segunda-feira, 2 de abril de 2012

O vinho do Porto e a economia

Hoje, numa conversa a propósito da promoção do vinho do Porto, falávamos da relação "cerimoniosa" que os portugueses tradicionalmente têm com aquele que é o seu produto vinícola mais prestigiado. A meu ver, o vinho do Porto teve, durante muitos anos, o caráter de uma bebida "engravatada", consumida em momentos solenes e formais, mas que nunca foi - até pelo seu preço - uma bebida popular. As coisas estão agora a mudar, a tipologia dos Portos está a alargar-se, há já, pelos bares, imaginativas combinações que têm a bebida no seu centro e, como é natural, isso está a trazer um novo tipo de consumidores e a fazer ganhar àquele vinho faixas diferentes no mercado nacional.

Em França, há também um longo caminho a percorrer na promoção do vinho do Porto. Os franceses são, nos dias de hoje, os principais consumidores internacionais de Porto, tendo já ultrapassado o tradicional mercado inglês, que se deixou ficar para trás. Porém, o vinho do Porto que surge nos escaparates deste país, sendo quantitativamente relevante, é, em regra, qualitatativamente bastante pobre. Várias vezes tenho mostrado o meu desagrado em restaurantes franceses de renome porque, lado a lado a cognacs, whiskies ou vodkas da melhor qualidade, nos são propostos vinhos do Porto verdadeiramente medíocres. Embora procurando sempre não afirmar, em público, que um produto nacional que nos está a ser servido tem escassa qualidade, vou encontrando maneiras hábeis de explicar que a apresentação aos clientes de outro tipo de Porto estaria mais à altura do prestígio da "casa"...

Com o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, bem como com alguns produtores, a Embaixada e a sua delegação da AICEP, tem em curso um conjunto de operações promocionais destinadas a fazer ganhar espaço a Portos de muito maior qualidade, que aqui continuam a não ser consumidos, apenas porque são desconhecidos do mercado. E, nesse esforço, procuramos frequentemente promover os vinhos de mesa do Douro e o turismo da região, ligando a isso o núcleo do Turismo de Portugal que conosco trabalha.

Esta manhã, numa escola hoteleira de Paris, concluiu-se um ano de trabalho que envolveu 50 escolas hoteleiras, com sensibilização de cerca de 1500 alunos, permitindo um melhor conhecimento das diversas categorias de Porto existentes e fazendo a sua ligação criativa a produtos alimentares franceses. Os alunos e as escolas, com o apoio de companhias vinícolas portuguesas, apresentaram criativas propostas de harmonização. O projeto vai continuar para o ano, com o apoio do Ministério francês da Educação, com mais escolas, mais alunos e com estímulos vários, que incluem prémios de viagem à zona vinícola do Douro. Este é um trabalho de sensibilização que tem efeitos a prazo - isto é, apostando no tempo em que esses alunos virão a ser os novos profissionais da hotelaria.

Com os atuais profissionais estamos também a trabalhar. Daqui a semanas, a Embaixada em Paris receberá os convidados do "Masters of Port", no termo de um processo de eleição dos "sommeliers" franceses que se revelem mais conhecedores do nosso vinho do Porto. É ainda pouco? É o que se pode e deve fazer, utilizando com muito critério os recursos financeiros disponíveis e os meios que nos é dado poder utilizar.

Nas relações económicas externas, é o somatório de muitos destes esforços pontuais que pode conduzir a resultados comerciais globais positivos, que tentamos que sejam sustentados. As empresas portuguesas - que é quem faz os negócios, entenda-se! - revelam uma fácil ligação ao mercado francês, muitas vezes mobilizadas por setores empresariais complementares da nossa comunidade, nomeadamente os que se juntam na operativa Câmara de Comércio o Indústria Franco-Portuguesa. No ano de 2011, creio que pela primeira vez desde há muito e muito tempo, a balança comercial portuguesa com a França apresentou um saldo a nosso favor. O turismo de origem francesa tem vindo a ganhar espaço no mercado português, tendo mostrado, em anos recentes em que os mais tradicionais emissores decaíram, uma tendência crescente. E, "last but not least", a França converteu-se hoje no principal país investidor estrangeiro em Portugal. 

7 comentários:

ARPires disse...

Um trabalho, cujo benefício só aparece anos depois.
Poder-se-á dizer, trabalho com resultados a longo prazo.

Isabel Seixas disse...

Pois é Sr. Embaixador um post bem interessante com uma pedagogia implicita com a assinatura indelével do seu cunho profissional sempre a fazer jus à qualidade com diplomacia.

Também gosto muito de vinho do porto Bom, embora me exija por questões de tolerância reduzida um beber com peso conta e medida para não deixar ficar mal a família e a crise e não fazer figuras, mas não sou insensivel ao bom gosto dos franceses.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Agora fala a cozinheira que também sou - e das boas, gaba-te cesto! - para lembrar que um Porto menos bom para beber pode, contudo, ser precioso na cozinha.
Dar-lhe - ia gostosamente pelo menos cem receitas em que o néctar de menor qualidade fica soberbo, quando devidamente cozinhado.
Mas em Portugal só há chef's...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,
Sendo muito louvável o seu “sentir” pelo produto Vinho do Porto, haverá necessidade de o relativizar, quer social quer historicamente, no mercado francês.
Nas últimas cinco décadas do século passado, as exportações de Vinho do Porto mais do que triplicaram – de 45.000 para 160.000 pipas por ano – e foi exactamente nesse período que a França se transformou no seu principal consumidor, também, como é evidente, pela significativa franja de emigrantes portugueses. Se bem que com soluções bastante estranhas para nós (p.e. bebido como aperitivo com uma pedra de gelo), a França ainda continua a ser a principal cliente e, por força disso, a principal “responsável” pelas alterações de estilo que, no entretanto, surgiram.
O “qualitativamente pobre” (para o seu gosto) resultou assim da “inundação” do mercado e da falta de promoção do produto, situação que, com base nas acções que elenca e pela falta de meios habitual, muito demorará a ser ultrapassada.
Contrariamente ao seu (e ao meu) gosto, o Porto comercializado é concebido em painéis de prova por consumidores anónimos, os quais consideram que o “nosso” Porto tem “sabor a remédio”…
Para ser possível colocar no mercado o Porto que apreciamos, são necessárias medidas a dois níveis: internamente, restringindo a quantidade produzida, mas incrementando o rendimento da lavoura pelo escoamento dos excedentes transformando-os, obrigatoriamente, em aguardente para o fabrico do Vinho do Porto; externamente, como muito bem refere, promovendo a região do Douro, aqui incluindo os seus produtos e a forma de os obter e consumir, até porque, na generalidade dos países, é proibida a publicidade a bebidas alcoólicas.

patricio branco disse...

a velha questão entre qualidade e quantidade, melhor mas menos, pior mas mais. refiro me à comparação das estatisticas reino unido-frança no que respeita ao consumo de porto. Em certa medida gostaria que portugal fosse o primeiro consumidor, como os espanhois o são do seu jerez, uma bebida quotidiana deles, popular.
já agora ao porto podiam se acrescentar se os madeiras.

Isabel Seixas disse...

Ora, Doutora Helena então dê uma receitinha para a Páscoa pelo menos para as Senhoras leitoras deste blogue e não só obviamente que o Sr. Embaixador também vai aproveitar para pedir à Esposa que faça a receita.
E se não, diga-me só a página dos seus livros onde posso localizar a Sua preferida.

Portugalredecouvertes disse...

Parabens Sr. Embaixador
varias boas noticias

Angela