sexta-feira, agosto 31, 2012

O léxico da crise

Há uns anos, quando vivi em Londres, deparei um dia com uma expressão na imprensa que me pareceu não corresponder àquilo para que a sua leitura linear apontaria: "industrial action". Vim a perceber que se tratava de uma designação geralmente usada para greves, mesmo que o processo não fosse desencadeado na área industrial.

O mesmo fenómeno voltou a acontecer comigo aqui em França. Um dia, deparei no jornal com a expressão "plan social". Não percebi imediatamente o que isso queria dizer, porque a expressão não era de leitura unívoca. Mas, pelo contexto, rapidamente entendi que isso queria significar, numa linguagem corrente, uma situação de despedimento coletivo numa determinada empresa.

O que levará os países mais ricos a esconderem, por detrás destes eufemismos, as realidades a que nós chamamos pelos nomes óbvios?

quinta-feira, agosto 30, 2012

Leituras

Não primava pela cultura, a mulher de um diplomata que o acaso protocolar colocou ao lado daquele conhecido escritor, num jantar oficial. Para o romancista, já de si pouco dado a este tipo de eventos, toda a conversa tinha sido penosa, dado que todas as referências da senhora se situavam nos antípodas dos seus interesses.

Conhecendo embora o seu nome, ela nunca lera nenhuma das suas obras, cujos títulos teve a honestidade de dizer que não conhecia. As suas leituras mais avançadas situavam-se no género "light" das sagas urbanas, com sexo, carros, restaurantes e viagens, feitas de "casos" cruzados, em linguagem coloquial modernaça. Se ela fosse portuguesa, nós já sabíamos alguns títulos...

O escritor, porém, cuidara em ser muito complacente, quando a senhora, com grande admiração, lhe referira algumas das "obras" do género que lera. É que havia alguns desses "colegas" que eram publicados pela sua editora...

Já no fim da sobremesa, a senhora, que continuava deserta de qualquer conversa substantiva, inquiriu, sentindo-se quase na obrigação de mostrar uma simpatia curiosa:

- E agora, o que é que anda a escrever? Diga-me lá...

- Nos últimos meses, fiz uma pausa nos meus romances, revelou o escritor. Estou a escrever uma autobiografia.

- Ah! mas que interessante! E trata de quê?

quarta-feira, agosto 29, 2012

Blogue

Há dias, alguém me perguntava a razão pela qual este blogue "teimava" em publicar um post diário, desde a sua "inauguração", em 4 de fevereiro de 2009. A única resposta que encontro é a de que mantenho uma espécie de "aposta" comigo mesmo, sobre a capacidade de respeitar uma certa auto-disciplina.

Ou, quem sabe?, ainda será a memória dos tempos de infância em que, em minha casa, havia uma pequena caixa de cartão que tinha por fora (sem ofensa e com todo o respeito pelos leitores do blogue) a expressão: "um tostão por dia para os pobres da freguesia"...

terça-feira, agosto 28, 2012

Cimeiras e cúpulas

Foi ontem anunciado o adiamento da cimeira que estava prevista entre Portugal e o Brasil. Aposto que, no Brasil, os jornais falaram em "cúpula". 

Entre o português de Portugal e o do Brasil não há apenas diferenças na ortografia e na sintaxe. Há, pelo meio (os brasileiros dirão "em meio") de um vocabulário comum muito extenso, muitas palavras que são diversas. Alguns vocábulos brasileiros têm origem no português antigo, que se perdeu em Portugal e que permaneceu naquele país, em especial no Norte. Outros termos derivam da influência das línguas locais, como o tupi-guarani, ou de palavras oriundas de outras migrações, como a italiana, que também muito contribuiu para a abertura das vogais na fonética brasileira. Outras ainda, têm a ver com realidades locais e com uma evolução lexical que procurou, muito mais do que em Portugal, verter para a escrita o produto da oralidade popular. 

Estas diferenças, que não existem com a mesma intensidade noutras grandes línguas internacionais, não devem ser dramatizadas, mas devem ser lidas como fruto de uma diversidade que não há desvantagem em continuar a ser cultivada, desde que não fragilize o muito que a língua tem de comum, nomeadamente na sua expressão no mundo internacional.

Mas toda esta "conversa" vem a propósito das cimeiras ou cúpulas entre os dois países, que nunca têm uma data certa para a sua realização, que têm lugar quando é considerado oportuno por ambos e quando há suficiente matéria, em termos de interesses bilaterais, que justifiquem a ocasião. O mesmo se passa com exercícios idênticos que Portugal tem com a França, a Espanha ou Marrocos. 

Em 2006, teve lugar no Porto uma dessas cimeiras. Na noite que a antecedeu, fui testemunha de uma curiosa cena. Num certo momento, os dois diplomatas, um de cada país, que tinham a seu cargo a preparação do texto das conclusões, pareceram-me algo preocupados. O que é que se passava?  Muito simplesmente, cada país tinha contribuído com textos para essas conclusões e, ao juntarem-se esses mesmos textos num documento comum, ele ficava uma verdadeira "manta de retalhos", com expressões portuguesas e brasileiras, com uma espécie de ortografia e vocabulário "a meio do Atlântico". A imprensa, que era o destinatário principal dessas conclusões, iria, com certeza, ironizar com essas diferenças. E seria ridículo produzir dois documentos com diferentes ortografias, sintaxes e vocábulos.

Foi nessa altura que eu, e creio que o Lauro Moreira, o embaixador brasileiro que viria a ser o representante do Brasil na CPLP, nos voluntariámos para ajudar. Por alguns minutos, dedicámo-nos ao exercício de procurar sinónimos e expressões que, não apenas fossem comuns a ambos os países, mas que, igualmente, não apresentassem diferenças ortográficas. O nosso esforço foi bem sucedido e, nos poucos casos em que não fomos capazes de contornar as diferenças existentes, optámos por colocar as fórmulas portuguesa e brasileira, separadas por uma barra. 

Tudo se resolve, entre Portugal e o Brasil.

O valor dos Bonds

Todas as manhãs, de há uns anos para cá, um dos meus gestos de rotina, é olhar a evolução do valor dos Bonds (dívida pública) portugueses no mercado internacional, verificando o "spread" face aos que são emitidos por Berlim. Começo sempre a leitura do "Financial Times" por aí. Os Bonds são um bom indicador da forma como os mercados olham para a economia portuguesa, o que é importante, em especial agora, nestes tempos de "troika".

Ontem, porém, o valor relativo de outros Bonds chamou a minha atenção. Foi Roger Moore, o ator que protagonizou mais filmes de James Bond, que apareceu citado na imprensa como tendo dito que Daniel Craig, o último ator a interpretar a personagem, era o melhor James Bond de sempre.

Roger Moore é um senhor respeitável, que protagonizou alguns desses filmes com um misto de humor e charme machista, que sempre saía das cenas mais violentas com a poupa intocada, com aquele sorriso de marca, que, aliás, conserva na velhice, como pude comprovar há meses, quando o cruzei num evento por aqui. Como ator, desempenhava um Bond divertido, ao mesmo nível, comparadas as épocas, com que já fizera para a televisão as séries Ivanhoe ou O Santo. Mas, sejamos honestos, foi sempre um ator "13 valores", para usar a classificação que o meu pai costumava dar às prestações "assim-assim". Sempre pressenti que, no seu íntimo, vivia com um fantasma que se chama Sean Connery - o "verdadeiro" Bond. Isso mesmo fica confirmado nestas declarações de Moore que, enfim, estão ao nível daquilo a que sempre nos habituou como ator: "13 valores". 

segunda-feira, agosto 27, 2012

Férias

Têm sido divertido notar as reações de alguns amigos, agora regressados ao trabalho, quando lhes revelo que... agora, vou eu de férias!

sábado, agosto 25, 2012

O cunhado

Claro que não era uma ordem, até porque tinha vindo de Lisboa por via indireta, cordial e amigável. Mas o recado segundo o qual aquele ministro português "gostaria muito" se a embaixada em Londres pudesse arranjar dois lugares, destinados a um seu cunhado e a um professor deste, para uma final da Taça de Inglaterra em Wembley, configurava aquele género de pressão a que é difícil dizer que não. O problema é que os bilhetes para o jogo estavam esgotados, há muito. Eu conseguira comprar um, para mim, mas já há largos meses.

Na embaixada, descobriu-se alguém que tinha um amigo na federação britânica. Essa pessoa, por especial favor, conseguiu dois acessos, depois de ter explicado que havia um ministro por detrás do pedido. A resposta da federação foi, aliás, melhor do que se poderia supor: atendendo a que era um pedido "oficial" de um membro do governo português (não sei bem o que disseram à federação), ofereciam dois convites, gratuitos, para uma zona especial, tipo camarote, onde ficavam os convidados da federação. Porque era uma área do estádio alheia às claques, relativamente "neutral", a federação apenas pedia alguma parcimónia na exibição de bandeiras ou símbolos dos dois clubes em liça. Esses ficavam para as duas imensas claques, uma londrina, do Chelsea, outra do Sheffield Wednesday. 

Era na cidade de Sheffield que o cunhado do ministro estudava. Estava assim explicado que quisesse fazer um gesto e trazer o professor para ver o seu clube. E, com certeza, para mostrar o que era a importância de ser cunhado de um ministro, capaz de mover mundos e fundos para arranjar duas entradas, ainda por cima de borla, para uma "Cup final". Ao cunhado do ministro, lembro-me que alguém transmitiu a indicação da necessidade de serem respeitadas as limitações coreográficas assinaladas pela federação, tendo ficado combinado deixar os dois convites num determinado local de Londres.

No dia do jogo, lá fui para Wembley. Como o meu bilhete era relativamente central, fora das claques, podia avistar, com facilidade, os camarotes. E foi então que lá os vi, no meio de um largo grupo de pessoas que não ostentavam nem bandeiras nem cachecóis: aquele que me pareceu ser o professor e um miúdo, jovem adolescente, ambos vestidos, da cabeça aos pés, de evidentes fãs do Sheffield Wednesday, a destoarem vivamente, pela cor e pela agitação que fui observando, dos responsáveis federativos e seus convidados. Imagino que alguém da federação deva ter estranhado bastante aquele golpe de "entrismo" lusitano.

O cunhado do ministro telefonou, dias depois, a agradecer, dizendo que tinha ficado "adoentado" e que, por essa razão, tinha dado o seu bilhete ao filho do professor. Pois...

Porque a sorte protege os audazes mas não necessariamente os espertalhaços, o Sheffield Wednesday perdeu contra o Chelsea e os dois "convidados" terão ficado com uma cara similiar à dos seus correlegionários da foto (mas não me lembro se algum deles usava o elegante capacete da "farda").

Passou-se isso numa tarde de sábado dos anos 90, um dia em que eu percebi melhor por que razão a palavra cunhado pode ter a ver alguma coisa com a palavra "cunha". Ontem, ao assistir, pela televisão, à terceira (e merecida) vitória consecutiva do Chelsea na edição deste ano da "league" inglesa, lembrei-me deste episódio. E que, daquela vez, até fiquei satisfeito pelo facto do Chelsea ter ganhado, coisa que só me voltaria a acontecer nos tempos de Mourinho, Scolari e Vilas Boas. Porquê? Porque, em Londres, eu "sou" do Arsenal, claro!

sexta-feira, agosto 24, 2012

A "chance" de Poulidor

E continuamos no ciclismo. A decisão de Lance Armstrong, ontem anunciada, de renunciar à sua defesa perante as acusações de dopagem que lhe são feitas, deve resultar na sua desqualificação como vencedor de sete "Tours de France".

Julgo que a imagem da popular prova ciclística francesa, bem como a do ciclismo em geral, vão sofrer fortemente, em matéria de credibilidade, particularmente se somarmos este escândalo aos tantos outros que mancham a competição e tornam cada vez mais duvidosas (e, pelos vistos, precárias) as vitórias a que vamos assistindo. Devo dizer que, como ativo adepto - de sofá e televisão - do mundo do ciclismo, entristece-me ver esta mítica modalidade, que tanto mobilizou a minha atenção desde a juventude, entrar "pelas ruas da amargura". E começa a ser ridículo - mas compreensível - que os resultados ciclísticos acabem por ser ditados nos laboratórios (como alguns do futebol o são "na secretaria")

Um amigo, ontem, ao telefone, comentou: "Não és tu que és um fã do Poulidor?". 

Para o leitor menos avisado, diga-se que Raymond Poulidor foi um grande ciclista francês, vencedor de várias provas no país e no estrangeiro, mas que nunca conquistou o "Tour de France", nem nele sequer vestiu alguma vez a "camisola amarela", embora tenha ganho várias etapas. Mas, nesse mesmo "Tour", foi três vezes segundo classificado e cinco vezes terceiro. É hoje um ídolo para várias gerações francesas e é uma figura por quem, desde sempre, nutro uma imensa simpatia, nesta minha incontrolável tendência para gostar dos gloriosos e dignos "losers".

Perguntei ao meu amigo por que diabo me vinha falar do Poulidor. "É que, por este andar, ainda vão acabar por desclassificar o Anquetil e o Merckx, nalguma "revisão de provas", pelo que o Poulidor pode ainda ter uma "chance" de ganhar uma Volta à França ...". 

Desporto

Segundo o "Der Spiegel" desta semana, a Alemanha vai ter um novo representante diplomático em Paris, uma senhora, conhecida pelo seu espírito desportivo, porque vai todas as manhãs de bicicleta para o trabalho.

Neste aspeto, peço meças à minha nova colega: eu vou a pé, todos os dias, de casa até ao emprego.

E espero que não me venham dizer que o facto do escritório da embaixada ser no andar superior àquele em que se situa a residência fragiliza o argumento.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Goa

Goa foi um tema que sempre me fascinou, menos pela inegável importância histórica da nossa presença na costa indiana e muito mais pela natureza, que sempre vi como muito ambígua, da relação de Portugal com aquela terra e aquela gente. Há uns anos, essa curiosidade levou-me mesmo a passar por lá uns dias. E, devo dizer com franqueza, saí mais confundido do que estava quando lá cheguei.

No final de 2011, passou exatamente meio século desde que a União Indiana invadiu as últimas possessões que Portugal mantinha na costa do Malabar: Goa, Damão e Diu. Dois enclaves, Dradrá e Nagar Haveli, já haviam sido absorvidos pelo governo de Nova Delhi, em 1954. Uma curta batalha militar veio encerrar uma mais longa batalha jurídico-diplomática, com que o governo ditatorial português pretendia contrariar o processo descolonizador. A perda do Estado da Índia representou um trauma muito importante num país que, nesse ano, já havia assistido às trágicas consequências da sublevação em Angola. O colonialismo português entrava no seu declínio e, com ele, o próprio regime.

Mas, à época, diga-se em abono da verdade, nem só os dirigentes do Estado Novo se recusavam a aceitar o fim do império: grande parte da opinião pública portuguesa, mesmo dentre quantos se opunham a Salazar, mantinha uma atitude favorável (ou, pelo menos, não desfavorável) à manutenção dessa parcela do "ultramar português". Mesmo no seio das forças organizadas da Oposição, essa atitude dominava, convém dizê-lo. Recordo-me bem da emoção provocada em Vila Real, em fins de 1961, aquando da "queda" do Estado da Índia, pela invasão das tropas do "Pandita Nehru".

(Nunca me saiu da cabeça a ideia que criei de que a reiterada utilização adjetivada que a propaganda do regime fazia da palavra "Pandita" - designação elogiosa indiana que era atribuída a Nehru e que, em rigor, significa homem sábio e educado - tinha a ver com a sua similitude sonora com "bandido", tal como, anos mais tarde, aconteceu na América com as expressões "Saddam" e "Satan". Os cartazes com palavras de ordem que diziam "Abaixo o Pandita" e coisas similares assim parece provarem).

Tenho na memória a visão do meu professor de História, dr. Carlos Sanches, não sei bem em que qualidade, a discursar na varanda do Governo Civil de Vila Real, para umas centenas de pessoas que, com patrióticos cartazes, manifestavam o seu pesar pelos acontecimentos. Eu estava ali com o meu pai, um eterno anti-salazarista, mas que estava solidário com a defesa do Estado da Índia.

Na altura, a censura aos media não deixou revelar as dissenções havidas entre o governador-geral Vassalo e Silva e o executivo de Lisboa, com a "heroicidade" de Salazar a mandar, da comodidade de S. Bento, o célebre e gongórico telegrama, redigido para a História e para o "livro branco": "Não haverá nem vencedores nem vencidos, só heróis e mártires". Lembro-me da emoção com que então se ouvia falar do afundamento do aviso Afonso de Albuquerque, bem como da "defesa heróica" levada a cabo pelas forças militares portuguesas em Goa. Só muito mais tarde vieram a conhecer-se as condições miseráveis em que estavam as nossas tropas no terreno e no total irrealismo que representaria uma luta até ao último homem. A vilificação de Vassalo e Silva (a ironia estadonovista nas conversas sugeria a sua "cobardia", ao tratá-lo como "bacilo salvo") foi a escapatória fácil encontrada pela ditadura para justificar a derrota militar, a qual, como disse, era uma outra face da inevitável derrota política da teimosia na manutenção do sonho imperial, de que Índia "portuguesa" era a primeira peça do dominó a cair.

Como atrás disse, há uns anos, passei uns dias em Goa. A Índia era a zona da fixação colonial portuguesa que me criava (e ainda cria) maiores interrogações. Sabia do modo ofendido como os habitantes de Goa, Damão e Diu tinham entendido a aplicação ao território do Ato Colonial, logo no início do Estado Novo. Li, mais tarde, textos escritos por goeses divididos entre a fidelidade a um Portugal que os tratara menos bem e a atração por uma União Indiana que lhes abria caminho a uma ligação a um grande Estado descolonizado, então "farol" para muitos povos. E percebera, também, a desilusão que muitos goeses haviam acabado por sentir, ao verem a sua identidade violentada por uma integração algo traumática, desrespeitadora da sua sensibilidade cultural e até religiosa. Não sei o suficiente sobre o assunto para poder ter uma opinião segura, mas recomendo muito que, quem possa, vá a Goa e por lá tente entender aquela gente que ficou "a meio da ponte"...

Nessa viagem, entre outras surpresas, tive uma experiência curiosa. Como acontece com muitos turistas portugueses, procurei visitar algumas das antigas casas senhoriais do tempo da Índia "portuguesa", hoje maioritariamente transformadas numa espécie de museus, as mais das vezes tristes, que espelham uma decadência serena e digna. E onde, em geral, se fala de Portugal sem acrimónia, mas também sem especial nostalgia, como falamos de longínquos membros desaparecidos da família, com defeitos e virtudes. Mais do que de Portugal, do que alguns goeses parece terem saudades é da sociedade goesa do passado, o que são coisas muito diferentes.

A certo ponto da minha estada, ao aproximarmo-nos de uma dessas casas, fui informado pelo motorista que ela não era visitável, salvo com diligências que eu não tinha tempo de empreender. O mesmo motorista chamou-me, entranto, a atenção para uma senhora que estava a sair da casa, dizendo saber que era ela a proprietária. Pedi para parar o carro e dirigi-me à senhora, que deveria mais de 80 anos. Fi-lo em inglês. A senhora olhou para mim e, num português impecável, respondeu-me: "Mas por que é que está a falar-me em inglês? Eu falo português. Eu fui deputada à Assembleia Nacional!". Chamava-se Lurdes Figueiredo e, logo recordei, fizera parte de um grupo de deputados, de um género a que os brasileiros chamam "biónicos", que haviam sido designados pelo Estado Novo para representar o Estado da Índia, no areópago de S. Bento, ao tempo em que o general França Borges era uma espécie de governador-geral no exílio... em Lisboa. Creio que duraram até ao 25 de abril, se não me engano.

Fiquei sempre com muita pena de não ter tido a oportunidade de falar longamente com aquela senhora, para tentar perceber um pouco mais desse tempo estranho, de um Portugal em transição, em trágico final de império. 

Tão estranho que o motorista que me transportava, um hindu que não falava uma palavra de português e que havia nascido já bem depois do fim da Índia dita portuguesa, me pediu para lhe mandar, de Lisboa, autocolantes com o nosso escudo ou a nossa bandeira, para si e para oferecer aos amigos, que achavam muita graça usar nos automóveis. As bizarras malhas que o império tece...  

O francês

Vasco Graça Moura publicou ontem no "Diário de Notícias" um interessante artigo em que dá conta do declínio de importância da língua francesa em Portugal, sublinhando a sua contribuição para a nossa cultura e para a nossa abertura ao mundo. 

E, a propósito, lembrou um curioso soneto do Abade de Jazente (sec XVIII):
 
"Portugal, que era rústico algum dia,
Incivil, trapalhão, mal amanhado,
Está graças à França tão mudado,
Que o mesmo já não é do que soía.
A língua, o traje, o trapo, a grossaria
Dos antigos costumes tem deixado:
É todo doce, é todo concertado;
E parece outro sua Senhoria".

Leia o artigo aqui.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Ar verdadeiramente condicionado


Paris vive dias abafados, num verão quente raro, com temperaturas a aproximarem-se dos 40 graus. A embaixada e a residência do embaixador não têm ar condicionado, porque o prédio é antigo e tem de ser preservado. Nos escritórios, sobrevive-se num ambiente de penumbra, que quase obriga a acender as luzes. Sonha-se com ar condicionado, mesmo que fosse o das patuscas histórias de "espionagem" da FNAC no "verão quente", contadas por quem nos quer convencer de que tudo "foi assim", quando, na altura, pensava "assado". Nessa falta de ar, não se estranhará, por isso, que me tenha vindo à memória o episódio que conto neste post.

A doutrina divide-se, desde há muitos anos, sobre se foi a perfídia dos companheiros de viagem ou as condições do acaso que fizeram com que o meu colega Paulo Castilho (esse mesmo, o escritor, também diplomata) e eu fôssemos parar àquele sinistro hotel nos Barbados. Estávamos a dar então os nossos primeiros passos nas instituições europeias, em 1986, e competia-nos defender as cores nacionais numa reunião multilateral, em Bridgetown, dedicada a questões de comércio e desenvolvimento. 

Parte da delegação chegara dias mais cedo. Nós arribávamos de Londres, na véspera da reunião plenária, juntamente com o chefe da delegação. Para este, estava destinado um belo quarto, num bungalow sobre a praia. O Paulo Castilho e eu fomos informados de que só fora possível reservar aposentos num outro hotel, "um pouco fora da cidade". Conhecendo do que a casa gasta, fiquei de pé atrás. Mas lá jantámos, bem dispostos, em Bridgetown, distraindo uma colega que tinha perdido a mala e discutindo quotas de açúcar, antes de rumarmos ao tal hotel.

No táxi, começámos a preocupar-nos. O tempo passava e os caminhos eram cada vez mais estreitos. Depois de aí uma boa meia hora viagem, chegámos ao destino. Era um hotel medíocre, na soleira de ser uma espelunca. Olhámos um para o outro, na certeza de que esse facto não iria atenuar as invejas que tínhamos deixado para trás, em Lisboa, ao termos tido o privilégio de ser designados para uma reunião nas Caraíbas. Haveria que passar ali três noites. E, em especial, tínhamos de madrugar e encontrar transportes para estar a tempo nas reuniões. Eu estava furioso, diria mesmo, nominalmente furioso com as pessoas que tinha como responsáveis daquela "partida", que nem por um segundo desligámos de um conflito de titularidade sobre os assuntos tratados na reunião, que então se vivia dentro do MNE.

Na receção do hotel, perguntei se os quartos tinham ar condicionado, temendo o pior. A resposta foi críptica: "Sim, mas tem um pormenor que explicaremos quando chegar ao quarto". E lá fomos. Sem elevador, claro. O quarto estava ao nível das baixas expetativas que já levávamos. Mas tinha ar condicionado. O pormenor? Bom, o pormenor é que, para que o ar condicionado funcionasse era necessário, de duas em duas horas, meter uma moeda. Coisa simples, está bem de ver!, para quem pretendia dormir, depois de uma imensa jornada. Foram dias, melhor, noites horrorosas, com olheiras que nem deu para atenuar com umas horas de praia, coisa que os nossos colegas alojados em Bridgetown tinham assegurado, quando quisessem. 

No regresso, "vingámo-nos" à nossa maneira! Eu e o Paulo Castilho viémos por Nova Iorque, onde passámos uns curtos dias de férias. Vi que ele aproveitava para tomar algumas notas. Só uns anos depois percebi porquê, ao reconhecer, desses dias, alguns cenários no seu livro de estreia, "Fora de Horas".

(E, passado que entretanto foi o tempo, quero declarar que já iniciei um processo de autoconvicção sobre a "bondade" intrínseca de quem nos reservou os quartos no hotel caribenho. Um dia, perguntarei ao Paulo Castilho se já se convenceu...)

Em tempo: um leitor atento, poeticamente a banhos em zonas da reconquista, teve a gentileza de mandar, para usufruto dos leitores deste blogue, este curioso texto intitulado "L'air conditionné est-il de droite?", magna questão que deve provocar suores frios a quem a coloca.

San Francisco

Só hoje dei conta de que morreu Scott Mackenzie. Dele, apenas nos ficou (o que não é pouco) o seu "San Francisco":

all across the nation
such a strange vibration
people in motion
there's a whole generation
with a new explanation
people in motion

terça-feira, agosto 21, 2012

Sorte

- Pensando melhor, não vou mandar esse tipo para lá.

A reação do secretário-geral surpreendeu o amigo, embaixador há muito no estrangeiro, que o visitava no seu gabinete de Lisboa. No andamento da conversa, esta tinha acabo por concentrar-se na possível colocação de um determinado funcionário, com experiência e já com alguns anos de carreira, num posto consular de elevada dificuldade. Era uma zona com tensões de guerra, com uma comunidade portuguesa significativa. A surpresa do embaixador era tanto maior quanto o seu amigo secretário-geral havia acabado de fazer comentários basicamente positivos sobre o funcionário, o qual, não sendo uma "águia", era aquilo a que os anglo-saxónicos chamam "a safe pair of hands". E é de gente assim que a "carreira" precisa!

- Mas não vais mandar o homem, porquê? Ainda agora afirmaste que ele era capaz!

- Decidi não o mandar por causa de uma coisa que tu disseste...

- Eu?! Mas eu mal o conheço! Só te disse que era um tipo de quem sempre ouvi dizer que não tinha tido sorte na carreira, em todos os postos onde estivera. Até acho que merece uma oportunidade para brilhar, num posto difícil, com alguma visibilidade.

- É por isso mesmo! Se é um tipo que nunca tem sorte, não me arrisco a mandá-lo para um sítio difícil.

E assim foi, acabou por ser escolhido outro funcionário para ocupar o posto, como me contou, um dia, o embaixador visitante.

Olhando hoje para o que foi o resto da carreira do colega preterido, não posso deixar de dar razão à presciência daquele secretário-geral.

Asilo

Por um daqueles mistérios que as relações internacionais encerram, Cuba mantinha em Lisboa uma representação diplomática no tempo da (nossa) ditadura, dedicada à promoção comercial. Nenhum outro país do mundo comunista o fazia, com exceção da Jugoslávia. Era num (julgo que 2º) andar perto da Estefânia, que, além de outros ocupantes, tinha uma loja de artigos elétricos no rés-do-chão. Recordo-me bem de por lá ter passado, no final dos anos 60, a procurar recolher alguma "literatura" política (no que eram de um parco proselitismo, registe-se).

Fugido do hospital Curry Cabral, onde estava internado sob prisão, Manuel Serra, um dos protagonistas do chamado "golpe da Sé"*, um frustrado movimento insurrecional contra o salazarismo ocorrido em 1959, que antes havia sido sujeito a bárbaras torturas da polícia política, obtivera um dia asilo nessa representação cubana. A PIDE montou tocaia permanente ao local e os seus agentes passaram a revezar-se, no passeio do prédio, vigiando a porta, para impedir uma fuga de Serra. Este assomava, com regularidade, à varanda, com um ar provocatório, fumando charuto, com uma cabeleira longa e uma barba que há muito tinha deixado crescer, o que lhe dava um ar de guerrilheiro da Sierra Maestra, aliás bem adequado ao sítio de acolhimento. A provocação ia mais longe: Serra cuidava em expelir, com maestria e pontaria, algumas secreções bucais na direção dos "pides", acertando por vezes em alguns deles. E fazia esta "graça" com irritante regularidade... 

Um dia de 1960, a cena repetiu-se e um "pide", mais distraído, recebeu um desses "brindes" do barbudo galhofeiro da varanda, na ocasião vestido com uma vistosa camisa encarnada (Serra preferiria dizer vermelha, pela certa). Mal o "pide", furioso, acabava de se limpar, saiu da porta ao lado do estabelecimento comercial um padre**, de sotaina e cabeção, que, simpaticamente, o saudou com um cumprimento de cabeça. Esse sacerdote pálido, de cabelo curto e empastado, todo de negro vestido, caminhou lentamente para o jardim Constantino, desaparecendo nesse final de manhã de Lisboa.

O que o "pide" não sabia é que o "padre" era, nem mais nem menos, Manuel Serra, o qual, em poucos segundos havia cortado as barbas e o cabelo, mudado de roupa e descido as escadas. Para se escapulir, contara com o contraste entre um aprumado "sacerdote" e a imagem desgrenhada e colorida do revolucionário que permanecia na memória visual recente do polícia.

Serra conseguiu fugir para o Brasil mas, tempos depois, voltou a Portugal para integrar a direção do chamado "golpe de Beja", uma nova (e também fracassada) tentativa de derrube do regime. E voltou a ser preso, por mais sete anos, depois de fortemente torturado. Morreu há pouco mais de dois anos, como então registei aqui.

A propósito: não creio que a polícia londrina caia no truque do "padre", se Julien Assenge o vier a tentar.


* Agradeço a Helena Oneto a lembrança de úteis ligações, que permitem um melhor esclarecimento sobre o "golpe da Sé" e o "golpe de Beja".

** A indicação de que Manuel Serra ia vestido de padre foi-me dada, há muitos anos, por um amigo que me dizia que conhecia bem o caso. Verifico, contudo, que, segundo a maioria das versões, esse é o traje que terá sido utilizado na fuga do Curry Cabral e não é plausível que o mesmo disfarce tenha sido usado duas vezes.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Bloguítica

Há cerca de uma década, descobri um blogue que fazia uma utilíssima recensão do que era publicado em vários outros. Isso abriu-me a porta ao conhecimento escrito das mais diversas e mais ativas figuras da então nascente blogosfera portuguesa. O "dono" desse blogue que fazia um verdadeiro serviço público, Paulo Gorjão, ter-se-á cansado, a certa altura, do modelo que criara e enveredou pela frequência de novos espaços coletivos, fórmula que, como se sabe, tem hoje imensos cultores e um grande êxito.

Há dias, dei-me conta de que Paulo Gorjão, que tem uma especial atenção às coisas internacionais mas que também "mete a colherada", com regularidade, na política caseira, regressou ao seu blogue original, embora o respetivo arquivo tenha lamentavelmente "esquecido" as muitas coisas que, no passado, nele editou.

Saúde-se aqui a reaparição do Bloguítica.  

Bruxas

Quase 40º de calor não me impediram de comprar ontem, num "bouquiniste" à beira do Sena, um velho "Livre de poche" com "As Bruxas de Salem", que há minutos acabei de reler. 

Ao meu lado, um cidadão olhou de soslaio a minha aquisição dessa bela peça teatral, a qual demonstra, a quem o não souber, que Arthur Miller é bem mais do que o marido de Marylin Monroe, de quem muito se fala por estes dias. O homem do cais tinha ar de eslavo. Será que não há uma edição russa da obra? Bem falta fazia por lá...

Só para lembrar

Porque estas coisas têm de ser ditas, irritem quem irritarem, quero destacar a serenidade construtiva demonstrada por Pedro Nuno Santos e pe...