se ali comi bem. Também não é essencial: os meus critérios eram outros. Eu próprio era outro.

Hoje, em Alcabideche, entre tantas mesas, há o “Aires”. Às quartas-feiras serve um bom cozido. Fica a nota.

Belém bem!


O presidente da República nomeou Francisco José Viegas para seu consultor cultural. É uma excelente escolha de Seguro.

sábado, março 28, 2026

"A Arte da Guerra"



Esta semana, em "A Arte da Guerra", António Freitas de Sousa e eu falamos da guerra no Golfo, claro, e das eleições na França e na Eslovénia.

Pode ver aqui.

"Deixa-os pousar..."

Olha-se para a conversa que por aí volta a correr em torno do velho "novo aeroporto" e fica a clara sensação de que se pretende perder ainda mais alguns anos. Depois de Santa Engrácia, esta vai ser uma das anedotas nacionais para a História.

Foi assim

 


quinta-feira, março 26, 2026

Dias

Deve haver alguma explicação psicológica para tal, mas eu não a conheço. De há uns tempos para cá, chegado às quintas-feiras, tenho muitas vezes a íntima sensação de que a semana chegou ao fim e de que o sábado já está ali ao virar da meia-noite. Será por nunca me ter verdadeiramente reconciliado com o facto do "Expresso" ter passado a sair à sexta-feira e eu continuar a ligar o jornal às manhãs de sábado? Ainda se a minhas sextas-feiras estivessem cheias de compromissos chatos, poderia perceber-se esta síndroma de uma subliminar relutância em as sofrer. Mas nem sequer é esse o caso: em regra, a minha vida, na véspera do sábado, costuma ser bem serena, por esta altura do ano quase sempre com um concerto ao fim do dia. Comentei isto com um amigo: "Os velhos, como tu e eu, quando não têm problemas inventam-nos", limitou-se a comentar. E podem ser muito crueis, como se vê.

quarta-feira, março 25, 2026

Tariq Ramadan


Menos de um ano tinha passado sobre o 11 de setembro de 2001, dia trágico para o mundo, que eu testemunhara em Nova Iorque, ao tempo que ali era embaixador português junto da ONU. Convidado pelo professor Freitas do Amaral e por Armando Marques Guedes, encontrava-me em Cascais para uma conferência internacional sobre terrorismo.

Uma das figuras proeminentes do encontro era Tariq Ramadan. Por esse tempo, Ramadan era uma sólida vedeta internacional. Com o mundo muçulmano sob pressão após o ataque às Torres Gémeas, ele surgia como a face de um islão moderado, dialogante, distante do radicalismo terrorista que assombrava a época. Filósofo de nacionalidade suíça, com o Islão como especialidade, desenvolvia então uma interessante reflexão sobre a compatibilização dessa religião com a sociedade ocidental e com os modelos democráticos.

Lembro-me da curiosidade com que ouvimos a sua intervenção, num tom intelectual de irrecusável brilhantismo, mas que aqui e ali me pareceu pontuado por alguma ambiguidade. No intervalo, a imprensa portuguesa rodeou-o, num tributo óbvio à sua notoriedade. Troquei com ele escassas e irrelevantes palavras, num qualquer evento social à margem da conferência.

Desde então, fui acompanhando a sua figura pública, constatando que a sua presença como intelectual muçulmano se tornava progressivamente mais polémica, envolvida em controvérsias crescentes. Várias vezes me perguntei se a ambiguidade que julguei detetar no seu discurso, em 2002, não seria já um sintoma do ambiente cada vez mais denso que o envolvia.

Pelo meio, publicou livros, foi professor em Oxford, proferiu uma imensidão de conferências e deu entrevistas televisivas que o mantiveram sob os holofotes - mas também debaixo da controvérsia. E esta acabaria por mudar de natureza. Ramadan veio a ser acusado de graves violências sexuais e teve de prestar contas à justiça.

Agora, após um processo longo - e depois de casos anteriores em que escapara à prisão -, foi severamente condenado, tendo iniciado o cumprimento de uma pena de 18 anos por três crimes de violação. Com apenas 64 anos e sofrendo de uma doença degenerativa, Tariq Ramadan desce aos infernos - seja lá isso o que for no seu Islão.

terça-feira, março 24, 2026

Adhemar


Há dias em que me apetece reproduzir a fotografia de Adhemar de Barros. Quem não souber a razão por que o faço não precisa de se preocupar. 

segunda-feira, março 23, 2026

"Maire" de Paris

 


... e Jospin


A propósito de François Bayrou, escrevi aqui que estavam a desaparecer as figuras da "outra" V República. Nem por acaso, acaba de surgir nas notícias a morte de Lionel Jospin, figura destacada dessa mesma época. 

Em 2003, ao ficar surpreendentemente em terceiro lugar - depois de Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen - na primeira volta das eleições presidenciais, Jospin veio a testemunhar, a uma distância humilhante, uma votação "norte-coreana" em Chirac - o qual, medidas as diferenças, acabou por ser uma espécie de Seguro "avant la lettre". Nessa noite, como logo anunciou, Jospin colocou um ponto final na sua vida política.

Lionel Jospin era das figuras mais respeitadas no seio dos socialistas franceses - e não só. Diplomata na sua origem profissional, tivera no passado uma ligação aos movimentos trotskistas que prolongou, já como militante do PS francês, por um período de tempo politicamente imprudente. Alguns levaram isso à conta de uma deliberada atitude de "entrismo" - a tática trotskista de se manter como "sleeper" dentro de outras organizações. As explicações que posteriormente veio a dar sobre o assunto não convenceram toda a gente.

Jospin era um homem frio, rigoroso, na ideologia um socialista a sério - e isto é um elogio. Estive com ele em algumas reuniões, acompanhando António Guterres, quando ele era primeiro-ministro da "coabitação" em que Chirac estava no Eliseu, depois da inesperada vitória socialista de 1997, resultante da desastrada dissolução da Assembleia que Dominique de Villepin, então SG do Eliseu, inspirou. 

Fiquei ao seu lado num almoço em Matignon, de que recordo sobretudo os excelentes vinhos, já que a nossa conversa foi breve - através da mesa, ele falava com António Guterres e tinha à sua direita Jaime Gama. Não sei como, veio à baila o MES, o Movimento de Esquerda Socialista, a que eu tinha estado ligado e sobre o qual ele tinha alguma curiosidade. A certa altura, Jospin disse-me: "Como saberá, fui trotskista. O MES também tinha trotskistas?" Com o tempo, vim a concluir que a minha resposta foi, sem querer, algo premonitória: "Pode dizer-se que o MES teve, como longínqua referência francesa, o PSU, de Michel Rocard. Mas não me recordo que tivesse trotskistas. Em Portugal, os trotskistas tiveram um caminho próprio. Mas com os trotskistas nunca se sabe, não é? Podem ter "entrado" no MES..."

Recordo ainda as longas noites do encerramento do Tratado de Nice, com Chirac no comando das operações e Lionel Jospin e o MNE Hubert Védrine num papel mais recuado, com muito escassa intervenção nas complicadas negociações, madrugada fora. Chirac e Jospin foram ali a encarnação viva do "gaullo-mitterrandisme", essa doutrina teorizada por Hubert Védrine. 

domingo, março 22, 2026

O adeus de Bayrou


O centrismo francês tem uma história "honorable" mas de escassos e muito fátuos sucessos. Em tempos recentes, François Bayrou foi a cara do centrismo histórico que deu caução política ao apregoado neo-centrismo que o "macronismo" seria. Conseguiu convencer Macron a nomeá-lo primeiro-ministro, mas, chegado ao cargo, demonstrou uma inesperada inabilidade e mesmo algum irrealismo que pareceram dar razão a quem o considerava já um político de "outro tempo". Saiu da chefia do governo sem glória e sem deixar grande memória. Regressado à sua geografia política de origem - era "maire" de Pau - tentou mais uma reeleição, mas os estilhaços de um escândalo muito mediatizado terão corroído sem remissão as suas esperanças. Derrotado, sai agora da cena política num tempo em que a França mergulha num futuro cheio de interrogações. Sem ele.

Nunca esquecerei que François Bayrou foi uma das poucas vozes que esteve ao meu lado, num debate muito tenso no Parlamento Europeu, há 26 anos, quando ali titulei, da bancada da presidência, a posição dos "catorze" países que se opunham à entrada da extrema-direita no governo austríaco. Do outro lado da barricada estava Jean-Marie Le Pen, que zurziu violentamente os meus argumentos, perante a atitude equívoca do presidente da Comissão, Romano Prodi, e o silêncio de todos - repito, todos - os deputados portugueses. Um dia, em Paris, tive oportunidade de agradecer pessoalmente a Bayrou esse seu gesto solidário.

Com o fim político de Bayrou, restam poucas figuras de um outro tempo daquilo a que ainda se chama V República, que hoje cada vez se assemelha ao regime a que sucedeu.

Pois é!


Numa democracia serena, a propaganda em tempos eleitorais faz-se assim. Noutras paragens, é o que se vê...

sábado, março 21, 2026

Ainda não decidi


O procurador especial que, há uns anos, investigou Donald Trump morreu. O presidente americano colocou esta mensagem numa rede social (não, não é "fake news"). Tenho dificuldade em escolher o adjetivo mais adequado para qualificar esta reação.

sexta-feira, março 20, 2026

E um pouco de vergonha?


O PSD é mesmo favorável a que um partido que foi capaz de colocar em frente ao nosso parlamento, no dia da posse do presidente da República, um cartaz que revela bem o seu sentido de Estado possa indicar um candidato para integrar o Tribunal Constitucional?

quarta-feira, março 18, 2026

José Carlos de Vasconcelos


Foi uma bela festa, Zé Carlos! Tantas histórias, tantos poemas (mesmo de outros, porque o Zé Carlos é muito generoso) e palavras boas da Rosário e do Hélder, numa sala cheia de amigos e admiradores do José Carlos de Vasconcelos. 

Leiam o livro! Vale bem a pena.

segunda-feira, março 16, 2026

E se....

Lembram-se das manifestações populares no Irão, que geraram uma repressão sangrenta? Não é de excluir que, depois da agressão israelo-americana, com a deliberada destruição das infraestruturas do país, o reflexo nacionalista possa vir a reforçar o regime dos aiatolás.

No MNE

Na passada semana, regressei por umas horas à minha casa profissional de origem, o Ministério dos Negócios Estrangeiros.  Estive lá na minha...