terça-feira, 1 de novembro de 2011

As frases e os mitos

Na memória coletiva sobrevivem, por vezes, expressões que, não tendo nunca sido pronunciadas, passaram a constituir-se como mitos. Recordo o "play it again, Sam", que Rick nunca disse no "Casablanca", ou o "elementary, my dear Watson", que ninguém encontrará, posto na boca de Sherlock Holmes, em nenhuma linha de Conan Doyle. 
 
O debate político também se faz, muitas vezes, em torno de alguns desses mitos: Salazar nunca proferiu exatamente a frase "para Angola, rapidamente e em força", contrariamente ao que muitos portugueses pensam.

Vem isto a propósito da circunstância de, desde há muito, ter visto atribuída uma frase ao antigo presidente da República, Jorge Sampaio: "há mais vida para além do défice". À volta desta frase tem emergido, ao longo dos últimos anos, uma imensidão de comentários. Porque tinha curiosidade em perceber o que fora efetivamente dito (e o contexto em que o fora, o que não é despiciendo), fui à procura do texto verdadeiro. E o que é que descobri?

Primeiro, Jorge Sampaio nunca terá proferido a frase "há mais vida para além do défice". 

Segundo, a frase verdadeiramente dita pelo antigo presidente - "há mais vida para além do orçamento" - foi proferida num contexto específico que merece ser ponderado:

"Mas como já disse, o problema orçamental da economia portuguesa, merecendo embora exigente e necessária atenção, não é o único. Há mais vida para além do orçamento. A economia é mais do que finanças públicas. O aumento do investimento, da produtividade e da competitividade da economia portuguesa é fundamental para o nosso futuro e requer o esforço continuado e empenhado de todos: governantes, empresários e trabalhadores. Uma economia competitiva não é a que se baseia em baixos salários, mas sim a que dispõe de um sistema produtivo moderno, inovador e tecnologicamente avançado, capaz de produzir bens e serviços de qualidade e bem valorizados nos mercados internacionais."

Alguém discorda?

Para alguns, "os fins justificam os meios". O diabo é que também esta frase nunca foi, contrariamente ao que a História acolheu, escrita por Maquiavel...

22 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador, o que me ri com a sua oportuna referência a Maquiavel...
Mas, seja o défice, seja o orçamento, a verdade é que a "boutade" tem, nesse e neste momento, o mesmo significado...
Ou não? para usar uma expressão muito sua?

Helena Sacadura Cabral disse...

O Google e o meu iMac andam a repetir-me os comentários. Desculpe!
Mas, já agora, se não foi Maquiavel nem Sampaio, que disseram as frases, conseguiu apurar, neste último caso, quem a terá proferido?

Catinga disse...

Julgo que o "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas", do atual PR, também nunca foi dito.

E, quanto ao velho das botas, o "A Pátria não se discute" foi, parece-me, "Não discutimos a Pátria" (que me parece uma versão com menos força).

Francisco Seixas da Costa disse...

Cra Dra. Helena Sacadura Cabral: não faço a menor ideia de quem possa ter dito que "há mais vida para além do défice". Talvez algum membro da "troika"...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: quando citei Maquiavel - pode crer! - não estava a pensar em si, mas no que tenho lido, sobre o assunto, em muitos e maus blogues.

Margarida disse...

Não sei porquê, lembrei-me de uma história do Tintin.., bem, adiante; eu cá acho que me lembro, sim, de ouvir o ex.presidente a comentar isso numa daquelas 'encurralações' de jornalistas..., parece que ainda estou a ver o seu sorriso fino a adejar a frase, mas devo ser eu e a minha imaginação...
A outra frase do profeta, perdão, presidente actual, também lha ouvi ou li ou algo de permeio.
Quanto ao idoso ditador, enfim, quem sabe, de facto, o que o senhor já dizia com aquela voz aflautada que ainda me recordo de ouvir a preto e branco?
No fundo, são todas ideias negras em fundo cinzento.
É um grande nevoeiro, é o que é.
Por isso, o mais aviso, é, realmente, rirmos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: também metade do país que ouviu o discurso de 1961 se lembra de Salazar a dizer o que não disse. Aposto uma caixa de chocolates da Arcádia (das grandes, claro!) em como não tem a menor razão...

Margarida disse...

:)))
E depois, a gulosa sou eu?!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: o que disse é a prova de que sabe que tenho razão. Ou não?

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador e eu tão esperançada que me tivesse promovido a influente pensadora!
É que aprendi, ao longo dos anos, que a melhor forma de exercer o poder é influencia-lo...

Margarida disse...

Nem por sombras!
:)

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: como o mundo se não faz daquilo a que os brasileiros chamam o "achismo" ("eu acho que..."), resta-lhe apenas provar-nos que a sua memória não sofre de desvios provocados pelos sentimentos.

kabuenhapodre disse...

Senhor:
Pelos vistos, a verdade é que já naquele tempo não havia vida para além do orçamento, o que torna mais risível, não apenas a discursata diletante mas a agónica e problemática figurinha citada.

Margarida disse...

Mas é claro que o mundo se faz de muito 'achismo'!
Como não?
Ainda hoje alguém muito prezável 'achou' que era boa ideia convocar um referendo.
E muitos outros, 'acharam' que não.
Este é só um exemplozinho quente.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: Já agora, não esqueça o resto: a prova, a provazinha... É que, sem isso, terei de concluir que não é por acaso que a palavra "bitaite" vem daí...

EGR disse...

Senhor Embaixador:embora a minha memória não seja de ferro,devo dizer que recordo bem o contexto em que o Dr. Jorge Sampaio proferiu a frase;por isso,ao longo do tempo sempre que a ouço citada,isolada naquele contexto fico irritado com a falta de seriedade intelectual que revelam por banda de quem a usa como arma de combate politico.
Ainda há meses ouvi uma entrevista do Dr. Jorge Sampaio a Antena 1.e uma vez mais, esclarecer o assunto.
Pode ser que,atento o grande número de seguidores deste blogue, o texto que V.Exa hoje publicou seja uma ajuda para que os amantes da "verdade" actualmente tão invocada em certos circulos passem a ter algum pudor.
Mas,francamente, não sei explicar a razão, tenho cá algumas dúvidas.

Margarida disse...

Excelência, V.Exa. não é nada 'pêra doce', hã? É que não dá 'folga'!
Eu até gosto de arqueologia (sobretudo aquática) e tenho um certo pendor para a investigação, mas como é que vou desencantar os discursos das personalidades em foco? Ai a minha vida...
Estou quase a desistir antes de começar :)))
E a dar razão ao último comentador...
Segue caixa de chocolates (grande) via CTT...
:(

patricio branco disse...

boa investigação sobre um dito que entrou na giria pelos vistos distorcido.
A propósito, será que napoleao disse, subido nas piramides do egipto, algo como "daqui de cima, 40 seculos nos (vos) contemplam?"
ou que maria antonieta ao ser guilhotinada disse algo ao carrasco relacionado com o seu penteado ou gola do vestido, não me despenteie ou amarrote?
diz se que salazar disse que uns bons safanões a tempo (i e torturas)podem ser uteis.
e o "tambem tu, brutus?" teria de facto sido dito por julio cesar no senado depois de apunhalado?

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: a "caixa de chocolates" era, claro!, virtual. Estou (estamos todos...) de dieta.

Margarida disse...

Sim senhor, mas fale por V.Exa.
Não me aprazem dietas; seja do que for.
Além do que, como se costuma dizer, 'para amarga, já chega a vida'.
Doçuras, pois!

Logros disse...

Não parece que as variantes alumiadas aos ditos dos tugas, tenham modificado a semântica. Relacionar com o contexto é sem dúvida mais revelador de uma eventual re-interpretação.

Cumprimentos pela finura e "panache" da prosa.

Isabel Seixas disse...

Desculpem a ingerência mas eu arriscava no contexto dos bombons uma frase e mito de:
"o que está dito está dito"

Mas pronto
olhe Margarida nesse capitulo estou consigo, veja lá se quer ajuda na degustação...