quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Mais iguais do que os outros

Ontem, na conversa com a Alta Comissária da UE para a Acção Externa e Política de Segurança, quando se falava de determinadas realidades europeias, dei comigo a lembrar uma história a que assisti num Conselho de Ministros, em Bruxelas, há mais de 15 anos.
 
O tema em agenda era, uma vez mais, o conflito israelo-palestino. O recém nomeado Alto Comissário, Javier Solana, um cargo que na altura era vulgarmente referido como o "senhor PESC", estava ainda a "desenhar" o seu lugar. Da parte dos vários governos, a acreditar no que os ministros dos Negócios Estrangeiros diziam à volta da mesa, parecia haver um grande interesse em dar uma oportunidade ao seu trabalho de representante da vontade comum da Europa, conferindo-lhe o papel de "voz" da UE junto de Estados terceiros. Nesse dia, Solana recebeu o mandato para ir a Jerusalem e a Ramallah levar uma qualquer mensagem e tentar obter da parte de Israel e da Autoridade Palestina uma posição sobre uma determinada proposta europeia. O "senhor PESC" faria a viagem dentro de alguns dias e reportaria posteriormente ao Conselho.
 
Dois dias depois, o "Financial Times" relatava, com o pormenor que o "Foreign Office" lhe quis revelar, que o MNE britânico, Robin Cook, fora a Israel e à Palestina. Do que o jornal contava, percebia-se que falara exatamente dos temas que Solana iria abordar... três dias depois.
 
Cerca de um ano mais tarde, à margem de uma reunião nos Açores, em conversa descontraída com Robin Cook, perguntei-lhe porque fizera aquilo, por que razão "estragara" essa "operação Solana". A resposta foi curiosa: "A nossa ideia não era necessariamente enfraquecê-lo. Mas o Reino Unido, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, tem responsabilidades que vão muito para além da nossa pertença à União Europeia. E não prescindiremos nunca delas. A questão em causa era demasiado importante para que a voz da Europa ouvida pelos nossos interlocutores, naquele momento particular, fosse apenas a do Solana".
 
Guardei sempre isto na cabeça e tive oportunidade de testar, como embaixador junto das Nações Unidas, que essa era uma linha de orientação muito firme. Quer Londres quer Paris recusavam-se a coordenar com os restantes parceiros da UE, mesmo com aqueles que eram membros europeus não permanentes, as posições que iriam assumir no Conselho.
 
Na Europa, há uns que são mais do que outros. O tropismo de afirmação de alguns países é impeditivo que a Europa venha alguma vez a ter uma forte expressão comum na área externa, a menos que ela seja a "média aritmética" das posições dos Estados que a dominam - "a voz do dono". Por isso, quando ouço falar na "igualdade dos Estados", que está escrita na letra dos tratados europeus, sinto vontade de rir. Mas não consigo. Não é decente rir de coisas tristes.

13 comentários:

Zuricher disse...

Interessante relato este que nos traz e que vai muito de encontro a algo que sempre me pareceu obvio e um dos motivos (mas longe de ser o único) pelos quais nunca acreditei na União Europeia. Não por convicção oca ou de forma infundada mas por vários motivos, um deles a impossibilidade de os países falarem a uma só voz.

Era utópico (felizmente já se perderam as utopias) pensar-se que os países iriam abdicar dos seus posicionamentos internacionais, das suas áreas de influencia, das suas alianças com terceiros países e dos seus interesses geopolíticos próprios em prol dum interesse Europeu, seja lá isso o que for. Houve ao longo dos anos vários exemplos disso e este relato é mais um.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador deve ter vivido muitas situações idênticas na sua vida diplomática. Eu sou apenas muito curioso, agora que tenho muito tempo livre, de ver como evoluíram certas crenças que alimentei durante anos. Constatei que uma grande parte não eram mais que utopias planetárias da sociedade universal que eu sonhei justa e equitativa.
As nações não abdicam facilmente da sua história. Custa-lhes abandonar o seu "rank". E quando esgravatamos bem encontramos sempre nas manobras políticas internacionais os interesses "superiores" ditados por forças obscuras que têm um nome : o poder económico. E não há forças de mudança que valham !
Aliás, o RU so está na UE que para manter a sua influência nos sectores da economia que lhe interessam: A City vale bem um lugar no Conselho de Segurança da ONU, e um lugar em Bruxelas, para o momento. Faz-me pensar em Henry IV e a sua famosa frase : "Paris vaut bien une messe", o que para um protestante era obra.
Mas a fome, a pobreza, a exclusão, a miséria são apercebidas como fenómenos dos quais se tem de aceitar a inevitabilidade, sem procurar compreender as causas da sua persistência.
O discurso dos grandes decisores , o discurso dominante, embala o mundo com conceitos ocos, a maior parte do tempo pensados na língua do dólar : o desenvolvimento necessariamente "durável" (sustainable) , a transparência "necessária", não existe boa política (perdão, de "governança"sem "redevabilidade" (accountability). Mas nenhum destes conceitos nos fala de repartição das rendas ou de justiça social.
O cúmulo da confusão é quando as proezas cientificas e técnicas nos são explicadas pela supremacia do capitalismo sobre todo outro sistema : Os Americanos foram à lua porque eram capitalistas . Mas ninguém faz a correlação entre capitalismo neo liberal e guerras ou invasões de países soberanos e as razias das riquezas do sub solo desses países. Sem falar dos genocídios, do terrorismo, das práticas mafiosas generalizadas.
Foi pena que o Senhor Embaixador não tivesse falado à Senhora Alta Comissária da UE do escândalo da HSBC, o banco do ópio, do branqueamento do dinheiro sujo da droga, da prostituição e da manipulação dos diferenciais cambiais e da taxa do LIBOR.
E sobretudo dos 180,6 mil milhões de euros de evasão fiscal via Genebra.

Anónimo disse...

Não é preciso estar na diplomacia para confirmar a situação que expôs....

Anónimo disse...

Post lido com todo o interesse.
a)Rilvas

Anónimo disse...

Tal e qual como no direito internacional, este só vale enquanto não for necessário aplicar a "força" para o fazer cumprir contra "grandes" faltosos porque estes é que a têm. Até lá todos são iguais perante a lei e os pequenos que se cuidem. É por isso que a França e a Alemanha, como já sucedeu, podem falhar metas e Portugal não pode. Chama-se a isso realismo, por mais queixas e indignação que a situação provoque.
João Vieira

Anónimo disse...

E pronto, que a paranoia do Freitas com os americanos não aparecesse. Lembremos que o texto era sobre o RU e a UE. Afinal, tem a ver com os americanos...

Joaquim de Freitas disse...

Caro Senhor Joao Vieira

Parece-me que se deixamos aos únicos "que têm a força" o direito de interpretar o direito internacional, os fracos nunca terão razão. A História está cheia de "razões do mais forte", que foram autênticos crimes contra a humanidade.

Assim quando escreve: "....direito internacional, este só vale enquanto não for necessário aplicar a "força" para o fazer cumprir contra "grandes" faltosos porque estes é que a têm ",
eu acho que antes de mais, seria necessário saber quem decide quem é o" grande faltoso", porque quem tem "a força" já sabemos quem é: em princípio sempre o mesmo!

Permita um exemplo: Foi muito questão, estes últimos tempos, do direito internacional, avançado pelos Ocidentais, em relação com a crise ucraniana e o regresso da Crimeia à Federação Russa.
O Ocidente evocou desde o início da crise, o "direito internacional". Ora o Ocidente é o primeiro a transgredir, em toda circunstância, o direito internacional quando este não está em fase com as suas políticas e a sua estratégia ou quando os seus interesses estão em jogo.

A Alemanha dirigida por Ângela Merkel é o país que pôs todo o seu peso na balança para fazer admitir o inadmissível : a separação do Kosovo da Sérvia. O Kosovo, uma fabricação do Ocidente, constitui, além duma ingerência grosseira das partes estrangeiras num problema interno dum Estado soberano, o tipo de precedente que ultrajou o direito internacional a quem, hoje, o Ocidente se refere, porque lhe convém.

Melhor ainda: Quando o vice-presidente americano Joe Biden, induziu o regresso da Crimeia à Rússia a uma "confiscação de território".

Não ouvimos estes últimos anos, responsáveis americanos, pôr no índex as confiscações dos territórios palestinos (Cisjordânia e Jerusalém-Est ocupados) por Israel e a acção do Estado hebreu para tornar impossível toda tentativa de encontrar uma solução justa ao contencioso palestino-israeliano.

Ainda mais, a acção dos EUA neste assunto, foi contra o direito internacional, singularmente ao pôr "off side"a ONU, com a utilização abusiva e inconsiderada do direito de veto da parte de Washington no Conselho de Segurança.

Ora o dossier palestino foi aberto na ONU no fim da segunda guerra mundial.

Portanto, Senhor João Vieira, como vê, o direito internacional tem as costas largas, alegado de maneira inapropriada por um Ocidente que traz todos os conflitos e crises no mundo à relação de forças.

Cunha Ribeiro disse...

Muito se fica a saber com o Embaixador Seixas da Costa!
Obrigado por trazer à superfície da nossas ignorância o que só transita nos túneis da Europa..

Anónimo disse...

os exemplos do sr. Joaquim de Freitas, passando de lado se correspondem realmente aos factos o que para o caso não tem interesse, provam o que eu, e toda a gente, sabe: o direito internacional só existe quando está de acordo com os fortes que tem o poder, indispensável para o cumprimento de malquer regra, de a fazer impor. Conhecer essa verdade cristalina e actuar em conformidade, em política, chama-se realismo. O contrário chama-se lunatismo e normalmente conduz à frase: mas em que raio de mundo pensa ele que vive? E tudo isto independentemente de os pequenos terem de lutar com toda a força pelo direito internacional, pelas decisões multilaterais, pela igualdade das nações (e não do tamanho das suas populações etc etc)
João Vieira

Antonio Cristovao disse...

Um assunto que raramente vejo abordado pelos democratas, e representatividade de no Conselho a voz de 10 milhoes de cidadãos (nascidos em...)valerem tanto como 80 milhoes (nascidos em...)
É certo que é só um faz de conta, mas um faz de conta que permitiu aos nossos amigos gregos fazerem chantagem ao se oporem a entrada de Portugal e Espanha, contornado com mais dinheiro.

Anónimo disse...

Oh Vieira,
Então você acha que nos devemos vergar aos fortes e aceitar que as Leis internacionais se devem reger por essa regra, de que os mais pequennos devem aceitar a lei dos mais fortes? O Sr. J.Freitas tem TODA a razão naquilo que diz. Israel, esse Estado com uma política externa imperialista e hedionda, que não aceita decisões da ONU, pode fazer o que quer e um pequeno Estado europeu não pode, porque lhe faltam os apoios de grandes potências?
Você oh Vieira é um caso perdido, homem!
Victor Rodrigues

Anónimo disse...

Afirma Augusto Santos Silva que enquanto Mogherini falava à imprensa num inglês italianizado desenvolto Machete, ao lado, lia, lúgubre, um papel que os seus jovens assessores lhe haviam preparado. Continuamos a querer ser cauda da Europa, não ser modernos, mal preparados e pouco credíveis? Parece que sim e se calhar não temos mesmo conserto...

Anónimo disse...

Rodrigues, pá
Aprende a ler e a interpretar textos, só depois, pá, se comenta
João Vieira