quarta-feira, 4 de abril de 2012

Zé Guilherme

A "manga" do aeroporto de Orly que, no passado fim de semana, ligava ao avião da TAP para o Porto, fazia um cotovelo, o que permitia aos passageiros ler, com facilidade, o nome do aparelho: "Francisco d'Hollanda". À minha frente, dois "letrados", um tanto ajavardados, comentavam: "estes tipos até põem nomes de holandeses aos aviões da TAP, vê lá tu!". Ao que, quiçá premonitório, o outro respondeu: "daqui a uns tempos vão ter nomes chineses, ai vão, vão!"

Entendi não valer a pena explicar que Francisco d'Hollanda foi uma das figuras mais proeminentes da arte portuguesa no século XVI. Lembro-me bem de, no momento, ter pensado que o meu amigo e embaixador José Guilherme Stichini Vilela havia escrito um pequeno livro sobre Francisco d'Hollanda - coisa que eu descobri por acaso, um dia, numa livraria, e a que ele, para minha surpresa, nunca atribuiu grande importância.

Prestes a regressar a Paris, dois dias depois, já no aeroporto do Porto, recebi um telefonema, a dar-me conta da morte do Zé Guilherme.

Coincidimos em posto, em Luanda, nos anos 80, nesse tempo inesquecível em que, com António Pinto da França e Fernando Andresen Guimarães, todos juntos, conseguimos transformar um período profissional tenso e potencialmente abafante numa divertida aventura de vida - também com o Miguel Chalbert, a Ana Poppe, o António Vallera, a Élia Rodrigues, o Fernando Valpaços, os "Guedais" (Vasco, Sérgio e Zé Tó), a Bá e o Pedro, a Lena e o Bo Backstrom, a Alzira e o João Sobral Costa e tantos e tantos outros.

Até então, eu conhecia mal o Zé Guilherme. Desde aí, ficámos, para sempre, muito amigos e pelo mundo nos fomos encontrando, às vezes com alguma regularidade, outras vezes nem tanto - em Argel e em Londres, no Rio de Janeiro ou em Istambul. Fizemos magníficas férias juntos (lembras-te, Alda?) e, para sempre, o Zé Guilherme passou a ser um membro da nossa família. Era, para nós, como que um irmão mais velho, que às vezes parecia até bem mais novo. Era um congregador de afetos, generoso sem limites, dedicado aos outros, mesmo a alguns que o não mereceram. Muito culto, com um imenso bom gosto, tinha uma grande abertura ao novo e ao diferente, criando, com naturalidade e sem esforço, novos amigos e conhecidos, quase sempre gente muito diversa e interessante. E, às vezes, não.

Falámos pelo telefone, há muito pouco tempo. Desafiei-o a vir visitar-nos a Paris, onde tinha vivido, por duas vezes, no início da sua carreira. Respondeu-me com um discurso cansado e algo desiludido. Mas, depois, na ciclotimia de ânimo que era muito sua, mandou-nos um belo texto de ficção, que escreveu e que hesitava se devia ou não em publicar em livro. E, dias mais tarde, inscreveu-se como "amigo" no Facebook, com uma foto onde exibia um chapéu de palhinha, ao jeito da vida bem informal que agora levava.

O Zé Guilherme fazia parte daquelas pessoas de quem nos sentimos muitos próximos e que, porque não "frequentadas" com a regularidade que desejaríamos, em especial durante a nossa última década de permanência contínua no estrangeiro, tínhamos "reservado" para um convívio futuro mais assíduo, nos tempos mais calmos de ocupações que estão aí para vir. Mas não, já não vai ser possível usufruir do seu sorriso delicado e algo triste, das conversas serenas que alimentava, da sua imensa paciência para os erros dos amigos e, também, da sua crescente impaciência para as posturas dos idiotas. As amizades, como tenho vindo a aprender, não podem ter férias. Assumo a minha quota-parte de culpa nalguma solidão em que ele se foi fechando e em que acabou os dias.

Um imenso abraço, Zé Guilherme, até sempre. 

15 comentários:

Isabel Seixas disse...

"Era para nós como um irmão mais velho, que às vezes até parecia mais novo."
"As amizades, como tenho vindo a aprender, não podem ter férias."
In FSC

Sem querer...
(correr o risco de graxa redundante)
Acho estas duas frases, frases fascinantes do ponto de vista qualitativo de grandeza espiritual de alguém que parte e nos deixa essa inspiração...

Vi no blogue do Seu amigo poeta, sr. Embaixador, esta citação

Every poem is an epitaph

e por associação achei que subtilmente o Sr. transmitiu duas mensagens que vale a pena eternizar.

Anónimo disse...

Notícia muito muito triste.
Esse livro sobre o "holandês" foi, salvo erro, uma tese universitária...

Isabel Seixas disse...

A viagem

Dessa vez sabia que ias para ficar
mesmo em transe ou estado de sonho
a prova da irreversibilidade é milenar
a condolência braço caído nãopassa de rendição
a energia é anérgica cortesã devassa
sem coração

xeque mate
como um bem maior filha da Mãe
juro que vou sorrir quando a mim
deixo-te entrar olho com desdém
e entrego-te em testamento tudo o que em mim sorri

Na na farei eu meu próprio espólio
prova dos nove pecados imortais
todos numa salva de prata
tinha-te de baixo de olho, mortório
sem tréguas aprendi com os demais
não podes ser mulher tens lata

Mas enganas-te não trazes esquecimento
mas sim memórias vorazes
arrependimento
convertes dúvida em certeza
ódio em amor
daí que às vezes a tua crueza
não tem valor...

patricio branco disse...

emocionada evocação de um colega amigo,bonito obituario, gostei de ler.

ps. não sei se já viagei no francisco d'holanda da tap, ontem sei que viajei no florbela espanca, minha mulher chamou me a atenção, e lembro me de tambem já tar voado no vitorino nemésio, no antero de quental. Simpaticos nomes de grandes portugueses dados aos aviões.

Anónimo disse...

Os bons sentimentos deviam ter um nome especial. Na leitura deste texto assaltou-me de novo esse pensamento.

Maravilhoso ter tido amigos que nos recordem desta forma.

Leonor Pinto

Anónimo disse...

Não conheço Zé Guilherme. Mas este texto convidou-me à reverencia da sua amizade e a admirar com respeito tudo que ele moveu à sua volta.
José Barros
  

José Sousa e Silva disse...

Excelente hino à amizade que só pode ser ditado por um espírito superior. Parabéns, Senhor Embaixador e, por favor, aceite a expressão do meu pesar pela morte de seu amigo/irmão.

Anónimo disse...

Triste notícia!
Foi um privilégio ter conhecido o Zé Guilherme e de ter convivido com ele regularmente durante cerca de dois anos em Angola. Partilhamos muitos bons momentos na vossa, e nossa, "divertida aventura de vida". A tua descrição do Zé Guilherme coincide perfeitamente com o Zé Guilherme que nós lembramos!
Um abraço forte, Zé Guilherme! Até breve ...
Madalena e Bo

Anónimo disse...

São textos como este que dão razão à minha frequência deste blog.

José disse...

A vida de cada ser humano é assertiva com a evolução nda sociedade.
Criatividade Culto do Belo Conhecimento são ícones existenciais que o homem persegue para comportamentalizar a expressão de felicidade.
Mas a amizade ...
Poucas pessoas escrevem como o sr. embaixador sobre tão nobre comportamento.

EGR disse...

Senhor Emmbaixador: peço licença ao anonimo das 18.44 para subscrever o seu comentário pela magnífica síntese nele contida

ARPires disse...

O título do poste bem poderia ser este;

As palavras que nunca te direi.

Há coisas que dizemos de, e para um morto, que nem sempre temos coragem de dizer a um vivo. Incongruências do ser humano.

Anónimo disse...

Com a morte de quem "nos pertence", morremos sempre um pouco também...

Teresa C.

Julia Macias-Valet disse...

Para Além da Curva da Estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

A imagem deste post é triste e sinuosa...mas nao a imagem que nos deu deste seu amigo que agora se distanciou na estrada...

Anónimo disse...

Caro Francisco,
Perdemos um amigo ímpar de uma qualidade humana invulgar, fomos surpreendidos pela sua partida nas nossas vidas ocupadas e agora sentimos essa perda com um misto de uma saudade futura e um presente empobrecido, por não podermos ligar ao Zé Guilherme a comentar um entusiasmo um absurdo ou uma nova receita ou fazer um convite para almoçar no Meco ou em Lisboa ou saber das novidades dos amigos ausentes mas sempre presentes ou uma ida à Feira de Antiguidades da APA para dar uma espreitadela e um abraço ao Manuel Murteira.
Zé estarás para sempre nos nossos corações até eles pararem de bater e quando isso acontecer decerto estarás à nossa espera para nos voltarmos a encontrar provavelmente à volta de uma mesa a contarmos as novidades e rever o teu sorriso cúmplice. Até lá um grande Abraço! Eduardo