domingo, 1 de abril de 2012

O dia das verdades

Por razões que julgo óbvias, não me agrada muito a utilização do termo "resgate", aplicado ao acordo de ajuda internacional de que Portugal beneficia. Porém, segundo o léxico jornalístico, é essa a figura a que o nosso país se viu obrigado a recorrer, há cerca de um ano, no auge de uma complexa situação financeira, num cenário de tensão social e política interna, que conduziu a eleições legislativas antecipadas. 

O jornal "Público" tenta, na sua edição de hoje, fazer a história possível desse período político, desenhando, pela coleta de testemunhos e pela produção de inferências, o que terão sido esses agitados dias no seio das nossas instituições e contactos externos.

O interesse em explorar a história imediata é sempre muito grande e compreensível. Mas porque não existe uma suficiente distância no tempo, porque haverá atores e figurantes que ainda guardam as suas cartas junto ao peito, porque as versões dos factos não são neutrais face ao jogo político, esse esforço de leitura corre sempre o imenso risco de ser parcelar e lacunar e, por essa via, de ficar aquém do rigor descritivo e interpretativo que seria, não só desejável, mas eventualmente mais próximo da realidade dos factos. Essa é a sina eterna do jornalismo e dos jornalistas, que alguém já qualificou como os "impacientes da História". No entanto, essa limitação não desvaloriza a recolha de dados feita, bem como a mostra do confronto de perspetivas.

Daqui a alguns anos, a história diplomática portuguesa, recolhida em capitais por onde passaram algumas das decisões que também ajudaram a formatar o saldo desses dias, poderá vir a dar a sua contribuição para tornar bastante mais nítido esse mesmo retrato, quiçá conferindo-lhe inesperadas cores e fazendo surgir, sobre a paisagem de fundo, novos matizes em eventos e factos que, por ora, estão apenas desenhados a traços grossos. Esse dia, porém, está ainda bastante longe de ter chegado.

26 comentários:

Mônica disse...

senhor embaixador
uma hora acontecerá uma coisa excelente para Portugal
com carinho e amizade de monica

Anónimo disse...

Coleta – Trança de cabelo que os toureiros espanhóis usam na parte posterior da cabeça.
Colectar – Tributar; lançar uma contribuição sobre; designar quota (v. refl., fazer colecta entre si)
Coletando - ? ? ?
"Dicionário da Língua Portuguesa" (a título de esclarecimento!)

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 23.05: cumpre-me informá-lo, por esta via, que a palavra "colecta", segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que está a ser ensinado em todas as escolas portuguesas e que orienta a correspondência oficial e o "Diário da Repúblicaa", perde o "c" antes do "t". É a vida. meu caro! Quanto ao dicionário que refere, ele será corrigido com o tempo, não se preocupe.

voz a 0 db disse...

O pessoal ainda não se abituou a ter qe iscrever como fála...

De resto já nada me preocupa... Sei que somos um Povo de mãos largas e bolsos recheados pois estamos sempre disponíveis para despejar mais de €8.000.000.000 num banco privado com a desculpa alucinada de "risco sistémico" que os políticos e seus lacaios souberam berrar a plenos pulmões. E não, não sou eu (voz a zero bel) que o diz, basta ver aqui...
A generosidade é tal que agora o vendemos por €40.000.000 e ainda estamos gratos pois o TRABALHO para uns quantos escravos fica assegurado...

No "dia das mentira" é tão satisfatório escrever verdades!

(P.T.: Para a Senhora Mônica... A coisa excelente para Portugal já aconteceu! Perdemos a Soberania e agora temos finalmente o nosso Futuro entregue aos Mercados Financeiros e à Banca Privada Estrangeira... quer melhor?)

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Não será certamente no seu tempo e desejo-lhe longos anos de vida.
Por maioria de razão vou morrer sem ter essa imagem da verdade. E digo imagem porque a verdade, essa, nunca se saberá!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: mas concordará comigo em como, por esse tempo, algumas surpresas surgirão. Terá graça, aliás, medir os factos à luz da importância histórica que as personalidades neles envolvidas virão a ter - já não digo "nos livros de História", porque já não haverá disso, mas nos modelos virtuais de representação da memória coletiva que, nessa época, estivem em voga.

Alcipe disse...

"En este mundo traidor
nada es verdad ni mentira,
todo es según el color
del cristal con que se mira."

(Ramón de Campoamor)

Anónimo disse...

Pelo que diz Manuel A. Pina no JN, o dia das verdades não existe.
Existem, pelos vistos, 365 dias de mentiras “pegadas”, que os tais atores e figurantes nos impingem.
A verdade está aí à vista: desgoverno.
Mas eles continuam a dizer que nós, os comuns, é que não nos sabemos governar…
Que mais verdade haverá, que se necessite de saber?

Anónimo disse...

O tempo….
O tempo o dirá. A verdade virá ao de cima com o tempo. Muitas coisas serão esclarecidas com o tempo. A história só pode ser escrita depois de coada pelo tempo.
Por isso, até lá, nada mais nos resta que esperar para, segundo se lê nas suas entrelinhas, ficar a conhecer muitos factos novos que poderão reescrever as coisas.
Pena que o tempo não seja o mesmo para tudo.
Porque:
- para cortar o salário, o tempo foi célere em chegar;
- para cortar os 12º e 13º meses, o tempo também já chegou;
- para pagarmos 50 bilhões de Euros das PPP’s - só referentes à parte fixa, pois a variável pode ser superior – o tempo termina em 2050;
- para pagar os desmandes da Parque Escolar, o tempo já chegou;
- para pagar a gestão danosa das Parpúblicas da vida, o tempo é agora;
- para saldar todas as consequências das más gestões e mordomias de todos os gestores de empresas municipais, o tempo é já;
- o tempo daqueles que se serviram da sua posição no governo do país para preparar o seu futuro com salários multimilionários na privada, é o presente.
E esperemos que o tempo “não há dinheiro para reformas” nunca chegue.
Porque aquilo que a história nos vai mostrar daqui a 50 ou 100 anos, sinceramente não me interessa nada. Até porque nem vou ler.
O tempo de quem trabalha ou de quem está desempregado, é agora.
E deste tempo, caro Embaixador, quem trata dele? Será que a história se vai preocupar com ele?
Será que o tempo de identificar e fazer pagar os responsáveis vai chegar alguma vez?
Afinal, parece que o tempo não é o mesmo para todos.
JR

Isabel Seixas disse...

De facto
Dia das verdades...
Soa a algo tipo dia de juizo ...final?!

bem oportuna de bem contextualizada , a meu ver,a citação de Ramón de Campoamor

y por si acaso...


Las cadenas de la esclavitud solamente atan las manos:
es la mente lo que hace al hombre libre o esclavo.

Franz Grillparzer (1791-1872) Dramaturgo austriaco.


La libertad no consiste en hacer lo que se quiere, sino en hacer lo que se debe.
(Ramón de Campoamor)

Anónimo disse...

Eu não sei mas... "Veritas filia temporis" já diziam os romanos. Há duas correntes de Hisória. História crítica e História ciência. No entanto sabemos que o historiador tenta sempre aproximar-se o mais possivel da verdade do fenómeno a observar. No caso deste "resgate" o que é importante neste momento é estancar a sangria que se deu e... aprender de forma que não se repita tão cedo. Tudo o resto pode ser especulação ou mesmo propaganda. Os jornais podem ser importantes se soubermos quais as vizões do mundo que defendem para os sabermos ler convenientemente, mas de tudo isto ... eu nada sei

Anónimo disse...

Os Austríacos escreviam em espanhol???

Helena Sacadura Cabral disse...

Estamos de acordo Senhor Embaixador, quanto a isso. Aliás, deixe-me confessar-lhe, por vezes, rio-me de mim e de si. Permita-me a ousadia, mas
explico-me.
Sendo nós, ao que parece, de quadrantes políticos diferentes- eu apenas sei que nem a direita me aquece, nem o centro me interessa, nem a esquerda me esfria -, tirando pequenos pormenores como o AO e a sua simpatia por algumas pessoas de quem não gosto, no essencial não ando longe daquilo em que acredita. O que me causa um terno sorriso. Ou já ambos vivemos muito - e eu tive e tenho, de facto, uma vida muito diversa das mulheres da minha geração -, ou as ideologias dividem hoje muito menos do que antes acontecia!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Alcipe
Eu que ando agarrada ao Afonso Henriques há mais de um mês - o que convirá, só a mim pode entusiasmar -, numa época em que a verdade e a mentira se misturavam a bel prazer das conveniências, soltei uma gargalhada com esta sua tão oportuna escolha...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: de há muito que me habituei a classificar (diria melhor, a qualificar) as pessoas, não de acordo com as suas lateralizações ideológicas mas, essencialmente, com os princípios que seguem e o modo como com eles são (ou não) coerentes. Além disso, porque alimento da vida um sentido muito lúdico, tenho a terrível tendência em não levar muito a sério os grandes "engajamentos" (esta palavra não deve aparecer no léxico do AO por que clama o VGM) e me rir deles. Simplifiquemos, pois, o mundo, com otimismo (perdeu-se o "p", desculpe lá!) e boa disposição.

Anónimo disse...

O Afonso Henriques, Helena? Olhe que Afonso II, o Gordo, era bem mais fofinho...

a) Lili Cai Nessa

patricio branco disse...

as intrigas palacianas são mais interessantes e picantes do que o que foi finalmente decidido e decretado. e estas noticias vendem o ou os jornais.

Anónimo disse...

Também não posso deixar de concordar com o post (comentário) do meu Caro JR. De facto, o tempo na maior parte das vezes só serve para deturpar a História. Basta ver o que se passou com o 25 de Abril e os principais eventos a ele ligados.
Admito que o tempo possa ter interesse para outros aspectos. Um exemplo: há agora uma corrente da historiografia alemã, que nem vou qualificar, que defende a tese de que a invasão da URSS foi...para neutralizar uma invasão da Alemanha que Estaline se preparava para fazer.
Obviamente que ninguém minimamente sério acredita nisto com ou sem fontes que aparentemente o confirme.
É apesar de tudo mais sério, já que assume o seu reaccionarismo sem rodeios, dizer o que E. Nolte diz: que o nazismo só existiu como resposta ao comunismo, devendo nesse contexto ser entendido.
Enfim, a história está cheia de aldrabões. Mas os factos, os factos que nós vivemos, esses não mentem.
Muitas vezes esses documentos a que alude FSC são interessantes e até curiosos, mas não tenha ideia da sua grande importância na história contemporânea. Eles não alteram o rumo da História.
Outro exemplo: é interessante conhecer as conversas entre Nixon e Mao e entre Kissinger e os dirigentes chineses. Algumas são mesmo muito interessantes porque têm graça. Mas há alguma delas que lance uma nova luz sobre o que nós já conhecíamos? Não, não há. Toda a gente à época percebeu que estava em curso uma aliança táctica entre a China e os Estados Unidos. E isso é que era verdadeiramente importante.
A descoberta de factos que se não conheciam é muito mais importante relativamente a épocas em que os documentos eram escassos. Porque nesse caso acrescentam algo ao nosso conhecimento e permite-nos, exactamente por passarmos a conhecer o que antes desconhecíamos, fazer uma interpretação diferente do que julgávamos, com base em hipóteses, ter acontecido.
Mais um exemplo: o que venha a saber-se sobre Mahomed Merah é importante, porque não se sabe quase nada dele, a não ser a trágica consequência dos seus actos criminosos e a subida nas sondagens do candidato-presidente depois da sua actuação face à ocorrência….
Também escrevi sobre o artigo de Cristina Ferreira antes de ter conhecimento deste post...
Um abraço ao A do post.
CP

Anónimo disse...

Também não posso deixar de concordar com o post (comentário) do meu Caro JR. De facto, o tempo na maior parte das vezes só serve para deturpar a História. Basta ver o que se passou com o 25 de Abril e os principais eventos a ele ligados.
Admito que o tempo possa ter interesse para outros aspectos. Um exemplo: há agora uma corrente da historiografia alemã, que nem vou qualificar, que defende a tese de que a invasão da URSS foi...para neutralizar uma invasão da Alemanha que Estaline se preparava para fazer.
Obviamente que ninguém minimamente sério acredita nisto com ou sem fontes que aparentemente o confirme.
É apesar de tudo mais sério, já que assume o seu reaccionarismo sem rodeios, dizer o que E. Nolte diz: que o nazismo só existiu como resposta ao comunismo, devendo nesse contexto ser entendido.
Enfim, a história está cheia de aldrabões. Mas os factos, os factos que nós vivemos, esses não mentem.
Muitas vezes esses documentos a que alude FSC são interessantes e até curiosos, mas não tenha ideia da sua grande importância na história contemporânea. Eles não alteram o rumo da História.
Outro exemplo: é interessante conhecer as conversas entre Nixon e Mao e entre Kissinger e os dirigentes chineses. Algumas são mesmo muito interessantes porque têm graça. Mas há alguma delas que lance uma nova luz sobre o que nós já conhecíamos? Não, não há. Toda a gente à época percebeu que estava em curso uma aliança táctica entre a China e os Estados Unidos. E isso é que era verdadeiramente importante.
A descoberta de factos que se não conheciam é muito mais importante relativamente a épocas em que os documentos eram escassos. Porque nesse caso acrescentam algo ao nosso conhecimento e permite-nos, exactamente por passarmos a conhecer o que antes desconhecíamos, fazer uma interpretação diferente do que julgávamos, com base em hipóteses, ter acontecido.
Mais um exemplo: o que venha a saber-se sobre Mahomed Merah é importante, porque não se sabe quase nada dele, a não ser a trágica consequência dos seus actos criminosos e a subida nas sondagens do candidato-presidente depois da sua actuação face à ocorrência….
Também escrevi sobre o artigo de Cristina Ferreira antes de ter conhecimento deste post...
Um abraço ao A do post.
CP

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro CP: a História não muda pelo que venha a saber-se dos seus bastidores. O que pode mudar é a credibilidade de algumas histórias.

Anónimo disse...

O caricato é que no dia das mentiras, fazíamos, com gozo, um certo exercício a procurar nos jornais, rádios e tvs as ditas.
Agora, e sem gozo, o exercício é ao contrário...

gherkin disse...

Caríssimo embaixador e amigo:
Jornalistas, "impacients da História"? Porque não sabia, obrigado pela lembraça, desde JORNALISTA PACIENTE, AGIRA INFELIZMENTE NOS DOIS SENTIDOS DO TERMO!
Gilberto Ferraz

Anónimo disse...

Dr. Seichas da Costa, ou Seiquechas (x) da Costa, já que o tal Acordo que me menciona obriga a escrever como se pronuncia,
Grato pela informação,
Seu,
Coleta

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara Lili Cai Nessa
Desagarrei-me hoje do Afonso.
Velha louca como a outra, já estou agarradinha ao D. Diniz...
E ainda há quem julgue que a idade traz bom senso!

Rui Franco disse...

Como sempre, as "graçolas" dos anti AO são de uma extrema pobreza... Que ao menos eles se riam das suas pseudopiadas.

Anónimo disse...

A única verdade que conheço,é a Indignação de Merkel,por termos pedido resgate,e as declaraçoes do actual Governador do Banco de Portugal a confirmar, no parlamento o apoio da Europa ao Pec IV.É de facto muito cedo para sabermos mais verdades,ainda mais quando temos filhos metidos nesta tramoia...