quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ibéria?


Pondo de parte a teoria conspirativa, alimentada por alguns, de que se trata de subtis balões de ensaio, confesso que frequentemente me interrogo sobre as motivações que poderão estar na origem do cíclico surgimento, entre nós, das teses iberistas. Benevolamente, atribuo-as à síndroma sazonal da "silly season", adubadas pelo esforçado internacionalismo de outros tantos, que se entretêm a brincar com a identidade nacional, em exercícios lúdicos de alguma irresponsabilidade.

O iberismo acabou por fundar-se, historicamente, no sentimento de finis patriae que nos adveio do declínio posterior à perda do Brasil, marcado pela dificuldade em gerirmos o nosso papel intraeuropeu, no ácido confronto cruzado de ambições coloniais, que nem o carácter de algumas alianças vetustas conseguiu disfarçar. Desde então, esse tropismo, derrotista e derrotado, tende a renascer sempre que surgem conjunturas que alguns identificam com a crise, não necessariamente do país, mas da ideia atormentada que dele alimentam. Tudo isto vale o que vale, mas devo confessar que começa a tornar-se irritante a sua reiterada emergência, com alguns inocentes úteis a dar-lhe foros de dignidade, por vezes mesmo com tentativas de teorização pseudo-intelectual.

Faço parte de uma geração educada "contra a Espanha", na magnificação do papel das batalhas que nos garantiram a independência, das figuras hagiografadas de recorte heróico quase caricatural, tudo se saldando na gestação de uma desconfiança atávica face aos "ventos" que sopravam de Madrid. Os livros de um Matoso anterior e de alguns outros "genéricos" da historiografia portuguesa defendiam essa espécie de doutrina patriótica incontornável, a que a própria diplomacia portuguesa não escapou. Esse culto quase paranóico da História, hiperbolizado ao ridículo pelo Estado Novo, gerou uma espécie de "inimigo nacional" obrigatório. Ainda hoje, alguns iluminados tendem por aí a esquecer uma meridiana realidade: quase nove séculos decantaram uma identidade portuguesa bem clara que, em todas as dimensões, se distingue hoje das "Espanhas" - de todas elas. E essa distinção já nada tem a ver com antagonismo.

A comum entrada de Portugal e Espanha nas instituições europeias fez com que se atenuasse, de um modo natural e num movimento de elementar racionalidade, essa doentia obsessão anti-espanhola, tornando natural o relacionamento dos dois Estados que coexistem na península. O modo como os temas de contencioso bilateral passaram a ser tratados, de que são exemplo os casos das pescas ou da gestão dos rios comuns, provou o carácter altamente benéfico da mútua convivência dentro do quadro formal europeu. Além disso, devo confessar que, para mim, foi uma verdadeira lição ver as novas gerações portuguesas começarem a entusiasmar-se com a "movida" madrilena ou desejosas de aproveitar a riqueza de vida das Ramblas de Barcelona.

A Espanha contemporânea, na sua diversidade e complexidade, é hoje uma realidade pujante, onde um sentimento colectivo de salutar orgulho fixou uma matriz que conseguiu federar autonomias e nacionalismos muito diferentes. É um país magnífico, com uma cultura interessantíssima, um povo optimista e que, em algumas décadas, deu ao mundo a lição de como foi possível desenvolver uma sólida democracia, uma sociedade de bem-estar e de franca modernidade, que conseguiu firmar-se sobre as memórias trágicas da Guerra Civil, as pulsões nacionalistas e as ameaças da barbárie terrorista.

A serena relação com a Espanha constituiu hoje um dos pilares importantes da nossa política externa. Com Madrid, encontramos, dia-após-dia, áreas para uma acrescida cooperação internacional em imensos domínios, definindo cada vez mais linhas comuns de trabalho em instâncias multilaterais. Como disse, há dias, o rei Juan Carlos, Portugal e Espanha são “duas nações antigas, vizinhas, amigas, sócias e aliadas”.

Existe hoje em Portugal uma grande simpatia pelo seu vizinho espanhol. Para que isso continue a ser assim, necessário é que continuem a existir dois países, Portugal e Espanha, como soberanias orgulhosamente diversas. Alguns não pensam assim? Deixemo-los a falar sozinhos. Portugal está aí para durar, gostem ou não.

Uma versão reduzida deste texto é hoje publicada, como artigo de opinião, no Correio da Manhã.

5 comentários:

Anónimo disse...

Excelente! Para não fugir à regra.

Um abraço,

Pedro Dâmaso

Helena Sacadura Cabral disse...

De facto!

Carlos disse...

Não quero ser desagradável e até me custa dizê-lo aqui, mas tanto me faz prestar vassalagem a Madrid como a Lisboa. O país estupidamente centralizado e constituído numa área de negócio da dupla PS/PSD, com uma economia que vive encostada ao Estado tutelar (EDP,PT,GALP...) nunca passará da pobreza. O resto virá por acréscimo e também com a globalização. É uma questão de tempo. Só espero é que seja rápido para que os meus filhos tenham oportunidades de vida que hoje não se vislumbram no ocidente peninsular.

Fernando Correia de Oliveira disse...

Duas achegas para a discussão do tema ibérico: aquando da Expo 98, o catálogo do pavilhão espanhol tinha na capa o quadro "a triunfal entrada de Filipe IV (III de Portugal) em Lisboa; aquando da visita recente dos reis de Espanha à Madeira, na comotiva ia o rancho folclórico de Olivença.
Actualmente, para mim existe um mercado ibérico como zona de trabalho, dou-me com muitos mais colegas espanhóis do que portugueses, mas chega a ser irritante a constante arrogância castelhana.
É muito curioso, por outro lado, observar, recorrentemente, ao fim de um dia de trabalho, num qualquer país terceiro, as dicussões políticas muito acesas entre os meus colegas espanhóis, e onde às vezes meto a estopa. As contradições entre catalães e castelhanos, por exemplo, são mais fortes que entre portugueses e catalães. Nunca vi um colega meu dizer, a terceiros, que é espanhol, a não ser que seja de Madrid. Ou são catalães, ou galegos, ou bascos...

Sequeira Carvalho disse...

Trata-se de uma perspectiva diplomatica interessante e bem argumentada que não pode todavia fazer esquecer a construção geo-politica diferente dos dois paises que necessariamente irá conduzir a uma evolução estrutural especifica de cada um dos dois paises.
Portugal afirmar-se-à cada vez mais como um espaço de interface intercontinental, enquanto que a Espanha vai continuar a as suas dificeis divisões internas.