Estou muito curioso em perceber o que se vai passar dentro do "Público", depois da desassombrada tomada de posição do seu novo "provedor do leitor", denunciando o caráter retrógrado da não utilização do "Acordo Ortographico" pelo jornal.
É provável que marquem um ringue de boxe para uma cena entre o provedor e aquele insuportável Nuno qualquer coisa que todas as duas semanas escreve um monte de baboseiras contra o Acordo.
Deve estar de cortar à faca, o ambiente.
O mais giro é que isto se passa num jornal que adota absolutamente todo e qualquer estrangeirismo, que pratica a engenharia da linguagem e que tem gente a escrever e a falar dando pontapés na gramática o tempo todo.
Pois, mas se bem entendo a função, o provedor não tem de se pronunciar sobre as opções editoriais formais do jornal, ainda menos quando isso não foi suscitado por nenhum leitor que se lhe dirigiu. De resto, o próprio provedor indica no seu texto que não tem de meter o bedelho no assunto. Pergunta-se, portanto: o que terá passado pela cabeça de João Garcia? Também não se percebe porque é que incomoda tanto os defensores do AO haver um jornal que não o aplica. Se gostam de afirmar que só mudaram 2% das palavras...
Um velho acordo com mais de três décadas, feito em cima do joelho, que falhou com estrondo o seu objectivo de unificar a ortografia portuguesa. Um falhanço diplomático, sublinhe-se.
Perante tal cenário desolador, seria vanguardista um movimento que se apresentasse para defender uma ortografia que respeite a etimologia e que faça o Português juntar-se a línguas cultas como o Francês (com os seus orthographe, conceptuel et physique) ou o Inglês (orthography, conceptual and physics). Quem é que pronuncia "concétual" sem "p" - a Teresa Guilherme?
Há algo mais provinciano do que uma elite a escrever Inglês com uma ortografia que respeita a etimologia latina e em Português deste modo abastardado?
Ora bem... Deixa lá escrever as letras mudas (e dobradas) do inglês e do francês, que ficam tão bem, mas desdenhar quem quer escrevê-las em português. É isto que temos actualmente.
O problema de marsupilami é que só conhece o francês e o inglês, ou só a elas reconhece o estatuto de "língua cultas". O francês e o inglês são exceções, não são regras. A generalidade das línguas cultas escreve as palavras como elas se lêem e não de acordo com tradições antigas. Veja-se o castelhano, o italiano, o alemão, o russo, etc.
O Inglês tem uma ortografia absurda! Toda a gente o sabe e é assunto corrente de gozo no próprio mundo anglófilo. O facto de que alguém possa sacar do inglês para atacar o AO é, no mínimo, ridículo! Mas, também, quantas vezes é que os ataques ao AO não são ridículos e baseados em falácias?
Já Leite de Vasconcelos dizia que, dada a fonética difícil do português, era impossível escrever-se como se fala. Além disso, basta este pequeno exercício: escrevendo-se como se fala, será vaca ou baca?
Não vejo como seria possível deduzir uma norma unicamente a partir da pronunciação das palavras, uma vez que estas se pronunciam de forma diversa em diferentes regiões.
Pretender escrever as palavras como elas se lêem é um método peculiar ; diria mesmo mais: circular.
Um critério muito útil é seguir tão perto quanto se possa a etimologia, isso dá mais poder de compreensão (incluindo histórica, nada despicienda aliás) aos falantes.
Diatribes contra a norma ortográfica são legião e não se limitam ao Inglês. Roland Barthes e Pierre Bourdieu, vêem-me à memória, não pouparam farpas à norma e ao seu pretenso elitismo. Foi uma corrente popular há muitas décadas, banhada num crasso miserabilismo e na pouca fé que tinham na capacidade cognitiva das classes populares. A tese da escola como o reprodutor das desigualdades sociais. Bourdieu jurou por esta tese numa época em que os dados de tempo longo demonstravam claramente que a escola pública funcionara em França como um poderoso elevador social. Choraram-se muitas lágrimas de crocodilo à custa desta tese. Braudel, o homem do tempo longo, é que não se deixou impressionar e, para quem tenha ouvido, bateu-o aos pontos numa divertida « jam session » no ringue Apostrophes.
E por aqui me fico, para não testar indevidamente a paciência do nosso anfitrião.
13 comentários:
Não será "Accordo"?
É provável que marquem um ringue de boxe para uma cena entre o provedor e aquele insuportável Nuno qualquer coisa que todas as duas semanas escreve um monte de baboseiras contra o Acordo.
Deve estar de cortar à faca, o ambiente.
O mais giro é que isto se passa num jornal que adota absolutamente todo e qualquer estrangeirismo, que pratica a engenharia da linguagem e que tem gente a escrever e a falar dando pontapés na gramática o tempo todo.
O que se « vai passar no Púbico »? Não sei. Eu sei o que vou fazer
Pois, mas se bem entendo a função, o provedor não tem de se pronunciar sobre as opções editoriais formais do jornal, ainda menos quando isso não foi suscitado por nenhum leitor que se lhe dirigiu. De resto, o próprio provedor indica no seu texto que não tem de meter o bedelho no assunto. Pergunta-se, portanto: o que terá passado pela cabeça de João Garcia?
Também não se percebe porque é que incomoda tanto os defensores do AO haver um jornal que não o aplica. Se gostam de afirmar que só mudaram 2% das palavras...
Ortographico, não. Orthographico.
Retrógrado? Tudo depende do prisma de leitura.
Um velho acordo com mais de três décadas, feito em cima do joelho, que falhou com estrondo o seu objectivo de unificar a ortografia portuguesa. Um falhanço diplomático, sublinhe-se.
Perante tal cenário desolador, seria vanguardista um movimento que se apresentasse para defender uma ortografia que respeite a etimologia e que faça o Português juntar-se a línguas cultas como o Francês (com os seus orthographe, conceptuel et physique) ou o Inglês (orthography, conceptual and physics). Quem é que pronuncia "concétual" sem "p" - a Teresa Guilherme?
Há algo mais provinciano do que uma elite a escrever Inglês com uma ortografia que respeita a etimologia latina e em Português deste modo abastardado?
Ora bem... Deixa lá escrever as letras mudas (e dobradas) do inglês e do francês, que ficam tão bem, mas desdenhar quem quer escrevê-las em português. É isto que temos actualmente.
"Conceptual" lê-se com P, logo, escreve-se com P
O problema de marsupilami é que só conhece o francês e o inglês, ou só a elas reconhece o estatuto de "língua cultas".
O francês e o inglês são exceções, não são regras. A generalidade das línguas cultas escreve as palavras como elas se lêem e não de acordo com tradições antigas. Veja-se o castelhano, o italiano, o alemão, o russo, etc.
O Inglês tem uma ortografia absurda! Toda a gente o sabe e é assunto corrente de gozo no próprio mundo anglófilo. O facto de que alguém possa sacar do inglês para atacar o AO é, no mínimo, ridículo! Mas, também, quantas vezes é que os ataques ao AO não são ridículos e baseados em falácias?
Uma ortografia absurda, mas que se impôs mundialmente. E esta hem? Andamos nós a querer "simplificar", cortando tudo e mais alguma coisa.
Já Leite de Vasconcelos dizia que, dada a fonética difícil do português, era impossível escrever-se como se fala. Além disso, basta este pequeno exercício: escrevendo-se como se fala, será vaca ou baca?
Luís,
Não vejo como seria possível deduzir uma norma unicamente a partir da pronunciação das palavras, uma vez que estas se pronunciam de forma diversa em diferentes regiões.
Pretender escrever as palavras como elas se lêem é um método peculiar ; diria mesmo mais: circular.
Um critério muito útil é seguir tão perto quanto se possa a etimologia, isso dá mais poder de compreensão (incluindo histórica, nada despicienda aliás) aos falantes.
Diatribes contra a norma ortográfica são legião e não se limitam ao Inglês. Roland Barthes e Pierre Bourdieu, vêem-me à memória, não pouparam farpas à norma e ao seu pretenso elitismo. Foi uma corrente popular há muitas décadas, banhada num crasso miserabilismo e na pouca fé que tinham na capacidade cognitiva das classes populares. A tese da escola como o reprodutor das desigualdades sociais. Bourdieu jurou por esta tese numa época em que os dados de tempo longo demonstravam claramente que a escola pública funcionara em França como um poderoso elevador social. Choraram-se muitas lágrimas de crocodilo à custa desta tese. Braudel, o homem do tempo longo, é que não se deixou impressionar e, para quem tenha ouvido, bateu-o aos pontos numa divertida « jam session » no ringue Apostrophes.
E por aqui me fico, para não testar indevidamente a paciência do nosso anfitrião.
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