segunda-feira, 4 de junho de 2012

Esquizofrenia

Sinto haver algum esquizofrenia no discurso da nossa comunicação social, quando se trata de abordar a questão do investimento estrangeiro em Portugal.

Por um lado, clama-se pela necessidade de ser criado um ambiente para o bom acolhimento dos capitais externos, como forma de carrear para a economia portuguesa fundos e massa crítica que permitam induzir crescimento e competitividade. Nessa perspetiva, diz-se ser imperioso adequar o nosso quadro legal laboral, por forma a flexibilizar o mercado de trabalho, garantindo, ao mesmo tempo, ganhos de eficácia no sistema judicial, na administração pública e em outros setores nos quais os investidores estrangeiros detetam ainda fragilidades, reduzindo-lhes a apetência para aqui operarem.

Porém, com estranha frequência, às vezes nos mesmíssimos jornais onde o que acima refiro é defendido com ardor e zelo liberal, encontro alertas e até algum pânico sobre os efeitos que a entrada maciça de capital exterior pode trazer para a economia nacional, pela perda dos centros de decisão, pelas consequências deletérias que a expansão de certos investidores estrangeiros no tecido empresarial português pode vir ter, com consequências mesmo nos equilíbrios do nosso sistema político. A tudo isto se aliam, não raramente, algumas teorias conspirativas, muitas vezes ligadas a preconceitos face aos regimes e países de onde esses capitais são originários.

Quando se disputa um jogo, aceitam-se todas as suas regras. Ou, então, não se vai a jogo. E as regras da economia liberal, boas ou más, são as que são. Podemos estar em desacordo com elas e recusá-las, cabendo então colocar sobre a mesa as alternativas que devem ser seguidas. O que não se pode é querer ter "sol na eira e chuva no nabal".

8 comentários:

Isabel Seixas disse...

Quando se disputa um jogo, aceitam-se todas as suas regras. Ou, então, não se vai a jogo. In FSC

Todas?!
Assim há pouca probabilidade de discenso, estou a pensar se será de aceitar, ou ir...

domingos disse...

Dantes havia a ideia de definir os setores estratégicos da nossa economia, que seriam reservados para o estado ou, no mínimo, para grupos nacionais, e o resto era para quem tivesse unhas. O problema, hoje, é definir o que é uma empresa estrangeira: é pela origem do capital? É pela nacionalidade dos gestores? É pelo país da sua sede? Nada me garante que um investidor ou administrador português de uma empresa defenda interesses portugueses, princípio que poder-se-ia aplicar também a um Comissário da UE. E o que é mais: que sentido terá hoje essa discussão, numa Europa que caminha para um federalismo que, gostemos ou não, vai reformatar o conceito de nacionalidade?

Alain Demoustier disse...

certissimo, um pouso de logica e coerencia nunca fizeram mal

Anónimo disse...

Muitos jornalistas defenderam que tudo deveria passar para "toda a liberalização possível". Agora,se alguém se atravessa a "namorar" aquilo que acham que deve ficar na alçada do Estado, aqui d'el Rei, que querem o nosso ouro... E, ficam logo "no mato sem cachorro". Ao menos se eles soubessem, que há momentos em que não se pode pôr em prática determinados dogmos ou princípios ideológicos, depois de ganhas as eleições... Enfim, puseram-se a jeito e, se calhar estão como o título deste post, escolhido pelo Senhor Embaixador. Cá por mim, que nunca vi com bons olhos meterem a TAP, no saco das liberalizações, no dia em que isso ocorrer não falarei com ninguém, como sinal de recolhimento e de luto!

Helena Sacadura Cabral disse...

Na "mouche", Senhor Embaixador!

Anónimo disse...

Na generalidade os alcaloides têm poderes curativos quando não exagerados nas suas doses.

Anónimo disse...

Está tudo dito. O resto é especulação ou procura de portagonismo. Mas... eu não sei.

Portugalredecouvertes disse...

Na minha opinião, isso são receios que cabem seguramente a um país pequeno, sempre em perigo de desaparecer do mapa!
As tais cautelas, para não falar nos caldos de galinha