terça-feira, 24 de abril de 2012

Com cravos, sempre!

Correndo o risco de parecer pretensioso, mas atenta a discussão em torno das comemorações do 25 de abril, apetece-me respigar o que aqui publiquei, em 25 de abril de 2010:

"Em Portugal, o 25 de abril é oficialmente celebrado com uma sessão de discursos políticos e partidários na Assembleia da República. Todos os anos, para além da aturada observação jornalística de quem leva ou não um cravo ao peito, a atenção pública volta-se para o tom e exegese dessas intervenções, que invariavelmente utilizam a comemoração abrilista para tratar a realidade da conjuntura política do presente. Assim, aquilo que poderia ser um espaço de proclamação de elegias à liberdade conquistada nessa data acaba por se transformar numa arena de severo combate político, com as diversas leituras de "abril" a servirem de arma de arremesso, mais ou menos subliminares. Julgo que ninguém, com sinceridade, acreditará que essa maratona declaratória contribui, minimamente, para louvar as virtualidades da Revolução e para cativar novas gerações para o culto desse momento fundacional da nossa democracia.

Noutro registo, menos plural e um pouco mais "biaisé", um grupo de muito respeitáveis militares que fizeram a Revolução de abril, acompanhados por figuras da nossa história política (quase sempre já) passada, acolitados por incontornáveis representantes de forças políticas e sindicais de lateralização óbvia, desce a avenida da Liberdade, aí já com total abundância de cravos e com a exibição de slogans que fazem parte do património típico da memória revolucionária. Ninguém negará, contudo, que o tom peculiar dessa manifestação acaba por excluir muitos outros, para quem a memória da Revolução se exprime em moldes mais serenos e menos polítizados. 

Na simples mas inalienável qualidade de cidadão, quero deixar aqui expresso, com a total consciência do peso do que escrevo, que considero que ambos os eventos acabam por funcionar, objetivamente, contra o 25 de Abril. 

Comemorar o 25 de Abril, celebrar essa magnífica Revolução que, por uma vez, quase que fez o milagre impossível de unir o país, deveria consubstanciar-se apenas na organização de festas populares por todo o país, com música, com bailes, com juventude, com alegria e, sempre, sem discursos e sem slogans. Como, aqui em França se faz com o "14 juillet". Ah! e com muitos cravos, para quem os quisesse e os apreciasse. A liberdade também se faz da possibilidade dessa opção. 

Mas que não reste a menor dúvida: nesta data, estive, estou e sempre estarei de cravo vermelho ao peito.".

Amanhã, na Embaixada de Portugal em Paris, reunirei, num almoço, representantes de todas as forças políticas com expressão na Assembleia da nossa República. Os partidos não esgotam a democracia, mas, sem eles, ela não existiria.

14 comentários:

Anónimo disse...

Sempre, sempre!

Jose Martins disse...

Senhor embaixador,
O Povo desempregado e com a barriga a dar horas não dá para dançar e celebrar o 25 de Abril!
Saudações de Bangkok

Anónimo disse...

Festejar Abril, sim Senhor. Com cravos vermelhos bem perfumados, sim Senhor.
Por todo o país, sim Senhor. Também na emigração, sim senhor. 
Já unificar todos os portugueses numa mesma reivindicação me parece mais utópico!
Hoje, as condições de festejar Abril, não são as mesmas para todos os portugueses e, também, nem todos têm aquelas razões prementes para reivindicar de novo a liberdade que abril libertou. 


 

Mariano S.Pedro disse...

Abraço o meu Alferes, com a mesma amizade e muito mais elevada consideraçao pelo seu brilhantismo ao serviço de Portugal, na comemoração da Liberdade.
Soldado-Cadete EPAM 1974.Ferrão Morgado

jmc disse...

Eu diria - apesar deles...

Anónimo disse...

Festas na rua como no "14 juillet"? Com cravos e muita alegria??
Deverá ser proibido, provavelmente pecado ou se calhar fará mal....
Cumprimentos, Sr. Embaixador, gosto muito do seu blogue, do qual sou fiel seguidora desde a primeira semana (e também sou do Sporting....).
Isabel Azevedo

Anónimo disse...

É óbvio que descer a Avenida da Liberdade não vai contra o 25 de Abril.

Da mesma forma, também é natural que, nesse dia, muita gente não se queira manifestar.

António Nunes

Cunha Ribeiro disse...

DUAS OU TRÊS COISAS sobre um HOMEM com espírito de um Abril ainda no adro da sua realização:

- Era um Político frontal, sério, e de ideais democráticos.
- Era um excelente parlamentar;
- Deixa mais pobre o combate político ético.

ARD disse...

A propósito da "discussão em torno das comemorações do 25 de abril", apetece, sr. Embaixador, citar um dos "cantores de abril", Ary dos Santos:



Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

rebecca09 disse...

Sempre comemorada e NUNCA ESQUECIDA, ESSA NOBRE E INESQUECÍVEL DATA! Honra aos HEROIS ainda vivos. HOMENAGEM E GRATIDÃO AOS QUE FIZERAM TÃO INOLVIDÁVEL DATA, MAS CUJA AUSÈNCIA JAMAIS SERÁ ESQUECIDA! Que bom seria que todos os embaixadores fizessem o mesmo! PELO MENOS honra aqueles que ainda O fazem! O abraço de Abril. Gilberto Ferraz

EGR disse...

Senhor Embaixador: inteiramente de acordo com o post de hoje,e viva o 25 de Abril!

Anónimo disse...

Sr.Embaixador, com saudações democráticas, revejo-me no espirito das celebrações que a sua reflexão propõe, que me parece traduzir os valores fundamentais de liberdade, paz e fraternidade. Procuro criar os meus dois filhos nesse espirito. A celebração da Liberdade no nosso Pais tem que ser uma festa, que une um povo e que não tem "donos".

Cada vez mais, desaprendemos a celebrar a vida...

António Pinheiro

Isabel Seixas disse...

Viva o 25 de Abril.

Rui Franco disse...

O 25A sempre me irritou por causa do seu lado folclórico e, até, caricatural. Mas devo dizer que, hoje, até tenho o estômago às voltas com as coisas que tenho lido, escritas por gente nova. Está a formar-se um populismo radical nas cabecinhas jovens que só à lei da bala!

A última que li foi "tudo bem que os meus pais andaram descalços até aos 14 anos mas hoje Portugal é mais atrasado do que Madagáscar!".

Talvez seja do dia chuvoso...