terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Elegia

já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja


Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'

3 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Se me permite parafrasear Luís Fernando Veríssimo, deixe que lhe pergunte: 'poesia numa hora destas', Embaixador...?!

Anónimo disse...

Foi apenas o meu melhor professor na Faculdade. A irreverência vem depois de uma sólida cultura clássica. Obra quase incompleta.

Luís Lavoura disse...

Isto parece um manual budista.
O budismo é que defende a teoria da não-alma (anatman), ou seja, nós não temos alma porque somos impermanentes e sempre em modificação. Não existe um "eu", apenas um estado de consciência em permanente modificação e portanto impermanente.