sábado, 28 de abril de 2012

Conquistas de abril


Éramos quatro, entrámos pé-ante-pé, pelas escadas, evitando o elevador. O prédio era "ao Califa", ali na estrada de Benfica. A informação era muito segura: o Cordeiro, um sinistro inspetor da PIDE, ter-se-ia safado do cerco da António Maria Cardoso e podia estar refugiado em casa ou prestes a aceder a ela. Se iria resistir ou não, isso era o que se ia ver, e não nos sossegava mesmo nada. 

No terceiro andar esquerdo, batemos à porta e preparámos as armas, mimando a coreografia que víamos nos filmes, com a “expertise” operacional de quem vinha da administração militar. De dentro, uma voz feminina perguntou quem era..

"Forças Armadas”, respondemos, num plural majestático que estava a ter momentos de glória ímpar nessas horas, logo após o 25 de abril. 

A porta abriu-se, lenta, com a cara fechada de uma mulher de meia-idade a aflorar. Logo atrás, face angustiada, via-se uma rapariga mais nova, na casa dos 20 anos. Entrámos e o ambiente foi de compreensível frieza, com respostas algo agrestes, de uma dignidade ferida, sem remissão. 

Eram a mulher e a filha do inspetor. Procurámos ser muito corretos, embora firmes e incisivos nas questões, até para dar ares de uma determinação que disfarçasse o nosso imenso nervosismo. Que não, que o inspetor não estava, o que uma busca à casa logo confirmou, e não sabiam onde poderia encontrar-se ou se viria até à noite. Mas, pela conversa e outros dados circunstanciais, ficámos com a suspeição de que o Cordeiro ainda poderia chegar. Como nos tinham dito. Dispusémo-nos a deixar cair a noite, esperando o fugitivo Cordeiro. 

Estudámos a situação e, em discreto conciliábulo, pensámos que seria melhor isolar as duas mulheres, afastando-as do telefone negro na mesa da sala, não fosse elas serem tentadas a dar alarme, caso o inspetor entretanto ligasse. Dividimo-las por dois quartos, ambas acompanhadas. Dois de nós montámos uma espera no corredor, aguardando o eventual abrir da fechadura. 

Passara já mais de uma hora, quando, no imenso silêncio que ali se vivia, se ouviram, de um dos quartos, uns ruídos estranhos, parecendo gemidos ou choro, de súbito calados. 

"Tu não queres ver que o Silvestre perdeu a pachorra e decidiu dar dois tabefes à filha do pide, para lhe sacar o paradeiro do pai?!", exclamou o Branco

Não acreditei. Esse não era o estilo do Silvestre, um miliciano de Económicas, muito educado, com pinta de galã. Atravessei o curto corredor, abri a porta do quarto: lá estavam eles, sentados na cama, ela a vestir-se, sorridente e algo encavacada, com o Silvestre, já a puxar por um cigarro. 

Era um belo início da aliança povo-MFA

29 comentários:

Anónimo disse...

Não bateste à porta? Malcriado...

Anónimo disse...

Estando eu nessa altura estava na tropa (Guiné), eis mais uma razão para não perdoar ao MFA não ter esperado por mim para desencadearas operações: é que meu treino militar, ao contrário do vosso, era adequado a esse 'tipo de caça'...

Santiago Macias disse...

Conquista de Abril, indeed...
E apanharam o pide, ao menos?

Isabel Seixas disse...

Estava a pensar que outra das conquistas foi a fixação da emancipação plena aos 18... Daí que se o acordo de sedução foi mútuo...

Anónimo disse...

Conquistas ou "aproveitamentos"? Bom exemplo...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Em serviço???????

Pelos vistos foi nessa altura que começou a tal história da tropa fandanga, e que teve o seu ponto alto naquele juramento de bandeira do Ralis.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Tomaz de Mello Breyner: essa "tropa fandanga" foi a mesma que, com erros e desvios e patetices, deu aos portugueses a liberdade de que hoje dispõem. Tenho um imenso orgulho em ter feito parte dessa "tropa fandanga". As Revoluções não têm só momentos exemplares, têm também "fraquezas" como estas, porque a vida é assim mesmo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Santiago Macias: o pide não apareceu. E, confesso, não sei se, ao menos, aquele fim de tarde deu um romance que se visse.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador,

Permita-me discordar de Vossa Excelência. A Tropa que nos deu a liberdade foi uma tropa disciplinada, coesa, e hierarquizada.

O "abandalhamento" começou no dia 26, com o desleixo na apresentação, com a desobediência aos superiores, com a anarquia instalada nos quarteis, etc

Anónimo disse...

Mas, quantos Pides havia, afinal de contas? Aparece um "inspector", depois um "inspetor", salta novamente para o "inspector" e... outra vez para o "inspetor"? Era o lado bom e o lado mau do pide?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Tomaz de Mello Breyner: olhe que não! olhe que não! Fiz parte das duas e sei do que falo. Posso estar a desiludi-lo, mas eu orgulho-me muito da "tropa fandanga" pós-25 de abril, com toda a "bandalheira" associada. A alegria de abril (que é metade da Revolução) deve-lhe muito. Para além de todos os erros cometidos, é claro (e eu cometi alguns, também, e não os escondo).

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Anónimo das 2.24: tem razão, no "inspector" e no "inspetor". Vossa Excelência é um excelente inspector/inspetor do prestigiado Acordo Ortográfico, como se vê.

Anónimo disse...

e o Cordeiro, sempre apareceu ou não??

Isabel Seixas disse...

Depois a introdução da probabilidade de romance atribui decerto idoneidade ao ato sensorial primário... Satisfatório para os envolvidos, isto se as expressões encontradas tiveram conotação e relato fidedigno, afastando por estorvo observações moralistas que provocam anedonia.

Agora é sem dúvida de muita coragem espontãnea admitir sem hipocrisias os resultados de estadios de alegria intensa.

Anónimo disse...

Andaram a enganar este tempo todo... e insistem... Afinal os pides em "cordeiros" e até tinham capuchinhos vermelhos que eram comidos pelos lobos maus...

Anónimo disse...

Tal como na vida real, há sempre um "inspector" que escapa...

patricio branco disse...

a caça ao pide era uma diversão nesses dias, desde a mais seria e perigosa na a m cardoso, a outros sitios onde viviam ou se podiam esconder. em sete rios, junto ao jardim zoologico havia a escola deles, um edificio apalaçado que hoje já não existe. era como que a escola tecnica deles, onde aprendiam a profissão e os metodos, etc, até passarem à pratica. lá para o dia 27 esse edificio estava cercado de militares que depois entraram para o revistar. uma multidão fora seguia os acontecimentos na expectativa de se encontrar caça na toca. corriam vozes, parece que há alguns lá dentro, etc. ao fim de umas 2 horas abandonei o local, nenhum foi apanhado lá.
a historia do post é divertida, podia dizer se que foram 2 coelhos duma cajadada, sentido pratico o do rapaz, e de assegurar protecção oferecendo algo a da filha do pide.

Anónimo disse...

A coisa terá sido do tipo: "se me deres miminhos eu deixo escapar o teu pai?"

Anónimo disse...

Bela foto, que mostra bem esse tempo. Onde diabo a arranjou?

CSC

Anónimo disse...

Bela estória. Pena que não tenha feito um desenho, para que sua senhoria Thomazz de Mello Breyyner perceba sem nos irritar/chatear.
Luíz Travassos ( com dois esses, antes do AO dos anos cinqoenta era com ç).

Isabel Seixas disse...

Pre liminares

De qualquer forma fica muita questão por responder...

Quem exerceu o poder efetivo no espaço?

Houve o cuidado da contraceção?

Há algum momento durante o ato em que o profissional abstraido consegue ou não clarificar, codificando, sons indiciadores de resposta aos seus impulsos?

Os gemidos não seriam do procurado pseudoescondido debaixo da cama,coitado ...?

Ambos eram solteiros?!...

Era uma cama D. Maria em castanho velho?

O quarto tinha casa de banho privativa?

Já se afigurava legislação de cessação tabágica em recintos fechados?...

A mocita era bonita?

Anónimo disse...

Oh não! O ataque das "estórias"!!!

Anónimo disse...

Querem saber onde é que está o "inspector"? Está entre o "caso" e o "entretanto". Agarrem-no!

Francisco Seixas da Costa disse...

Para os muito atentos comentadores: de facto, este texto havia sido redigido há já alguns anos, no tempo em que os "inspectores" ainda tinham um "c", embora já não tivessem esse emprego. Agora, com o estimável Acordo Ortográfico, os "inspectores" perderam também o "c", o que também aconteceu a todosos "directores".

Quanto às personagens da historieta (e não da "estória", palavra com que também embirro, confesso), não sei o que foi feito do "Cordeiro", vislumbrei o "Silvestre" há uns anos numa cerimónia e nunca mais ouvi falar do "Branco". É a vida...

Anónimo disse...

Embora tenham passado já cerca de 38 anos, o acto configura, em minha modesta opinião,uma absolutamente reprovável conduta, considerando as condições de coacção que a abordagem das "Forças Armadas" à habitação parece indiciar. Não tenho dúvidas que,caso tal sucedesse hoje, na Guiné, por exemplo, a comunidade mundial trataria o caso como uma reprovável violação, própria de sociedades muito pouco democráticas e sem respeito pelos direitos humanos. Surpreende-me, Sr embaixador que, tendo presenciado, não tenha denunciado, então, tão reprovável acto de assédio sexual, considerando as circunstâncias da aboradagem à habitação e pessoas efectuada. Sem mais comentários....
C Pinto

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro C Pinto: eu já estava admirado que um comentário com este tom moralista não tivesse aparecido. Ele aí está!

Isabel Seixas disse...

O 25 de abril e a insustentável leveza da sexualidade

Daí que contra ventos e marés
há uma quimica que transcende o óbvio
insinua-se despromove juizes
ensina quem é genuino e ó se és
dilui pedantismo moralista e pacóvio
e concebe momentos de si felizes


Depois há inveja recalcada
daquela miserabilista
que por si não alicia a nada
socorre-se do virtualismo publico
e do vicio debaixo da cama
escondido como pecado,
amordaça a naturalidade e espreita
como beata assanhada
só de si por isso mal amada
vingando-se alcoviteira e clama
com veneno a incapacidade de ser humana,,, Pfffff...

Eu adorei este post,não só pela forma como pelo conteúdo.

Helena Oneto disse...

Houve conquistas e alianças e esta é particular e surpreendentemente deliciosa:)!

Anónimo disse...

Portugal está a saque ! mas parece que há gente que vive na lua ou em condomínios fechados e não tem de usar transportes públicos e pode ter os seus rebentos em escolas fora do convívio dos pobres dos outros que tanto temos importado nos últimos anos , mas temos ou não temos mais liberdade ? vivemos ou não vivemos melhor ? estamos ou não estamos melhor ? cavaram a cova e assobiam agora para o lado !