segunda-feira, 30 de julho de 2012

Dormir na Régua

"T'ás maluco? Vais dormir à Régua? 'Ninguém' dorme na Régua!". Foi esta a reação quase insomníca, de ontem à tarde, assumida por um vila-realense empedernido, quando lhe anunciei que, por uns dias, ia ficar num hotel da Régua, para acompanhar uma missão da UNESCO que vai avaliar da compatibilidade da construção de uma barragem na foz do Tua com o estatuto de "património mundial" do Alto Douro Vinhateiro.

Por natureza identitária, um vila-realense que se preze não gosta da Régua, melhor, "ignora" a Régua, da mesma forma que se "irrita" com essa "irrelevância" regional que é Chaves. Para um cidadão de Vila Real, a sua cidade é um fenómeno isolado, porque entende que Trás-os-Montes (e o Alto Douro) apenas pode, e deve, ser representado pela sua ímpar urbe. E isto não se discute, por mais modesto que um vila-realense possa e queira ser. Há Vila Real e, depois, só há, para lá do Marão, o Porto. E é tudo! É claro que, um pouco mais "lá para cima", há, mas já bem depois, uma "coisa" a que se chama Bragança (e, de caminho, Mirandela e Macedo, além de umas adjacências onde "não se vai", a não ser a caminho de Espanha). Mas tudo isso já é muito "diferente".

A Régua esteve situada a 29 km de Vila Real (hoje já é bem menos), pela "estrada velha", que passava por Santa Marta e cujas curvas nos causavam enjoos infantis. Em alternativa, fazia-se quase uma hora de viagem, pela velha linha férrea do Corgo, para ir aí apanhar, até aos anos 60 (quando a camionagem do Cabanelas nos passou a fazer enjoar pelo Marão), o comboio para o Porto. Mais tarde, a Régua ficou um pouco mais próxima, quando se ia pela encosta contrária, por Nogueira. Mas vamos ser justos: por que diabo um vila-realense ia à Régua? Para nada, a menos que fosse para passar para Viseu, ou para ir a à Senhora dos Remédios a Lamego, num assomo de romaria. Ou, como experiência etnológica, se decidisse passar por lá para comprar rebuçados, às mulheres aventaladas à porta da estação e fotografar a mais pequena barbearia do mundo (que deixo a imagem, ontem registada). Às vezes, em fins de semana invernosos, também se passava pela Régua para "ver" as cheias, quando o Douro, antes das barragens (já estou a fazer política "unescal", como notaram), alagava a marginal.

Nós, em Vila Real, o que é que conhecíamos da Régua? Praticamente, só as "pequenas". Por um excedente de produção de qualidade que nunca ninguém soube explicar, a Régua enviava para Vila Real, para estudar, algumas das mais bonitas garotas que o liceu Camilo Castelo Branco alguma vez teve (e que olhos, senhores!). Os irmãos ou os primos desse "pequename", assumindo uma espécie de "template" automobilístico, vinham sempre à "Bila" de NSU, que traziam aos ralis, às gincanas ou apenas, como dizíamos, para "armar aos cágados", à porta da Gomes, em dias de circuito, a aquecer ruidosamente os escapes. Por essas e por outras é que eu, durante anos, quase que me convenci que, na Régua, não era "gente" quem não andasse de NSU, como se por aí estivesse estabelecido o principal consumo mundial dessas viaturas. "For the record", convém dizer que essas simpáticas colegas vinham cuidadosamente "policiadas" por uma austera (mas muito competente) professora de matemática reguense, a Dona Raquel. Ah! e por falar em policiamento, é também muito importante recordar aqui os "polícias da Régua", tidos como dos mais rigorosos da região, sempre de farta bigodaça e pança proeminente, os quais, dizia-se, eram ferozes a derimir questiúnculas pesadas na zona do Peso (a Régua chamava-se, ou chama-se ainda, nunca percebi bem onde o debate toponímico ficou, Peso da Régua), onde, dizia-se, os ciganos imperavam. "É pior que um polícia da Régua!" era uma frase que, por décadas, se ouvia em Vila Real, para designar alguém com mau feitio. E da Régua chegava, pela voz melodiosa de Carlos Ruela, a "Rádio Alto Douro", para despeito vila-realense, onde imperava um deserto radiofónico.

Muito mais tarde, fomos "descobrindo" que a Régua também tinha, além do vinho do Porto (ninguém, nessa altura, bebia vinho do Porto, confessemos!, salvo no Natal, casamentos e batizados), o Douro e a sua beleza natural, a qual, lamento ter de dizê-lo, nunca contribuiu muito para melhorar a imagem da (agora) cidade, que é um eterno objeto arquitetónico sem grande interesse, com pontes e viadutos a mais. Da Régua vamos ouvindo ainda, SIClicamente, nas televisões, os protestos às 13 ou às 20 horas (horas oficiais dos protestos, no Portugal contemporâneo) dos produtores de vinho da região, sempre cuidadosamente filmados em frente ao "estadonovense" edifício da Casa do Douro, com lavradores querendo mais "benefício" (o conceito demoraria algum tempo a explicar aqui) e, claro, apoios do Estado.

Mas, atenção!, na Régua, ou perto dela, comeu-se quase sempre bastante bem (e este bloguista não é indiferente ao tema, como é sabido). Mais recentemente, ia-se ao "Douro In", agora vai-se ao "Castas e Pratos" (fui lá ontem e foi um jantar soberbo!), sito nos velhos armazéns da estação ferroviária. Mais longe, lá para a Folgosa, o Rui Paula continua a dar cartas no "DOC" (depois de as ter dado no "Cepa Torta", em Alijó, e mesmo mantendo o "DOP", junto à Bolsa do Porto). Para uma experiência um pouco mais "radical", porque terá de se defrontar inevitavelmente com o mau feitio do dono da casa, e sempre avisando com antecedência, vá-se pelo cabrito à "Repentina", já fora de portas. E, para melhor discutir a barragem que por aqui nos traz, poder-se-ia acabar a tarde no "Calça Curta", bem junto à velha estação do Tua.

Eu sou um vila-realense atípico: sempre achei alguma graça à Régua. E hoje vou cá dormir, pensando (sem nostalgias, garanto!) no que será feito das belas reguenses do meu tempo. Boa noite!

22 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador,
que Deus ilumine o seu caminho, porque mesmo em Régua haverá muitas linhas tortas!

Isabel Seixas disse...

Pois claro, a irritabilidade é a maior expressão da impotência face á autenticidade...

Dormir(também) em Chaves ajuda, reduz substancialmente a dor de cotovelo de quem não é de Chaves(não se pode Ser nem Ter tudo na vida),sendo que a aura do SPA do imperador e a inalação dos seus vapores favorece uma respiração pura e o relaxamento subsequente...

Helena Oneto disse...

Excelente!!! Desejo-lhe uma boa noite!

Helena Sacadura Cabral disse...

Belo texto que me lembrou várias vezes o nosso Eça.
O pequename da época é o mulherame de hoje, talvez mais redondo, mas com o mesmo brilho no olhar.
E já sem a D. Raquel, as filhas e as netas, bem menos policiadas, não ficam a dever nada às avós. Pelo contrário, continuam a ser umas belas moçoilas, confirmando que "quem sai aos seus não degenera"!

Anónimo disse...

insomníca - ??? insomníaca

vilarealense - vilaRRealense

DA QUAL deixo a imagem

Anónimo disse...

Não acho que a Régua tenha pontes a mais. E tiveram toda a razão quando se indignaram com a construção do “viaduto” da A24 (aquilo não é uma ponte, porque atualmente o pré-esforço “esconde” a beleza das estruturas):
Não lhes bastava ouvirem os de Vila Real dizerem que bebiam a água do Corgo depois de usada, agora dizem que vivem “debaixo da ponte”.
As pontes mais antigas são bem bonitas e requeriam outra arte para a nova travessia. Assim como o estadonovense edifício da Casa do Douro requeria uma utilização bem mais adequada à sua grandeza arquitetónica, em vez do desbaratamento que, infelizmente, utilizadores e intervenientes, têm imposto.

zamotanaiv disse...

Em miúdo, num passeio nocturno de bicicleta com o meu primo, na Régua, fomos abordados por dois GNR e por não termos matricula nem licensa já se preparavam para nos apreender as nossas queridas bicicletas! Já com as bicicletas no jipe, tive que dizer que era de uma quinta ali ao pé. O guarda ainda me perguntou se era da parte dos caseiros, respondi que era dos patrões, e só assim reavemos as bicicletas. Mandaram-nos ir a pé de volta para a quinta. Claro que fomos até ao próximo cruzamento.

Guilherme Sanches disse...

Não sei porquê, ao olhar para este post, não sei com que olhos o leio, mas soa-me a qualquer coisa muito familiar.
Ainda que muito distante, ainda que nunca tivesse sequer falado com ela, juro.
Mas lembro-me perfeitamente da cor dos olhos.
Um abraço

Isabel Seixas disse...

Mas de facto a Régua merece esse tributo e essa análise imparcial.
Claro que partilho e subscrevo a opinião de HSC.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, muito bem escreve as suas memórias, agora imagine essa história escrita pelo Dr. Vasco Pulido Valente:
"A ignorante e presumida Vila Real não podia aceitar que outras pobres vilórias do distrito, como a inenarrável Régua ou a obscura Chaves, aspirassem a um pingo que fosse da glória que a embevecida capital transmontana imaginava pertencer-lhe por direito divino. Todas essas terreolas, governadas por intratáveis biltres, merecem o desprezo dos poucos cidadãos de juízo que restam neste país."

a) Feliciano da Mata, plagiador autêntico

Anónimo disse...

Que me perdoe a Drª Helena Sacadura Cabral, que pelo facto de eu ter lido o seu texto umas horas depois da Drª Helena, quando reagi ao pitoresco da sua descrição tenho de a repetir: belo texto!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ah! meu caro Feliciano da Mata quem me dera ter o seu pendor literário.
É que subscreveria, na integra, este seu/dele VPV, bocado de prosa.

Isabel Seixas disse...

Caro sr. Feliciano da Mata
"pra já" o Sr. há-de cá vir...


a)Flaviense baralhada

Isabel Seixas disse...

Agora ...
Obscura?!!!...
Só se for na veiga.

Porque do Forte de S.Neutel ao S. Francisco e Muralha, a top model Romana e o SPA que o valha, obscura só a noite de quem cair cair sobre Ela...

SDias disse...

Exmo. Sr. Embaixador,

Acompanho a sua escrita no "duas ou três coisas" e não são muitos os blogues que sigo assiduamente, por isso, significa isto que o seu e a sua escrita dizem-me mais, muito mais.

Nesta última passagem por aqui pude ler no post "Dormir na Régua" esta expressão:

"Mais recentemente, ia-se ao "Douro In", agora vai-se ao "Castas e Pratos"..."

Fiz uma pausa aqui e reflecti por breves segundos se deveria ou não emergir do anonimato, está visto qual foi o resultado. Aqui estou eu, Sandra Dias, nascida e criada no Douro, recentemente e orgulhosamente regressada às origens durienses para abraçar o projecto "Douro In". E estou aqui para partilhar consigo que só não posso concordar com o tempo verbal conjugado porque ao Douro In ainda se vai, não se deixou de ir. É certo que já distam 8 anos desde a sua abertura mas é imensamente gratificante constatar todos os dias que o Douro In não passou de moda, que não foi um fenómeno cometa, o Douro In é e será por mim e comigo mais uma estrela que brilha incessantemente sob o ceú da Régua.

Quanto ao conteúdo restante do post condizente com a excelência a que habituou os seus leitores.

Obrigada por partilhar as suas palavras.

Sandra Dias

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Sandra Dias: o que eu quis dizer é que, depois do Douro In ter sido novidade, o Castas e Pratos surgiu no firmamento reguense nessa qualidade. Embora me digam que, no dia imediatamente posterior à minha última visita, terá "perdido" alguma energia...

Anónimo disse...

"Da Régua vamos ouvindo ainda, SIClicamente, nas televisões, os protestos às 13 ou às 20 horas (horas oficiais dos protestos, no Portugal contemporâneo) dos produtores de vinho da região, sempre cuidadosamente filmados em frente ao "estadonovense" edifício da Casa do Douro, com lavradores querendo mais "benefício" (o conceito demoraria algum tempo a explicar aqui) e, claro, apoios do Estado."

Sr. Embaixador, sou daqueles vilarealenses-reguenses-flavienses que muito o admira. Porque também sou sabrosense, e tenho como meus todos os outros enses e similares que me definem como Trasmontano sempre me custou perceber estes sectarismos palermas que partem sobretudo da sociedade dita "fecha a roda", que mora dentro da cidade de Vila Real. Portanto, em relação a estes assuntos penso que estamos de acordo. O que me faz escrever tem a ver com a citação que acima fiz do seu texto onde, e aí estamos em desacordo, o Sr. Embaixador denota uma grande insensibilidade para com os problemas dos nossos agricultores. Retrata-os como seres andrajosos que se arrastam periodicamente para um "show-off" sem qualquer sentido que não seja espremer o desgraçado do Estado para ver se solta mais umas "lecas". Pressupõe-se do seu texto que, entre atuações, o povo se deita a dormir. Pois muito havia de facto a explicar aqui, juntamente com o termo "benefício" de que fala. Lembremos-nos apenas de que os verdadeiros "beneficiados" do Douro não são aqueles que desfilam regularmente em frente à casa do Douro, cuja motivação se aproxima cada vez mais da desgraça e da fome, mas os que pouco trabalham e de costas direitas sempre viveram à sua custa.
Para terminar vou escrever o que julgo que é óbvio: a capital do Douro, se é que a há, é, moralmente e de facto, a Régua. Vila Real e Douro é como água e azeite. Podia não ser mas Vila Real nunca soube tomar a sua posição na região porque não a compreende. E a afirmação do Sr. Embaixador como vilarealense acerca dos nossos agricultores é a prova disso.
Abraço amigo.

Anónimo disse...

Virando na esquina da Gómes à direita, logo a seguir à esquerda e depois outra vez à direita rumo à Rua Central dois NSU's passavam uma e outra vez fazendo ouvir os seus audíveis motores traseiros. À porta do Arnaldo barbeiro, peculiar tertúlia pouco divulgada, um da "bila" pergunta a outro: - olha lá, se estes dois tipos passassem assim pela China o que achas que eles por lá diriam?
E o outro responde (há quem ainda saiba o onome destes personagens - todos, inclusivé os dos NSU's)
- Oh! é fácil, diziam assim: estes dois filhos da mãe devem ser da Régua...

Francisco Seixas da Costa disse...

Magnífico! Dei uma solitária gargalhada aqui em Paris. Gandabila!

Anónimo disse...

Sr.Embaixador que tem Vila Real mais bonito que a Régua?O enorme rio corgo?O Dolce Vita?Os enormes predios sem nenhuma beldade arquitectónica?Fiquei um bocado confuso com o seu texto mas quem sou eu para contrariar a sua opinião,mas de uma coisa tenho a certeza na Régua sempre se comeu melhor que em Vila Real,mas não é só o Douro In ou Castas e Pratos de uma volta a pé porque a cidade não e assim tão grande e certamente encontrará grandes restaurantes com comida de deixar agua na boca a qualquer pessoa no mundo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 11.34: a ironia e a boa disposição são a lógica deste blogue. Tente perceber isso!

-JÚLIA MOURA LOPES- disse...

Era mesmo assim! ;-)


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Gostei de o ler,apenas fiquei com pena que tenha aderido ao novo acordo ortográfico...