quarta-feira, 13 de junho de 2012

O passaporte

O adido técnico entrou com um ar um tanto comprometido, no meu gabinete daquela embaixada, algures no mundo. Vinha expor-me o que disse ser "um problema", relacionado com o passaporte diplomático da sua mulher. Aparentemente, o excesso de carimbos tinha acabado por ocupar todas as páginas do passaporte, o que tornava difícil a sua utilização. Já não havia espaço para mais carimbos ou vistos.

Eu era então um jovem diplomata e tinha a meu cargo, na embaixada, a emissão e a renovação dos passaportes diplomáticos, nesse tempo longínquo em que isso era feito nos postos, totalmente à mão, sem os preciosismos de segurança que hoje existem. Por isso, sosseguei-o, dizendo que, em poucos minutos, faria um novo passaporte, anulando o anterior. Não via nenhum problema.

- Pois é! Mas há, de facto, um problema, disse-me o adido. É que a minha mulher quer manter este mesmo passaporte, não quer que lhe seja emitido um novo.

Fiquei banzado: por que diabo queria ela o mesmo passaporte? Foi então que o adido, homem agradabilíssimo e excelente colega, algo "encavacado", me explicou:

- Sabe, a minha mulher tem, no passaporte, uma fotografia muito antiga, de que gosta muito e da qual já não tem mais exemplares. Para se fazer um novo passaporte, seria necessário tirar novas fotografias e ela tem a certeza de que não vai ficar muito bem nelas... 

Pedi para ver o passaporte e percebi tudo: a fotografia correspondia a uma jovem belíssima, que a mulher do adido devia ter sido, mas já em tempos idos... Porque a idade não perdoa, a senhora que eu conhecia era bem diferente da jovem da fotografia. Aliás, pensei cá para mim, era de admirar que ainda a deixassem passar nas fronteiras, com uma fotografia tão distante da realidade.

Às vezes, sou um sentimental. E lá inventei (espero que ninguém do SEF leia isto) uma folha suplementar que fiz acrescer ao passaporte, dando mais algum tempo àquele título de viagem e, dessa forma, contribuindo para prolongar também a nostalgia estética da sua titular, ao olhar-se ao espelho.

13 comentários:

EGR disse...

Senhor Embaixador: ainda bem que é um sentimental; quanto ao SEF,atento o número de leitores deste blog,já não me parece improvavel que alguém leia o que nos conta.
Esperemos que, se assim acontecer,seja também um sentimental.

papoila disse...

Vaidades que não fazem mal a ninguém.Ainda bem que lhe deu essa grande alegria.

António P. disse...

Caro Embaixador,
Outros tempso.
Quantos não terão histórias semelhantes? Eu, p. ex., tenho e apesar de não ser, não ter sido e não esperar vir a ser diplomata ou adido tenho uma semelhante.
Talvez a conte um dia, lá na minha tasca, esperando, como diz o EGR, que os SEF's sejam uns sentimentalões :)
Cumprimentos

Helena Sacadura Cabral disse...

Fez bem Senhor Embaixador, porque a realidade nunca é como nós a vemos!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Apoio EGR - apraz-me saber que continua um sentimental.

Quanto ao SEF , se ainda lhes resta tempo para ler blogues, esperemos que tomem o gosto pela leitura, vao ler Cesario - "O Sentimento dum Ocidental" - noites em claro a soletrar, decifrar, meditar. Daqui a apanhar o vicio da poesia vai um passo curto, perigoso...

Saudades de Londres

F. Crabtree

Isabel Seixas disse...

"Saudade estética"... In FSC

Estava a pensar o quanto seria emergente, neste contexto, fazer a exérese do singular da mulher neste plural generalista de Homem...

Depois fiquei ambivalente entre a filosofia ;
(...)
" A verdade é, como diz Feuerbach, o homem em sua essência"

"Para Hegel a verdade é a união entre essência e aparência da coisa"

" em Marx é a verdade como sendo o homem real agindo sobre a realidade, transformando-a. "

(...)



e a psicologia

Certamente, a idade necessária para ser reconhecido (ou acusado) como velho mudou, o preconceito não.(...)
(Ainda não!...)

Uma excelente proposta de reflexão...(implicita no post)

Mas prefiro incondicionalmente a poesia


....................................................
Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.
Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?
Há muito tempo suspeitei o velho em mim.
Ainda criança já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.
Mas se pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração.
Meu grito, minha fome...Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.
..............................................
Que confusão de coisas no crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimos, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:
uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,
mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho na piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão
tal, uma inteligência do universo.
Comprada em sal, em rugas, em cabelo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
“Versos à Boca da Noite”

Daí que ainda bem que a sra. teve compreensão na sua individualidade , parabéns.

PS(Perdoe-me a falta de sintese)

Anónimo disse...

As páginas do meu passaporte sempre tiveram espaço suficiente para receber os devidos vistos para quando precisei de viajar. Também a minha fotografia, mesmo imberbe, nunca foi problema. Já um carimbo que escarrapachava a minha entrada e saida na ex-jugoslávia em 68 fez franzir o sobrolho a certo policia à paisana na fronteira portuguesa quando ali passei com aquele carimbo ainda fresquinho...
José Barros
 

Catinga disse...

Sempre me fez espécie o cuidado que os funcionários das alfândegas têm em carimbar os passaportes da forma mais caótica que for possível.

Anónimo disse...

Só de pensar, por esta história, ao que esse adido terá sido sujeito, para além desta, fica-se horrorizado…
Bem! Horrorizado? Olhe-se, entretanto, para cada um… (ao menos que tenha valido a pena…)

Anónimo disse...

Com esta atitude de exaltação e contemplação da beleza feminina, o Senhor Embaixador" apanhava "excelente relevante" do novo Governo francês, que acabou de produzir novas leis pelo "respeitinho" que se tiver ou não pelas senhoras, no desempenho laboral do dia-a-dia...

gherkin disse...

Simpatiquíssimo! MAS PERGUNTO: Estaria o SEF desculdadio, ou, possivelmente, tambem sentimental?
Se, assim foi, quem estaria a DORMIR foram os funcionários dos Seviços de Emigração! SENTIMENTALÕES!
Gilberto Ferraz

abracadabra disse...

Já que o mote é franquezas sobre fraquezas, aqui confesso que também eu conservei para além do seu prazo de validade uma espécie de passaporte/bilhete de identidade do Moçambique colonial só porque registava que eu tinha olhos garços! rsrs
(Ecce homo!)

Anónimo disse...

caro anonimo do 12:39

as leis do governo frances nem sempre se aplicam


merkel