domingo, 22 de agosto de 2010

Voleibol

Era uma Embaixada pequena, idêntica a muitas que Portugal tem pelo mundo. Para além do "staff" administrativo, nela só havia o embaixador e um jovem diplomata, o chamado secretário de Embaixada.

Naqueles tempos, a agenda diplomática portuguesa era bastante limitada, com a Europa comunitária ainda distante e a defesa da política colonial já na história. Assim, e não havendo uma comunidade portuguesa relevante, o trabalho da Embaixada resumia-se ao acompanhamento das então escassas questões económicas e culturais, para além do reportar rotineiro a Lisboa da vida política do país, em especial nas suas relações externas com algumas áreas ou países que nos fossem mais relevantes.

Nestas circunstâncias, para o secretário de Embaixada, com o sangue-na-guelra dos primeiros anos de profissão, desejoso de aprender algo, qualquer trabalho que aparecesse acabava por ser bem-vindo, por forma a cortar a monotonia dos dias. 

Já o mesmo se não podia dizer do embaixador, que, à medida que o trabalho rareava, parecia apostado em fazer cada vez menos. Aparentemente, mostrava-se mesmo deliciado com a ausência de quaisquer tarefas.

Um dia, chegou de Lisboa uma instrução para se praticar uma "diligência" (as chamadas "démarches" diplomáticas) junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros local, inquirindo da posição do país perante uma situação internacional qualquer. Foi aí que o secretário teve uma surpresa: viu o seu  embaixador, com um empenhamento que até então desconhecia, pedir uma audiência urgente ao chefe de departamento relevante, com um caráter expedito que parecia exceder em muito a importância objetiva do assunto.

Mas o espanto não se ficou por aí. Nem um dia era passado e o embaixador já estava dependurado ao telefone com o seu interlocutor diplomático local, insistindo por uma resposta breve. Obtida a mesma, num final de tarde, seguiu de imediato para Lisboa um telegrama detalhado, encerrando o assunto.

O nosso jovem estava siderado. Da placidez imobilista habitual, que tanto o irritava, o seu chefe passara a uma agitação quase frenética, numa matéria que talvez o não justificasse. Esta alteração de atitude intrigou-o. Com jeito, dias depois, numa conversa com o embaixador, deixou "cair": "Desculpe dizer isto, senhor embaixador, mas acha que o assunto merecia um tratamento tão urgente? Da comunicação de Lisboa, não se deduzia nenhuma pressa..."

Foi então que o jovem secretário recebeu uma magistral "lição" diplomática: "Meu caro. A vida numa Embaixada é como num jogo de voleibol: o grande risco é você ter a bola no seu lado do terreno. Assim, logo que você a recebe de Lisboa, passa-a de imediato ao parceiro (neste caso, o Ministério de cá) e não descansa enquanto não a remete para o outro lado da rede. Com a bola desse lado, você não perde pontos e pode ficar descansado...".

Pensando bem, não deixava de ter alguma razão!

11 comentários:

Margarida disse...

...esse constante 'jovem diplomata' começa a lembrar-me alguém...

Francisco Seixas da Costa disse...

Olhe que não, Margarida, olhe que não! São figuras diversas, histórias ouvidas, embora com perceções pessoais, naturalmente.

Anónimo disse...

"O grande risco é você ter a bola no seu lado do terreno"
Magistral "lição"(...)
(FSC: 2010)
Isabel Seixas

Anónimo disse...

A conclusão não é totalmente verdadeira. Se a bola for arremessada com demasiada violência para além da rede (isto é, se a sua resposta à Secretaria de Estado for muito forte), pode perder o "ponto".

CSC

patricio branco disse...

Ou, noutra perspectiva menos barroca (que a do embaixador) e por outras palavras: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.

José Martins disse...

Claro que as boas e más lembranças se conservam na memória.
.
Apontar o dedo é feio e para bom entendedor meia dica basta.
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Água benta e extrema-unção cada qual grama a que melhor lhe parecer.

Anónimo disse...

É uma lição para a vida em geral. O pior é quando o "árbitro" do "jogo" não é imparcial.

António Mascarenhas

João Antelmo disse...

O atraso na resposta pode provocar uma insistência e, assim, lembrar que o diplomata em questão existe.
Em postos de repouso, como parece ser o da estória, isso não é muito conveniente.

Santiago Macias disse...

Tinha seguramente mais que alguma razão. A minha experiência como vereador nos últimos anos confirma isso plenamente: quanto mais depressa passarmos os assuntos menos eles nos pesam.
A imagem do voleibol é perfeita. Até porque passar a bola por cima da rede é muito melhor que chutar a bola para qualquer lado. Coisa que, a vários níveis, vejo fazer com demasiada frequência.

patricio branco disse...

afinal o sr embaixador tambem gostava de trabalhar e de despachar rapidamente as tarefas que lhe davam. Isso não quer dizer que não apreciasse a tranquilidade, e as 2 coisas não são incompativeis.
um pouco estranha, porem, a pergunta do subordinado (ou mesmo um insolente, irónica): porque se preocupou em dar uma resposta tão rapidamente?
Bem, quando se tem a bola, em futebol ou voleibol, o melhor é não passar a bola ao adversário, impedi-lo de a apanhar. há ago de enganoso na explicação do embaixador, possivelmente o que queria dizer era que devemos passar rapidamente a batata quente.

manelserra disse...

Essa história é optima ! Também já a ouvi algures...