sexta-feira, 20 de julho de 2012

José Hermano Saraiva

José Hermano Saraiva, que acaba de desaparecer, foi um improvável ministro da Educação do último governo de Oliveira Salazar. Simples professor liceal, terá sido a sua fidelidade ao Estado Novo, aliada a uma inteligência viva e uma inegável capacidade de ação, que lhe assegurou a ascenção política. Ainda estou a ver a fotografia da tomada de posse, em Belém, ao lado de Américo Tomás, de fraque e calças de fantasia, em Agosto de 1968, na qual, recordo, surge também uma outra personalidade que há dias faleceu, embora num relativo silêncio mediático, Justino Mendes de Almeida.

Dias depois, Salazar cairia da cadeira de lona e, semanas mais tarde, os equilíbrios do regime fizeram com que Marcello Caetano confirmasse José Hermano Saraiva no cargo.

Não foi nada fácil a tarefa do ministro. Como ponto "alto" das questões que teve de gerir, recorde-se a "crise de Coimbra", em 1969. Quem viveu esse período lembra-se bem dele, ao lado do presidente Tomás, na inauguração do edifício das Matemáticas, em Coimbra, nesse tenso e verdadeiramente único momento em que Alberto Martins teve a coragem de pedir a palavra, em nome da academia, naquele que viria a ser o início de um dos maiores protestos de contestação universitária vividos em Portugal.

A agitação universitária propagou-se a Lisboa. No ISCSPU, José Hermano Saraiva decidiu não "homologar" a lista eleita da Associação académica, de cuja direção eu fazia parte (ver aqui um relato do nosso encontro com o ministro). Ficou claro que Marcello utilizou então Hermano Saraiva para afastar, do ISCSPU, o seu rival político Adriano Moreira, personalidade com a qual, à época, as lideranças académicas decidiram, taticamente, solidarizar-se. Isso veio a redundar numa invasão do Instituto pela "polícia de choque", chefiada pelo capitão Maltez, e pela dissolução dos órgãos legítimos da Associação, que passou a ser dirigida por uma complacente "comissão administrativa".

Com o tempo, Marcello Caetano substituiu Saraiva por Veiga Simão. No que me toca, devo dizer que a mudança não ajudou muito, porque não tive o ensejo de apreciar, em excesso, as credenciais, ditas liberais, do novo ministro: em 1972, como presidente eleito da Assembleia geral dos estudantes do ISCSPU, voltei a ver a minha escolha não "homologada" pelo novo ministro. Mas isso deve ser sina pessoal...

Usufruindo da oportunidade dada pela Democracia, José Hermano Saraiva viria a fazer escola como divulgador televisivo, e não só, da História pátria, confirmando a perceção de que a historiografia permanece como um dos poucos domínios culturais onde o pensamento conservador preserva uma certa notoriedade pública. A sua capacidade de "contador de História" era inegável e, embora muitos achem que isso foi muitas vezes feito em detrimento de algum rigor científico, a verdade é que ele terá contribuído para despertar o interesse pela História de Portugal - e esse será um importante serviço que o país, sem a menor dúvida, lhe ficou a dever.

Em tempo - Não notei, como devia ter feito, que José Hermano Saraiva foi embaixador "político" em Brasília, nos tempos que antecederam o 25 de abril.

22 comentários:

Anónimo disse...

...eu diria que era um 'contador de estórias'.
RIP.

Carlos Fonseca disse...

1969. Que ano!

Em Julho desse ano estava reunido com alguns camaradas do concelho de Sintra, a tentar lançar a candidatura da CDE numa das freguesias do concelho, quando um deles sugeriu que fossemos até ao anfiteatro ao ar livre de Agronomia, onde nessa noite se realizaria uma sessão de Canto Livre.

E lá fomos, em dois pequenos carros. Eu, e mais seis, num Fiat 850; os outros - não me recordo quantos - num mini.

Foi nessa noite que ouvi (e conheci) pela primeira vez Francisco Fanhais - então ainda "padre, no Barreiro, lá!", como ele se apresentou -, e José Fanha.

O grande chamariz era o Adriano (foi ele, salvo erro, que teve o bom senso de conseguir evitar que as centenas de jovens (e menos jovens) saíssem dali para irmos até lá abaixo à Junqueira expressar o nosso apoio e solidariedade aos estudantes do ISCSPU, em greve, e dizia-se, acossados pela PIDE).

Foi uma noite inesquecível, e ainda hoje me pergunto o que teria acontecido se tivéssemos levado avante a ideia inicial.

Que tempos esses, e como eram generosos os nossos vinte e tal anos.

patricio branco disse...

jhs foi ainda o ultimo embaixador do antigo regime em brasilia e ali teve esperanças de ainda continuar depois do 25a. mas não, foi retirado. quem conta algo disto é marcello mathias no seu diario.
jhs era irmão de antonio josé saraiva, o professor universitário proibido de ensinar na universidade de lisboa por salazar e que se foi para paris onde continuou a carreira.
jhs e ajs eram opostos ideologica e politicamente mas isso não os impediu de estarem bem unidos fraternalmente e cultivarem uma admiração intelectual mutua e recíproca.
pena jhs não ter escrito e publicado as suas memórias, muito teria a dizer por ter atravessado e vivido periodos emblematicos e tipicos da nossa historia do sec 20.
a outra parte da sua vida foi a sua dedicaçãp à divulgação da historia e cultura portuguesas, na televisão e em escritos.

Anónimo disse...

thomaz ou tomas?
themudo ou temudo?
costa ou kosta?

bem haja

Joaquim Pinto disse...

Sr. Emb. Francisco Seixas da Costa.
Gostei da sua postagem feita ao nosso querido amigo José Hermano Saraiva.
É um facto a considerar que é pena os grandes e ilustres homens nos terem que deixar.
Partem com uma grade missão cumprida, em desenvolvimento de uma vasta cultura, que nos deixa pena.

Com amizade Joaquim pinto

Anónimo disse...

Sou iscspiana da década de 90, mas esta história era por nós bem conhecida sobre a rivalidade do JHS com o Professor Adriano, o que demonstra as personalidades vincadas de ambos.

ARD disse...

Era um pantomineiro que transformava a história em histrionismo. Politicamente, era uma caricatura de Herman José a caricaturar José Hermano Saraiva e era um impenitente fascista.
Também eu tive a honra de fazer parte de uma direcção de uma Associação de Estudantes não homologada por ele (Fac. de Direito). Algum tempo depois, cometeu o impensável , introduzindindo os chamados "gorilas" nas instalações universitáriias.
Os habituais louvaminheiros de serviço nas TV discutem se será recordado como historiador ou como comunicador; eu lembra-li-ei como o tipo que me obrigou a ir para a guerra colonial.

ARD disse...

Era um pantomineiro que transformava a história em histrionismo. Politicamente, era uma caricatura de Herman José a caricaturar José Hermano Saraiva e era um impenitente fascista.
Também eu tive a honra de fazer parte de uma direcção de uma Associação de Estudantes não homologada por ele (Fac. de Direito). Algum tempo depois, cometeu o impensável , introduzindindo os chamados "gorilas" nas instalações universitáriias.
Os habituais louvaminheiros de serviço nas TV discutem se será recordado como historiador ou como comunicador; eu lembra-li-ei como o tipo que me obrigou a ir para a guerra colonial.

Anónimo disse...

Foi uma das figuras sinistras do fascismo a quem o 25 de Abril não exigiu que prestasse contas.
V

patricio branco disse...

pegando no comentario de ard, jhs nunca foi de facto incluido na categoria dos historiadores pelos proprios profissionais da classe.
o mesmo para a sua vida de l. de camões tambem não foi bem aceitada pelos biografos literários.
Quanto ao seu periodo como ministro da educação, foi sem duvida um tempo de forte repressão.

domingos disse...

Curioso como uma mesma realidade, JHS, pode ter interpretações tão díspares. Porque, de facto, as as opiniões nunca passam de interpretações.

Catinga disse...

Cresci vendo o JHS, divertindo-me com a sua voz e os seus gestos, aprendendo História e histórias ("estórias" é mania de estrangeirados, três vezes "IRRA"), e percebendo-lhe o amor (mais do que simples gosto), por Portugal, suas gentes e tradições.

Entre programas de TV, livros e entrevistas, algumas coisas sempre me agradaram sobremaneira: a facilidade de expressão, a clareza do pensamento, a forma certeira como avaliava o mundo e os homens (exceção ao muito lirismo com que via a nossa Expansão e sua herança).

No momento da sua morte, vejo a internet ser invadida por comentários que invariavelmente se prendem com questões de política, as mais das vezes odiosos, feitos num tom panfletário (até a morte vi desejada ao Prof. Adriano Moreira - porque, também ele, um "fascista").

E tenho pena disto - tenho mesmo muita pena -, porque demonstra que a porcaria da política é como um ácido que destroi as possibilidades de alguém ser apreciado pelos seus contornos profissional, cultural ou humano, deixando apenas uma coisa informe a que se possa chamar "facho" ou "comuna".

E tal como aquando da morte do Saramago, também agora a justa homenagem a um grande de nós é suja pela m***a da política (os asteriscos são meus).

Quero lá saber dos despedimentos no DN feitos pelo Saramago! Quero lá saber da carga policial ordenada pelo JHS! Sou ateu e não acredito em santos. Todos nós temos manchas no caráter, todos nós temos as mãos sujas de qualquer coisa. TODOS!

O meu pai era apoiante do Salazar. Com fotografia na parede e tudo. E era tão bom e tão honesto que nem as puras e puristas comissões de saneamento pós-25A o conseguiram demitir! Sorte a dele que, tendo-se distinguido, nunca se tornou, no entanto, figura pública porque, senão, de homem bom teria passado a simples "facho".

Trinta e tal anos a tentar fazer os Portugueses amarem o seu país (coisa que a muito democrata faz azia), a levar a História a casa das pessoas um pouco por todo o mundo e, quando morre, o que vão buscar? Coisas do tempo da outra senhora...

Raios partam a política!!!

Isabel Seixas disse...

Respeitava com admiração o estilo e a arte de contar a história toda como se a tivesse vivenciado em tempo e presença num qualquer serão...

Suscitava-me uma inveja enorme e o desejo peregrino de o ter transformado em duende que me surgisse nas vésperas dos testes de história e me descansasse, olha não precisas estudar(História, bem entendido...) que eu faço-te o ponto.

Há saberes que conduzem Uns ao estado de alma da elevação transcendental e Outros apenas ao sacrificio...

Paz á Sua Alma

Anónimo disse...

Como escreveu um dos comentadores, era um 'contador de estórias' e um grandessíssimo fascista, acrescento eu.

Anónimo disse...

Bravo, meu caro ARD, assim é que é falar, chamando os bois pelos nomes! A morte não canoniza os mortos e há que não apagar a história. Mantenhamo-nos lúcidos para que os mais novos o sejam.
'Merda! Sou lúcido' - com a benção de Álvaro de Campos até podemos dizer alguns dos palavrões que nos ocorrem.
(Por favor, carísimo FSC, aquele momento em Coimbra foi 'tenso', concordo, mas não o 'verdadeiramente único momento em que Alberto Martins teve a coragem de pedir a palavra'...).
fg

Anónimo disse...

Este post tem muito ar a contragosto...Uma espécie de tem que ser...
Mas, já agora, alguém com autoridade, poderá informar quem foi que salvou os judeus, o Arestides ou Salazar?
Isto está a ficar muito baralhado com tantas "licenciadas" opiniões.

Anónimo disse...

Magnífico texto!

Pelo que nele fica escrito, mas sobretudo pelo que lá se não encontra. É um burilado exercício de equilíbrio e de prudência, que honra quem o escreve e a memória do "de cuius".

Anónimo disse...

ninguem é lucido

somos todos prisioneiros dos nossos sonhos


bem haja

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 16.45: está enganado! Este post não foi escrito a "contragosto". Escrevi exatamente o que penso de José Hermano Saraiva e do papel que ele desempenhou neste país.

Anónimo disse...

O pormenor de não haver datas no título do texto (ao contrário do que é aqui habitual) talvez seja uma homenagem ao homem. Tal como a História, há personagens que não têm princípio nem fim: existem e pronto!

EGR disse...

Senhor Embaixador: José Hermano Saraiva terá sido, enquanto divulgador da história todos os meritos que lhe atribuem.Não os discuto.Mas para mim a grande memória que dele me fica é a imagem de Coimbra ocupada por tanques,polica a cavalo carros da policia de choque e todo o aparato policial montado por ocasião da académica.
Fica-me também a memória da fidelidade que manteve sempre ao pensamento e a acção de Salazar,a quem ainda há poucos anos se referia como o "Senhor Presidente do Conselho"não pronunciando nunca, que eu saiba,uma leve palavra de condenação da ditadura.
Pode ser defeito meu,mas tenho uma verdadeira incapacidade para apreciações parcelares das pessoas.
Sobretudo quando numa das partes se inserem comportamentos atentatorios dos mais elementares direitos das pessoas.
Não me foi possível fazer este comentário mais cedo mas há coros laudatórios que não suporto.

Anónimo disse...

O capitão Maltez era madeirense com familiares no início de faculdade em 1969, o que nos possibilitou saber com alguma antecedência algumas das "visitas" da polícia de choque e de alguns "gorilas" à CU. Faziamos chegar a informação aos dirigentes associativos e deixávamos a descoberto colegas - que por serem de famílias muito "certinhas" - reclamavam forte e feio quando lhes chegava "injustamente" o incómodo físico e psicológico de se verem maltratadas pelos senhores polícias ou ex-tropas especiais. Resultou bem algumas vezes. Do professor, a meu ver, ficaremos sempre a dever a sua capacidade de envolver os portugueses na História de Portugal, pela capacidade extraordinária de expressar e de comunicar os seus (dele) sentimentos pela sua amada e única Pátria. Goste-se ou não era por vezes comovente vê-lo na TV. Ou será que me comove ainda mais a ideia de que era irmão do OUTRO Saraiva?