segunda-feira, 7 de março de 2016

95 anos


É uma bela idade para um partido, aquela que o PCP ontem comemorou.

Dos partidos existentes, e por data de criação, o PS, que surge em 1973 (52 anos depois!) pode ser considerado o segundo mais antigo. PSD (então PPD) e CDS-PP (então CDS) foram criados já em 1974, depois da Revolução.

Nascido em 1921, por transformação em partido de uma organização de raiz anarquista surgida dois anos antes, no auge do entusiasmo gerado no movimento operário pela Revolução russa, o PCP foi uma estrutura sempre muito débil até ao final da I República. Só o declínio do movimento anarquista, no início dos anos 30, muito atingido pela severa repressão da ditadura militar, que paralelamente exilou o "reviralhismo" e não teve dificuldade em controlar a esquerda intelectual de matriz socializante, permitiu ao PCP vir a ter um papel mais relevante na luta operária que então ainda se conseguia afirmar. Desde o seu início, o Estado Novo iria ser impiedoso para com os comunistas, tal como o fora com os anarquistas, conseguindo mesmo, por algum tempo, quase anular a sua atividade. Só a partir da década de 40 é que o PCP começou a ter maior expressão na luta oposicionista, conseguindo, muito graças aos seus setores intelectuais, estabelecer pontes com o republicanismo tradicional e com as correntes socialistas, se bem que estas fossem muito pouco representativas. Internamente, o partido - cuja fidelidade a Moscovo, sem limites ou reticências, o tornou mimético e acrítico face às mudanças que foram ocorrendo na URSS - sofreu entretanto várias convulsões na sua liderança e mesmo alguns "desvios" no seu percurso. Contudo, desde os anos 40, o PCP nunca abdicou de privilegiar o "frentismo" como forma de ação política, onde sempre procurou fazer prevalecer a sua linha estratégica, que se revelou nem sempre conforme com as dos seus vários aliados. Em especial desde o final dos anos 50, bem cientes da sua força objetiva relativa, os comunistas procuraram assegurar cada vez mais uma liderança firme no seio da oposição, prestigiados como estavam pela sua postura de grande coragem e sacrifício em face da repressão do regime, bem como por uma atitude de forte coerência na luta anti-colonial. Porém, logo de seguida, com o início da década de 60, e como consequência direta do cisma sino-soviético, o PCP ver-se-ia fortemente contestado à sua esquerda, o que lhe criou a necessidade de dar resposta política a uma multifacetada crítica ideológica, que teve especial expressão nos meios académicos. O surgimento de uma forte agitação no movimento católico e o surto de crescimento do movimento sindical trouxeram, entretanto, terrenos novos e férteis à ação do PCP, que, até ao 25 de abril, revelou sempre algum interesse em manter um diálogo crítico com a corrente socialista, apenas com um afastamento acentuado, mas pontual, nas "eleições" de 1969. Porém, de forma incontestável, o PCP iria chegar à Revolução como a força política mais relevante no seio da oposição à ditadura.

Depois, a história é mais conhecida. Parabéns ao PCP, agora reconduzido a uma formação política com responsabilidades de sustentação do poder.

5 comentários:

Reaça disse...

Nossa Senhora de Fátima bem nos livrou dos comunismo, mas não nos salvou da cgtp e dos maquinistas da cp

Manuel Silva disse...

Sr. Reaça:
E a N. S. de Fátima também nos livrou do botas, fazendo cair a cadeira no Forte de S. João do Estoril.
E mais tarde livrando-nos de vez do Estado Novo, um regime velho e relho, sem a mínima hipótese de renovação interna.
Por comparação, veja-se o que os espanhóis fizeram ao Movimiento, devido à acção lúcida de um Rei com olhos no futuro e de um 1.º ministro que, vindo de dentro desse Movimiento, o soube liquidar com determinação dando lugar a uma democracia muito menos maniqueísta do que a nossa, que não conseguiu livrar-se de vez da lógica do PREC e emancipar-se.
Voltando ao Estado Novo, à sua famosa pesada herança, que os reaccionários como o senhor tanto gostam de invocar, o ouro do BdP, é preciso avaliar a totalidade da herança: um país ancilosado, sem infraestruturas viárias e portuárias, sem uma rede de escolas básicas, secundárias, politécnicas e de universidades que cobrisse o território, com uma Ciência sem dimensão internacional, sem cuidados de saúde universais e acessíveis, com taxas de analfabetismo ímpares na Europa.
Enfim, uma desgraça após 48 anos de domínio completo.

Reaça disse...

Obrigado senhor Manuel Silva, pelas preciosas informações que me forneceu.

Afinal era tão fácil fazer tantas infraestruturas de estradas e universidades e doutores que qualquer cavaquismo resolvia, e o meu ídolo de Santa Comba nem cabeça nem dinheiro tinha para fazer campos de de futebóis, miserável!

Era só rezar à senhora de Fátima, por causa dos comunistas.

Anónimo disse...

Na adeia onde nasci, a Senhora (Nossa Senhora) é Vermelha. As vestes são todas vermelhas e o padre (já o anterior era assim) que ali vem dizer Missa é também ele "avermelado". Basta ouvi-lo aos Domingos, sobretudo em época de eleições. Mesmo sem dar indicação de voto, percebeu-se que era contar o governo PAF. Mas, a aldeia e as outras que percorre por ali gostam dele, das suas ideias e preocupações sociais. E viva a Esquerda!

Anónimo disse...

E, principalmente, sem televisão a cores e intarnete, que agora cobrem o território "todinho"... e até nem havia necessidade pois está tudo na praia! Mais à esquerda quem olha para o mapa!