sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Reinventar vontades


O presidente da República convidou-nos a reinventar o país do futuro. Sendo o futuro o lugar onde vamos passar o resto dos nossos dias, convém começar já esse esforço. 

A cruel dualidade que o presidente sublinhou em 2017 foi a prova de que não devemos dar nada por adquirido. Somos um país frágil, marcado por um grave desordenamento sócio-territorial, com uma sociedade civil escassamente autonomizada e um tecido público com uma flagrante impotência para proteger, com eficácia, os interesses de muitos dos cidadãos. 

O fantástico salto que Portugal deu nas últimas décadas, na partilha das vantagens do processo europeu, teve efeitos muito assimétricos no seu tecido social e humano. Há um Portugal perdedor, em termos relativos, no banho de riqueza que mudou a paisagem e confortou os bolsos de muitos portugueses. Mais grave do que isso, não parece existir uma estratégia coletiva para reverter essa tendência desigualizadora. Vivemos com um Estado marcado por um tropismo centralista, que prolonga uma tutela paternalista de Lisboa que, desde há séculos, teima em não ceder.

A tragédia dos fogos revelou que Pedrógão não foi um acidente. A repetição, semanas mais tarde, de ocorrências com gravidade similar foi a prova provada de que estamos perante uma endemia estrutural, que pode facilmente emergir noutro contexto – num sismo, numa epidemia, num novo Entre-os-Rios do nosso desespero. 

Foi também a constatação de que o país das decisões fala sempre de fora para dentro do Portugal mais interior, cuja única voz parece ser sempre a da lamentação. Começa a ser insuportável continuar a viver nesta dualidade, que não só é profundamente injusta como induz ineficácia no desejável processo de coesão nacional. 

Há que encontrar rapidamente um modo de trazer para a esfera da reflexão e da decisão setores que delas estiveram, desde sempre, distantes. Nesse contexto, reinventar o futuro implica, em particular, mobilizar ideias e vertentes de ação que associem os mais jovens a um processo de “devolução” de poderes. As universidades e o mundo empresarial moderno são aliados essenciais para esse esforço.

O presidente tem razão. Mas precisamente porque ganhou autoridade como catalizador da resposta institucional ao sofrimento, tem agora de a utilizar e, aproveitando o novo ciclo do principal partido da oposição, somado a alguma instabilidade que ainda atravessa o governo, deve “chamar os bois pelos nomes” e forçar consensos de regime, ajudado pela imensa e entusiasmada plateia que ganhou pelo país. Deixar Belém com um Portugal mais solidário, mais organizado, com uma estratégia de futuro consensualizada para uma década – esse seria um belo presente de Anos Novos que gostaríamos de ter.


12 comentários:

Anónimo disse...

A meu ver, e com todos os defeitos que pode ter a minha opinião, seria uma boa ideia dividir Portugal em três regiões:

Norte (a norte do Douro)
Centro (entre Douro e Tejo)
Sul (a sul do Tejo)

eventualmente o sul seria centralizado em Lisboa. Em cada uma destas regiões uma série de medidas destinar-se-ia a lançar uma expansão interior (facilidades de instalação, de criação de negocios, medidas de

A criação de organismos de fiscalização e a obrigatoriedade de rotação, até uma certa fase da carreira, de tudo o que são funcionarios do estado, de modo a diminuir os amiguismos. Fomento à iniciativa privada associada à universidade.
Etc.....

Criar uma profundidade no pais que ligue a costa à raia, e que crie um certo movimento no interior, desfazendo certas estruturas instaladas, modernizando mentalidades e comportamentos.
Esse movimento deve ser feito usando ministerios adm interna, saude e educacao por uma parte, universidades e iniciativa privada por outra. Criação de emprego de jovens adultos no interior (para jovens da cidade), e vice-versa.






Joaquim de Freitas disse...

Na minha opinião, vasto programa para os débeis recursos e grau de desenvolvimento de Portugal, que se encontra debaixo da ditadura de Bruxelas e do Banco de Frankfurt, que lhe ditam a sua politica económica. Mesmo se o seu ministro das finanças parece ter acertado, ao procurar desapertar o colete da austeridade, ligeiramente, mas que não teria resultado se o turismo não tivesse vindo ao seu socorro. Tivesse havido menos terrorismo nos países do Médio Oriente, e talvez as coisas teriam evoluído de maneira diferente.

A fragilidade que aponta é uma realidade, mas o desequilíbrio e outras falhas também, mesmo se existe um certo dinamismo de crescimento.

Mas a frase essencial do seu post, Senhor Embaixador, é aquela em que escreve: “Há um Portugal perdedor, em termos relativos, no banho de riqueza que mudou a paisagem e confortou os bolsos de muitos portugueses. Mais grave do que isso, não parece existir uma estratégia coletiva para reverter essa tendência desigualizadora.”

Pois, faltam os crescimentos económicos regulares, mas também uma melhora progressiva das vantagens sociais adquiridas, e os compromissos consensuais para resolver os problemas e práticas fiscais sãs. E eventualmente uma justiça sã, para combater a corrupção.

Mas o “belo presente de Anos Novos que gostaríamos de ter”, como escreve, depende mais do sistema económico que das ideologias
As políticas neoliberais dos anos 90 eram baseadas em fundações estruturais defeituosas, e o aumento das desigualdades de rendas e das despesas públicas concretizaram-se em enormes transferes de rendas para o capital e a baixa dos salários e dos serviços sociais.

Estes anos da década de 90 foram a “idade de ouro” do capitalismo, porque os lucros explodiram e os partidos de esquerda e os sindicatos tradicionais revelaram-se incapazes de impedir a vaga do capitalismo predador de tomar o controlo de sectores chave da economia. E Portugal é um bom exemplo.

Quantos bancos, quantas sociedades de telecomunicações e outras indústrias lucrativas, por vezes fundamentais, quantos serviços públicos, passaram para as mãos de multinacionais estrangeiras e capitalistas locais ?

Se esta tendência persiste, e se os partidos de esquerda se satisfazem de continuar a gerir os negócios como os da direita, não vejo como será possível sonhar com Anos Novos de progresso.

Precisamos sim duma mudança radical de regime, que privilegie o investimento público produtivo e acabe com as perdas financeiras monumentais devidas à especulação e à evasão dos capitais para os paraísos fiscais.

Anónimo disse...

Hoje, ao embaixador, deu-lhe para as leopardices lampedusianas.

Quer convocar o Centrão que trouxe o país ao estado a que chegámos, nas palavras de um seu antigo camarada do MFA, para o transformar noutro sentido.

Anda o embaixador de velhas companhias atlanto-europeístas a ver se este Governo - o de maior popularidade que quase todos nos lembramos de ter tido - mete a viola no saco e abandona os partidos não responsáveis pelo estado a que chegámos.

A ver se o dito Governo deita fora os parceiros que avisaram durante décadas, uns, ou mais de uma década, outro, que estávamos a construir um país a duas velocidades e desigual e injusto. O que propõe? Mais do mesmo de sempre.

Mais dos mesmos de sempre, os das clientelas, os das jogadas, dos conselhos de administração, os superdotados multi-gestores.

Repetir, repetir, repetir. E esperar que desta vez seja diferente. Saberá o que disse um físico qualquer dos que repetem sempre a mesma experiência e esperam um resultado diferente? Vá ver. Pode ser que aprenda mais do que nesses livros dos henriques raposos que diz apreciar ler.

Anónimo disse...

Certo, construimos desigualdades e a pais tombou ainda mais para o litoral.

No entanto gostaria de referir, que devemos colocar na equação o poder autarquico

( dito, próximo das pessoas, conhecedor do seus problemas e logo mais capaz de

atuar?? também foi incapaz de induzir alterações,.... .

Boa altura para falar da regionalização, certo??

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Anónimo disse...

Tudo bem, só que o PR em Portugal não é poder Executivo, nem Legislativo.
O futuro ainda vai passar essencialmente pelos partidos. Aparentemente se alguém ganhou mais peso político no debate de ontem -entre os vestutos potenciais candidatos a PM no PSD- esse alguém foi a jóvem do CDS. Aliás já bem ajudada pela paranóica intransigència do Partido Comunista, e o atabalhoado gaguejar do PS, na questão do IVA nos partidos.JS

Anónimo disse...


Então devem-se fazer novamente as "campanhas de esclarecimento" que se fizeram nos principios de 1975 ou então como se poderá fazer o regime evoluir.
É que isto parece estar tudo parado desde esses anos.
Porque tentar arranjar um salvador, no estado intelectual a que isto chegou, com resultados positivos, quando em quarenta e tal anos,não se consegiu, só parece querer-se arranjar um bode espiatório.

"deve “chamar os bois pelos nomes” e forçar consensos de regime, ajudado pela imensa e entusiasmada plateia que ganhou pelo país."
E quem serão "esses bois pelos seus nomes"? Todos os partidos que constituem a Assembleia de República ou só algum/alguns.
Penso que tudo isto são fuguras de retórica que já se viu muito e deu nisto. Ele parece haver mais dinheiro mas menos riqueza. Vanos lá perceber como isto aconteceu.

Anónimo disse...

As pessoas deveriam ter mais sentido cívico e pensar que o que é bom para a comunidade é bom para cada um de nós !
veja-se o caso da caça dos passarinhos que continua impune, que nem o poder central nem o poder local controla
por exemplo no Algarve onde as ratoeiras e os petiscos durante todo o ano, destroem as aves aos milhares, sendo um procedimento cruel, quando se pretende ainda que a prática da observação da fauna e da flora seja considerada uma actividade sustentável e de apoio ao turismo de natureza e de aventura

cumprimentos
João

A Nossa Travessa disse...

Caríssimo Chicamigo

Como é habitual: concordo contigo

Abç do teu amigo

Henrique o Leãozão


tenho forçosamente de te explicar o motivo da minha longa ausência: Tive uma recaída da bipolar durante quase um ano e começada em Goa! tenho um irão com um cancro em fase terminal! Eu próprio Há cindo dias baixei ao Hospital de Santa Maria com uma pneumonia agravada. Resultado. estive lá oito dias até que me deram alta. Arreporra que é demais

Anónimo disse...

Pedrogao não terá sido um acidente. Mas foi um desastre natural, como foi imediatamente classificado palas devidas autoridades internacionais. Como aliás os fogos de outubro. Nenhum dos fogos foi no verão. Nunca tinha acontecido. Como nunca tinha acontecido na Califórnia. Não sei, além das comunicações quais foram as falhas. Mas estou convencido que com a nossa floresta podem fazer o pino, mas haverá sempre fogos destes seja quem for o Governo. Quem lá chegar verá o que acontece lá por 2030.
Quanto ao Estado não poder garantir a segurança dos cidadãos parece -me um grosso exagero.
Acho o termo reinvenção não é o mais feliz para um País como o nosso que er a altura de perceber que, ao fim de 900 anos não é decididamente frágil e que caso o Tump e o Kim não decidam carregar no botão não deve desaparecer tão cedo
.

Graça Sampaio disse...

Com o devido respeito, parece-me que não é esse o intento do senhor presidente... Lamentavelmente.

Anónimo disse...

@ Anónimo de 5 de Janeiro 20:17

Pois podemos continuar com esta pequenês de 900 anos constantemente a ver se passamos por entre os pingos da chuva.
Tinham-nos dito que com a caída da "ditadura" passaríamos a "grandes". E agora ainda nos querem reinventar com as mesmas bases. WOW
Enfim... A monárquia e a 1ª república também acabaram assim. Veremos como isto vai acabar.
Pode ser que com o Kim e os outros seja preciso não reinventarmo-nos e sim repensar tudo e mais alguma coisa, mas..... em Portugal só a fome permite isso.

Anónimo disse...

"As pessoas deveriam ter mais sentido cívico e pensar que o que é bom para a comunidade é bom para cada um de nós !"

Este pensamento parte do principio que o conceito de bom e de comunidade é universal.

O amigo va la para uma aldeia onde fazem essas caças e explique-lhes que a superioridade das suas ideias, pode ser que assim eles sigam o seu ponto de vista mais facilmente