quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A sopa

O jantar começou tarde, com muito boa disposição, como é típico dos ambientes africanos. Era uma mesa muito longa, bastante larga, que apenas permitia conversa com os parceiros do lado. À minha esquerda, estava uma senhora bem servida de carnes, uma figura política local. À direita, tinha um franzino alto funcionário, encarregado das questões da dívida pública desse país.

A conversa iniciou-se com este último, que elegi como alvo de curiosidade protocolar sobre a situação económica. Fi-lo, confesso, mais por não ter outro tema de conversa do que por interesse particular sobre os equilíbrios macro-económicos dessa antiga colónia de um poder europeu, situada na África central. Deixei-o explanar as dificuldades, disse duas ou três platitudes e, numa pausa, voltei-me para a volumosa vizinha da esquerda, com quem encetei uma breve troca de impressões.

Na sala, entretanto, as conversas ressoavam altas e bem animadas. Era uma visita oficial portuguesa e o chefe da nossa delegação, frequentemente macambúzio, estava  nessa noite de boa onda. A certa altura, senti um toque no meu braço direito e voltei-me, de novo, para o meu vizinho. O seu fácies pareceu-me estranho, estava agora silencioso e, em segundos, vi a sua cabeça, sempre voltada para mim, descair e entrar, com lenta suavidade ... na sopa! Continuava a olhar-me, de lado, com ar vidrado e parte da cara submersa no "consommé". Não consegui ver se estava pálido, por óbvias razões...

Por um segundo, fiquei sem saber o que fazer. Desmaiado estava, pela certa. Mas teria o homem morrido? Atrapalhado, dei um toque na vizinha da esquerda, na esperança que tivesse uma solução de emergência, mas ela estava numa conversa galhofeira com um qualquer membro da nossa delegação e não se voltou. Fiz gestos de chamada para as pessoas em frente de mim, mas os espíritos continuavam altos e ninguém me ligou nada. Optei por me levantar, o que levou algumas pessoas a olhar-me e, rapidamente, a notar o estado esvaído do meu antigo interlocutor.

Foi então que uma rápida operação logística se desencadeou. Como se estivessem já preparados e sem denotar surpresa, apareceram do fundo da sala dois latagões, que retiraram o corpo do homem. De seguida, criados recolheram com rapidez o prato de sopa e limparam a área. Tudo foi feito com tal despacho que até parecia rotina. Um minuto depois, num gesto de inusitada normalidade, sentou-se ao meu lado uma outra figura local, sorridente, que logo pretendeu retomar conversa social, como se nada se tivesse passado, quase ignorando a minha preocupação com o estado de saúde do  meu ex-vizinho. O resto da mesa, salvo, por instantes, alguns membros da delegação portuguesa que estavam mais próximos, continuou na anterior cavaqueira, "business as usual".

O homem tinha tido um ataque epilético, vim depois a saber. Já era costume, tinha acontecido várias vezes, em ocasiões diversas, ninguém estranhou nada. Só eu é que, nessa noite, perdi por completo o apetite...

6 comentários:

Alcipe disse...

Pretendes insinuar que os responsáveis pelas Finanças Públicas são fungíveis?

Anónimo disse...

Só perdeu o apetite porque é dotado de sensibilidade sensível, do meu ponto de vista, só subiu na minha consideração...

Convenhamos que independentemente do local um ser humano com uma crise epiléptica mesmo de pequeno mal, é suposto causar espontaneamente alguma compaixão/ preocupação...Não?

Pois ainda bem, reforço, que tem espírito de Nightingale, como é possível tanta educação... ou indiferença,ou distância emocional
traduzindo à letra Desfaçatez.
Na minha vida...
Ainda estou Abesbílica com o que nos conta neste post...
Se não fosse o Sr. aquela mesa estava perdida...
Já para não acrescentar que a Sra. do lado não corria risco de ter cálculos no fígado...Há cada Uma...
Isabel Seixas

expressodalinha disse...

Fabuloso...

Helena Sacadura Cabral disse...

Não consegui deixar de dar uma gargalhada com a oportuna sugestão de Alcipe...
Nunca me ocorreria um termo mais adequado - fungível - aplicado às Finanças Públicas!
Quanto à história que nos conta, Senhor Embaixador, ela é bem típica das dificuldades de que, muitas vezes, a carreira diplomática se reveste!

Gil disse...

Senhora Drª. Helena Sacadura Cabral,
Comungo da sua opinião acerca das dificuldades da carreira diplomática mas julgo estarem a milhas das dificuldades de certos responsáveis pelas Finanças de países da África, em especial dos que sofrem de epilepsia.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Gil agora foi a vez de apenas sorrir.Infelizmente é verdade o que diz. Mais verdade ainda para os países de África cujos ministros das finanças públicas as consideram como sendo de uso privado...
Nem preciso citar nomes!