segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Caetano Veloso



Caetano Veloso é um compositor e um cantor excepcional. Há dois anos, em S. Paulo, apenas com uma viola e a sua voz, vi-o encher um palco e conquistar o público de uma forma que muito raramente acontece. Foi um dos melhores espectáculos a que já assisti.

Por uma razão que nunca descortinei, Caetano Veloso dá-se ares de intelectual e muita gente vai nisso, mesmo entre nós. É talvez a emulação com Chico Buarque que o leva a aventurar-se pelos caminhos do pensamento, onde tropeça em algumas notas, com uma presunção que se alimenta de ideias arrevezadas, de frases para parangona, de um "name-dropping" para provar não se sabe bem o quê. Nestes caminhos, hoje como no passado, assume com regularidade uma lusofobia que sabe tocar de perto o sentimento de uma certa intelectualidade.

Há dias, lá esteve na Casa Fernando Pessoa. Falou de Lula, para dizer esta pérola: "à luz tropical do sebastianismo de Pessoa via Agostinho, Lula surge a meus olhos como uma figura de grandeza histórica e épica. Uma grandeza do tipo épico em versos líricos que se encontra em ‘Mensagem’ [ao dizer isto, quase começa a rir-se, refere o Público]. Sinto ternura, simpatia, amor pelas figuras que pareçam carregar a tocha dessa caminhada em que me descobri implicado desde menino”.

Sobre as razões que levam o seu país a apreciar um presidente que “nem sequer concorde os artigos com os substantivos que usa, se elegendo e tendo 80 por cento de aprovação”, Caetano adianta tratar-se de um sinal “dessa originalidade brasileira” que vem do facto de “sermos portugueses, de termos sido colonizados dessa maneira que agradou ao Gilberto Freyre”. Mas que não agrada a Caetano, que talvez tivesse preferido os holandeses. Pois é, mas foram os portugueses, desculpa, ó Caetano!

E agora, se me permitem, vou começar a noite a ouvir o magnífico cantor que é Caetano Veloso.

Em tempo: Inês Pedrosa, em comentário, afirma que as citações reportadas pela imprensa foram decontextualizadas e que o texto completo confirmará isso. Concedo que possa ser assim, mas já ouvi, no passado, Caetano Veloso fazer considerações lusofóbicas. Mas fico a aguardar mais dados.

20 comentários:

expressodalinha disse...

Sábias palavras. Adoro CV, mas concordo inteiramente com o que escreve. Com sua autorização, vou recomendar este post à leitura dos meus amigos brasileiros.

Helena Sacadura Cabral disse...

Avé, como eu gostaria de ter escrito este seu post.
Bravo pela coragem de dizer o que pensa do homem, sem deixar de enaltecer as qualidades do artista.
Há muito que penso o mesmo e até já o escrevi e disse em televisão.
Mas vindo de si, Senhor Embaixador, o que penso até tem mais valor!

Fernando Pinto disse...

Boa tarde!

Convido o Sr. Embaixador a visitar o meu blogue

ARTIGOS DO JORNAL JOÃO SEMANA
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com

(basta clicar no link a azul para poder ler alguns "posts" sobre Clara d'Ovar)

Recorda-se deste seu pedido feito em Março deste ano? "Surpreendentemente, encontro poucos dados informativos sobre Clara d'Ovar. Será que alguém pode contribuir para uma sua biografia?"

O jornal "João Semana" está a caminho do Centenário (vai fazer 96 anos) e em 2002 fez uma homenagem a esta ilustre ovarense. Espero que goste do que vai ler. Pode comentar se quiser.
Obrigado pela atenção!

Abraço do jornalista Fernando Manuel Oliveira Pinto

Fernando Pinto disse...

Quanto ao seu "post", apetecia-me dizer duas ou três coisas a certos artistas, mas vou ficar calado. O silêncio, esse sim, é o melhor dos sons...

Abraço

Alcipe disse...

O Caetano diz tudo e n'importe quoi, mas não tem propriamente um pensamento (é genial, apenas). Quem tem um pensamento estruturado anti-português é o Chico (bebeu no pai Sérgio Buarque de Hollanda), que é rigoroso e consistente. Mas eles estão no se pleníssimo direito de não gostarem de Portugal! Um país que se ofende com a parvinha da Mauitê Proença é um país que sente abaixo de zero! E o Brasil fundamentalmente gosta de nós. Só a geração do Sérgio Buarque, do Raymundo Faoro e do Vianna Moog é que inventou a "desgraça da colonização ibérica" e o Chico seguiu a lição. Mas nas novas gerações já ninguém liga a essas teorias serôdias...

Anónimo disse...

Obviamente que algumas incongruências de linguagem, oriundas de uma cultura linguística rica na diversidade,Usadas como arma de arremesso para depreciar quem fica mal...

Mas também gosto tanto do Caetano Veloso, do Seu talento inato e adquirido, que as suas vulnerabilidades permitem conotar mais a sua humanidade com os simples mortais e distanciar o endeusamento que a sua interpretação Musical, claro, sugere...
Isabel Seixas

Conceição Duarte disse...

Maravilhoso seu texto.
Caetano, eu me atreveria a dizer que não é um intelectual, me perdoe, o senhor é mais culto que eu certamente. E Chico, depois da ditadura, também não compôs mais músicas tão pungentes, interessantes.

Assim como o Lula, era oposição e hoje é esculhambação, os meninos aí citados, também mudaram bastante. É mais fácil ficar no ataque.

De qualquer modo, de um tempo a esta data, muita gente por aqui, descobre que tanto um quanto o outro, não são INTELCTUAIS. Digamos que pelo meio em que viveram, podem eles, terem aprendido algumas coisas a mais que nós, o povo, - pois, não aprendemos com tanta facilidade e nem tampouco vivemos no meio em que eles puderam viver para formar uma opinião... Enfim, o senhor tem toda razão. Concordo com o que escreveu.
Um grande beijo, vim aqui pelo JP.
Boa semana,
CON

Muitas músicas do Caetano, gosto de ouvir e cantarolo por aí, assim como as de Chico. E viva a música!

Eduardo P.L disse...

Não sei se a comparação com o Chico Buarque é pertinente! Como intelectual ainda prefiro o Caetano, que não tem medo de pensar, ousar, errar e criar! Quanto a preferir os Holandeses, aos nossos ancestrais Portugueses, ele não esta só, porém nada se pode fazer sobre esse assunto! Quanto às críticas ao Lula, ele esta cheio de razão! Popularidade às custas de "bolsas"...não é tão dificil assim!

sara disse...

bom meus caros compatriotas brasileiros notem a brilhante colonização holandesa da indonesia só terminada nos anos quarenta... nem lingua deixaram o 'basa' foi criada depois de sairem. aliás quem falasse 'holandes' podia só levar com a pena de morte.

Julia Macias-Valet disse...

Incrivel ! O que se descobre neste blogue...
Conheci, pessoalmente, ha muitos anos Caetano Veloso (o artista) mas desconhecia este lado "perturbado" do homem.

Anónimo disse...

O Brasil, feliz ou infelizmente, não nos dá assim tanta importância como alguns querem fazer parecer. Servimos para as piadinhas e pouco mais..por isso não nos vamos sentir ofendidos nem dar importância a algo que não a tem....

Anónimo disse...

Caetano Veloso nunca disse que não gostava de Portugal, pelo contrário. É pena que toda esta conversa surja de excertos de excertos maliciosamente descontextualizados, que desvirtuam em absoluto a sua notável conferência - que em breve será publicada. Caro Luís Filipe, Caetano tem um pensamento muito mais lúcido, consistente, corajoso e organizado do que muitos que passam por filósofos, e tu devias saber isso.

Inês Pedrosa

Gil disse...

A nostalgia de alguns brasileiros por Maurício de Nassau e o desgosto por ter sido Portugal e não a Holanda a colonizar o Brasil, faz-me sempre pensar que, tivesse a aventura mauriciana tido êxito e o Brasil seria hoje, não o "imenso Portugal" de que fala Chico Buarque mas sim um imenso Suriname.

Alexandre disse...

Esta polêmica deve vir do verbo 'caetanear"- dizer o que não disse, sem dizê-lo, dizendo; ou não!? Uma verdadeira randomização filosófica, como satirizava um antigo programa de humor da TV Globo, "Chico City", escrito por ChicoEditar Alexandre disse... Anísio, no quadro "Novos Caetanos"- falava-se, falava-se e ao final não se entendia nada, gerando por vezes grandes polêmicas e/ou confusões.
Alexandre Ayres

Mar de Bem disse...

Minha gente, Caetano é artista e como artista que é, interroga-se e nunca tem certezas. Ele perora como quem se balanceia à procura da melodia certa...e nunca encontra respostas ou certezas. E nunca vai encontrar, porque se isso acontecer ele deixa de ser sublime, ele deixa de ter aquele condão de "leãozinho se espreguiçando"... Não queiram que ele seja aquilo que não é. Deixem-no falar... Incomoda-vos?

NÃO LEVEM AS COISAS TÃO A SÉRIO!!!

(...e também não me levem a sério, já que sou artista, co'a graça de Deus...)

Nuno Matos disse...

Não sei, senhor Embaixador, se Caetano Veloso gosta ou não de Portugal, mas gosta (e muito) da Língua Portuguesa. Dedicou-lhe, aliás, um belo tema.
A atitude face à Holanda e a Portugal sempre dividiu os brasileiros, como tinha dividido os portugueses do Brasil, desde o próprio momento da ocupação.

Nuno Matos

Anónimo disse...

Caríssimo Francisco,

Acompanho de perto, desde há muitos anos, o percurso de Caetano Veloso e nunca lhe ouvi qualquer declaração lusófoba - já ouvi várias várias vezes essa acusação sobre ele, mas quando pergunto: «que declaração? Exactamente o quê?», ninguém me sabe explicar, o que não deixa de ser curioso. Se o Francisco também ouviu, como afirma, agradeço que me diga quando e o quê.

Caetano nunca disse que preferia que o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses - quem já disse isso, como lembra o Luís Filipe (Alcipe), no seu blogue, foi o Chico Buarque. Mas esse fala menos, expõe-se menos, gere minuciosamente o seu impacto nas multidões - Caetano não: diz o que pensa, expondo-se, de uma forma aberta e autêntica. Por isso eu gosto tanto dele - porque ser assim é mais difícil do que ser genial, como ele também é. Ou seja: ser genial e continuar lucidamente humano não é para todos.

Leu «Verdade Tropical»? Nas 500 páginas desse ensaio autobiográfico sobre o tropicalismo encontra-se uma potente declaração de amor de Caetano, não só a Fernando Pessoa, e em particular a «Mensagem», mas também a Portugal e à Língua Portuguesa. Foi por isso que tive a ideia de o convidar a vir falar sobre a influência de «Mensagem» no tropicalismo. O autor da canção «Língua» ( «Gosto de roçar a minha língua/ na língua de Luís de Camões») , um lusófobo? O Caetano que inúmeras vezes inclui fados - que se dá ao trabalho, certamente imenso, de cantar ´com sotaque português - nos seus espectáculos, um lusófobo?

Infelizmente, os jornais não reproduziram uma linha da conferência ( porque era complexa, certamente). As citações referidas por si - e já truncadas na origem, ou seja, no jornal de onde as retira - referem-se ao debate posterior à conferência, mais exactamente à resposta de Caetano a uma pergunta sobre o Presidente Lula - por causa de afirmações anteriores de Caetano sobre o Presidente - que Caetano "temperou" com um "clin d'oeil" ( como se diz aí na França dos intelectuais autoproclamados verdadeiros...) a um outro perguntador que, no fim da conferência, inquirira: «Então e Gilberto Freyre?». Caetano disse que a visão de Gilberto Freyre fazia sentido, porque a colonização portuguesa fora diferente da inglesa ou da espanhola, permitindo a miscigenação, apesar de todos os pesares.

Sobre Lula, o que Caetano fez foi esclarecer qua quando se referiu, no Brasil e num contexto específico, ao seu discurso «analfabeto» (por comparação com o de outra candidata), pretendia dizer que essa simplicidade na fala levara as pessoas, o povo, a aproximar-se dele, o que resultou num novo alento para o país e lhe facilitou as reformas.

(ver 2ª parte)

Anónimo disse...

(2ª parte)

Enfim.

Caetano viu o seu comentário e ficou chocado - foi aliás ele quem me enviou o link, eu costumo acompanhar o seu blogue mas ainda não tinha visto isto. Escrevi o comentário que refere no próprio blogue impetuosamente - porque sou de pavio curto, como costuma dizer-me o Caetano. Não consegui pôr o meu nome à cabeça, porque não sou «blogger», mas ainda bem que detectou logo esse comentário - inédito em mim. Desde que, há anos, descobri que tinha uma zanga com alguém por causa de frases que um biltre qualquer escrevia em meu nome numa caixa de comentários, decidi nunca mais escrever na blogoesfera, e anunciei-o, para evitar pulhices dessas. Mas não resisti a dizer qualquer coisa logo, porque além do choque que me causaram as suas palavras, encontrei nos comentários outras que me chocaram igualmente, do meu querido amigo Luís Filipe Castro Mendes ( sob o seu nome de Alcipe) que tanto ama e conhece o Brasil.

O Caetano Veloso não é o Miguel Sanchez Neto de quem o Francisco tanto e tão valorosamente me defendeu - nem a tonta da Maité Proença, à qual o Francisco, se bem me lembro, chegou a dar abrigo na sua casa, no tempo em que era embaixador no Brasil - e um excelente embaixador, num país onde a excelência não se cultiva muito (estou a falar de Portugal, e espero que não vá agora chamar-me lusófoba...).
Um lusófobo, caro Francisco, não se disporia a vir a Portugal só para elogiar Pessoa e a língua portuguesa, no meio de um circuito cansativo ( e bem mais lucrativo) de shows no Brasil. O Caetano não precisa da minha defesa, mas, quer enquanto amiga dele, quer enquanto sua anfitriã nesta estadia, eu sinto-me triste com este equívoco e com o sentimento de injustiça que ele provoca em Caetano.

Enviar-lhe-ei em breve o registo audio completo da sessão, para que possa avaliar o que de facto se passou, e quem de facto é Caetano Veloso - que não é menos «intelectual« do que o Chico, agora romancista na moda. Pelo contrário. Caetano, pelo menos, não «se acha», como dizem os brasileiros. O que é muito mais e muito melhor do que se pode dizer de Chico, apesar do seu talento ( para a música; na literatura facilmente se encontra muito melhor, embora haja pouca gente para dar por isso...). Sobretudo, Caetano nunca defendeu ditaduras, como Chico, lá do seu palacete do Rio com campo de futebol acoplado, gosta de fazer - e isso, para mim, faz toda, mas toda a diferença.

Abraço da
Inês

Francisco Seixas da Costa disse...

Olá, Inês

Talvez seja um "déjà vu" - neste caso, um "déjà entendu"... -, mas confesso que estava 100% convencido que o Caetano Veloso havia feito, no passado, uma declaração em que demonstrava pena pelo facto do Brasil não ter sido colonizado pelos holandeses. Se o não fez, peço desculpa pelo erro. Mas esse "mito urbano" anda por aí, com muita força, como hoje mesmo uma importante personalidade da cultura luso-francesa mo repetiu, espontaneamente, ao referir-se ao assunto.

Permita-me um parêntesis, dedicado a quem quer que seja, sobre este tema: qualquer brasileiro está no seu pleníssimo direito de ter, sobre Portugal ou sobre os portugueses, a opinião que quiser, boa ou má, informada ou distante. Era o que faltava que nós nos tornássemos numa espécie de polícias da lusofilia! Temos é o direito de julgar a eventual inconformidade dessas declarações com o afecto que os portugueses lhes possam incautamente devotar, quando desconhecedores desses ditos. Apenas isto.

Como já escrevi uma vez, nunca me senti "advogado-geral" do colonialismo português no Brasil, nem sequer tendo como "defensor oficioso" o Gilberto Freire. O que eu tinha a dizer sobre este e outros assuntos da relação histórico-cultural luso-brasileira já o fiz no passado, publicando-o, com nome por baixo, como é do meu jeito, quer em vários jornais brasileiros, quer no meu livro "Tanto Mar?", cuja introdução republiquei em http://ou-quatro-coisas.blogspot.com/2009/12/tanto-mar.html. Se tiver uns minutos, daí deduzirá o que eu penso sobre o Brasil e até sobre o tema específico subjacente a esta troca de mensagens.

Quanto ao acolhimento à Maitê em nossa casa em Brasília, saiba que serviu apenas para amortecer o choque financeiro da sua contratação pelo Adriano Jordão como "diseuse" de poemas, no encerramento da presidência portuguesa da União Europeia. Se o Caetano Veloso lá tivesse ido cantar - mas nós não teríamos dinheiro para a factura dele! -, também lá teria ficado alojado, como aconteceu com outras figuras, portuguesas e brasileiras, convidadas ao longo dos meus quatro anos de Brasil. É também para isso que as Embaixadas servem.

Receba um abraço e votos de bom Natal do

Francisco

Anónimo disse...

De facto uma canção como "Língua" (deixa os portugais morrerem à míngua" e outras frases...)dá que pensar... Que pena haver brasileiros que se comportam como se estivessem ainda na década de 20 do século XIX... (Independência em 1822).É verdadeiramente o que se designa por complexo de ex-colónia... :(