sábado, 7 de janeiro de 2012

A caneta

Entrou com um sorriso tão largo como a cabeça, a voz forte, conversa trapalhona e esforçadamente amigável. Estava a fazer um trabalho, lá para o jornal, precisava de umas estatísticas e de umas datas. Para encher o tempo e impressionar, deixou cair os nomes (próprios, claro) dos seus muitos conhecidos na casa, com ar íntimo. Vinha recomendado "do alto".

O diplomata conhecia-lhe a fama, hesitou, mas não teve outra opção: deixou-o só, no gabinete, enquanto foi buscar os tais dados. Minutos depois, quando regressou, notou que um determinado documento, que tinha sobre a sua mesa, tinha mudado de posição. Tratava-se de uma proposta sobre os possíveis integrantes numa visita oficial ao estrangeiro, a nível elevado, que deveria ter lugar dentro de algumas semanas, mas que o diplomata ainda nem sequer tinha feito seguir "para cima". O homem, grande, enchendo a cadeira de braços, continuava sentado em frente à sua secretária, de bloco e caneta (de ouro?) na mão. Disse mais umas coisas, agradeceu os elementos, despediu-se e saiu, ainda e sempre palavroso. 

Dias depois, sobre o motivo do contacto, o semanário nada trazia. Mas lá vinham, escarrapachados, como "furo", os supostos dados sobre a deslocação oficial. Os quais, na realidade, nem haviam sido ainda analisados, ou sequer lidos, por alguém. Excepto na "notícia" desse jornal, já desaparecido, pilhada do documento interno.

Às vezes, como os dias provam, o crime compensa.

20 comentários:

Anónimo disse...

Cabeça de vaca?

Anónimo disse...

O pastor que choras, o teu rebanho onde esta?
Deita as magoas fora, carneiros e o que mais há

Uns de fino trato, outros vis por desprazer
Mas carneiros todos com sangue de obedecer.

(José Gomes Ferreira)

Um Jeito Manso disse...

Quando alguém desfia, falsamente dispiclente, os nomes próprios dos supostamente influentes; se, ainda por cima, usa caneta de ostensivo dourado; se acumular o despropósito com espalhafatoso e reluzente relógio bem à vista, já sabemos de que material é feito e ao que vem. E, regra geral, são uns maçadores...

Eu, que a grandes diplomacias não me sinto obrigada, educadamente ponho-me a milhas dessas espertalhaças e refulgentes criaturas.

Isabel Seixas disse...

De facto a ética não se vê, ou sequer vislumbra nalguns contextos...
Mas ainda não me convenci que compense.

Anónimo disse...

Não estou a perceber esta postagem

gherkin disse...

Numa longa e profícua carreira jornalística, como a que tive, condeno-o!!!, caro Embaixador e distinto Amigo, por levantar e falar de assunto a ela pertinentes e, como são importantes, desculpe, mas volto a ocupar este seu precioso espaço com um assunto pessoal. Trata-se de um convite "para tomar uma bebida" com o então ministro de defesa, Tom King e atualmente Lorde do mesmo nome. Estava-se nas vésperas de Natal de 1990. Levado para o gabinete do ministro, deparei só com outro colega italiano, o então correspondente do Corriere della Sera, em Londres. Durante as bebidas, servidas pelo próprio ministro, como se estava durante a preparação para a Guerra do Golfo, infalivelmente o assunto tinha de ser abordado. Perguntando a opinião do autor, a resposta foi de que estava plenamente convicto de que não haveria guerra. Inquirindo sobre qual a base da minha convicção, foram mencionados dois motivos principais. Primeiro: o Iraque, um país principalmente equipado com material bélico britânico e treinado por métodos e técnicas britânicas; segundo as possíveis consequências ecológicas resultantes da eventualidade do que viria a ser executado em dezembro de 2006 "por crimes contra a humanidade", Saddam Hussein, mandar lançar fogo aos poços de petróleo. Ouvindo atentamente, Tom King, de olhos bem abertos, respondeu. "Está bem Gilberto. São pontos absolutamente válidos. Mas lembre-se de uma coisa importante: o presidente Bush [pai] está envolvido no assunto até ao último cabelo e ao ponto de não poder recuar" Perante esta afirmação solene, a partir daí mudei completamente de opinião, pelo que a curiosidade estava em saber a data exata do começo do conflito. O que lamentei foi o facto de não ter podido usar, no dia seguinte, tão importante "furo" jornalístico pelo facto de ser altamente "off the record". Mas não seria o único caso nessas circunstâncias. Moral da história: Não me canso de lembrar às novas gerações que não devem arruinar as suas carreiras a partir de um bom “furo”, mas sendo fieis às suas fontes, preservá-las para que, com base na genuína informação e mantendo a sua confidencialidade, o seu trabalho seja apreciado para VIDA INTEIRA! À guisa de informação, especialmente para os leitores mais atentos deste nobre espaço, esclareço que tanto este como muitos outros episódios constam na obra que espero publicar brevemente e intitulada POR TERRAS DE SUA MAJESTADE.

Anónimo disse...

Vi a criatura outro dia. Grande (ou pesado?) e com a tal cabeça de vaca. Está na mesma, só que com ares de mais importante. Almoçava (com uns compinchas) num restaurante a cuja porta, no exterior, se encontra um boeco anafado, parecido com a figura.
Se é quem o Post se refere.
Não reparei se ainda possuía a tal caneta dourada. Preferi concentrar-me no que comia. E lá o vi sair, impante, algum tempo depois. Ficou-me a impressão que o ar, ali, ficou maais leve. Se calhar.

Anónimo disse...

Essa ideia lirica de que os jornalistas são mentores das noticias é mais um lirismo ilariante com o qual pretendem tapar os olhos do povão. Qualquer jornalista que trabalhe na área da politica sabe que os conteudos das noticias são cozinhados pelas agências de informação ou pelos gabinetes de informação dos respectivos politicos. E nenhum jornalista mesmo que ingenuamente consegue fazer publicar uma noticia por mais "furo" que seja se essa noticia não entrar dentro da agenda do editor do respectivo orgão informativo! O que o jornalista consegue arranjar é uma carga de trabalhos e se calhar cava o seu despedimento e o fim precoce da carreira!!!

Este meu comentário é mais para o gherkin que certametne concorda comigo !

OGman

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Monchique: francamente!

gherkin disse...

Caro(a) Ogman, e não “Anônimo“, que pela acentuação se identifica como cidadâ ou cidadão brasileiro. E, como dirige o se comentário a mim, tenho o prazer de saudar e responder. Lamento afirmar NÃO CONCORDAR consigo, ou com você?! E, não concordo por várias razões, principalmente: 1ª A fazer uma afirmação desta natureza, assume-se conhecedor do meio. Se assim é, como deve saber, os critérios e interesses variam pelo que não podemos pôr tudo no mesmo saco, e muito menos de país para país! 2º , MAS MAIS IMPORTANTE, é o facto de que na minha experiência e PRÁTICA, particularmente na Escola que me formou e atuei durante 30 profícuos e extraordinários anos, chamada BBC, onde não se COZIINHOU, nem que saiba, COZINHA, o jornalista, nos seus termos, não confeciona a notícia, MAS É SIMPLES VEÍCULO DELA!. Para isso, cito, a Bíblia do Editor daquela Corporação: No seu meticulosamente preparado "Guia dos Editores" e no capítulo de Imparcialidade, lê-se: "A imparcialidade é o âmago da BBC. Como significa o núcleo e a própria existência da BBC não há programa que esteja isento. Por isso, a todo o editor ou produtor é requerida a maior compreensão, justiça e respeito pela verdade." Como pode compreender, poderia citar-lhe vários exemplos. A fazê-lo, abusaria, o que não é meu hábito!, do espaço que gentilmente me é cedido. Caso queira terei todo o gosto em fazê-lo, o que para isso, ou terá de ler o meu manuscrito POR TERRAS DE SUA MAJESTADE (com cerca de 300 páginas A4), ou facultar-me o seu endereço, postal ou e-mail, para poder fazê-lo! Cumprimentos.

Anónimo disse...

Caro "gherkin",

Deixe-me ensinar-lhe duas coisas sobre isto dos "blogs":

1) Cada um dá aos seus perfis os nomes que muito bem entender. Ter nomes no perfil, assinar comentários, ou nada disto é tudo a mesmíssima coisa. Veja-se o caso do Passos-Bragança que dá o nome dele, dos pais e IP e - aposto -, é um brincalhão... (o mundo também está cheio de perfis chamados "Cristiano Ronaldo", já agora... - com foto e tudo)

Acha mesmo que alguém assinar com "Ogman" ou "Maria Pia" é uma identificação???

(...)

2) "Anônimo" não tem nada a ver com a nacionalidade do "comentador". É uma designação colocada automaticamente pelos programas informáticos envolvidos neste processo e que têm, no caso, a grafia brasileira como norma.

Quanto à essência desta coisa do "diga-me quem é!", parece-me sempre uma coisa do tipo machão, a jeito de "quero saber quem és que é para te arrefinfar uma". Vivamos a vida com mais calma e respeito pelos... anónimos (que são, afinal de contas, a maior parte das pessoas com quem nos cruzamos).

CATINGA

Anónimo disse...

Pois a mim este post dá-me grandes saudades

Gaveta de Belém

Catinga disse...

Ironia das ironias: eu a "falar" sobre a hipótese de podermos assinar em nome de qualquer pessoa e eis que me fazem precisamente isso.

Para a próxima, por favor, seja por razões de vestuário ou cinematográficas, "Catinga" não é para por em maiúsculas: eu não berro (estraga-me o charme)

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro/a Catinga: O facto de ter retirado uma frase do seu comentário (que fazia referência a uma realidade apócrifa), obrigou à "reprodução" do texto.

Monchique disse...

Não sou bruxo nem adivinho, mas a linguagem "cifrada" pode dar origem a erros ou a suposições. Quem será então essa figura, senhor Embaixador?

Anónimo disse...

Caro Gherkin,

Saudo-o e tenho manifestar que senti a sua simpatia pela minha opinião apesar de não concordar com ela. Isso já faz de si um senhor com S grande.

Não sou brasileiro mas português, algarvio e residente em Faro.

Embora o que conheço do jornalismo permite-me afirmar o que afirmei e não questiono a sua experiência na BBC, no entanto , a percepção mesmo daqueles que vivem o dia a dia muitas vezes não chega para ver o filme na globalidade. Você sabe que nas hierarquias, as informações disponibilizadas são completamente diferentes em susbtância e conteudo. Na mesma guerra, a noção do sargento é completamente diferente da do tenente e esta do capitão ! E se for analisar a noção do General então aquilo fica mesmo complicado !!! E a guerra é a mesma !!
No Jornalismo é a mesma coisa !
E agora está na moda falar da maçonaria, também é igual etc !!!

Penso que agora é mais interessante conhecer a minha história do Jornalismo desportivo:

Estavamos no ano oitentas e tais ( +-85/86) e eu estava a fazer um bicate de jornalista no Jornal o JOGO que tinha uma delegação em Lisboa, perto da AV da Liberdade.
Na redação, estava o chefe que tinha vindo do Diario de Noticias, pessoa afavel e espectacular e depois haviam os jornalistas das várias áreas. Eu sabia que o Jornal era controlado pelo FC do Porto mas isso nunca me foi explicitado nem me foi explicado por "A" mais "B" ! Tu é que tinhas que entender o terreno que pisavas!

Eu fazia a parte do Atletismo e ai o Porto éstava a começar e o Benfica não tinha grandes figuras e era o Sporting que reinava. A coisa estava pacifica para o meu lado!

Mas numa celebre tarde de Domingo, o Porto veio jogar ao Sporting, no velho Estádio Jose de Alvalade e levou 2 na boca !!! Quem é que marcou ? O velho Gomes que fora escorassado pelo Pinto da Costa !

Eu estava de roda da máquina de escrever a fazer as minhas crónicas dos resultados, quando a malta chega toda depois do jogo para bater à máquina e encher as noticias. De repente estala a discussão à volta da 1ª ´página. O Jornalista queria meter o titulo: "Gomes arrasa " : Uiiii

Aquilo ia virando o farwest ! Só faltou batatada ! é evidente que o cabeçalho foi o mais simpático possivel para o Porto e o jogo do Gomes foi descrito com letras pequeninas quando tinha feito um jogão, talvez o jogo da vida dele !!!

Mais tarde , da parte da hierarquia do jornal , fazem -me uma abordagem para me introduzirem no ADN(azul) do jornal oficialmente mas eu já tinha decidido que não continuava e assim perdeu-se um jornalista azul para ajudar à festa azul.
HOje , saiu o Oliveira (exjogador) a dizer que o irmão domina o futebol e a sua industria. O seu poder começou nessa altura, quando o jornal dava os primeiros passos !! Lembro-me que foi em Saltilho que ele começou a vender publicidade nos jogos da seleçcão e treinos também, onde a promiscuidade até com os camera man era brutal, para focarem mais aquele angulo, onde estavam os placards do Oliveira!

Enfim deu para tudo !

Ogman

Anónimo disse...

"realidade apócrifa" é um absurdo. É como dizer "mentira verdadeira"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro anónimo das 23.10: é isso mesmo! Como não sabe do que se trata...

paulo freitas disse...

O pormenor da caneta bem pode ser a solução para este enigma no que diz respeito à identidade do sujeito em causa.
Será a caneta, a mesma que em tempos pertenceu ao Dr. Albino dos Reis e que, anos mais tarde, foi furtada no Palácio de Belém ao Dr. Joaquim Brandão, seu neto, e que durante alguns anos desempenhou funções de secretário do Conselho de Estado? Não me espantaria...

Anónimo disse...

Conheci bem os netos de Albino dos Reis (com quem me dava, no à época, Colégio Académico) e ainda me lembro da sua figura, quando, a pedido do neto mais velho, o António, nos deu boleia para a então Assembleia Nacional (!).
Fui igualmente colega de um Joaquim Brandão (que nada tem a ver com esse que o anónimo refere) no então colégio Brotero, no Porto, e que muitos anos depois vim a reencontar no MNE, quando exercia as funções de assessor (jurídico, ao que penso) no Gabinete do Dr. Jaime Gama (um dos MNE que deixou marca, naquela Casa). Este J. Brandão, que reencontrei com gosto, após uns 35 anos de ausência, era, e é, um tipo brilhante.
Enfim, ás vezes há coisas que puxam outras. A memória é uma coisa extraordinária!