terça-feira, 9 de maio de 2017

Baptista-Bastos


Morreu Armando Baptista-Bastos, um dos mais geniais cronistas do jornalismo português, uma figura marcante da nossa literatura. BB ou "O Bastos", como era conhecido nos meios da imprensa, transportava para os seus livros uma leveza da construção e uma riqueza vocabular que tornavam imperdíveis os seus textos nos jornais. A idade - tinha 83 anos - nunca afetou a frescura da sua escrita, da qual transparecia muita leitura e uma cultura excecional.

Conheci-o pessoalmente há mais de quatro décadas, quando, nos finais de tarde, nos encontrávamos num café e bar no topo da então livraria Opinião, na rua da Trindade - eu saído do meu emprego na Caixa, ao Calhariz, ele acabado o seu trabalho no "Diário Popular", também por ali perto. Esse era então um espaço aberto de conversa onde eu me imiscuíra, por via de amigos comuns. Por lá paravam jornalistas, escritores e outros que, como eu, eram então meros espetadores atentos da vida intelectual de Lisboa. Com a sua voz bem caraterística, não abandonando a marca pessoal que era o seu laço, Baptista Bastos confirmava, em pessoa, a frontalidade opinativa a que sempre nos viria a habituar no futuro e que muitos, mais tarde, vieram a conhecer nas entrevistas que fazia na SIC, onde tinha a pergunta que ficou clássica: "Onde é que você estava no 25 de abril?". 

Li Baptista-Bastos com regularidade e, à distância, apreciei sempre o seu sentido crítico e a sua postura ética, muito em especial a independência com que sempre preservou as amizades, por cima das ideologias a que se mantinha fiel. 

Há uns anos, com um amigo comum, João Paulo Guerra, tive um divertido almoço com Baptista-Bastos, num restaurante popular de Carnide, Foram umas belas horas de conversa, que guardo para sempre. Vai-se um nome grande do nosso jornalismo, uma figura cimeira da nossa literatura e uma respeitável personalidade cívica.

4 comentários:

Luís Lavoura disse...

apreciei sempre a sua postura ética

Postura ética que, segundo ouvi dizer (espero não me enganar), o levava a habitar numa casa cedida pela Câmara Municipal de Lisboa a troco de dez reis de mel coado. Enquanto que pessoas com menos postura ética têm que pagar a renda por inteiro.

Anónimo disse...

Há que dizê-lo com frontalidade: foi-se.

Laura Ferreira disse...

mais um grande que se vai...

Graça Sampaio disse...

Como lamento!!