sexta-feira, 27 de abril de 2007

Brasilia - a capital do olhar

De há muitos anos, havia-me habituado a pensar Brasília apenas como uma singular experiência urbana, fruto da vontade de um presidente sonhador, Juscelino Kubitschek (JK para os brasileiros), somada à genialidade criativa de Óscar Niemeyer, um arquitecto que tinha sabido desenhar, num remoto deserto no centro do país, um museu vivo que causava a admiração do mundo.

Essa imagem, algo estática, que eu alimentava da nova capital brasileira evoluiu muito ao longo dos anos em que a habito, por me permitir colocar nela a paisagem humana muito particular da cidade, onde se somam visitantes episódicos, migrantes internos mais ou menos adaptados e uma cada vez maior percentagem de brazilienses. Por essa razão, Brasília não é uma cidade óbvia para um estrangeiro e eu próprio continuo à descoberta da chave de leitura que me permita decifrar a sua complexidade e múltiplas contradições, que se prolongam quase desde a sua própria origem.

Às vezes dou por mim a pensar no que terá sido a aventura política de transportar, para uma Brasília ainda pouco apelativa como cidade, toda a administração pública que se habituara ao conforto do Rio de Janeiro – em especial, da célebre qualidade de vida do Rio dos anos 60. Brasília era então, ao que dizem, um estaleiro que parecia eternizar-se, onde pairava um pó vermelho omnipresente, o qual, curiosamente, parece ser o segredo do famoso pôr-do-sol da cidade. Ser forçado a sair da mais bela cidade do mundo, perder Copacabana, as praias e a vida social de então, para vir aterrar nos apartamentos “funcionais” que haviam sido destinados à burocracia, deve ter tido, à época, uma violência descricionária.

Talvez isso também justifique que ainda possamos encontrar, por todo o Brasil, muitos cépticos quanto à bondade da opção tomada em favor da construção de uma nova capital e muitos críticos, e irónicos, quanto às virtualidades daquilo a que chamam a “cidade sem esquinas”.

O sonho de uma nova capital para o Brasil tem uma história já antiga, como todas as lendas que precisam da sua dose de mistério para se dignificarem no imaginário colectivo. Na prática, a ideia da criação da nova cidade acabou por ser um gesto voluntarista, assumido por um Presidente que pensava grande e que desejava apresentar, ainda no seu tempo, um empreendimento glorioso que pudesse ser o símbolo da desejável aceleração do “país do futuro”.

A Brasília planeada por Lúcio Costa, e onde Niemeyer plantou os seus edifícios, está já muito distante da cidade actual, onde, nos últimos anos, a dualidade social do Brasil se projectou com grande intensidade. À volta do chamado “Plano Piloto”, nasceram várias cidades-satélite, as quais, curiosamente, não aparecem muito visíveis no horizonte de Brasília, como que concordando em deixar salientar-se, isolada e preservada, a imagem da cidade central.

Com excepção da zona situada na confluência do Eixo Monumental, onde estão os principais edifícios públicos, com as “asas” do pássaro virtual em que o traço de Lúcio Costa fez assentar muita da vida habitacional e comercial, a cidade é marcada por uma escala de construção relativamente baixa, onde o arvoredo convive bem com os prédios de apartamentos e se abre para as zonas de comércio que os apoiam. Alguns acharão estas soluções de distribuição rigorosa de espaços algo “orwellianas”, mas essa é a matriz inescapável de uma cidade tributária de uma conhecida escola de planeamento arquitectónico.

A ausência de pressão urbanística, o aproveitamento generoso do espaço e a lógica de distribuição dos edifícios acabam por conferir uma leveza muito particular a todo o tecido urbano, o qual, fora das famosas “asas”, abandona a rigidez uniformizante e surge variado e diverso. O usufruto pleno das dimensões disponíveis e a presença do verde são a matriz visual mais marcante de Brasília, dando terreno largo ao olhar e garantindo perspectiva às fórmulas arquitectónicas imaginadas por Niemeyer, hoje complementadas por outras belas peças de modelos bem diversos.

Quase meio século depois da sua fundação, é interessante verificar como a monumentalidade de uma área como a Esplanada dos Ministérios, com a atípica Catedral e o Teatro Nacional “egípcio” à sua margem, agora também acompanhados pelos novos Museu e Biblioteca, tendo as torres gémeas e os módulos contrastes do Congresso ao fundo, continua a sobreviver com grande dignidade e beleza. Descer a Esplanada à noite, sob a luz cuidada que sublinha os ministérios e os palácios vizinhos, continua a ser uma experiência ímpar. Ainda à noite e se a virmos à distância, sob o céu límpido que é uma das marcas da cidade, Brasília surge reflectida no lago Paranoá e é tomada por uma estranha e distinta serenidade de metrópole futurista.

Pressente-se hoje em muitos dos seus habitantes um vincado orgulho braziliense, que se expressa numa espécie de culto a esta singular capital, à sua dinâmica social um tanto bizarra, à qualidade da sua vida – ímpar no Brasil contemporâneo. Há neles como que uma adesão sentimental ao espírito “candango”, nome dado aos que construíram a cidade, como se viver em Brasília e apreciá-la fosse uma espécie de identificação permanente com a aventura pioneira que a criou.


A cidade da arquitectura

Brasília está longe de ser uma cidade fácil para o pedestre. As distâncias são longas, os espaços abertos obrigam a uma incómoda exposição ao sol e, sintomaticamente, não há muitos passeios que permitam flanar com largueza – com excepção do Parque da Cidade e certas áreas residenciais nobres, como o Lago Sul.

O automóvel é, assim, o “habitante” mais natural de uma cidade que, com excepção dos táxis, tem um sistema de transporte urbano algo confuso.

Em Brasília, as ruas e as praças não têm nomes – sendo a Praça de Portugal, por detrás da respectiva embaixada, uma das muito poucas excepções, o que aliás muito nos honra. Por isso, o visitante não deve estranhar se ouvir dizer que o almoço está marcado para o restaurante X, que “fica na 408 Sul”, ou que é convidado para a casa de um amigo que mora no “SHIS, QL 20, Conjunto 1, casa número tal”. Parece confuso… e é, mas com o tempo habituamo-nos a perceber que este modelo, depois de aprendido o seu código, acaba por facilitar a procura de endereços. E não se apoquente se lhe disserem que a sua reunião terá lugar numa “superquadra” a norte do “eixão” e que, para lá chegar, terá de passar pelo “eixinho” ou pela “W3 Sul”, necessitando ainda de circular por algumas “tesourinhas”. O original léxico braziliense é feito destas peculiaridades.

O visitante episódico de Brasília deve, assim, ter o cuidado de assegurar previamente um transporte e condução automóvel que lhe permita usufruir a cidade e alguns dos seus pontos interessantes.

Atrever-me-ia a aconselhar que o percurso pelas peças mais importantes da obra de Óscar Niemeyer se iniciasse pela residência oficial do Presidente da República, o Palácio da Alvorada. Foi na inauguração dele que, em 30 de Junho de 1958, o então embaixador de Portugal apresentou as suas credenciais, sendo o primeiro representante diplomático estrangeiro a fazê-lo em Brasília, num gesto de simpatia de JK para com Portugal.

Passando ao Eixo Monumental, a visita deve iniciar-se pela Praça dos Três Poderes, onde se situam peças arquitectónicas de relevo, desde os edifícios do Congresso Nacional ao Supremo Tribunal Federal, passando pelo Palácio do Planalto, sede do Governo. Nessa praça, onde sobressai a famosa estátua dos “Guerreiros”, impõe-se uma visita à maquete da cidade, no Espaço Lúcio Costa, que funciona como uma introdução a Brasília e permite enquadrar melhor a sua evolução.

Logo de seguida, é interessante entrar no Palácio do Itamaraty, sede da diplomacia brasileira. Continuando a subir o Eixo Monumental, é imprescindível uma visita à majestosa Catedral, que agora tem a seu lado a “calote esférica” do novo Museu e o edifício da Biblioteca. Do lado contrário do Eixo, surge o Teatro Nacional e, logo adiante, o complexo da Estação Rodoviária – um espaço cuja beleza é hoje limitada pela caótica intensidade da sua ocupação.

O visitante pode ainda aproveitar para subir à Torre da televisão para ter uma perspectiva geral da cidade, ver o Palácio do Buriti, fazer uma visita ao Memorial de JK e, finalmente, deslocar-se à zona militar, cuja arquitectura é também muito curiosa.

Este olhar breve por Brasília não pode deixar de incluir o Santuário Dom Bosco, um passeio pela zona das Embaixadas (lá se encontra a Embaixada de Portugal, num edifício do arquitecto português Chorão Ramalho), um percurso pelas prestigiada área habitacional do Lago Sul (com uma visita à ermida de Dom Bosco) e o regresso ao centro através da nova e bela Ponte JK, da qual se diz que Óscar Niemeyer não gostará muito.

Se tiver tempo, o visitante deveria ainda deslocar-se às “quadras” comerciais e habitacionais (aconselharia as quadras 108 e 308 Sul, junto da qual está a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, conhecida como Igrejinha), para perceber melhor a lógica que prevaleceu no desenho original da cidade e que marca ainda muita da sua funcionalidade actual.

Se acaso lhe sobrar tempo, deve visitar o famoso Catetinho, alojamento de madeira construído para albergar Juscelino Kubitschek nas suas deslocações ao que viria a ser Brasília, o que lhe permitirá simultaneamente ter uma perspectiva de uma outra ampla área residencial.

Brasília tem muito mais para ver, mas eu ficaria por estes conselhos sintéticos.


Os gostos de Brasília

De ano para ano, Brasília vai melhorando a sua oferta em matéria de restaurantes, com a presença de gastronomia de várias origens, regionais e internacionais.

Mara Alcamim é, na minha opinião pessoal, a “chef” que melhor representa a vitalidade contemporânea da cozinha de Brasília. Com o seu magnífico Zuu a.Z. d.Z., revelou uma criatividade que a alcandorou a “chef do ano” de Brasília, em 2007.

Com créditos marcantes em anos consecutivos, Alice Mesquita vai seguramente confirmar, no seu novo Alice, no Lago Sul, a qualidade que a consagrou com um dos expoentes maiores da cozinha de inspiração francesa na capital federal.

Se acaso o leitor se sentir tentado a experimentar um dos locais mais emblemáticos de Brasília, onde pode ter quase a certeza de se cruzar com políticos saídos de um debate escaldante no Congresso, então não perca o Piantella, seja para uma refeição, seja para uma bebida no seu famoso bar, ao fim da tarde.

Outras opções altamente recomendáveis são a cozinha contemporânea do novo Kooun, o rodízio do recém-inaugurado Fogo no Chão, o excelente BSB Grill, a comida italiana na renovada Trattoria da Rosário, o sabor mediterrânico do La Torreta e, sobre o Lago Paranoá, o marisco do Bargaço no Pontão do Lago Sul ou o inesperado Patú Anú, num lugar distante do Lago Norte, que combina bem com o exotismo da sua gastronomia. Uma lista de vinhos imbatível está à disposição no Dom Francisco e música a acompanhar a refeição pode encontrá-la no Feitiço Mineiro, onde a feijoada se recomenda muito.

E se se sentir tentado a acabar a noite a ouvir música ao vivo, acompanhado de alguns petiscos, visite o Clube do Choro, um espaço já tradicional onde podem aparecer ritmos brasileiros, sonoridades de jazz ou “crooners” ao piano.

* texto escrito para a revista da TAP - Air Portugal.