terça-feira, janeiro 26, 2010

A sombra

Quem eu fui há vinte anos
veio hoje tomar-me do braço e perguntou:
o que fizeste de mim?

Respondi-lhe: fiz tudo quanto deixaste
que eu pudesse fazer.

A sombra sorriu de troça.
E desapareceu.

(Ainda preciso de desculpas
para tudo o que não fiz). 

Luis Filipe Castro Mendes

Poema, com contribuição de memória parisiense, no excelente Tim Tim no Tibet

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Lusos


Devíamos ter desconfiado. Por aquele preço, uma viagem Oslo-Paris e volta, com uma semana de hotel, não podia augurar grande coisa. E a prova aí estava: o Hotel des Messageries, na rue des Messageries, a que acabáramos de chegar, num autocarro ido do longínquo aeroporto de Beauvais, onde o charter pousara, era absolutamente infrequentável, mesmo que só por uma noite.

O bando de noruegueses que nos acompanhava parecia de tal modo deslumbrado com a cidade que nem notava a flagrante falta de qualidade do soit-disant hotel. A julgar pelos caixotes cheios de garrafas vazias que enchiam a portaria, despojos do grupo anterior que regressara a Oslo no nosso avião, a semana nórdica em Paris iria ter uma predominante componente etílica.

Por isso, o problema era apenas nosso. Colocámos a questão ao guia norueguês, solicitando-lhe ajuda para encontrar um alojamento alternativo, naturalmente pagando algum diferencial de preço. Acomodada que foi a excursão "viking", conduziu-nos, alguns quarteirões adiante, a um outro hotel. Tinha muito melhor aspeto, vi que aceitavam "American Express", o que me pareceu ser, desde logo, um bom sinal.

Mas a desilusão foi imediata: estavam completamente cheios. O cavalheiro da recepção foi seco e peremptório. Explicou-nos que havia clientes em espera, para a improvável hipótese de vir a surgir uma vaga. Depois de alguma insistência, o guia norueguês, simpático e prestável, confessou-se impotente para, nessa manhã de domingo, resolver o nosso problema. Talvez segunda-feira se conseguisse algo...

Lembrei-me de tentar, eu próprio, obter uma vaga em algum dos hotéis parisienses que conhecia. E pedi ao recepcionista se podia guardar a nossa mala, apenas por umas horas. Deu-me um recibo e tomou nota do meu nome. Ao ouvi-lo, perguntou: "Vous êtes portugais, par hasard?".

Quando disse que sim, a cara do homem, até então seca e formal, abriu-se num sorriso. E o nosso excelente senhor Correia, de Balsemão, perto de Lamego, sossegou-nos: "Sr. Costa, vou-lhe dar o quarto 322. Tem pouca vista, mas é o que se pode arranjar".

O curto diálogo teve lugar perante a incomprensão do guia, que passou de perplexo a quase ofendido, quando viu a chave de um quarto na minha mão. Tentou "tirar satisfações" ao recepcionista: então, perante a anterior démarche dele, não havia nenhum quarto e agora, depois de um minuto de conversa numa língua bizarra, o quarto já aparecia?! Expliquei, como pude, que aquela fora uma solução que emergira de uma vetusta solidariedade lusitana, quiçá incompreensível à luz da righteousness nórdica.

Durante essa semana em Paris, o senhor Correia, que "fazia" os domingos e as noites, passou a aguardar-nos para uma charla no hall do hotel.

Há uns tempos, num fim de semana, passámos pela área. O Hotel des Messageries desapareceu, o que muito terá "debilitado" o património de apoio turístico em Paris... Mas ainda não conseguimos descortinar o hotel onde o senhor Correia nos arranjou o miraculoso quarto.

Como esta história se passou há precisamente 30 anos, presumo que o senhor Correia tenha regressado a Balsemão, onde lhe desejo uma ótima e merecida reforma.

Jorge Molder


Esta é uma ocasião única que a Fundação Gulbenkian nos oferece para apreciar um vasto conjunto de obras fotográficas de Jorge Molder. A exposição foi há pouco inaugurada no seu Centro Cultural em Paris, com a presença do autor.

São três tempos diferentes e complementares do trabalho do artista que nos são apresentados, o mais recente dos quais é a sua colorida "interpretação dos sonhos" - em letra minúscula,  para não se confundir com a obra homónima de Freud, como ironizou o próprio Molder.

São trabalhos poderosos, com grande intensidade dramática, onde predomina o jogo preto-e-branco a que Molder nos habituou, com magníficas expressões de movimento, algumas "memórias" do cinema e uma sempre muito imaginativa exploração dos espaços. Pelo menos, foi assim que eu vi as coisas.

Uma grande exposição, uma excelente "marca" da cultura portuguesa, que uma vez mais ficamos a dever ao magnífico trabalho que a Gulbenkian faz em Paris.

domingo, janeiro 24, 2010

Exportação


Termina amanhã, perto de Paris, a "Maison & Object," uma das mais importantes feiras profissionais de produtos de mobiliário e decoração, realizadas em todo o mundo. Portugal é o 7º país com mais expositores (acreditem!), tendo aumentado substancialmente a sua presença, face a anos anteriores. A direção da feira, que é conhecida por fazer uma exigente e quase cruel seleção dos candidatos, disse-me estar altamente surpreendida com o crescente nível da oferta portuguesa.

Também a mim me impressionou muito a qualidade dos stands e dos produtos portugueses, bem como a atitude profissional dos empresário presentes. Há um novo ou renovado Portugal industrial que é preciso continuar a ajudar a promover, como hoje o faz a AICEP, em aliança com as associações sectoriais. Até porque esse mesmo Portugal, pelo prestígio externo de que já disfruta, constitui parte da nossa própria nova "cara" no mundo.

Sei que vou em contra-corrente ao vento de tragédia que alimenta algum colunismo luso, mas quero dizer que encontrei por lá, nas cerca de 30 empresas cujos stands visitei, dentre as quase 60 que aqui vieram representar a indústria portuguesa, um espírito de saudável otimismo. Com certeza que não é exemplo que se possa generalizar, mas um dos industriais com quem falei, ao ter-lhe perguntado como via as expectativas de saídas para a crise, disse-me, com o sotaque nortenho da maioria, apenas isto: "Que se fale menos e se trabalhe mais". Apeteceu-me vê-lo no "Prós e Contras".

Obama


Um ano passou sobre a eleição de Barack Obama. As discussões sobre o "saldo" destes primeiros meses provam que o novo presidente americano é uma óbvia vítima da elevada expectativa que criou à sua volta.

Se tivesse sido John Mc'Cain a ganhar, muito provavelmente não estaria a ser "cobrado" como agora acontece com Obama, em quem se concentraram esperanças de cura de todos os males da América. E até do mundo.

Reconheça-se que muitas coisas não correram bem, até agora. Algumas delas relevam da insuperada rigidez do sistema americano, como a reforma da saúde ou o imbróglio sobre Guantánamo, a que acrescem os efeitos da crise económica. Outras derivam de uma situação internacional onde os EUA descobrem os limites para que a sua influência e o seu voluntarismo sejam determinantes, como no caso de Israel, ou que não bastam tropas para ganhar as guerras, como acontece no Iraque ou no Afeganistão. 

A constatação de algum desapontamento neste primeiro ano de mandato do presidente americano, tanto na sua opinião pública como no exterior, não nos deve levar a conclusões apressadas. George W. Bush começou bem alto nas sondagens e acabou como acabou. Obama poderia repetir Mark Twain, dizendo que as notícias sobre a sua morte política são muito exageradas. Por muito que isso contrarie os seus adversários.

sábado, janeiro 23, 2010

Luis de Sousa Rebelo (1923 -2010)

Leio que entrou para o Partido Comunista no ano em que eu nasci. Era um homem sereno, com um sorriso simpático e uma fantástica e viva erudição. Durante muito tempo, foi para mim apenas o nome que, em cada ano, assinava textos sobre Portugal nos volumes de atualização da "Encyclopedia Britannica". Vim depois a inteirar-me da sua excelente carreira académica, com uma cátedra no King's College, onde trabalhou 36 anos. Com também vim a saber, anos mais tarde, através dessa curiosa figura do Portugal londrino que foi António de Figueiredo, que Luis de Sousa Rebelo foi uma das figuras centrais na elaboração do "Portuguese and Anticolonial Bulletin".

Quando vivi em Londres, foi-me um dia apresentado por Bartolomeu Cid dos Santos. A partir daí, passei a encontrá-lo com alguma frequência, muitas vezes na companhia de Hélder Macedo e de Eugénio Lisboa, dois dos seus amigos mais próximos. Habituei-me a admirar a sua palavra doce e a sua ironia fina. Além de umas passagens de ano em casa do Bartolomeu, em Sintra, juntaram-nos também jantaradas anuais da Crabtree Foundation, em Londres. Da última vez que o vi, senti-o já irremediavelmente frágil.

Luis de Sousa Rebelo teve uma carreira académica de grande mérito, como ensaísta, tradutor e crítico literário. Passou grande parte da vida no Reino Unido. Morreu há dias, em Portugal.

e-book


Um amigo brasileiro, diplomata e prolífico escritor da área das relações internacionais, mandou-me um convite para o "lançamento virtual", hoje, de um seu e-book, isto é, um livro em edição eletrónica, que pode ser adquirido aqui. A sessão tem como ponto alto um "chat" com o autor, a ter lugar aqui. Para o convite ser completo, só não fica clara a forma como poderemos ter acessos aos salgadinhos que estas ocasiões sempre proporcionam.

O mundo muda muito...

Distância

 
O suplemento "Weekend" do "Económico", de hoje, traz uma longa entrevista comigo, concedida há mais de um mês - sobre a diplomacia e sobre muitas outras coisas da vida corrente. Vejo no "site" a minha foto lado-a-lado com o popular pugilista leonino Sá Pinto, escolha editorial, no mínimo, curiosa.

Não conseguindo "abrir" o jornal à distância, resta-me aguardar, daqui a dias, a chegada do texto em papel. É uma sensação um pouco estranha: ser responsável por declarações que outros podem ler e de que eu já quase me não lembro...

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Condecorações


Ontem, ao final da tarde, procedi à entrega das insígnias da Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique ao Dr. José António Ribeiro Monteiro, uma personalidade portuguesa, residente em Paris, que se destacou na área académica e empresarial e cujo perfil profissional e pessoal foi considerado pelo Presidente da República, sob proposta do Governo, como merecedor de destaque e de distinção pelo Estado. Um condecoração merecida e justa, que ressoa o lema histórico do Infante: "talent de bien faire".

Cada vez acho mais importante que este tipo de reconhecimento do Estado português seja feito com grande rigor e com fortes critérios seletivos, a fim de ficar garantido, na memória comum, que o gesto tem significado e não constitui um mero sinal de natureza protocolar. As condecoração são, de certo modo, a forma contemporânea de nobilitação. Devem, por essa razão, corresponder a uma leitura muito ponderada das qualidades daqueles a quem são atribuídas e, muito em especial, da contribuição por eles dada ao prestígio da comunidade que os distingue.

Identidade nacional

O debate sobre a identidade nacional, que o governo francês estimulou nos últimos tempos, tem aqui sido objecto de tomadas de posição muito contrastantes.

Para alguns sectores, tal discussão comporta o risco de derivas no sentido do isolamento de comunidades de origem estrangeira cujas expressões culturais públicas se afastam daquilo que a França tradicional tem por "norma". Nessa perspectiva, as comunidades muçulmanas aparecem como as primeiras visadas e a tentação do apelo a políticas mais restritivas à imigração acabará por ser a resultante final do exercício.

O governo assume uma outra perspectiva. Na sua ideia, é importante tentar identificar aquilo que entretanto mudou na sociedade francesa, permeada por imigrações de várias origens, hoje marcada por expressões sócio-culturais muito diversas oriundas de núcleos de cidadãos nascidos já em França. Essa identificação é feita em paralelo com o sublinhar dos elementos que se entendam relevantes para a fixação de uma matriz identitária, histórico-cultural, colada à especificidade de "ser francês".

Como pano de fundo para esta discussão está a tomada de consciência, para muitos franceses, de que o país onde nasceram era muito diferente daquele em que hoje vivem e que essa mudança foi também produto da presença de estrangeiros e, agora, de novas gerações, já  nascidas francesas, deles originários. O modo como a sociedade francesa olha para este facto varia imenso.

Porque este debate assenta muito na questão da introdução da "diferença", sem o qual não teria razão de ser, acaba naturalmente por ser potencialmente mais agressivo para comunidades com origens sócio-culturais que se afastam do padrão europeu tradicional. Quero com isto dizer que ele não afecta diretamente, por exemplo, a comunidade de origem portuguesa.

Estamos longe do fim desta polémica, mas talvez ela acabe por ter de consagrar uma ideia simples que alguém, há dias, apresentou num debate televisivo: gostem ou não alguns cidadãos franceses desta realidade, as regras da cidadania democrática vão acabar por obrigá-los a aceitar essa coisa comezinha de que é francês quem tenha um bilhete de identidade francês.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Futebóis

Há dias, o "Blogue" de Marcelo Rebelo de Sousa publicado pelo "Sol" (semanário que, aqui a Paris, "llega quando llega"), recordou uma historieta clássica da relação luso-brasileira, que não resisto a registar, com a devida vénia.

Estávamos em Março de 1975, tempo "quente" e revolucionário da política portuguesa, com Vasco Gonçalves como primeiro-ministro de Portugal. No Brasil, a ditadura estava em pleno, com Ernesto Geisel na presidência. Enfim, época forte para os militares de ambos os países, embora de sinal bem contrário. Por isso, um ambiente de alguma tensão nas relações bilaterais, em que cabia ao embaixador português, Futscher Pereira, usar toda a sua conhecida genialidade diplomática para acalmar as hostes locais.

A seleção portuguesa fora convidada para disputar contra o Brasil o jogo inaugural de um estádio, numa cidade não muito distante de Brasília. Embora formalmente "amistoso",  o jogo acabou, a certa altura, por gerar um incidente: um jogador português lesionou-se e foi substituído. Minutos depois, aparentemente por confusão, o mesmo jogador reentrou no jogo. Portugal jogava, assim, com 12... O árbitro apercebeu-se e encetou um longo e ácido "bate-boca" com Pedroto, então treinador português. A nossa equipa começou a ser apupada por todo o estádio e o anedotário lusófobo deve ter sido escasso para alimentar a expressão do desagrado do público local. Pedroto pretendia que a sua equipa abandonasse o terreno de jogo. Marcelo Rebelo de Sousa (à época, membro da direcção da Federação Portuguesa de Futebol, para quem não saiba) e o seleccionador Abílio Rodrigues conseguem evitar o que seria um escândalo. Mas não conseguem evitar que os brasileiros, na ressaca da irritação, cancelem a receção em honra dos representantes da "mãe pátria".

A vida não ia então fácil para as relações luso-brasileiras. Para a história, Portugal perdeu o jogo, o que terá acabado por atenuar o desfecho do incidente.

33 anos depois, também na inauguração de outro estádio, também perto de Brasília, também num jogo amigável, Portugal voltou também a perder - desta vez por uns esmagadores 6-2! O embaixador português era outro, não ameaçámos abandonar o terreno de jogo, não houve incidentes diplomático-protocolares, mas, podem crer!, a noite também não foi fácil para quem então representava Portugal no Brasil. E se, em 1975, jogámos com um dúzia, fiquei com a sensação de que, dessa vez, jogámos apenas com meia-dúzia... É que houve jogadores que não cheguei a "ver" em campo. Valha-nos o facto de, agora, as relações bilaterais serem excelentes.

Hipócrates?


O senhor bastonário da Ordem dos Médicos portuguesa afirmou hoje ser contra a decisão de abertura de mais vagas nos cursos de Medicina e que, se essa tendência se prolongar nos próximos anos, teremos "pessoas a acotovelarem-se nos hospitais".

Não disse qual era a solução alternativa, mas, presumivelmente, ela passaria sempre por um modelo que preservasse a manutenção da capacidade reivindicativa que a actual escassez de médicos dá aos respetivos sindicatos.

O senhor bastonário poderia talvez ouvir as pessoas que penam horas nos serviços de urgência com médicos sobrecarregados de trabalho, as que passam meses à espera de uma consulta especializada ou de uma operação, as que têm de se deslocar muitos quilómetros pela ausência de clínicos nas zonas rurais e periféricas, as que perdem dias nas salas de espera dos consultórios, aguardando que alguns médicos saltitem entre empregos. E poderia perguntar-lhes se essas pessoas acham que há médicos a mais, em Portugal. Mas esses são problemas pelos quais, estou seguro, o senhor bastonário não passa, pois não?

OSCE


O Casaquistão assume, durante 2010, a presidência da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Convirá dar uma ideia do que é a OSCE. Trata-se de uma organização que decorre do processo de "détente" entre o Leste e o Oeste, consagrado, em 1975, pelo Acto Final de Helsínquia. A OSCE teve um papel relevante na estruturação do diálogo que envolveu a então URSS e o mundo ocidental, muito em especial no enquadramento dos processos de regulação dos armamentos convencionais de ambos os lados dessa "trincheira" política. Com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, a organização passou a juntar todos os Estados que dela emergiram, a generalidade dos países europeus, bem como os Estados Unidos e o Canadá. Tem hoje 56 países, dos 192 que a ONU comporta.

Com sede em Viena, a OSCE funciona hoje como um barómetro de certas tensões internacionais, quer de ordem militar e de segurança, quer de natureza puramente política - como questões de democracia, Direitos Humanos, protecção de minorias, etc. É uma organização com uma dinâmica muito dependente dos equilíbrios do diálogo russo-americano. O facto de decidir por consenso torna-a refém fácil de quaisquer situações polémicas que ocorram no seu vasto espaço.

Dentro da OSCE foram-se desenhando, ao longo do tempo, dois mundos diversos: o dos Estados "a oeste de Viena" - o ocidente - e o mundo dos países "a leste de Viena". Este último, grosso modo composto pelos Estados resultantes da implosão soviética, e não obstante algumas diferenças mantidas dentro de si, tem uma leitura muitas vezes desconfortável da atitude do primeiro, que interpretam como algo "patronizing" e promotora de "lições" de Democracia e regras básicas do Estado de direito. Acresce que os chamados "frozen conflicts" (Nagorno-Karabach, Transnístria e a situação na Geórgia - com a questão da Ossétia do Sul e da Abcásia) contribuem para alguma crispação do diálogo em Viena.

Até hoje, só Estados do ocidente tinham presidido à organização. A presença do Casaquistão, o mais importante Estado da Ásia Central, à frente da OSCE constituirá, assim, uma "première" e, ao mesmo tempo, um forte desafio à organização, tanto mais que ela tem uma estrutura central relativamente débil, muito dependente da capacidade de liderança das presidências. Soma-se a isso o facto do Casaquistão se propor organizar uma Cimeira dos chefes de Estado e de Governo da OSCE, durante o corrente ano, a qual, a ter lugar, pode assumir um papel decisivo numa reorientação futura da organização.

Portugal presidiu à OSCE em 2002, depois de ter realizado uma sua Cimeira em 1996. Coube-me presidir ao Conselho Permanente da OSCE na fase decisiva da nossa presidência, concluída na reunião ministerial do Porto, em Dezembro desse ano.  Porque vivíamos o tempo posterior ao 11 de Setembro, tentámos colocar o tema do combate ao terrorismo no centro da nossa agenda, por nos parecer que era uma área com condições de federar uma leitura comum ao "oeste" e ao "leste" de Viena. Essa perspetiva prevaleceu e a presidência portuguesa ficou, na história da OSCE, como a última que conseguiu fazer aprovar as suas conclusões por unanimidade.

Em 2004, fui convidado pelas autoridades casaques para, na sua capital, Astana, fazer uma exposição sobre a nossa experiência enquanto presidência, estando já então o Casaquistão a alimentar a sua vontade de vir a assumir tais funções. À época, foi para mim muito interessante detetar o que poderia vir a ser uma agenda de preocupações e intenções dessa futura presidência, que se afastava, em alguns pontos de uma perspectiva mais "ocidental". Veremos, agora, como ela se objetiva.

Portugal é visto, no seio da OSCE, em particular pelos países situados "a leste" de Viena, como um parceiro muito construtivo, dialogante e sempre preparado para ajudar a "construir pontes". Sem nos afastarmos um milímetro dos compromissos assumidos noutros contextos, nunca interpretamos a organização como uma espécie de terreno para a batalha ideológica, mas sim como um espaço privilegiado para o diálogo. É talvez essa a nossa diferença e é com ela que procuraremos ajudar a presidência casaque a ter sucesso.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Línguas

O homem era simpático, bem-falante e parecia conhecedor daquilo que o trazia a Nova Iorque. Era um tema muito técnico e o nosso perito parecia, de facto, ser a pessoa adequada para o abordar. A sua intervenção estava prevista para a tarde do dia seguinte e, por essa razão, o embaixador perguntou-lhe se já trazia a sua intervenção preparada. O nosso homem sacou de três folhas da pasta, que entregou ao embaixador. O texto vinha em português. O embaixador inquiriu: "Prefere que façamos a tradução para inglês ou para francês?", línguas em que estava previsto que a leitura fosse feita. A resposta deixou o embaixador sossegado: "Tanto me faz!". Até que, um segundo depois, o nosso perito acrescentou: "Não falo nenhuma das duas..."

Pessoa(s)


No sábado passado, na Casa de Portugal, na Cité Universitaire de Paris, teve lugar uma sessão de divulgação sobre Fernando Pessoa, uma excelente iniciativa que se fica a dever ao entusiasmo de Manuel Rei Vilar, diretor da Casa. Música, cinema, leitura de poemas e, muito em particular, um excelente debate sobre a projeção de Pessoa em França ocuparam algumas belas horas, sem perda de ritmo e com grande interesse do público presente.

Numa das suas intervenções, a especialista pessoana Teresa Rita Lopes, que coordenou o debate, contou uma divertida história, que aqui reproduzo.

A propósito do (des)conhecimento que Pessoa sofria, em tempos, aqui por França, Teresa Rita Lopes referiu que José Augusto Seabra (uma figura intelectual e política de quem, em breve, falaremos com mais detalhe) pretendeu um dia obter de Roland Barthes uma carta de apoio para um pedido de subsídio que queria apresentar à Fundação Gulbenkian, com vista a preparar uma tese sobre Fernando Pessoa. Uma recomendação de uma figura como Barthes seria, seguramente, um elemento muito importante para a consideração do seu projeto.

Seabra "mexeu os cordelinhos" e lá conseguiu obter a almejada carta de Roland Barthes, com que contava abrir as portas à obtenção da bolsa. Dias mais tarde, os seus amigos perguntaram-lhe se já tinha enviado a recomendação à Gulbenkian. Embaraçado, Seabra revelou que não, que decidira não juntar a carta ao processo de candidatura. É que Barthes, no seu texto, ao querer sublinhar a importância do trabalho do investigador,  referiu que ele  pretendia fazer um estudo sobre a obra de "quatro poetas portugueses": Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis...

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Exposição


Há dias, encontrei à venda na internet esta reprodução da entrada do pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris de 1878.

De facto, impressionante!

domingo, janeiro 17, 2010

A leste


Em 2002, um "think tank" que apoia as Nações Unidas, a "International Peace Academy", dirigido então por esse magnífico diplomata canadiano que dá pelo nome de David Malone, organizou um "retiro" de dois dias, num hotel a umas horas de Nova Iorque, juntando quinze embaixadores.

O objetivo, se bem me lembro, era discutir a ideia "impossível" de articular melhor a actividade do Conselho de Segurança com a do Conselho Económico e Social (ECOSOC), de que eu era então um dos quatro vice-presidentes. Era uma ideia antiga, que surgia de tempos a tempos, ressuscitada por um qualquer pretexto de conjuntura. O exercício estava, uma vez mais, condenado ao fracasso porque, por razões curiosamente opostas, quer Cuba quer os Estados Unidos discordavam do aprofundamento dessa cooperação.

Por um motivo que não importa agora para aqui, eu havia-me empenhado em organizar uma sessão especial do ECOSOC dedicada à matéria, para a qual consegui "arrastar", não sem algum esforço, o meu colega britânico, Jeremy Greenstock, que nesse mês presidia ao Conselho de Segurança. O resultado foi o que foi, mas excitou o interesse da "International Peace Academy", que sabia que o tema agradava ao SG da ONU, Kofi Annan.  Dada a minha actividade nesse contexto, fui "upgraded" para o grupo, onde predominavam os embaixadores dos chamados P-5 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança) e de outros "key" ou "major players" internacionais.

Mais para equilibrar geograficamente o debate do que por qualquer outro motivo, foi convidado um embaixador de um grande país "do sul", um antigo político, pouco vocacionado para reflexões especiosas sobre matéria técnicas de relações internacionais. Desde o início, verifiquei pelo seu "body language" (ou melhor, pela sua visível sonolência) que estava muito pouco interessado no tema, que não intervinha e que revelava um enfado com as discussões - que, aliás, foram bem interessantes.

Logo ao final do primeiro dia, cruzei-me num corredor com o nosso homem, de malas aviadas  de regresso a Nova Iorque. Disse-me, na sua língua, que "estava farto" e que a discussão lhe parecia "estéril" - no que podia ter alguma razão, num plano imediatamente prático, se se  esquecessem algumas dimensões políticas mais subliminares. E acrescentou, ao despedir-se: "Só me faltava vir para aqui discutir a Alemanha de Leste!"

Não percebi o que quis dizer e não tive tempo para me esclarecer, porque desapareceu, apressado. Mas fiquei com a frase na cabeça. C'os diabos!, que eu me lembrasse, ninguém tinha falado da Alemanha de Leste, nem tal vinha a propósito, tantos anos depois da queda do muro de Berlim, ainda por cima na presença do embaixador alemão.

Dias depois, encontrando-o na ONU, não resisti e perguntei-lhe: "A que propósito, há dias, no "retreat", referiste a Alemanha de Leste? Esse tema nunca foi discutido...". O homem abespinhou-se: "Em bem vi na agenda da reunião que vocês, no dia seguinte, iam falar disso! Era o único tema para metade dessa manhã. Estava lá bem escrito: DDR! Ora, para o meu país, isso agora já não interessa nada!"

Não sei se ele me perdoou alguma vez a sonora gargalhada que dei no Delegates Lounge. Na linguagem "onusina" e não só, DDR significa "demobilization, disarmement and reintegration"...  

Frase

"Já não há ricos. Já não há pobres no Haiti. Agora, são todos iguais" - Gilberto Nunes António, português que vivia no Haiti há 27 anos, à sua chegada à Europa.

sábado, janeiro 16, 2010

Tintin na China


As aventuras de Tintin vão passar a ser publicadas na China, depois de largas décadas de proibição. Com a óbvia excepção do "Tintin no país dos sovietes", porque há demónios que não convém, por ora, chamar à vida. E estou curioso com a edição do "Tintin no Tibete".

No que nos toca, os chineses terão agora oportunidade de apreciar as astúcias mercantis de Oliveira da Figueira, a sabedoria académica do professor coimbrão Pedro João dos Santos e as movimentações africanas do jornalista sem nome do "Diário de Lisboa" - as três únicas personagens portuguesas criadas por Hergé, com o primeiro apenas com alguma relevância.

Pergunto-me também de que forma as imprecações do capitão Haddock vão ser vistas pela China e nem posso a imaginar o que pensarão do já clássico insulto "bachi-bouzouk". Contudo, com o seu volume demográfico, talvez os impressionem menos os "mille milliards de mille sabords de tonnerre de Brest"..

Quanto a eventuais censuras nos álbuns, a ocorrerem, elas estariam longe de ser as primeiras: até por cá já tivemos intervenções "à Estaline", no tempo do saudoso "Cavaleiro Andante" e da nada saudosa ditadura, como em tempos lembrei aqui.

Eleições

Uma nova pré-campanha eleitoral vai ter início em Portugal. Ainda parece que foi ontem que terminou o annus electoralis de 2009 (europeias, legislativas, municipais) e lá vamos nós para mais um ritual de sufrágio, que vai voltar encher os jornais e as televisões, desta vez de uma forma ainda mais fulanizada. Regressam as sondagens, as suas contradições e as dúvidas quanto à sua fiabilidade. Com os nomes do costume e alguns "realinhamentos" para provocar surpresa, listas de personalidades alinharão por detrás dos candidatos. Regressarão os "blogues da política" aos seus dias gloriosos, uns mais independentes, outros farouchement sectários, uns com linguagem marcada por uma saudável urbanidade, outros roçando a boçalidade insultuosa. Enfim, um déjà vu.

Este é o preço da nossa democracia, que tem a superior vantagem de colocar nas mãos dos cidadãos as múltiplas escolhas possíveis, nos variados níveis institucionais em que elas se podem objectivar. Um preço que, não obstante poder ser considerado pesado, por virtude das dispersão de atenções em temáticas muitas vezes mais adjectivas do que substantivas, deveria ter como contrapartida a geração de uma maior consciência pública e o lançamento de um debate mais aprofundado sobre as grandes opções que estão por detrás das escolhas de natureza política que são propostas.

Interrogo-me, contudo, se será possível detectar, como resultante desta cumulação de debates eleitorais, a decantação de uma opinião pública cada vez melhor informada para fazer face às propostas com que se vai confrontar no momento do sufrágio, a quem as campanhas eleitorais tenham proporcionado instrumentos de formação de vontade, assentes em verdadeiras alternativas objectivas de natureza programática. Nunca poderemos ter certezas sobre isto, mas sinto, de forma um tanto impressionista, que o debate político português mantém um superávite de "espuma dos dias" e um défice de racionalidade.

Esta constatação, a ser verdadeira, pode justificar algum desencanto com a "coisa pública" que se pressente em sectores mais jovens do eleitorado e, num contexto completamente diferente, o alheamento que se verifica em áreas das Comunidades portuguesas no exterior, que acabam por reflectir na abstenção a distância que sentem face à realidade política que observam.

Mas, enfim, sejamos optimistas. Pode ser que a próxima campanha eleitoral contribua para um muito melhor esclarecimento. Portugal e os portugueses merecem isso.

Cada coisa é uma coisa

Daqui a dias, Portugal vai disputar a fase final do Mundial de futebol. O atual conjunto de jogadores é excelente, do melhor que até hoje ti...